Notícias, novidades, estatísticas e declarações relacionadas aos e-books, os livros digitais, proliferam diariamente pela mídia.
Nos Estados Unidos, apesar da venda de livros digitais haver aumentado mais de 170% em 2009 e abocanhar agora 3,3% do mercado editorial como um todo, a realidade é que o mercado de
e-books ainda possui um longo caminho de vicissitudes até estabelecer-se um modelo sustentável.
A começar pelo
hardware, ainda longe de unir os benefícios da
e-ink (aquela tecnologia que permite a leitura prolongada sem cansar a vista) e a interface superior do
touchscreen, tipo iPad da Apple. O ideal
e-ink touchscreen é possível, mas caro demais para comercialização, mesmo que onipresentes empresas fabricantes de componentes anunciem a
redução dos custos em peças importantes.
No campo dos direitos autorais e da política de formação de preços, o emaranhado de questões a serem resolvidas parece ainda mais impenetrável. Os maiores grupos editoriais americanos, como
Macmillan e
HaperCollins, relutam fortemente em permitir que os ditribuidores de conteúdo, como a Apple e a Amazon, passem a ditar os preços dos livros, a exemplo do que ocorreu com a indústria fonográfica, cuja venda de faixas musicais a meros U$ 0,99 acabou sendo imposta como padrão pelas lojas virtuais como a Itunes.
Enquanto muitos preconizam o DRM (
Digital Rights Management) como a solução contra a pirataria, no último
Tools of Change, prestigiada conferência sobre tecnologias digitais ocorrida no final de fevereiro em Nova York, grandes especialistas no assunto consideram o uso do DRM perigoso. William Party, conselheiro sênior para direitos autorais da Google, previsivelmente declarou que "a lei de copyright se tornou uma maneira de extrair leite de uma vaca idosa, prestes a secar". Para o consultor Brian O'Leary, que pesquisa o impacto da pirataria na venda de ebooks para a editora
O'Reilly desde 2008, houve "um inexplicável salto nas vendas em sites pagos depois que a pirataria foi percebida" e foi enfático: "o DRM não tem impacto nenhum sobre a pirataria e sim no que os leitores fazem".
Kirk Biglione, outro guru da mídia americana, alerta que não se pode esquecer o mal exemplo da indústria fonográfica, que confundiu a demanda por produtos digitais com pirataria. Para ele, a troca ilegal de arquivos é sobretudo incentivada pela falta de acesso a arquivos digitais pagos e o DRM é um ferramenta estéril, que prejudica esse mercado.
Entre a muitas vozes que opinam acerca do incipiente mercado editorial digital, algumas se destacam, como a de Jason Epstein, criador do revolucionário formato paperback (capa maleável) nos idos de 1952, fundador da
The New York Review of Books e idealizador da
On Demand Books, responsável pela
Espresso Book Machine, capaz de imprimir um livro de qualidade comercial em pouco menos de dez minutos. Em fevereiro, ele escreveu um extenso
artigo, no qual esmiúça a fundo as implicações estruturais e morais do mercado de livros digitais. Na internet brasileira sua fala ecoou primeiro no
Link, seção de cultura digital do Estadão, depois no
blog da Flip, e pode ser considerada a melhor análise sobre o assunto até o momento. Leia a íntegra [em inglês]
aqui.
No Brasil, está previsto para junho o lançamento do
Mix Leitor D, primeiro
e-reader com montagem e software 100% brasileiros e que já chega com
polêmica acerca da sua comercialização. A pioneira loja virtual
Gato Sabido também acaba de anunciar a venda de 100 mil títulos internacionais em seu site. As discussões mais urgentes sobre o mercado de livros digitais por aqui, no entanto, giram em torno da tributação. Em dezembro de 2009, a Justiça de São Paulo emitiu liminar suspendendo a cobrança de taxas de importação praticadas pela Amazon para a venda do Kindle no Brasil, baseada na noção de que leitores de
e-books não devem ser considerados meros aparelhos eletrônicos e sim enquadrados na mesma categoria de livros e jornais, que não pagam impostos, segundo determina a Constituição Federal. No mês de fevereiro, o especialista em política tributária José Eduardo Tellini Toledo escreveu um
completo artigo sobre o assunto para o jornal
Correio Braziliense.
Entre os dias 29 e 31 de março será realizado também o
1° Congresso Internacional do Livro Digital, como parte do 36° Encontro Nacional de Editores e Livreiros, organizado anualmente pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), em São Paulo. "A realização do Congresso trará subsídios importantes para a área descortinar horizontes, especialmente a partir das experiências em curso em outros países", diz
Anibal Bragança, coordenador do Núcleo de Pesquisa Livro e História Editorial no Brasil (Lihed) na Universidade Federal Fluminense (UFF), organizador do
Seminário do Livro e História Editorial e palestrante no evento. A expectativa é atualizar a discussão no Brasil sobre livros digitais que já acontece ao redor do globo. Estarão presentes importantes nomes internacionais, como Michael Smith, presidente do Fórum Internacional de Publicações Digitais, e Zhou Hongli, chefe do escritório de direitos autorais da
Shanda Literatura Limited, a mais popular plataforma on-line para literatura gerada pelos usuários na China, entre outros.
Em um nível mais elementar, quem domina o inglês e pretende se inteirar mais sobre o assunto, o
Wall Street Journal disponibilizou on-line o capítulo sobre
e-books do recém-lançado e completíssimo
Oxford companion of the book (Oxford University Press), que pretende ser a enciclopédia absoluta quando o assunto é livro. Mesmo que desatualizado em relação aos
e-readers, é um referência confiável para quem procura saber, afinal de contas, o que é um
e-book.
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