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O ritmo acelerado do projeto Brasiliana Digital
Felipe Pontes, Rio de Janeiro (RJ) · 26/2/2010 · nenhum
Divulgação
Em artigo recente para o jornal Estado de São Paulo, Celso Lafer, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, e João Grandino Rodas, novo reitor da USP, ressaltaram o bom desempenho da Universidade de São Paulo no Webometrics Ranking of World Universities, índice criado para avaliar o alcance e a qualidade da presença virtual de 8 mil universidades em todo o mundo. A USP subiu da 87ª para a 38ª posição.

Ainda que o repositório digital de teses da USP conte com mais de 20 mil documentos on-line, a grande mola propulsora da instituição paulista nesse ranking é, sem dúvida, o projeto Brasiliana Digital, lançado em junho de 2008 e que visa digitalizar os cerca de 40 mil volumes de material bibliográfico colecionados durante mais de 80 anos pelo industrial José Mindlin e doados por ele e sua esposa Guita à USP em 2006. "Trata-se da reunião de um conjunto extraordinário de livros, manuscritos e documentos sobre a cultura e a história do Brasil. Fruto de uma vida de dedicação, tal coleção não pode ser recriada – logo, é única", aponta o Prof. Pedro Puntoni, diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin em entrevista ao Portal Literal.

Com o auxílio da máquina apelidada "Maria Bonita", primeiro equipamento no Brasil capaz de processar 2500 imagens por hora de material raro e delicado, o ritmo de trabalho é acelerado e mais de 3 mil obras já se encontram disponíveis no site oficial do projeto. "São pessoas dedicadas que compreendem perfeitamente a dimensão politica e social do trabalho. Nosso laboratório é um local de grande animação e engajamento", expõe Puntoni sobre a equipe da Brasiliana Digital, tocada adiante numa parceria entre diversas unidades de ensino da USP, como a Escola Politécnica, o Instituto de Estudos Brasileiros e a Faculdade de Direito, e também de outros centros acadêmicos, como o Laboratório de Tecnologia da Informação da Universidade Federal de PE.

Entre os últimos arquivos disponibilizados estão primeiras edições dos Sermões do Padre Antônio Vieira e da Obra Completa de José de Alencar. Desde o final de janeiro, quando foi lançada a versão 1.1 da BD, os fac-símiles em alta-resolução das obras podem facilmente ser baixados por qualquer um, já que através de uma nova tecnologia de compressão os arquivos diminuíram significativamente de tamanho sem perder a qualidade de imagem.

Com uma impressionante marca de quase 600 mil acessos ao ser lançado em 2008, agora o projeto BD recebe de maneira estável uma média de 700 a mil usuários por dia. "Para um site que ainda está numa etapa de testes, nos parece um número muito bom. Isto é importante, porque este movimento é que nos tem permitido justamente testar a estabilidade do sistema, fazer os ajustes necessários, implantar novas tecnologias e pensar na formulação da versão 2.0 da Brasiliana Digital. Esta versão, que pretendemos lançar até o final do ano, será mais definitiva – ou, pelo menos, mais robusta e estável. Portanto, poderá ser compartilhada com outras instituições interessadas em colocar seus acervos à disposição do público", informa Puntoni.

Confira abaixo a íntegra da entrevista do Portal Literal com o coordenador adjunto do projeto Brasiliana Digital, professor Pedro Puntoni:

É possível fazer um paralelo entre o extenso trabalho de digitalização da Brasiliana Guita e José Mindlin e outros projetos semelhantes no Brasil e no mundo? Quais o senhor destacaria?

Pedro Puntoni.
Sim. Procuramos definir as bases para um projeto mais amplo de digitalização de um acervo sobre assuntos brasileiros. Partimos do acervo da Biblioteca Mindlin e contamos já com a adesão de outros acervos da USP e mesmo de fora dela. Mas o horizonte é sempre mais amplo. Gostaríamos de contribuir para a formação de uma efetiva rede nacional que sustentasse a disponibilização ampla destes conteúdos que ajudam a formar nossa cultura. Para nós, evidentemente, uma inspiração será sempre o projeto da Biblioteca Nacional da França, o portal Gallica. Além disso, temos intenso diálogo com os colegas da Biblioteca Nacional Digital de Portugal.

Qual a sua opinião pessoal acerca da importância da Brasiliana colecionada por José Mindlin?

Puntoni.
Trata-se da reunião de um conjunto extraordinário de livros, manuscritos e documentos sobre a cultura e a história do Brasil. Fruto de uma vida de dedicação, tal coleção não pode ser recriada – logo, é única. Algumas peças são de maior valor, outras de valor insuperável. O datiloscrito de Grande sertão: veredas, com inúmeras anotações do autor [Guimarães Rosa], ou de Vidas secas [de Graciliano Ramos] – são exemplos de peças que constituem pontos altos da cultura brasileira. Como toda grande biblioteca, a de dr. José e Guita também tem o grando mérito de serem espaços de encantamento e de surpresa aos pesquisadores e aos leitores.

Você possui itens prediletos nesse acervo?

Puntoni.
Sim. Além destes dois já referidos, podia falar de muitos. Mas creio que aprendi com dr. José que esta sempre é uma escolha difícil: os outros livros preteridos ficariam com ciúmes... Na verdade, sou historiador do século XVII. Minha leitura me leva muito mais para estas paragens.

