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Rubem Fonseca: o autor que um editor pediu a Deus
 
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j., Rio de Janeiro (RJ) · 7/5/2009 · 140 votos · 1
  
Filha de Rubem Fonseca comenta saída do pai da Companhia das Letras e diz que ele já recebeu diversas propostas

[Publicado originalmente por Mànya Millen em O Globo]

Desde a quinta-feira passada, quando a editora Companhia das Letras anunciou, num comunicado curto e seco, que a partir daquela data deixaria de editar a obra de Rubem Fonseca, o telefone da psicanalista, escritora e editora Bia Corrêa do Lago não para de tocar. Filha do escritor e considerada uma de suas interlocutoras mais próximas, ela se tornou praticamente a única fonte para se tentar compreender a notícia mais surpreendente dos últimos tempos no mercado editorial (Fonseca deixou de dar entrevista há anos, e a editora afirmou na nota que não prestaria qualquer esclarecimento sobre o assunto).

"Se houve uma gota d'água, ele não disse"

A lista de especulações sobre o fim de mais de 20 anos de casamento entre editora e autor é grande no mercado. As suposições vão desde um adiantamento polpudo para o próximo romance pedido por Fonseca e negado pela Companhia, até o descontentamento do escritor com o tratamento dado à sua obra na casa - que tem investido em grandes autores nacionais, como Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles - passando por queda nas vendas de seus últimos títulos, entre outras coisas. Tudo isso ou nada disso?

- Também soube do evento pela imprensa, o papai é assim, na dele. Almocei com ele no sábado, e ele falou simplesmente "Tá bom, já deu, foi o suficiente, passei pra outra", mas, se houve uma gota d'água, ele não disse - garante Bia, idealizadora e apresentadora do "Umas palavras", programa de entrevistas com escritores exibido pelo Canal Futura. - Agora, se por acaso ele pediu adiantamento e a editora não deu, ela está pagando um preço mais alto ainda, o de perder um autor como esse. É de uma burrice histórica.

Bia reconhece que achava a relação entre Fonseca e a editora paulista, uma das principais do país, um tanto desgastada há algum tempo, mas "nada anormal".

- Já era uma relação de 20 anos, é natural o desgaste, mas ele não pede nada, não exige nada, é muito na dele. Ele é o autor que um editor pediu a Deus - diz Bia, que dirige com o marido, Pedro Corrêa do Lago, a editora de livros de arte Capivara. - Estava numa ótima editora, nunca me passou pela cabeça que ele fosse sair, nem nunca recomendei a ele que saísse. Mas ele não é um homem de falar, é de fazer.

O que Bia diz ter achado mais estranho foi o comunicado oficial enviado à imprensa pela Companhia das Letras.

- Achei a nota esquisita, uma reação suspeita - avalia Bia. - Não sei o que eles fizeram ou não fizeram, mas pisaram na bola, porque acabaram perdendo um autor como ele.

A corrida pelo passe de Rubem Fonseca, como se esperava, começou no dia seguinte. Bia confirma que ele já recebeu muitas propostas e ficou "até surpreso". Não que o escritor não saiba de sua importância para a literatura brasileira, mas porque, lembra um editor que preferiu não se identificar, ele "não tem ideia do que seja o mercado editorial hoje, do que seja a concorrência", pois estava há muito tempo na mesma casa e cuida pessoalmente de sua obra, sem a intermediação de um agente literário.

- Ele não está com pressa, não tem livros esgotados e está amando fazer o novo romance, saboreando muito esse trabalho. Então, correr para quê? - indaga Bia.

Sem distinção entre pequena e grande editora

Fonseca, que começou a ser publicado pela Companhia das Letras em 1989, apenas três anos depois da fundação da casa, tem 26 títulos seus no catálogo da editora, entre eles "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos", "A grande arte", "Agosto", "Mandrake" e "Feliz ano novo". Seus livros mais recentes são "Diário de um fescenino" (romance, de 2003, 16.400 exemplares vendidos); "64 contos de Rubem Fonseca" (de 2004, 16.200 exemplares vendidos); "Ela e outras mulheres" (contos, de 2006, 22.100 exemplares); e "O romance morreu" (de 2007, seleção de crônicas publicadas originalmente no site Portal Literal, com 6.150 exemplares vendidos até agora).

Sobre o tratamento dado à obra do pai na Companhia, Bia responde genericamente dizendo que "tudo sempre pode ser mais bem editado". Mas afirma que Fonseca não faz distinção entre pequena e grande editora, e que esse questionamento não pesará na hora de escolher a nova casa.

- A Companhia praticamente não existia, e ele foi para lá, fez a editora. É uma pessoa de espírito livre, não é previsível, não é antecipável. Ele tem os critérios dele, mas tem que gostar, achar que está justo. Poucos autores teriam essa coragem de entrar na Companhia quando ela não era nada e sair quando a Companhia é tudo. Eu, como filha, acho bacana, tenho muito orgulho desse espírito livre do meu pai.

***

Bolaño não teria motivado saída de Fonseca, de acordo com a editora

A saída de Rubem Fonseca da editora que o publica desde 1988 ganhou nota moderada da editora, divulgada no dia 6 de maio: "No momento em que os livros do escritor se esgotarem, eles estarão disponíveis para publicação por editora da escolha do autor".

Comentários de bastidores dão conta de que um livro do escritor chileno Roberto Bolaño poderia ter sido um dos pontos da discórdia. Bolaño, morto aos 50 anos em 2003, tem sua obra lançada no Brasil pela Cia. das Letras. Já foram publicados "Amuleto", "Os detetives selvagens", "Noturno do Chile", "A pista de gelo" e "Putas assassinas".

Sem edição brasileira, "La literatura nazi en America" (1996) espelharia Rubem Fonseca em um de seus personagens ficcionais Amado Couto (sem coincidência, nascido na mesma Juiz de Fora). Na obra, Bolaño fez uma enciclopédia imaginária de escritores autoritários, inspirado em autores e reputações reais. As descrições soam exageradas e algo ofensivas, embora não correspondam ao factual. Amado Couto é um criador frustrado, que se espelha e tenta emular o laureado romancista policial.

"Um dia pensou, enquanto esperava com o carro em um descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer alguma coisa a Fonseca. Contou para os seus chefes e estes o ouviram. Mas a ideia não se concretizou. Incluir Fonseca no coração de um verdadeiro romance nublou e iluminou os sonhos de Couto", escreve Bolaño.

Fonseca teria sido consultado pela editora sobre a tradução desse livro mas não se pronunciou a favor de veto. Em entrevista ao Terra Magazine, o proprietário e fundador da Companhia, Luiz Schwarcz, negou que a tradução de Bolaño tenha provocado a saída de Rubem Fonseca. "Não corresponde à realidade."


tags: Rio de Janeiro RJ literatura rubem-fonseca


 
Agora é aguardar o próximo livro.
Fico feliz em saber que será um romance.
Vamos lá, Zé!

márcioafsouza · Belo Horizonte (MG) · 9/5/2009 00:41
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