Explorar a brincadeira da linguagem, conscientizar autores da importância da leitura da poesia, entender a construção do poema, utilizar o passado como ponto de partida da experiência estética, vencer o medo da crítica e a retração da voz.
Valor: R$ 350,00
Inscrições encerradas em 12/09
As inscrições para esta oficina estão encerradas, mas vocè pode acompanhá-la como convidado, apenas seus exercícios não serão corrigidos pelo professor.
Envio de texto para seleção dos participantes
A Estação das Letras e o Portal Literal agradecem o interesse em participar dessa oficina.
Para participar da seleção escreva um texto de no máximo 15 linhas explicando por que deseja fazer essa oficina. Coloque seu nome, telefone e e-mail.
Voce receberá um comunicado com o resultado. Caso seja selecionado entraremos em contato para informar os procedimentos da inscrição.
Boa sorte!
Informações:
(21) 3237-3947
oficinasonline@estacaodasletras.com.br
O que vira poesia?
Poesia é uma sequência de estados emocionais sugeridos por um objeto ou uma lembrança ou uma pessoa. É representar o conjunto, uma visão de mundo por um detalhe. Portanto, algo ridículo e insignificante tem muito valor. Guarda-chuva, um cabide azul, uma manta de sofá. Porque a poesia dá valor ao que não tinha.
Não adianta ser somente subjetivo, ou concluir uma emoção. Tipo: você se separou do namorado (a) e fala direto o quanto ele ou ela foi injusto (a). Não, deve voltar dois passos atrás e contar o que aconteceu, o que gerou o desenlace, o que fizeram para suscitar a distância. Explicar o ponto de vista dele (a) também.
O importante é fazer com que o leitor enxergue o que enxergamos e possa concluir do seu jeito. Não escolhemos pelo leitor, ele pode nos odiar ou nos amar, temos que suportar que ele não pense o mesmo do que a gente.
No poema "Santa Teresa em êxtase", do livro "A Duração do Dia" (Record, 2010, p.63), Adélia Prado conta algo próprio, pessoal, de que sua alegria não é da gargalhada. Ela se posiciona em desacordo com o senso comum, que a alegria é medida pelo riso. E não é verdade que nossos maiores contentamentos são por dentro, silenciosos?
O que me dá alegria não faz rir.
É vivo e sem movimento.
Quando desaparece
todos os meus ossos doem.
Nosso primeiro exercício é recordar um símbolo de nossa higiene na infância, um penico ou uma banheira ou um chocalho e descrever a atmosfera da cena, o que sentimos a partir de como ele era.
Bem-vindo!
Fabrício Carpinejar
O purgatório
Oi queridos,
Antes de mais nada, aguardo que refaçam o exercício anterior a partir de minhas observações. Certo? Estou disponível para perguntas e dúvidas, assim deixo mais claro o objetivo da oficina, que é encontrar o equilíbrio entre objetividade e emoção. Atingir uma objetividade sensível.
A nossa tarefa de agora: fazer uma lista das coisas que estão em casa e que não usam mais. Colocar ao lado o motivo do purgatório. Por que não uso? O que aconteceu? Quando perdi o interesse? Por que não jogo fora? Serve para qualquer objeto, seja roupa, seja livro, seja vaso e tal. É lista! Sinta-se à vontade para determinar a quantidade
Toda infância é despedida
Pessoal, por problemas na ferramenta, os textos de vocês estão sendo corretos e logo colocarei as respostas e comentários no ar. Espero que estejam se motivando.
Se acharem interessante, para termos uma aproximação maior, podem assistir um pequeno apanhado sobre poesia. Acho que pode nos ajudar.
Parte 1 -
http://twixar.com/WwiR
Parte 2 -
http://twixar.com/3qhQ
Parte 3 -
http://twixar.com/mHRF
A nossa quarta aula segue.
Toda infância é despedida. Procurar alguma brincadeira comum com os irmãos ou amigos para representar a própria vida. Quanto mais fugir do convencional, como cabra-cega ou esconde-esconde, melhor. Narrar a brincadeira e mencionar quem participava como metáfora de um tempo. Procurar uma escrita substantiva, reaslista, que dê poder do que aconteceu ao leitor. Menos sentimento, mais sentido.
No poema de Henrique Rodrigues, do livro A Musa Diluída (Editora Record, 2006), ele recria o ato de subir em árvores como viajar no convés de um navio. Ao final, ele mistura um e outro e fala em "plantar navios".
Poesia é misturar. Boa sorte.
Aniversário
Aniversário
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
No poema acima, Fernando Pessoa retrata o quanto que era feliz em seu aniversário e como é triste hoje. Em nosso exercício, faremos o contrário, lembraremos do aniversário mais triste de nossa vida, com a caracterização miúda da atmosfera (estava frio? quente? onde foi a festa? era um ritual?), do que aconteceu, de como estava vestido e o que esperava e não se realizou.
Bom trabalho.
beijo
Fabrício
Exercício QUEBRA-CABEÇA
Esqueça o autor, esqueça de quem é o texto. Quero que cada aluno monte o poema a partir do que acha mais relevante, vale cortar, editar, mudar as frases da ordem. É uma maneira de descobrir o que cada um julga essencial e discutir opções de estilo. A criação muda nosso jeito de ler. Passamos a perguntar: o que o escritor deseja transmitir, o que esconde, o que pensa do mundo, como vive? Humanizar a leitura é essencializar a voz.