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Na FLIP, Peter Burke reavalia obra de Gilberto Freyre
Bolívar Torres, Rio de Janeiro (RJ) · 8/8/2010 · 2
Divulgação
Historiador tenta reintroduzir Freyre entre os acadêmicos europeus
Grande homenageado da Flip, Gilberto Freyre ainda não é reconhecido como merece fora do Brasil. Pelo menos, esta é a conclusão do historiador inglês Peter Burke, coautor de Repensando os trópicos: um retrato intelectual de Gilberto Freyre (escrito com sua mulher, a brasileira e também historiadora Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke), livro que contextualiza as ideias do antropólogo pernambucano, servindo quase de cartão de visita de sua obra para o público estrangeiro. Especialista em Idade Moderna europeia, o conceituado historiador passou por Paraty com dois temas na manga: o futuro do livro e o legado de Freyre.


Como o mundo acadêmico europeu analisa hoje a obra de Gilberto Freyre?

BURKE: Sinto dizer isso, mas os acadêmicos europeus simplesmente não conhecem sua obra. Na Inglaterra, quando falava do projeto do meu livro, as pessoas diziam: “Ah, Freyre, claro, o educador...”. Na verdade, estavam confundindo com Paulo Freire, que é muito mais conhecido. Tanto na França quanto na Itália também não sabem nada sobre Gilberto. A grande maioria dos seus livros está sem edições novas. Sinto vergonha por isso, mas acredito que, nos últimos anos, não foram vendidas nem 2 mil cópias de seus livros. Quando Casa-grande & senzala saiu, Freyre teve um certo auge, com artigos publicados na França. Mas desde então entrou num lento declínio.

Foi por isso que escreveu o livro tentando apresentar Freyre para os ingleses?

BURKE: Sim, é uma das principais razões. Gilberto precisa ser mais bem entendido. Suas ideias continuam relevantes.

Freyre antecipou muitas questões. Quais delas têm mais pertinência hoje?

BURKE: O hibridismo cultural, que só começou a ser analisado por gerações mais recentes. Mas eu diria que a questão mais extraordinária foi a sua consciência ecológica. Era incrível a maneira como ele se preocupou com as questões do meio ambiente nos anos 30.

A mistura de culturas e raças é um dos assuntos mais pertinentes na Europa hoje, confrontados principalmente por países como Inglaterra e França. Até que ponto o conceito de democracia racial, defendido por Freyre, pode ser uma referência para estes centros?


BURKE: É interessante imaginaro que Gilberto pensaria do multiculturalismo atual. Precisamos antes ver em que contexto surgiram as suas ideias, sua interpretação de culturas. O contexto, claro, era o Brasil colonial. Mas nos anos 30, quando ele escreveu Casagrande, a questão já era muito mais complexa, com a vinda de japoneses, alemães, italianos... Fiquei decepcionado com Ordem e progresso, que falava quase nada sobre a contribuição dessas culturas à identidade brasileira. A impressão que se tinha é que ele via o Brasil como um clube de três raças, negra, índia e branca. Por outro lado, países europeus também exaltaram a mistura de culturas.A Inglaterra é uma grande mistura de tribos celtas. É irônico pensar que até a clássica ideia de mistura cultural brasileira possa ter inspiração estrangeira.

A ideia de miscigenação de Freyre seria, portanto, relativa?

BURKE: Sim, sem dúvida.

Mas não é indiscutível que o português teve muito mais tendência à mistura no Brasil do que os britânicos em suas colônias?

BURKE: Acredito que, neste sentido, Gilberto tenha exagerado as diferenças entre o império britânico e o português. Sua ideia de colonialismo britânico se limitava à época de Kipling. Talvez porque adorasse Kipling. Mas o fato é que, antes disso, os ingleses tiveram um hábito de interpenetrar em países como a Índia, sexual e culturalmente. A mistura com indígenas era comum.

O senhor esteve com Freyre em duas oportunidades. Qual foi sua impressão?

BURKE: A primeira foi em uma palestra em Assex, em 1965, quando ele foi receber um grau honorário. Em um inglês muito bom ele louvou a miscigenação. Fiquei surpreso. Para mim era estranho, já que ele era branco, muito pálido: parecia um português, não um brasileiro mestiço. Depois, em 1986, fui convidado a ir à sua casa. Mas na época ele estava adoentado e alternava períodos de lucidez com outros em que não estava muito lúcido. E naquele dia, infelizmente, ele não estava lúcido.

Freyre foi um pensador muito peculiar. Recusava ser visto como acadêmico, e dizia que a literatura não podia ser dissociada de seu trabalho de antropólogo.
Estudar a sociedade era muito mais “uma aventura de sensibilidade do que um esforço de pesquisa”. Existiu na Europa ou nos Estados Unidos algum intelectual parecido com ele?


BURKE: Realmente, Gilberto nunca quis ser visto como um acadêmico. Financeiramente, era muito menos rentável para ele afastarse das universidades. Ele era, de fato, polêmico, um enfant terrible que adorava provocar. E é realmente difícil encontrar alguém tão interdisciplinar quanto ele na Europa. Talvez Fernand Braudel, na França, ou Johan Huizinga, na Holanda. Mas na Inglaterra não conheço.

Como foi escrever o livro com sua mulher?

BURKE: Foi minha primeira experiência de escrever um livro a quatro mãos. Nesse caso, a colaboração teve outro fator especial, já que minha mulher pertence à cultura brasileira e eu, não. Seria impossível escrever o livro sem ter vindo ao Brasil. Fiquei encantado com nossa passagem por aqui, de ter acesso aos arquivos da Fundação Gilberto Freyre. Suas cartas foram importantíssimas para o nosso trabalho. E foi fantástico ver algumas de suas anotações. Tínhamos acesso aos livros que ele lia, com as anotações que ele fazia nas margens. Era como ver o pensamento dele voando. Por outro lado, confesso que foi complicado conhecer sua família e as pessoas que conviveram com ele, porque isso provoca uma certa autocensura quando você precisa criticar um ou outro aspecto de sua vida e de sua obra. Como sempre escrevi sobre pessoas do século 16 e 17, não costumava ter esse tipo de problema antes (risos).

tags: entrevista


 
Bolívar: Excelente entrevista.Lamentável o desconhecimento da obra de Gilberto Freyre na idade de ouro do multiculturalismo.Abs.André

andre albuquerque · Recife (PE) · 8/8/2010 20:50
Quem é mais conhecido?Peter Burke ou Gilberto Freire.

Arnaldo Massari · Campinas (SP) · 14/8/2010 18:12
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