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O corpo a corpo com o crítico José Castello
Felipe Pontes, Rio de Janeiro (RJ) · 13/4/2010 · 2
Guilherme Pupo/Divulgação
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Uma das poucas vozes a ainda praticar a crítica literária com periodicidade na grande imprensa brasileira, o escritor e jornalista carioca José Castello não tem receio de dizer, com franqueza, que o que define crítica literária é o corpo a corpo com o livro. "Acho muito legal, de repente, pegar um livro de um autor consagrado, botar na mão de garoto de 18 anos, para ele ler e escrever como leu aquilo", afirma.

Também um concorrido oficineiro, Castello atualmente encabeça duas oficinas que duram até o fim do ano. Uma delas acaba de começar e é presencial, dedicada a produção de contos, na Estação das Letras, Rio de Janeiro. A outra teve início em março, é virtual, sobre jornalismo cultural, e faz parte do projeto Rumos Itaú Cultural.

"Eu vou arriscar a dizer que acho mais fácil dar oficinas online do que presenciais", confessa Castello, autor da Oficina de Contos ministrada aqui no Portal Literal e que há um mês lançou o seu próprio blog, como uma extensão de sua coluna no jornal O Globo.

Biógrafo de Vinícius de Moraes e autor, entre muitos outros, de livros como O inventário das sombras (Record) e A literatura na poltrona (Record), ambos envolvidos com o ofício do jornalismo literário, na entrevista abaixo Castello fala um pouco sobre a "experiência interminável da escrita", explorada por ele em suas oficinas, faz ainda revelações sobre o novo romance que será publicado em agosto e dá sua opinião sobre critica literária no Brasil.


Castello, fala um pouco sobre essa oficina de contos que começa agora.

José Castello. Eu vejo menos como uma oficina e mais como um trabalho de orientação de produção de textos. A minha idéia é que, ao longo deste ano, cada aluno trabalhe um só conto. Alguns preferem trabalhar mais, mas eu queria convencê-los a cada um trabalhar um conto para podermos esgotá-lo, fazer realmente contos muito bem trabalhados e pensados. Vamos nos dedicar à leitura em voz alta dos contos em andamento dos alunos, discutindo ponto a ponto, criar um espaço de discussão da escrita viva.

Como é lidar com o processo criativo de diversas pessoas diferentes?

JC. Olha, em conto será a primeira vez. Mas esse ano eu realizo pela segunda vez um laboratório de jornalismo cultural, no Rumos Itaú Cultural. Também é assim, um ano inteiro, só que muito mais intenso. Bom, é online, dois chats semanais de duas horas e meia. Esse ano tem gente de São Luís (MA) a Porto Alegre (RS), isto é, estudantes de comunicação selecionados no Brasil inteiro. Ao longo desse ano, vamos orientar a produção de uma reportagem de jornalismo cultural desenvolvida por cada aluno.

De início parece uma coisa meio louca, longa demais, mas não, é pouco tempo. Com a experiência você começa a ver que realmente a escrita é um saco sem fundo. Se você começa a mexer, mexer e mexer, realmente não termina. Quando chegou o momento, por exemplo, no primeiro laboratório, que todo mundo tinha que entregar o texto pronto, que tinha que entrar em gráfica por que é feita uma publicação chamada Singular, a sensação de todos era que a reportagem não estava concluída. É possível sempre aprimorar, modificar, rediscutir pontos de vista.

O objetivo é justamente colocar as pessoas em contato com essa experiência interminável da escrita. Muita gente tem a idéia de que faz um conto e que quando o conto esta pronto, está bom e acabou. Não é assim, a maioria dos escritores quando entrega um livro, o faz por não aguentar mais aquele livro, não porque ele esteja pronto.

Você costuma engavetar um texto por muito tempo?

JC. Às vezes, deixo mais tempo, às vezes, menos tempo. Por exemplo, vou lançar um romance em agosto pela Bertrand Brasil. Trabalhei nele durante quatro anos, fiz vários intervalos ao longo desse tempo. Quando voltava, começava tudo outro vez, aquela história... Quando decretei que ele estava pronto, deixei dormir cinco meses, até fazer uma releitura. Mas já teve casos de eu deixar um livro só um mês engavetado. O ideal é deixar mais tempo. Só que além das pressões editoriais, o editor que fica te cobrando o texto, tem também uma questão pessoal: você não aguenta, chega uma hora que você não quer saber daquilo, quer qualquer coisa menos aquilo. E não é porque você acha que o texto esteja concluído, bom, impecável, perfeito, nada disso. A sensação é sempre oposta, que está imperfeito, falta um monte de coisa, que está ruim. Com esse novo romance também rolou muito isso.

Sobre o que é esse novo romance?

