Imagens
Alone in the dark 3
Stunts
Half-Life
Elder Scrolls IV: Oblivion
Areia nos dentes (Não Editora, 2008; Editora Rocco, 2010), o primeiro romance do gaúcho Antônio Xerxenesky, é uma estranha mescla de livro de faroeste e livro de zumbis, que retrata a rivalidade de duas famílias em um remoto povoado. Pastiche assumido, usa referências do western spaghetti de Sergio Leone e de filmes de Clint Eastwood - em especial, a figura fantasmagórica do "revenant" encarnada pelo ator-diretor - além da literatura de Cormac McCarthy (
Onde os velhos não têm vez). A inspiração inicial de toda a trama, porém, não veio do cinema ou dos livros, mas sim de um video game: o "survival horror"
Alone in the Dark 3, terceiro opus de uma série de jogos desenvolvidos pela distribuidora francesa Infogrames.
Sucesso entre os gamers na década de 90, a série era ela própria inspirada em contos do autor de ficção-científica H.P. Lovecraft (1890-1937), e acabou despertando a ideia embrionária do romance de estreia do jovem autor. Xerxenesky é mais um exemplo de escritores "educados" pelo universo dos games, e que ousaram projetar em sua obra a experiência adquirida em frente às telas. Seu trabalho comprova a aproximação cada vez maior, no Brasil, entre produção literária e video game - e, por tabela, o crescente reconhecimento deste último como uma legítima forma de expressão (a chamada 10º arte).
Confira a entrevista com Antônio Xerxenesky, a segunda da série
Sobre autores e video games (leia a primeira, com Simone Campos,
aqui).
PORTAL: Quando você se deu conta de que, além de uma simples fonte de diversão, os games também poderiam ter algum valor artístico?
XERXENESKY: Games são uma forma narrativa que, assim como a literatura e o cinema, tem suas especificidades de linguagem. Eles já provaram que podem servir de campo para experimentação artística, com resultados variados. Considero jogos como
Braid,
Portal e
No more heroes tão marcantes e criativos como romances contemporâneos de destaque de Pynchon e Auster. O game, assim como o filme, é um meio. Pode servir para veicular um blockbuster sem cérebro ou uma obra reflexiva de um Kubrick.
PORTAL: Como se deu a influência de Alone in the dark em Areia nos dentes?
XERXENESKY: Joguei o primeiro
Alone in the Dark aos 10 anos de idade, e o jogo literalmente me tirou o sono. Logo na primeira cena, quando sequer entendemos como se controla o personagem, uma sombra surge na janela e pula para dentro do sótão. É um pouco como aquele episódio clássico de
Além da Imaginação, no qual há um monstro do lado de fora do avião que insiste em mostrar o rosto na janela, mas somente um passageiro o vê. Na época em que joguei pela primeira vez, não fazia idéia de que
Alone in the Dark era inspirado em Lovecraft, nem era capaz de compreender as ressonâncias psicológicas do que representaria a invasão do outro num mundo perfeitamente ordenado. Seja como for, a cena é apavorante o suficiente para encher uma criança de pesadelos.
Como sou um gamer nostálgico, lá pelos vinte e poucos anos revisitei a série
Alone in the Dark. O terceiro jogo me chamou a atenção por ser uma mescla completamente absurda de elementos que eu adorava no cinema - o faroeste e o terror. Caubóis zumbis, rituais xamânicos, o jogo tem de tudo. É um verdadeiro caos. E essa redescoberta do jogo plantou um desafio na minha cabeça: como seria possível escrever, nos dias de hoje, no Brasil, um faroeste com zumbis? Como fazer desse livro algo além de uma bobagem trash? Como, a partir desse cenário fantástico, criar uma narrativa de impacto emocional?
PORTAL: Assim como acontece com o cinema e outras expressões artísticas, é possível estabelecer diálogos entre a estética da narrativa literária e a narrativa dos games?
XERXENESKY: Acho a estética dos games mais compatível com a do cinema do que com a da literatura, porque ambos são construídos com base na imagem. A diferença é que os games adicionam "jogabilidade" e "interação" na equação.
PORTAL: Você se sente pertencer a uma cultura dos gamers? Na sua opinião, esta cultura estaria sendo finalmente reconhecida e legitimada - ou ainda persiste a ideia geral de que jogar video game é uma perda de tempo ou uma diversão menor?
