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Samba falado
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 15/8/2008 · 50 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 16/04/2008.

Crônicas musicais de Vinicius de Moraes reunidas pela primeira vez no livro Samba falado (Azougue). Confira aqui!
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(Otto) Ô, Vinicius, você falou sobre o poeta, a origem da poesia, música, cinema, teatro. Agora, falta o meio cronista, pelo menos, para não dizer muitas outras coisas. Inclusive hoje você é um dos cronistas mais lidos do país. Os seus livros de crônicas, Para viver um grande amor e Para uma menina com uma flor, são best-sellers da crônica. E você não deu a menor bola para o Vinicius prosador.


É que eu não me acho realmente um prosador não, Otto. Eu acho que o cronista é o poeta em férias, é? A minha prosa é a prosa de um poeta.

(Depoimento para o Museu da Imagem e do Som (MIS), em 1967, com Otto Lara Resende, Lúcio Rangel, Ricardo Cravo Albim e Alex Vianny. Publicado no livro Vinicius de Moraes. Encontros, de Sergio Cohn e Simone Campos (org.), Azougue, 2007)
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Depois do delicioso livro de entrevistas, um dos que inauguraram a série Encontros, a Azougue lança nesta semana Samba falado: crônicas musicais, mais um item precioso da obra daquele que proseava como um poeta, em suas próprias palavras. Apesar de dois livros de sucesso na área, até hoje suas crônicas musicais estavam perdidas e esparsas em jornais, publicadas entre 1950 e 1970, ainda inéditas em livro. Além dessas, quatro textos inéditos ajudam a compor o pensamento e a memória musical, digamos assim, de Vinicius de Moraes.

Agora podemos acompanhá-lo numa explicação sobre o nascimento do samba ("O samba é carioca e não nasceu no morro") ali na Praça Onze, na casa de Hilária de Almedia, a tia Ciata, motivado muito pela estreiteza das ruas, que fazia com que o seu quintal em frente de casa fosse ponte de parada e evolução dos primeiros ranchos. E apesar do deslize ao creditar o primeiro samba gravado, "Pelo telefone" ao Bando dos Tangarás, formado por Noel Rosa, João de Barro, o Braguinha, Almirante, entre outros - na verdade, autoria de vários compositores, mas registrada por Donga, que dizia: "Samba é que nem passarinho. É de quem pega primeiro" - o texto que abre o livro já traz toda a verve memorialística e de conversa ao pé de ouvido presentes na grande maioria das crônicas.

Na crônica que o Portal Literal traz abaixo, "No meu tempo era assim...", Vinicius passeia pelos carnavais de 70 anos atrás e evoca marchinhas clássicas já no nascimento e que seguem por aí até hoje, como "O teu cabelo não nega", "Cidade maravilhosa", "Jardineira", "Você pensa que cachaça é água...", "Quero chorar, não tenho lágrimas...", "Nega do cabelo duro", "Amélia".

Dos textos já publicados na imprensa, temos as crônicas para o semanário derivado do jornal de Samuel Wainer, Última Hora, o Flan, em 1953, na coluna Diz-que-discos, com bons textos sobre Jaime Ovalle, Elizeth Cardoso, Pixinguinha, que considerava um santo a ser canonizado, Ismael Silva fundador da primeira escola de samba, a Deixa Falar, a capoeira, que conheceu na Bahia, e o sambista, radialista e responsável pela criação do MIS, que surgiu a partir do seu enorme e detalhado arquivo. Na seqüência, a famosa carta a Lúcio Rangel, em 1959, que então criticava a incipiente bossa nova, nos nomes de Tom Jobim e do próprio Vinicius, que, segundo, Rangel, "desce de sua posição 'semi-erudita' para tentar alcançar as camadas nitidamente populares.

Há ainda as crônicas do Diário Carioca, de 1964 e 1965, que funcionam como retratos, perfis e impressões do movimento que a essa altura ganhava o mundo através de Tom Jobim em Los Angeles e Baden Powell em Paris. E na parte final, algumas crônicas/perfis para o Pasquim no começo dos 1970, de Ciro Monteiro, Dorival Caymmi, Nora Ney, mas onde se destaca, entre uma das melhores de todo o livro – na opinião deste escriba, naturalmente –, a que evoca a figura de Antonio Maria, num emocionante relato dos momentos, farras, bandas de Cadillac e o último encontro, em pé, devorando um picadinho. Realmente, um poeta proseando. (Bruno Dorigatti)
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No meu tempo era assim...

