Entro pela porta,
Saio por ela também.
Entro e saio como me apraz
Pela porta que vai e vem.
Mas a porta que abro é minha,
De outro ela não é.
Os outros também as têm,
As portas, que são muitas.
E se todas elas se abrissem
A um desejo meu,
Coitadas,
Seriam desnecessárias.
Elas são para abrir
E também para fechar.
Asseguram discrição,
Intimidades e segredos,
Conluios, sublevações,
Insuspeitos poderes
De quem nem parece
Que deveras portas têm.
Se eu fosse um fantasma,
Entraria e sairia pela parede.
As portas não teriam sentido,
Mas ficariam no além
Os segredos e arreglos.
Se eu fosse mosca ou pernilongo,
Riria para a porta
E entraria pela janela.
Mas seriam apenas dos insetos
Os segredos vistos e ouvidos.
Eis porque a porta,
Que me protege e abriga,
É também, no fundo,
Minha grande inimiga.
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