XERXENESKY: Melhorou um pouco. Ainda existem críticos esnobes que não consideram os games culturalmente válidos, acham que é coisa de criança, mas a aceitação tem crescido aos poucos.
É curioso observar, porém, que na PSN (rede social do Playstation) só tenho 12 amigos, todos homens. Um número irrisório comparado às outras redes sociais (Facebook, Twitter, LastFm). Muitas pessoas abandonaram os videogames na adolescência e eu não saberia apontar as causas disso.
PORTAL: Surgiram recentemente alguns games inspirados em livros. O mais recente, inclusive, é uma versão para uma obra clássica, o Gatsby do Fitzgerald. Já chegou a jogar algum deles? O que acha dessas "adaptações"?
XERXENESKY: A priori, não tenho nada contra essas adaptações, mas é muito difícil acertar o tom. Assim como no cinema, talvez. Joguei a adaptação de
Inferno de Dante, e é uma das coisas mais lamentáveis. Não por falta de fidelidade ao texto original, e sim pela jogabilidade precária.
PORTAL: Os programadores podem ser vistos como "autores" (no sentido de trazer aspectos pessoais, autorais, talvez até íntimos, a cada uma de suas criações)?
XERXENESKY: Sem dúvida. Assim como qualquer pessoa minimamente versada em cinema reconhece um plano do Godard após 15 segundos de filme, um gamer consegue reconhecer um jogo do Suda51 (
Killer 7,
No more heroes) com facilidade. Assim como o cinema, os games são uma obra coletiva, mas mesmo na coletividade pode se sobressair uma voz autoral.
5 JOGOS ESSENCIAIS
1)
EGGERLAND MISTERY 2 (MSX) - "Sendo o irmão mais jovem de uma família de quatro filhos, dei sorte de ter acesso aos games desde criança. O primeiro jogo que lembro de ter marcado minha infância foi
Eggerland Mistery 2, para o MSX, um jogo de puzzle que me fez rachar a cuca aos seis anos de idade. Lembro até hoje com uma nostalgia de derreter o coração".
STUNTS - "O primeiro jogo de corrida que joguei no PC, talvez tenha sido o primeiro jogo em três dimensões de corrida feito para a plataforma, não tenho certeza. Uma espécie de jogo infinito, graças ao 'editor de fases'. Perdi boa parte da infância tentando criar desafios impossíveis para meu irmão".
LITTLE BIG ADVENTURE/RELENTLESS - "Esse jogo da produtora francesa Adeline foi um choque muito grande quando eu o joguei pela primeira vez em 1995. Antes dele, não fazia idéia que games poderiam transmitir uma sensação incômoda de estranheza. Mentira, talvez eu tenha sentido isso com o
Another world para Mega Drive, mas eu era jovem demais na época".
HALF-LIFE - "Esse jogo mudou tudo no cenário dos games. Ao inserir ações 'scriptadas', provou que os videogames estavam prontos para derrubar o cinema no quesito ação/sci-fi. A experiência de jogar
Half-Life, com todas suas sequências cinematográficas, apavorantes e surpreendentes, é inigualável".
ELDER SCROLLS IV: OBLIVION - "Talvez tenha sido o último grande jogo que 'vivi'. Uso o termo 'vivi' nesse caso porque
Oblivion foi uma experiência de imersão total. Desenvolvi grande carinho pelos personagens, sofri com as escolhas morais que tive que fazer. O dia que fui obrigado a matar um orc deprimido me partiu o coração. Morei umas 40 horas nesse universo do
Oblivion e não me arrependo de nada.
* bônus - "E, serei obrigado a burlar o top 5 e mencionar um sexto jogo, que acredito ser 'o futuro dos games'. O independente
Braid, de Jonathan Blow, uma obra sensível que parte de uma estrutura clássica (o jogo de plataforma) para realizar um mergulho impressionista no universo das memórias. Sublime".
Antônio Xerxenesky nasceu em Porto Alegre, em 1984. É ficcionista, autor do romance
Areia nos dentes (Não Editora, 2008; Editora Rocco, 2010). No momento finaliza o volume de contos
A página assombrada por fantasmas, que será lançado pela Rocco em 2011. Atua como editor na Não Editora, onde organiza a revista online de crítica literária
Cadernos de Não-Ficção.
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