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Rubem Fonseca: casa nova, livro novo
 
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Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 23/11/2009 · 63 votos · 1
  
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Publicado originalmente por Ubiratan Brasil n' O Estado de S. Paulo, em 07.11.09.

O inédito O seminarista marca a mudança de editora desse grande autor de 84 anos

Rubem Fonseca sempre gostou de mistérios. Escritor que inaugurou a moderna literatura urbana no Brasil ao revelar as entranhas da sociedade e antecipar a escalada de violência no País, ele não se deixa fotografar, tampouco concede entrevistas, embora circule com desenvoltura pelas ruas do Leblon, no Rio, protegido por um boné, passeando na praia, comprando jornais, frequentando cinemas. Também continuam nebulosos os motivos que levaram Rubem Fonseca a deixar a Companhia das Letras no final de abril, interrompendo uma parceria de 20 anos - nenhuma justificativa foi anunciada, o que fez fervilharem os bastidores de fofocas.

"Realmente, o desconhecido cai bem em Rubem Fonseca", graceja Paulo Roberto Pires, diretor editorial do Grupo Ediouro, do qual faz parte a Agir, editora responsável agora pela publicação da obra do autor. O acordo foi acertado em maio e os frutos chegam hoje às livrarias: o romance inédito O Seminarista (184 páginas, R$ 36,90) e a reedição de dois clássicos, Os Prisioneiros (176 páginas, R$ 36,90) e Lúcia McCartney (240 páginas, R$ 39,90). "Nossa intenção era começar pelos extremos, ou seja, o primeiro romance (Os Prisioneiros, de 1963) e o mais recente, que é o inédito", conta Pires. "Mas, como Lúcia McCartney está há um bom tempo fora de catálogo, decidimos incluí-lo no primeiro lote." O segundo, que deverá chegar em janeiro, vai trazer Agosto e A Coleira do Cão.

Pires faz mistério em relação ao projeto que convenceu o escritor a assinar com a Ediouro, depois de um leilão que envolveu as principais editoras brasileiras. Mas certamente pesou favoravelmente a disposição da editora em transformar O Seminarista no primeiro livro a ser lançado também em formato digital no Brasil, para e-book, iPhone e iPod. "A partir da próxima semana, o conteúdo estará disponível para o Kindle e na Applestore", conta Pires, revelando ainda que a editora prepara um site exclusivo para a promoção da obra.

Aos 84 anos, Rubem Fonseca é um aficionado por essas novidades tecnológicas envolvendo sua obra, a ponto de manter uma saudável competição com João Ubaldo Ribeiro. "Estou ligeiramente na frente dele porque recentemente comprei um monitor enorme, que me permite enxergar melhor as letras", brinca Ubaldo.


Um seminarista nascido para matar

Novo livro de Rubem Fonseca é policial que mistura citações em latim, matadores de aluguel, picardia carioca e culinária alemã

Rubem Fonseca tinha terminado O Seminarista quando encerrou seu contrato com a Companhia das Letras. Depois de assinar com a editora carioca, Ediouro, ele fez ainda alguns retoques. O foco do livro é, evidentemente, policial. José é um ex-seminarista que se transforma em matador de aluguel conhecido por Especialista (que também aparece nos contos de Ela e Outras Mulheres). O leitor, aliás, só descobre que ele abandonou a batina depois de alguns capítulos, mas desconfia de algo por conta de profusão de citações em latim.

Ele recebe as "encomendas" de um intermediário conhecido por Despachante até o momento em que decide novamente abandonar o ofício - apaixonado por Kirsten, alemã que traduz livros brasileiros, José se aposenta, desfazendo-se de suas armas. O idílio, no entanto, é curto, pois logo ele começa a receber dicas de que seria alvo de um antigo cliente. Pior: Despachante, até então um amigo confiável, encabeça a lista dos prováveis interessados em seu desaparecimento.

O Seminarista é seu primeiro romance e surge quatro anos depois de Mandrake, a Bíblia e a Bengala. Texto fluente, provoca uma vaga lembrança dos clássicos americanos (especialmente de Raymond Chandler), mas se impõe como brasileiro graças à sua picardia tipicamente carioca. Fonseca continua hábil em conduzir a história, fornecendo aos poucos os detalhes para o leitor, prendendo-o à narrativa. O ponto negativo, no entanto, é a quantidade de digressões que pouco ou nada acrescentam à história, um desvio de percurso que poderia ser mais bem aproveitado. Como quando disseca a forma das diferentes armas ou o sabor dos pratos da culinária alemã - Fonseca parece se divertir com a busca do leitor por algum sentido naquele desvio de rota.

O livro chega com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, e parte deles virá acompanhada de um brinde, candidato a já se tornar objeto de culto: uma edição limitada do conto A Arte de Andar nas Ruas do Rio de Janeiro, que vem acompanhado de um ensaio fotográfico de Zeca Fonseca, filho do escritor. "É uma relação afetiva dos dois com a cidade", conta Pires, ajudando a desvendar um pouco do mistério que envolve a vida pessoal do mais novo autor clássico nacional de seu elenco.

