Waly Salomão
Os amigos e leitores se despedem de Waly Salomão.
Gerald Thomas, encenador 13/05/2003
LONDRES - Não me lembro bem se foi Rudolph Steiner ou Wilhelm Reich que dizia que um bom poeta precisava comer e trepar com seu meio ambiente, não poupar ninguém, regurgitar tudo, e cuspir aquela antropofagia de volta em sua arte.
Waly era isso e mais um pouco. Caramba, o cara era intenso. Eu o conheci quando Caetano e Gil estavam aquí nessa cidade no "exílio". Waly e Jorge, seu irmão, iam muito à casa de minha mãe em Ipanema, enrolar um baseado e falar pelos cotovelos. Waly se debruçava em cima de nós (éramos uma turma: Flamarion, Luciano Figueiredo e uns outros) e, como eu só tinha 15 anos de idade (e recém chegado de Nova York), eu me impressionava com aquele Rabelais com sotaque baiano que soltava lavas bombásticas, frases revolucionárias, ora antiamericanas, ora muito mais avançadas do que o movimento hippie-yippie que estava em pleno desenvolvimento na América do Norte.
"Andy Warhol?", eu me lembro d'ele dizendo uma vez em tom de deboche bem na cara de Hélio Oiticica, na casa do próprio, lá naquela casa linda que Hélio herdou do pai, na General Alfredo Duarte. "Esse branquela não sabe rebolar nem três segundos. Em um minuto eu coloco aquela bicha no chão, com a língua de fora pedindo arrego!"
Waly tinha esse lado maravilhoso de
el matador defensor ferrenho da arte pura tropicalista e marginal brasileira e não admitia que alguém o contradissesse. Seu temperamento era mais curto que a uva que cobre o pênis de David, de Michelangelo.
Não consigo imaginar que ele tenha morrido. Já se faz uma semana. Quem me avisou foi o Zuenir e o Mautner, quase que no mesmo momento. Quer dizer, o Mautner já havia me preparado uns dias antes, dizendo que Waly estava mal. Como eu havia estado com ele (por uns breves minutos) no restaurante Garcia & Rodrigues nos 4 dias que passei no Rio recentemente, e o vi emanando um sorriso glorioso, nao consegui entender nada. "Câncer??? Como assim assim câncer?" Essas coisas são incompreensíveis. Ou melhor, voltando ao início do artigo, Steiner ou Reich diriam que alguém que passou a vida comendo a alma de todos em sua volta, e cuja cabeca não parou de criar e tentar justificar essa mísera presenca dessa nossa passagem material sobre a Terra, nada mais justo do que desaparecer degenerativamente.
Mas a dor é imensa. Há uns três anos, Paulo Borges fez um evento em São Paulo chamado "Os Contestadores". Me pediu sugestões. Não tive dúvidas. No dia seguinte, estávamos eu, Paulo e Waly jantando no Bar D'Hotel (quer dizer, Waly aos berros, discursando e tirando sarro das belas meninas), combinando o evento do Pacaembu.
Meses depois, na época do evento, algo estranho aconteceu. Estávamos todos hospedados no mesmo hotel. Só que Waly chegou do Rio e se trancou no quarto, deprimidíssimo, e por quase um dia e meio não saiu, não atendeu o telefone e não quis saber.
Talvez nesse dia ele teve uma noticia desagradavel. Talvez nesse dia veio o resultado de um exame que deu no que deu, semana passada. Quer dizer, estou especulando, na tentativa de encontrar uma resposta para essa coisa horrenda, ridícula, grotesca e monstruosa que é a morte. Quando ela atinge um dos maiores gênios, como no caso de Waly, ela nos faz pensar realmente se fomos ou não fomos corretos com ele no decorrer dessas décadas todas.
Ainda bem que Gilberto Gil lhe concedeu alguns momentos de glória nos ultimos momentos de sua vida.
Vai, querido. Te conheci por 35 dos 48 anos de minha vida e você não tem idéia de quanta importância teve e tem na minha obra e no orgulho que você imprimiu em mim quando cunhou, com tanta personalidade e tanta originalidade, o significado do que é ser brasileiro.
Antonio Cicero, poeta 08/05/2003
"Nênia", poema do livro
A cidade e os livros, lido por Cicero na cerimônia de cremação de Waly:
A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive.
Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão.
Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um
campo visual, não tinha limite. Tal qual outras coisas preciosas, ela não se media pela extensão
mas pela intensidade. Louvemos e contemos no número dos felizes os que bem empregaram o
parco tempo que a sorte lhes emprestou. Bom não é viver, mas viver bem. Ele viu a luz do dia,
teve amigos, amou e floresceu. Às vezes anuviava-se o seu brilho. Quase sempre era radiante.
Quem pergunta quanto tempo viveu? Viveu e ilumina nossa memória.
Lilian Fontes, escritora 07/05/2003
Andando entre pessoas num vernissage no Paço Imperial, me vem ao encontro Waly Salomão, esfuziante, querendo se desculpar por não ter ido ao lançamento do meu livro Santo Dia. E exclamava: "Sabe por que eu não fui? Por isso aqui!" E tirou do bolso a carteira de dinheiro na qual batia repetindo a frase "por causa disso aqui".
Eu, na minha limitada inteligência, mostrava-me incapaz de compreender o que ele tentava dizer através de sua carteira de dinheiro. Por fim, percebendo o meu olhar de incompreensão, explicou-me que tinha feito uma viagem naquela data para dar uma palestra cujo pró-labore recebido, cobriria suas contas.
Assim era Waly, simbólico, metafórico, poeta na alma e nas ruas do Leblon. Waly que desmantelava qualquer ambiente com sua presença solar, audaciosa, sorriso pleno de verdade, proclamando subindo em bancos levantando os braços, sempre ancorado pela bela mulher Marta. "Perito em extrair faíscas das britas" exigia das palavras, escritas e faladas, atingir "os limites do grelo/ da greta/ da gruta".
A última vez que vi Waly, não faz um mês, estava de terno e gravata assumindo o novo posto como Secretário do Livro e Leitura, comandando uma mesa sobre as pequenas editoras, na Fundação Casa de Rui Barbosa, começou com uma fala serena, colocações equilibradas, para pouco a pouco deixar vir o Waly Sailormoon soltando frases audaciosas, cutucando o público.
Baiano na cor, baiano no gesto, baiano na alegria, Waly se fez carioca
defendendo com unhas, dedos e dentes o caos e o cosmo.
Já não me habita mais nenhuma utopia.
Animal em extinção,
Quero praticar poesia
- a menos culpada de todas as ocupações.
Arnaldo Bloch, jornalista e escritor 07/05/2003
Talvez com o silêncio provocado por sua ausência o Brasil possa examinar, com maior atenção, o que Waly nos legou não apenas em seus escritos, mas na vasta obra que a sua oralidade esfuziante e incansável deixou impressa nas memórias mais atentas.
Antonio Carlos Miguel, jornalista 07/05/2003
Ele era hiperfalante, barroco e até verborrágico em muitos momentos. Mas não jogava conversa fora. Suas idéias, delirantes ou brilhantes, eram enriquecedoras. Encontrar ou conversar por telefone com o sempre esfuziante Waly era um imenso prazer, uma dádiva. Assim como em seus livros, ou nas muitas letras de canções, em seu papo fluente ele unia uma cultura diversificada e profunda com o prazer pela vida, de quem foi fundo em tudo, circulando do
grand monde ao
bas fond. Ele viveu o ideal de unir arte e vida, imerso tanto nos livros de sua biblioteca quanto no contato com o povo comum nas ruas, nas favelas e, agora, em Brasília. Voltando à história de nunca usar de meias-palavras ou jogar conversa fora, Waly tinha o hábito de telefonar para os amigos e imediatamente engatar no assunto, como se estivesse retornando uma ligação interrompida minutos antes. O intervalo poderia ter sido de semanas ou meses, mas para ele não existia "alô", "como vai" e demais formalidades. Saber que nunca mais receberemos tais deliciosas ligações é doloroso.
Paulo Roberto Pires, jornalista e escritor 07/05/2003
Texto publicado no site No Mínimo.
O amante da algazarra
É duro e terrível saber que, nem mesmo por acaso, nunca mais vou ser atropelado pela algazarra chamada Waly Salomão. Sem ele, a bobagem que se chama vida literária fica mais pobre e menos divertida. Nele se uniam as duas virtudes que mais admiro e invejo num artista: a erudição, que o faz consistente, e o humor, que o vacina contra a pompa. Sempre o reconheceram mais pelo último, associado a uma porra-louquice teatral que pouco ou quase nada correspondia à sua seriedade como intelectual e maestria poética, avesso que era ao espontaneísmo e ao desleixo formal.