No meu tempo era assim: a turma se reunia numa das casas, aí por volta das 5 da tarde, e começava a biritar. Como todo mundo era mais duro que pão de véspera, a patota – éramos todos estudantes doublés de moleques de praia – calibrava mesmo na batida de limão. A indumentária preferida era o marinheiro, com o gorrinho e tudo e a nossa meca a rua Almirante Barroso, entre a sede do Jockey e o extinto Palace Hotel, em cujo bar brincava o fino da boemia da época. Éramos todos fortes paca, e quem tinha menos, como eu, inchava 40 de bíceps na fita métrica. Nossa vida era fazer ginástica, nadar, lutar jiu-jitsu e dar "paradas" lindas nos bancos da avenida Atlântica para encantar as meninas. Fim de tudo isso: as brigas de rua, indefectíveis, que espalhavam povo para todos os lados, com murros e balões espetaculares, eventuais garrafadas e uma prisão ou outra, em geral resolvida na lábia ou na propina. Uma pobreza. Com cinco batidas (ah, bons tempos!) a rapaziada já estava no ponto, e nós saíamos para pegar o bonde que nos levava à cidade, apinhado de pingentes a marcar o ritmo das marchinhas no tímpano do veículo que se arrastava bamboleante e cantante em demanda do centro. A "trinca" como se procurava encaixar perto de uma escurinha jeitosa, porque a enxova era de lei e com duas mãos numa cintura de vespa, o resto se resolvia no molejo dos quadris da morena se desmanivando no samba. Elas nem davam por isso, e se davam, adeus. Era carnaval.



São três dias de alegria, iaiá, ioiô

Nunca vi festa tão boa

Carnaval é mesmo o suco, iaiá, ioiô

São 3 dias de alegria

Que até faz ficar maluco!



O carnaval de 32, esse, então, fora uma loucura. Eu era quartoanista de direito, e levava uma vida dupla, dividido entre os afazeres do espírito (meu primeiro livro de poemas deveria sair um ano depois) e os do corpo; por um lado, na companhia do famoso grupo do C.A.J.U., e por outro, desses que foram, de certa maneira, os precursores do famoso Grupo dos Cafajestes. É claro que ocultava cuidadosamente, com exceção de um ou outro elemento, as minhas preocupações literárias da turma da pesada. Lembro-me mesmo que um dia, um jovem colosso chamado Paulão virou-se para mim, olhando-me com desconfiança, e perguntou-me assim:

– É verdade que você anda escrevendo... poesia?

Se me tivesse chamado de bicha eu não teria feito um mais ofendido:

– EEEEEU?

Era o ano de "O teu cabelo não nega". O saudoso Lamartine, usando o refrão de um frevo dos Irmãos Valença, fizera estourar a praça. Todo mundo cantava:


O teu cabelo não nega, mulata

Porque és mulata na cor

Mas como a cor não pega, mulata

Mulata eu quero o teu amor!



A cidade vibrava com a marchinha. Os blocos já vinham ordenados de casa, com fantasias iguais, ou se arrumavam ao azar das coloridas correntes humanas que subiam e desciam a avenida Central, antigo nome da Rio Branco – o que deu azo, também, a um soberbo samba de Herivelto Martins e Grande Otelo:


Lá vem a nova avenida

Remodelando a cidade

Rasgando prédios e ruas

O nosso patrimônio de saudade.

É o progresso

E o progresso é natural

Lá vem a nova avenida

Dizendo a sua rival:

- Bom dia, Avenida Central!



Nós nos pendurávamos no balaio de uma baiana ou odalisca e íamos por ali afora, aos urros, até atingir o nosso shangri-lá: a porta do Jockey. Ali debandávamos, com combinações para encontros mais tarde, e partíamos para a paquera. Era a fase do lança-perfume. Os casais enfiavam a cara um no ombro do outro depois de esguichá-lo devidamente, e cheiravam até o último alento. A viagem começava numa lenta espiral sonora que ia se fazendo cada vez mais rápida e concêntrica – zuuuuuuuuuuuuummmmmmm – e de repente os joelhos fraquejavam e vinha o delírio. Alguns caras ficavam loucos e saíam desafiando todo mundo, outros se deixavam escorregar e ficavam com ar de espantalho caído, sentados contra a parede. O máximo, para os nossos parcos recursos, era conseguir um rodo metálico. Aquilo era um banho. Os filantes não faltavam:

– Pera aí, rapaz, vai devagar...

De repente saía um pau:

– Eh, pessoal! O Carlos 'tá brigando!

Todo mundo corria. A turma do deixa-disso segurava os contendores, se esforçando, nem sempre a fundo, para partir um para o outro. Às vezes um nariz sangrava.

– Suspende o nariz que passa.

Éramos todos guerreiros e enfermeiros diplomados por tantos combates.

No Carnaval de 35, André Filho fez "Cidade Maravilhosa", que a minha querida Aurorinha Miranda gravou, com um sucesso bárbaro.Era o que se ouvia (e a velha marchinha tem sabido resistir heroicamente ao tempo, apesar de a terem transformado no Hino da Guanabara:


Cidade maravilhosa

Cheia de encantos mil

Cidade maravilhosa

Coração do meu Brasil!



Eu andava no auge da paixão por uma moça paulista chamada Antônia, e fazia, sempre que o numerário dava, viagens aéreas a São Paulo que hoje, só de pensar, fazem sentir a asa da morte. Meu paizinho Manuel Bandeira, que a tinha conhecido, dizia "que ela tinha os olhos cheios de peixinhos dentro". Ela era uma graça, mas tinha mais medo de mim do que do bicho-papão. Eu me dividia entre ela e grandes bate-papos com a jovem intelectualidade paulistana (saudades suas, meu querido Almeida Sales!), pois ficara famoso do dia para a noite com o prêmio Felipe d'Oliveira (5 contos de réis – naquele tempo uma nota preta!), em disputa com Jorge Amado no olho mecânico.


