Imagens
Caixa de correio de Salinger fotografada em 1961 pera Life Magazine
Capa da revista Time de 15 de setembro de 1961 com J.D. Salinger
*por Felipe Pontes e Bruno Dorigatti
Morreu de causas naturais o escritor J. D. Salinger em sua casa na cidade de Cornish, no estado norte americano de New Hampshire. Eternamente marcado como o autor de
O apanhador no campo de centeio, o romancista americano viveu isolado na pequena cidade de menos de 2 mil habitantes por mais de cinquenta anos. Ao morrer, contava 91, completos no último dia 1 de janeiro.
O filho de J. D. Salinger divulgou através do representante literário do pai ao jornal
The New York Times que a saúde do escritor "permanecia excelente até um declínio repentino depois do ano novo. Ele não sofreu nenhuma dor antes ou na hora de sua morte".
Apesar de negar-se a publicar uma linha sequer desde meados dos anos sessenta e de possuir uma esquálida obra pública, Salinger ainda assim é considerado o autor americano mais importante do pós-guerra. Muito devido ao alcance de sua obra-prima,
O apanhador no campo de centeio, cuja venda supera os 65 milhões de exemplares em todo o mundo. O livro ainda vende centenas de milhares de unidades por ano, a ponto de no Brasil a
Editora do Autor resumir seu catálago a apenas quatro títulos:
O apanhador no campo de centeio ,
Nove Histórias e
Franny e Zooey, os três de Salinger; e
O processo penal, de autoria do proprietário da editora, o advogado Walter Acosta.
O alcance não se traduz só pelas vendas. A forma de narrar do protagonista do livro arrebatou geração após geração de adolescentes, tornando-se um verdadeiro molde no comportamento de jovens ao redor do globo. O anti-heroi Holden Caulfield - um adolescente que se revolta com o colégio interno no interior, é expulso e então passa a vagar por dois dias e duas noites em Nova York enquanto não sabe o que falar aos pais - preencheu o desejo de assumir outros tempos que se apresentavam no pós-guerra, com a angústia, rebeldia e despreendimento que iriam caracterizar o momento que antecedeu os
beatniks, os hippies e todo o
flower power dos anos 1960. Por sua linguagem, tornou-se o livro mais censurado nas escolas norte americanas por mais de vinte anos, ao mesmo tempo em que também se transformou talvez no livro mais estudado dos Estados Unidos.
Mestre dos dialogos e da linguagem vernacular, Salinger foi um escritor nato e desde muito cedo buscou emplacar na revista
New Yorker como contista. Após inúmeras recusas, finalmente em 1948 a direção do semanário não só aceitou o conto
Um dia perfeito para o homem-banana, como contratou imediatamente o autor com direito à prioridade sobre toda sua produção subsequente. O arrebatamento imediato do leitor de todas as matizes foi o verdadeiro
modus-operandi de Salinger.
O apanhador no campo de centeio, romance de estréia de 1951, teve que ser reimpresso oito vezes apenas nos primeiros dois meses de publicação.
Após a reclusão voluntária, diz-se que o escritor continuou a produzir de forma disciplinada. O próprio Salinger declarou em 1974 que "há um maravilhoso prazer em não publicar. É pacífico. Calmo. Publicar é uma terrível invasão de minha privacidade. Eu gosto de escrever. Eu amo escrever. Mas escrevo apenas para mim e meu próprio prazer". Com menos de 10 anos até o centenário de nascimento do escritor, sabe-se lá que material sairá de sua casa em Cornish. No livro de memórias que escreveu, Margaret Salinger, filha do romancista, revela que ele mesmo classificava metodicamente o que deveria ou não ser publicado após sua morte. Resta aguardar para saber que tratamento será dado ao material.
O último romance conhecido de Salinger,
Hapworth 16, 1924, por exemplo, veio a público apenas em 1965 nas páginas da
New Yorker, mas nunca chegou a ser publicado em um volume próprio e continua inédito em português.
Autores reclusos sempre mexeram com o imaginário de seus leitores, mas Salinger foi além. Teve histórias suas roubadas e publicadas sem sua autorização, participou indiretamente do assassinato de John Lennon (Mark Chapman carregava o livro quando atirou no músico), virou personagem de ficção. Particularmente curioso é o conto do escritor espanhol Enrique Vila-matas que narra um encontro com ele, e foi foco de uma documentário cujo objetivo era encontrá-lo,
Catching Salinger.
Célebre por não querer ser célebre, a vida incomum de J.D. Salinger também é um prato cheio para biógrafos. Enquanto vivo o próprio autor nunca permitiu que sua vida fosse registrada em livro.
>Leia mais sobre O apanhador no campo de centeio e outras obras de J.D. Salinger no Portal Literal aqui e aqui.
>Acesse o site Salinger.org, dedicado ao escritor.
>Leia [em inglês] à reportagem Recluse in the rye, publicada na revista Life em 3 de novembro de 1961 aqui.
>Leia a última entrevista de J.D. Salinger, concedida em 3 de novembro de 1974 aqui.
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