Os hábitos de Fonseca, aliás, só são conhecidos a partir de dicas de amigos. Assim, sabe-se que dorme pouco, acorda muito cedo, lê muito (sobre praticamente tudo), adora cinema (foi o primeiro crítico da revista Veja) e música (rock inclusive), morou algum tempo no mitológico hotel Chelsea de Nova York, conhece como ninguém a literatura americana e, atendendo ao clamor do sangue luso, não só torceu durante muito tempo pelo Vasco da Gama como ainda hoje não resiste a um bacalhau com brócolis.


"Querem saber de uma coisa? Kindle parece fogo de palha''

Rubem Fonseca é fissurado em modernidades tecnológicas e deve vibrar com o lançamento de O Seminarista em formato digital. Mas, em fevereiro, quando a ascensão do livro eletrônico, o e-book, ainda estava entre a fervura e o banho-maria, ele publicou em seu site (abrigado no Portal Literal) um texto em que apresentava sem grande euforia o modelo da Amazon, o Kindle.

A euforia provocada pela nova ferramenta inspirava o início de seu texto: "Está causando um grande furor", escreveu. "As Oprah Winfreys, os David Lettermans, os Jay Lenos da TV, os blogs estão alvoroçados. Tem brasileiro indo aos EUA só para comprar o Kindle."

De repente, uma pequena digressão, na qual Fonseca confirma seu eterno interesse por novidades. "Eu me lembro que há tempos comprei um CD denominado Library of the Future, com o texto completo de cinco mil livros. Tem todos os clássicos que você pode imaginar, desde a Ilíada e a Odisséia, de Homero, passando por todas as tragédias e comédias clássicas gregas."

Mas o que realmente interessa é a viabilidade do e-book. Fonseca apresentava-se, na época, cético em relação ao futuro da nova ferramenta, transformando sua dúvida em motivo de ironia: "Talvez o Kindle precise de mais recursos - toque música, faça fotos e filmes, envie e receba e-mails, possa ser usado na caixa eletrônica do banco para tirar dinheiro, permita download de filmes e dispare projéteis de borracha (ou verdadeiros) para assustar ladrões, já que o número de assaltantes aumenta mais que o número de novos e-books."

Ele continua o raciocínio afirmando que uma longa exposição a telas eletrônicas, segundo algumas pesquisas, é prejudicial à saúde. "Outras pesquisas dizem que se você mantiver constantemente uma distância de pelo menos 50 centímetros da tela, se parar de ler a cada 30 minutos durante pelo menos 20 minutos, de preferência caminhando neste intervalo, se fizer isso, além de pingar colírios na vista de dez em dez minutos, poderá evitar a "Síndrome de Tela de Computador", dor de cabeça, olhos cansados e secos, visão embaçada, além de outros sintomas que variam conforme o leitor. Ler na cama está fora de cogitações."

Finalmente, o golpe de misericórdia: há coisa melhor do que ler em um livro?, questiona. "Você pode ler os jornais na internet, no entanto todo mundo prefere ler as notícias no jornal de papel. Por que será? Vício? Conforto? Sabedoria?" Fonseca termina o artigo lembrando que o significado da palavra inglesa Kindle é "arder, acender, incendiar". "Querem saber de uma coisa, aqui entre nós? Esse Kindle me parece fogo de palha", arremata.


A internet agora é grande trunfo para a divulgação

A promoção de O Seminarista contará também com um recurso que se revela cada vez mais eficaz de divulgação: a internet. A partir da próxima semana, será possível acessar o endereço eletrônico http://www.oseminaristaolivro.com.br no qual o leitor poderá ouvir Rubem Fonseca lendo trechos da obra.

"Trata-se de um canal direto com o público realmente interessado na obra", comentou Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, ao Estado, durante a Feira de Frankfurt, em outubro. "Algumas pesquisas internas comprovam ser um meio mais eficaz que resenhas na imprensa." A editora promoveu a reedição de grandes autores nacionais, como Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, por meio da rede mundial de informação. De fato, os chamados hotsites atendem especificamente um público ávido por novidades. A editora Record, por exemplo, mantém as fãs brasileiras da escritora Meg Cabot constantemente alimentadas no endereço http://www.galerarecord.com.br.

Já o novo livro de Dan Brown, O Símbolo Perdido, só será lançado pela editora Sextante no dia 24 mas, desde setembro, o hotsite http://www.sextante.com.br/simboloperdido sacia os leitores nacionais - no final de outubro, por exemplo, foi revelado o texto da quarta capa do livro.

Paulo Roberto Pires, da Ediouro, conta que a obra de Rubem Fonseca também vai se desdobrar como graphic novel, no fim do próximo ano. "O título já foi escolhido: Agosto. Estamos agora pesquisando qual artista tem o melhor perfil para completar o trabalho."


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gOSTO DO RUBENS FONSECA E INDIQUEI O LIVRO NO MEU BLOG LITERÁRIO.
A CRÍTICA ANDA MALHANDO O LIVRO,MAS...O Q/VALE É O LEITOR. VOTADO!

Mirokca · Salvador (BA) · 20/11/2009 16:50
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