Que lindos carnavais! As marchinhas tinham uma malícia inocente que facilitava tudo sem prometer demais: nada da grossura de muitas das marchas modernas, que só o que faltam é dar o nome científico. Em 1939, eu na Europa, estudando na Inglaterra, chegaram-me os ecos de uma que amo, que Benedito Lacerda aproveitou do velho Candinho das Laranjeiras, do cordão "Flor da Primavera":


Ó jardineira, por que estás tão triste

Mas o que foi que te aconteceu?

Foi a camélia que caiu do galho,

deu dois suspiros e depois morreu.



E "Zum-Zum"? Que delírio não foi... A cidade toda chorava a morte do Comandante Eduardo de Oliveira, o famoso Edu, líder inconteste do Grupo dos Cafajestes – o maior faturador de moças e uma das paradas mais indigestas da história da valentia carioca. Tremendo boa-pinta, simpático de morrer e amigo dos seus amigos até o absurdo, Edu trocara o vôo que tinha de pilotar, para Belém do Pará, por um para Porto Alegre, de maneira a poder estar de volta a tempo para um coquetel que nosso amigo comum Fernando Ferreira (saudades suas, Fernandão!) dava no finado "Vogue": a melhor boate de quantas houve na noite do Rio, do bom e do saudoso barão Von Stuckard. Foi Paulinho Soledade, talvez seu maior amigo, e autor da marcha, de parceria com Fernando Lobo, quem recebeu e deu a notícia do desastre ocorrido na descida em Porto Alegre. A desolação foi total. Ficara faltando o Comandante Edu:


Oi

zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum-zum

Está faltando um!



Ele que era o porta-estandarte

Ele que fazia alaúza e zum-zum

Hoje o bloco sai mais triste sem ele

Está faltando um!



Um dia, em 62, eu fiz, com Carlinhos Lyra, uma marcha cheia de saudades dos bons e velhos tempos:


Quem me dera viver pra ver

E brincar outros carnavais

Com a beleza dos velhos carnavais:

Que marchas tão lindas

E o povo cantando seu canto de paz!



É verdade. É chato ficar saudosista, mas desde que a "máfia do carnaval", como a chama o jornalista José Carlos Rego, impõe, na base do tutu, as canções que o povo vai cantar, através dos discotecários, intérpretes e gravadoras desonestos, ou melhor, "dentro do contexto", a música entrou pelo maior cano. É difícil ouvir mais a cidade cantar em peso uma marchinha como a do Zé da Zilda, que estourou em 54:


Você pensa que cachaça é água

Cachaça não é água não

Cachaça vem do alambique

E água vem do ribeirão



E os antigos sambas... que beleza! Lembram-se do carnaval de 33, com o samba de Noel gravado por João Petra de Barros comandando as batucadas?


Até amanhã se Deus quiser

Se não chover

Eu volto pra te ver, ó mulher

De ti gosto mais que outra qualquer

Não é por gosto

O destino é quem quer



Bide e Marçal constituíam uma parceria exemplar. Como esquecer, no carnaval de 1938, o som triste, dorido, das cantorias longínqüas do velho samba dos dois grandes parceiros?


Quero chorar, não tenho lágrimas

Que me rolem da face pra me socorrer

Se eu chorasse talvez desabafasse

O que sinto no peito e não posso dizer

É porque não sei chorar

Que eu vivo triste a sofrer


O ano de 42 deu duas músicas que hoje são clássicos do nosso populário carnavalesco. A segunda, de David Nasser e Rubens Soares – autor também de "Porque bebes tanto assim, rapaz?" – Elis Regina gravou recentemente, dentro do espírito do balanço que lhe deu, posteriormente, esse maravilhoso João Gilberto:


Nega do cabelo duro

Qual é o pente que te penteia

Qual é o pente que te penteia

Qual é o pente que te penteia, ô nega.

Teu cabelo está na moda

E o teu corpo bamboleia

Minha nega, meu tesouro

Qual é o pente que te penteia, ô nega.



A primeira é o hino da anti-chata, da mulher companheira, o imortal samba do grande Ataulfo Alves, com letra (excelente!) de Mário Lago:


Nunca vi fazer tanta exigência

Nem fazer o que você me faz

Você não sabe o que é consciência

Não vê que sou um pobre rapaz.

Você só pensa em luxo e riqueza

Tudo que você vê, você quer

Ai meu Deus, que saudades da Amélia

Aquilo sim é que era mulher:

Às vezes passava fome ao meu lado

E achava bonito não ter o que comer

E quando me via contrariado

Dizia: "Meu filho, o que se há de fazer..."

Amélia não tinha a menor vaidade

Amélia é que era mulher de verdade...


tags: literatura degustacao 2008 cronicas musica vinicius-de-moraes


 
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