Não me lembro de ter visto veículos automotores rodando nas ruas do povoado e se me lembrasse, eu mentiria. Dizem que os poetas têm permissão para isto: fingir. Eu fingiria que não havia carros por lá, só gente e jardins, e o trem.
Eu andava procurando assento na praça, um pequeno, mas muito bem cuidado horto florestal no centro do povoado de Rio Claro. Estávamos no alto da Serra da Mantiqueira, aonde só se podia chegar de montaria, ou na Maria Fumaça, um trem a vapor que era uma gostosura de lento nas trilhas com paisagem. Foi uma viagem memorável.
Não sei o que foi melhor, se viajar sentado no interior dos vagões puxados pela locomotiva a vapor, ou pendurado nos degraus do estribo, fazendo de conta que era caroneiro. Eu pulava fora do trem em movimento lento montanha acima, e depois tornava a embarcar. Não conheci o condutor, mas ele poderia se tornar poeta, ou pintor, se quisesse, pois inspiração e tempo marombavam no percurso.
Eu havia chegado ali na excursão anual do Grêmio Ernesto Soren – acho que era este o nome -. Ganhei aquela viagem de presente do meu irmão. Na verdade, sem saber, ele me deu mais do que isto, ele e a Lúcia.
Eu procurava assento para ler um livro que ganhei de presente da Lúcia, uma morenaça moradora do Caonze, bairro de Nova Iguaçu. – Este livro se parece com você – disse-me ela. Era o primeiro livro de poesias a passar por minhas mãos, mas Lúcia valia a leitura. Era gentil, inteligente e “tinha as unhas afiadas”, uma gata.
O título do livro é a “Dança das Horas”, de Guilherme de Andrade de Almeida, o Príncipe dos Poetas. Lúcia havia me dado um exemplar do seu segundo livro. Eu tinha nas mãos uma raridade e não sabia.
Guilherme surpreendeu o mundo literário com haicais no formato silábico 5 - 7 - 5, rimando o primeiro verso com o terceiro e inserindo uma rima interna no segundo. “Meus Haicais”, de sua autoria, é uma obra de arte da poesia brasileira. Abri o livro sentado entre avencas...
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