Dionisíaco na vida, era apolíneo nas idéias. Se o terno que a função pública exigia lhe parecia desconfortável nos últimos tempos, a cabeça estava muito bem arrumada, ciente do que deveria conhecer, de quem deveria aproximar-se e quem deveria afastar para implementar uma política do livro mais independente e justa. No gabinete do Palácio Capanema em que Drummond trabalhou, pretendia despachar no Rio, fazendo festa com seguranças, ascensoristas e assessores. Oswaldiano radical, para ele a alegria era realmente a prova dos nove.
No ritmo de gargalhadas, gritos tonitruantes e espalhafato, misturava Merleau-Ponty e Ginsberg, Auden e Caetano, Cioran e Torquato Neto.
Conversava – na maioria das vezes, monologava - no ritmo dos afetos com que levava a vida: generoso e impaciente, doce e furioso. Acordava cedo, cedíssimo, e às sete, quando não antes, disparava telefonemas para amigos – todos meticulosamente anotados em agendas, onde também costumava registrar leituras. Como o amigo Hélio Oiticica, era um diligente arquivista de si mesmo.
Era capaz de posar em lugares do Rio de Janeiro com a fantasia de Wally, o quase-chará, para uma brincadeira na "Revista de Domingo" com o livro "Onde está Wally?" e também de discutir filosofia com Ernest Gellner, que convidou, com Antonio Cícero, para incrível ciclo de palestras Banco Nacional de Idéias. Foi neste evento que juntou três Joões num debate memorável: João Cabral de Melo Neto, Joan Brossa e John Ashberry.
Na Mangueira, que freqüentava com Hélio Oiticica, era conhecido como "o Abelha" por conta do sucesso de "Mel", gravado por Maria Bethânia. Na véspera do carnaval de 1996, subimos o morro para uma reportagem de lançamento de seu livro sobre Oiticica. Para as fotos levávamos dois parangolés, emprestados por Luciano Figueiredo, e, ao chegarmos no Buraco Quente, soubemos da morte de Nininha Chochoba – passista que batizava justamente uma das capas. Fomos ao velório e levamos a ela, no parangolé feito em sua homenagem, uma inusitada homenagem póstuma de Hélio Oiticica.
Para esta morte insidiosa, mau-caráter, não há consolo possível, seja destino ou fatalidade – além da sensação, dilacerante, de digitar este texto com tantos verbos no passado. Mas há, isso sim, a firmeza de quem se dizia "amante da algazarra" e que, depois de quase sucumbir a um enfarto, escreveu:
"e na hora H da morte, estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória".
Salim Miguel, escritor 07/05/2003
Já havia lido os dois primeiros livros de Waly Salomão antes de vir a conhecê-lo, a primeira impressão que me causou foi de uma pessoa voraz, se entregando por inteiro a tudo que fazia. Isso se confirmou nos encontros seguintes, parecia alguém com pressa, a fim de exercer toda a sua criatividade. Mandou-me certa feita um belo e instigante poema sobre nossas raízes comuns. Seu projeto para o livro e a leitura, de que tomei conhecimento pela imprensa, me causou a mais funda impressão. Pena que não o tenhamos mais no Ministério da Cultura, para implementá-lo e brigar por ele - e Waly Salomão sabia brigar por tudo que valesse a pena.
Geraldo Carneiro, poeta 07/05/2003
Waly é a figura mais exuberante da cultura brasileira.
Armando Freitas Filho, poeta 07/05/2003
Não fiquei abalado com a morte de Waly; eu fiquei indignado. Ela foi extremamente injusta para quem estava no auge de sua vitalidade criadora. Ele publicou recentemente, no caderno "Mais!" da "Folha de S. Paulo", um poema excelente chamado "Tácito", e estava em plena floração no serviço público, à frente da Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. Ainda havia recebido uma bolsa Vitae. Portanto, era toda uma pletora de coisas positivas que se interrompeu por causa dessa injustiça do destino. A indignação que eu acho que se deve sempre ter em relação à morte é, no caso dele, ainda mais forte.
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