Gonçalo M. Tavares é o grande fenômeno da literatura portuguesa na presente década. Construiu uma sólida carreira baseada em uma inventiva e bem organizada obra literária. Antes dos 40 anos, já foi canonizado pela crítica e é editado em 26 países. Sem prender-se a gêneros, Tavares escreve com inteligência e clareza e ponto.
Tudo com a publicação de seu primeiro livro apenas aos 31. "Sempre foi meu desejo não publicar antes dos 30; uma fixação como qualquer outra. Queria ter um percurso anterior que me desse grande confiança", confessou em
entrevista à revista Entrelivros em 2007.
Solto o rebanho, publicou 25 livros desde 2001. Inclusos nestes a tetralogia "O Reino", concluída com
Aprender a rezar na Era da Técnica (Companhia das Letras), e os nove pequenos volumes que compõe a série "O Bairro", lugar imaginário onde residem senhores como Brecht, Juarroz, Breton e Calvino, cada um peculiar a sua forma.
Contam-se também, entre os volumes editados, 1 peça de teatro; 3 "Breves notas" - textos mais dissertativos agrupados na série "Enciclopédias" -, 3 investigações e 1 livro que Tavares classificou como "Arquivo",
Biblioteca (Casa da Palavra). Nele, o escritor luso cataloga a seu modo a obra de diversos autores, entre eles Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Proust, Freud, Nelson Rodrigues, Poe, Manoel de Barros e Lygia Fagundes Telles. Para isso, toma emprestado o estilo e a forma de cada um em textos breves.
A partir deste mês Tavares prolonga esse trabalho e, através da Biblioteca Municipal da
cidade de Palmela, distrito de Setúbal, compartilha com o público apontamentos ao estilo de
Biblioteca (Casa da Palavra). A idéia é escrever dois textos literários inéditos por mês, concebidos a partir da leitura de outros escritores, especialmente para a biblioteca da pequena cidade de 62 mil habitantes, e convidar a comunidade a remeter textos-resposta, sejam escritos, desenhados ou pintados. Os respondões adquirem o direito de participar de um curso de Leitura e Imaginação, em três sessões, ministrado pelo próprio Tavares.
A iniciativa nos lembra como, em Portugal, mesmo as mais simples vilas ostentam suas bibliotecas como ambientes claros, modernos e vivos, que em nada ficam a dever às de grandes centros europeus. Algo muito longe da realidade bolorenta das bibliotecas municipais brasileiras.
>Os dois primeiros textos de Tavares tiveram como tema o poeta surrealista português Alexandre O'Neill e podem ser baixados aqui e aqui.
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