JC. É meio complicado de explicar. Nem sei se é um romance, já discuti com a editora, mas vai sair como romance porque afinal ele é cheio de mentiras, todo mentiroso. O livro é em torno do meu pai, José Ribamar, morto em 1982. Eu fiz de fato uma viagem a Parnaíba, no Piauí, que foi uma cidade onde ele passou a infância e a juventude até ir para o sul. Então o livro é um pouco o relato dessa viagem, mas totalmente mentirosa, porque a maior parte do que eu conto realmente não aconteceu, são coisas que imaginei que aconteceram enquanto estava lá, porque os acontecimentos reais foram mesmo pouco interessantes. Ao mesmo tempo, o livro é escrito como se fosse uma carta ao meu pai. Ele é também um ensaio sobre o Kafka, a partir da leitura do Carta ao pai. Eu tento usar a relação do Kafka com o pai dele, para discutir a minha relação com o meu pai.

Como você compara a oficina virtual com a presencial?

JC. Eu não tenho tanta certeza do que eu vou dizer, mas confesso que acho mais legal dar online do que presencial. Digo para mim, não sei para os alunos. A presencial desgasta muito. As pessoas ficam muito cara a cara e acabam trazendo muito problema pessoal para a sala. Fulano implica com Beltrano, surgem conversas paralelas. Online é mais focado, apesar de também rolar conversas paralelas, você consegue dar uma moldura melhor.

Você é um dos poucos com espaço periódico para a prática da crítica literária na grande imprensa. Como você avalia a crítica literária no Brasil hoje?

JC. Se é que eu faço crítica literária. É a dúvida que eu sempre tenho. Outro dia, participei de uma mesa com vários críticos literários da USP e pus essa dúvida. Todos falaram "não, claro que você faz crítica literária". Eu falei ótimo, se quiserem me dar um diploma eu agradeço, mas eu ainda não estou convencido.

Enfim, primeira coisa, tem muito pouco espaço na imprensa. Eu colaboro n' O Globo, na Época, mas é um problema, porque o espaço é muito pequeno, três mil caracteres em média. Às vezes, é menor do que uma orelha. Então não dá nem para começar. Você começou já está acabando. Tem a Bravo!, que dá mais espaço. Tem o trabalho heróico do Rogério Pereira lá em Curitiba com o Rascunho, com imensas dificuldades, mas que consegue abrir duas, três páginas para um livro.

Agora, como tem pouco espaço, a formação dos críticos, a prática, é toda muito irregular. A pessoa colabora uma vez, daqui a dois meses sai uma resenha não sei onde. Fica tudo muito disperso e não dá tempo de você se acostumar a um certo crítico, a um certo olhar. Eu tenho sorte de ter ali o meu espaço semanal no Prosa e Verso.

Você acha que falta uma publicação dedicada aos livros no Brasil?

JC. Eu preferia, acho mais eficaz, se os jornais e as revistas realmente ampliassem seus cadernos de livros. Porque se você faz uma publicação específica, só vai comprar quem realmente é interessado. Um caderno literário dentro de um jornal ou revista geral acaba atingindo um público maior.

A formação das pessoas é que eu não sei. A maioria vem da faculdade de Letras e trazem vícios de linguagem supostamente mais científica, mais seca. Eu acho muito legal o Rascunho nesse ponto. Muita gente critica que o Rascunho abre espaço para qualquer um, um bando de moleques que não leram nem meia dúzia de livros. Acho muito legal, de repente, pegar um livro de um autor consagrado, botar na mão de garoto de 18 anos, para ele ler e escrever como ele leu aquilo. É claro que ele está muito menos equipado do que alguém experiente, que tenha feito Letras, mestrado, doutorado, mas ele tem um olhar dele, contemporâneo sobre a obra.

Mas muitos evitam chamar isso de crítica literária.

JC. Pois é, mas aí é aquela discussão: o que é crítica literária? Existe Teoria Literária. Isso eu sei o que é. Quer dizer, são os caras, dentro da universidade, que estudam os grandes teóricos da Literatura. Agora, a crítica em geral, a coisa mais rasa que se pode dizer em relação a ela, é um corpo a corpo direto com o livro. Você pode ter mais ou menos bagagem, mas o que define é esse corpo a corpo.



tags: entrevista oficina-literaria oficina contos conto jose-castello estacao estacao-das-letras critica critica-literaria


 
Ótima entrevista com um dos melhores críticos literários da atualidade.Abs.André.

andre albuquerque · Recife (PE) · 13/4/2010 22:42
Interessante ele falar da falta de espaço em jornais e revistas. Geralmente, quando tem este espaço, é para autores estrangeiros dentro de uma grande editora.Quantos livros são lançados só no Brasil em um mês? E de quantos temos notícia?; apenas notícia.

márcioafsouza · Belo Horizonte (MG) · 16/4/2010 17:38
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