Quais os critérios utilizados na escolha dos volumes a serem priorizados na digitalização?

Puntoni.
Estamos ainda numa etapa de pesquisa e de formulação de um modelo para a Brasiliana Digital. Neste momento, estamos formando uma equipe de colaboradores que está funcionando como uma curadoria para a literatura colonial, século XIX, para a historiografia, revistas culturais etc. Sendo assim, os critérios ainda não estão plenamente definidos, mas atendem a uma lógica que se estabelecerá aos poucos. Além disso, estamos atentos ao interesse dos usuários. É possível monitorar o movimento pelo site e pelo repositório digital e perceber, por exemplo, o grande interesse na literatura. Daí o enfoque grande que temos dado nos autores mais consagrados, como Machado de Assis, Gonçalves Dias, Olavo Bilac, por exemplo. No dia 12 de fevereiro, colocamos no ar todas as obras literárias de José de Alencar.

Como anda o ritmo de trabalho, quais as principais dificuldades?

Puntoni.
O ritmo é acelerado. Temos uma equipe grande de colaboradores, a maior parte deles de bolsistas. São pessoas dedicadas que compreendem perfeitamente a dimensão politica e social do trabalho. Nosso laboratório é um local de grande animação e engajamento. Contudo, será muito importante consolidar uma equipe que dê uma sustentação maior e mais ampla ao trabalho. Dificuldades temos o tempo todo. Mas estamos exatamente querendo aprender com elas. São muito bem vindas nesta etapa, que ainda é de pesquisa e testes.

Há estatísticas a respeito da procura pelo acervo? Número e origem de acessos, volumes mais requisitados, pesquisas que se valeram do acervo já digitalizado?

Puntoni.
Sim, temos estatísticas exatas – resultado do um instrumento de análise que é o Analytics da Google. Podemos acompanhar o acesso ao nosso site de diversas maneiras e temos usado estas informações com muito critério. Quando o site foi lançado, em junho de 2008, tivemos quase 600 mil hits. O que é impressionante e praticamente paralizou nosso servidor. Depois disso, passamos a ter algo como 6 ou 7 mil usuários únicos por dia e, mais tarde, estabilizamos entre 700 e mil usuários únicos por dia. Para um site que ainda está numa etapa de testes, nos parece um número muito bom. Isto é importante, porque este movimento é que nos tem permitido justamente testar a estabilidade do sistema, fazer os ajustes necessários, implantar novas tecnologias e pensar na formulação da versão 2.0 da Brasiliana Digital. Esta versão, que pretendemos lançar até o final do ano, será mais definitiva – ou, pelo menos, mais robusta e estável. Portanto, poderá ser compartilhada com outras instituições interessadas em colocar seus acervos à disposição do público.

Já há um cronograma de quais acervos e coleções serão digitalizados após o término da digitalização da Biblioteca Guita e José Mindlin?

Puntoni.
De pronto, já estamos digitalizando alguns poucos itens do Instituto de Estudos Brasileiros e iniciamos uma parceria mais forte com a Faculdade de Direito. Outras unidades da USP nos procuraram e a reitoria definiu este projeto de digitalização como uma das ações prioritárias da atual gestão. Novos desafios se desenham e estamos nos preparando para eles.

Como anda a criação do Centro Guita Mindlin (CGM): Centro de Conservação e Restauro do Livro e do Papel? Ele já está em operação? Já há restauradores formados pelo Centro?

Puntoni.
Não. Trata-se ainda de um projeto. Contratamos alguns conservadores que tem trabalhado intensamente na digitalização dos livros. Um desenho mais detalhado está sendo feito e parcerias construídas. Temos grande expectativa nesta dimensão do Projeto Brasiliana USP, no sentido de colaborar de forma propositiva para o fortalecimento da cultura nacional, com iniciativas estruturantes e de formação de quadros.

Qual a previsão de inauguração do novo prédio da Brasiliana USP?

Puntoni.
Isto depende de processos burocráticos (e necessários) para o uso dos recursos já alocados e também da captação de recursos faltantes. Queremos ver a etapa 1, que é a Biblioteca Mindlin, pronta até o final deste ano de 2010!

O senhor poderia falar um pouco o que pensa da digitalização da informação em centros acadêmicos? O que esse processo pode significar?

Puntoni.
A universidade deve contribuir para a cultura brasileira de forma efetiva e aberta. Os trabalhadores intelectuais da universidade, envolvidos com a produção cultura e histórica, estamos acostumados a um trabalho auto-referente e pouco generoso para com público em geral. No entanto, devemos entender nossa atividade com um serviço à coletividade, como uma intervenção numa realidade perversa, culturamente colonizada e pouco solidária. O gesto generoso de José Mindlin de tornar pública sua biblioteca, formado ao longo de mais de oitenta anos de intenso amor à leitura e aos livros, serve de permanente inspiração. Devemos ampliar este gesto e, por meio nas novas tecnologias, permitir que cada vez mais pessoas possam ter o prazer de conhecer estes objetos magníficos (ou pelo menos, imagens deles) da cultura brasileira. Acreditamos que este projeto pode ajudar a transformar também a própria universidade, fazendo com que seus atuais (e transitórios) ocupantes olhem um pouco para além dos seus muros.


Leia mais sobre os Mindlin no Portal Literal

> No mundo dos livros de José Mindlin

> Preservação de Acervos Bibliográficos - Homenagem à Guita Mindlin




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