Com lançamento marcado para esta segunda-feira, 30 de novembro, no Café du Midi, instalado no sobrado do Espaço Cultural Maurice Valansi, em Botafogo, no Rio de Janeiro, a versão sonora de
Lampadário (7Letras), último livro de poesia de Denise Emmer, marca também a estréia do selo Lado7 da editora 7Letras.
A intenção do novo selo, diz Jorge Viveiros de Castro, proprietário da editora 7Letras, é simplesmente expandir a circulação de poesia por uma diversidade de meios. "Porque gostamos da ideia de apresentar novos formatos para a veiculação da poesia, e acreditamos que a conjugação da palavra falada com música e som pode ajudar a despertar o interesse de um novo público para o gênero", declarou ao
Portal Literal.
E não poderia haver, talvez, opção mais adequada para a estréia do selo Lado7 do que a poesia de Denise Emmer. Além de ser uma premiada poeta, autora de 14 livros e exaltada ao longo de sua trajetória por ninguém menos que Raquel de Queiroz, Ivan Junqueira e Nelson Werneck, Emmer é também violoncelista formada pelo Conservatório de Música Brasileiro, compositora de temas de novelas que fizeram sucesso na década de 70, e dona de uma discografia com 7 discos lançados.
Vencedor do prêmio de melhor livro de poesia de 2009 pela Academia Brasileira de Letras,
Lampadário (7Letras) possui uma "expressividade oriunda diretamente da música verbal, e do afastamento do anedótico, do narrativo... Esse fluxo da música nos versos e esse afastamento do discurso denotativo conduzem comumente a um estado sui generis de consciência - onde a participação do que está abaixo ou acima do pensamento racional aflora - e que nos conduz muitas vezes quase ao âmago do fenômeno poético", escreveu Alexei Bueno no prefácio do livro. Aí reside a força de Emmer, no desafio que assume em abordar sem entrepostos os temas chamados fundamentais - o amor, a morte, os sonhos.
Emmer, que também é graduada em física, expressa essa procura por imergir no insondável, revestida por um certo charme de atitude clássica dos poetas, na potência de figuras celestes em versos como os de "Pontos Cardeais":
A onda desfaz-se em rios
Desordens da imensidão
Por que me trai coração
A confundir meu caminho?
Se a leste sou claridade
Loquaz jardim da planície
A oeste serei mais triste
Na curvatura da tarde
O sul de invernos lunares
Me quer sob seus tentáculos
Afaga-me em seu casaco
Acende uma tempestade
Norte, sigo a jovem estrela
Às margens do rastro escuro
Tudo é silêncio. Futuro.
Avisto uma cruz acesa.
O audiolivro
Lampadário (Lado7), composto com interpretações do violoncelista Hudson de Lima para peças de Satie, Grieg e Fauré e a declamação de poesias por Denise Emmer, será lançado nesta segunda-feira, 30 de novembro, às 19 horas, no Café du Midi, que fica no casarão do Espaço Cultural Maurice Valansi, Rua Martins Ferreira, 48, Botafogo, Rio de Janeiro. Haverá a leitura de poemas e apresentações de violoncelo com Hudson de Lima e Denise Emmer.
Abaixo a entrevista concedida por Denise Emmer ao
Portal Literal:
PL - Denise, você tem carreiras bem sucedidas tanto na música, quanto na poesia. Além de tudo é formada em física. Explica para nós o diálogo entre todas essas facetas.
Emmer - A Física e a Música, para meu entendimento, são grandezas interligadas. Se partir para uma definição física e exata da música, diria que esta é representada por ondas que se propagam no espaço, ou a forma matemática de compor melodias. De qualquer maneira a execução de uma peça musical depende da decodificação de frações matemáticas compasso a compasso. Mas, prefiro me afastar da dedução fria dos fenômenos e falar do conceito de música enquanto manifestação de arte pura, e, aí se insere a poesia, que, para mim é a música da linguagem na alta expressão. O diálogo entre essas facetas está, portanto, na criação imaginativa sem a qual não há obra de arte.
PL - Sua poesia é comumente relacionada ao simbolismo. A quais poetas você acha que sua poesia pode remeter? Quais os seus poetas de cabeceira?
Emmer - Encontro em Cecília Meireles e Cruz e Sousa uma grande identificação. A primeira com fortes raízes simbolistas, e inspirada em alto misticismo, destaca uma musicalidade essencial nos versos. Sua temática voltada para a fugacidade da vida recorre a um acento penumbroso e esvaído. Já, Cruz e Sousa é o maior de todos os simbolistas brasileiros. Praticou a poesia pura, assim como Verlaine, e morreu sem alcançar o devido reconhecimento. Os livros que dormem em minha cabeceira trocam de posto, mas os permanentes são Dylan Thomas, Rimbaud, Emily Dckinson, Cruz e Sousa e, claro, Cecília com Drummond.
PL - Alexei Bueno, no prefácio de Lampadário, nos aponta como a sensação de belo sentida ao ler o livro advém de uma musicalidade intrínseca, um ritmo preciso, que comunica e enriquece as metáforas. Por isso a idéia de gravar as poesias? Explica um pouco para gente como foi concebido o CD de Lampadário. Por quê?
Emmer - Não. Não foi pela musicalidade dos versos ressaltada pelo Alexei. Claro, isso teve um peso, mas o que prevaleceu foi o Prêmio da Academia Brasileira de Letras que LAMPADÁRIO recebeu. Afinal, é um grande reconhecimento considerando a instituição e a comissão julgadora composta pelo Antônio Carlos Secchin, Ivan Junqueira e Ledo Ivo.
PL - Entre poetas da geração mais recente, algum que você destaque? Que diferença você percebe entre a sua geração e a nova?
Emmer - Não gosto muito desse conceito de geração, pois corremos o risco de rotulações. Escritores da mesma idade podem ter estilos ou escolas totalmente distintas. Mas, se eu fosse me inserir em alguma década seria a de oitenta, quando minha produção apareceu e se intensificou, apesar da precoce estréia em meados de setenta quando ainda era menina. Vejo hoje um leque de possibilidades e uma saudável liberdade de criar, ainda que em meio ao caos e a banalidade reinantes. Havia nos anos pós- ditadura uma patrulha cultural que, acredito, tenha em parte, ceifado alguns vôos. Para citar nomes de hoje recorro a Internet que, além de muitas coisas positivas e negativas, é o palco dos tímidos. Eu, que sou avessa a multidões e bastante arredia, aproveito muito desta ferramenta com um blog e troco impressões e poemas com inúmeros escritores de todas as idades. Então, percebo que a novíssima geração da poesia, ao contrário do que é apregoado, preocupa-se com o conhecimento e com o saber, bem como com o aperfeiçoamento estético do texto. E dentre muitos jovens na faixa dos vintanos, destaco dois nomes: Alexandre Bonafim e Nydia Bonetti.
>Confira o blog de Denise Emmer.
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