No dia 14 de março de 1939 nasceu Glauber Rocha de Andrade. Baiano de Vitória da Conquista.
Eu era pouco mais que um menino quando a voz, as atitudes e as obras de Glauber Rocha desfilavam nas páginas e telas brasileiras. A partir de 1971 viveu quase todo o tempo no exterior «ora fugindo da ditadura, ora desistindo de lutar contra demônios brasileiros, reais e imaginários», e não o vi mais, só ouvia falar.
Eu não entendia bem seus filmes, mas gostava. Fazia questão de vê-los. As cenas de miséria, brutalidade ou solidão não me comoviam. Talvez por imaginar o Glauber enquanto via o filme. Creio que seus filmes foram mais bem aproveitados por quem não o conhecia. Cinema parece ser assim: público e atores. Exceto para efeitos especiais, o cineasta não conta. E Glauber contava. Ele era mais forte que seu trabalho.
Coloquei seu nome em um dos meus filhos. Uma homenagem ao homem que, como poucos, exerceu o sagrado direito de ousar. Não havia liberdade suficiente para ele em lugar algum. Morreu de “pericardite viral” em agosto de 1981 no Rio de Janeiro.
A jornalista e professora Ivana Bentes mantém no site vidaslusofonas.pt uma página sobre Glauber Rocha. Um admirável trabalho. Extraí dele algumas frases de Glauber. Uma tomografia dos seus sentimentos.
“Sintra é um belo lugar pra morrer" - (veio morrer no Brasil)
“A Idade da Terra é a desintegração da sequência narrativa sem a perda do discurso (...). Esse filme materializa os símbolos mais representativos do terceiro mundo, ou seja: o imperialismo, as forças negras, os índios massacrados, o catolicismo popular, o militarismo revolucionário, o terrorismo urbano, a prostituição da alta burguesia, a rebelião das mulheres, as prostitutas que se transformam em santa, as santas em revolucionárias”.
“Dizem que estou louco, gastei todo meu patrimônio nesse filme, vendi nossa casa no Rio de Janeiro, o orçamento estourou e o filme é um fracasso de público. Mas não se trata de loucura, busco outro cinema: um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse numa cama, numa festa, numa greve ou numa revolução. É um novo cinema, antiliterário e metateatral, que será gozado, e não visto e ouvido”.
“Tenho de trabalhar nesta máquina de escrever como se estivesse numa dessas terríveis batalhas”.
“Acredito na eternidade, mas não em Deus. A morte é uma invenção da direita. A família é protestante num país católico em que todos (estou na Bahia), freqüentam os terreiros e praticam o candomblé. Nossa cultura é a Macumba e não a ópera. Somos um país sentimental, uma nação sem gravata".
“Queria me tornar um escritor, mas só tinha uma certeza: escreverei sobre minha terra. Prefiro os escritores brasileiros aos europeus”.
(Filmagens de Barravento em 1960, seu primeiro longa-metragem) -
“É um filme gritado, de explosões, de tensão crescente, um filme místico. Talvez seja mesmo uma contradição. Espero que no fundo seja um filme. Estou usando atores negros, fabulosos, vivos, flexíveis, quentes e cheios de violência plástica – sensualismo -. O mise-en-scène está fundamentado na coreografia popular dos passos e gingas daqueles capoeiristas latentes. Espero, modestamente, responder, deste selvagem Brasil, alguma coisa à dança de cena do cinema japonês”.
(Manifesto A Eztetyka da Fome em 1965) -
“Somente pela violência e pelo horror, o colonizador pode compreender a força da cultura que ele explora. A violência não é um simples sintoma, é um desejo de transformação, a mais nobre manifestação cultural da fome”.
“O país chamado Brasil está tão dentro da gente que é impossível sair”.
“Eu sou um apocalíptico que morrerei cedo (...). Às vezes sinto-me louco e absolutamente feliz dentro de uma infinita solidão”.
“Estou nos desertos d'Oriente! Meu coração é grande demais! Viajando sem parar pelas rotas fantásticas de príncipes e ladrões e guerreiros: raptando princesas e negociando segredos ao sabor das fumaças e ao som dos tamborins... Não tem volta! É a felicidade que dói de tão boa”.
Colocou o nome de uma filha de Ava Patria Yndia Yracema Gaitan Rocha (Ava quer dizer água livre, ou corrente de água) e de um filho, Aruak (nome do tronco tupi que cultuava a paz e o autocontrole como valores supremos). E sobre estes nomes dizia:
“Sinto-me re-projetado nas origens”.
“É preciso fechar essa miserável década” – disse em 1979.
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