Publicado originalmente em 29/04/2008.
Ficção científica lançada pela Rocco é a estréia do ex-Mutante Arnaldo Baptista na literatura. Leia aqui um trecho do livro, que o autor autografará nesta quarta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro.
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O compositor, baixista e pianista foi um dos fundadores e líder, na década de 60, do grupo Os Mutantes, admirado por artistas tão diferentes como Kurt Cobain, Beck, e Belle & Sebastian, entre outros. Agora ele publica seu primeiro livro, escrito hà 20 anos.
Rebelde entre os Rebeldes reúne ingredientes do talento de
Arnaldo Baptista que os fãs de sua música e de seu trabalho como artista plástico saberão reconhecer: humor, psicodelia e imaginação sem freios permeiam a aventura interplanetária que começa com uma descoberta inusitada. A especialista em engenharia nuclear Maggie encontra guardado nos subterrâneos de sua casa, uma antiga construção na Califórnia, uma passagem para os laboratórios do Dr. James Harness, cientista morto há mais de cem anos. Ao investigar o esconderijo do pesquisador, descobre uma nave espacial, construída com base em conceitos revolucionários.
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Chegamos ao endereço indicado pelo espírito do dr. Harness. Viemos o mais rápido possível, pois o assunto parecia ser de extrema importância. Desconfiei de cara daquela casa velha, uma energia muito estranha vinha de lá.
Tocamos a campainha e uma moça muito bonita veio ver quem era. Ela deu uma espiada através do vidro da janela e se assustou ao ver Apolinário, Mitchum e eu, os inocentes guiados por dizeres vindos do além. A moça deve ter ficado com medo, pois saiu correndo. Esperamos um pouco, atônitos. Quando, enfim, percebemos que ela não viria abrir a porta, entramos na casa usando um canivete para forçar a janela.
Não vimos ninguém. A moça devia ter escapado por uma espécie de porta secreta. Logo descobrimos um banheiro mal escondido por um móvel antigo, e dentro dele um túnel que entrava por debaixo da terra. Seguimos pelo túnel e chegamos a uma enorme sala subterrânea, diferente de tudo o que havíamos visto na vida. Dentro dela, para nossa surpresa, havia uma nave! Lá estava a mulher, na cabine de comando!
Quando tentamos nos aproximar, a nave e sua tripulante começaram a se diluir no ar, até desaparecerem totalmente.
Ficamos os três ali, boquiabertos, olhando uns para os outros, ávidos por alguma explicação para aquilo tudo. Foram longos minutos de silêncio, as tentativas de fala paravam no meio. Olhávamos para todos os cantos, perplexos com o que tinha ocorrido naquele lugar. Apolinário foi o primeiro a voltar ao seu estado normal, quero dizer, a algum estado mais tranqüilo, porque depois do que vimos nunca mais conseguiríamos voltar ao normal. Ele disse:
– Então aqui era o famoso laboratório escondido do dr. James Harness! Eu me pergunto como é que não foi descoberto durante todos esses anos.
Saindo da letargia, falei:
– Vocês sentiram a energia estranha quando entraram aqui? É como se o espírito do dr. Harness tivesse influência sobre os objetos e as predisposições das pessoas a achá-los. Provavelmente foi aquela mulher que sumiu junto com a nave espacial quem descobriu esse laboratório secreto. Ela deve ser uma pessoa extraordinária por ter sido escolhida para desvendar esses segredos centenários.
– Você tem razão, e ela literalmente evaporou das nossas mãos. Olha essas anotações! A moça vinha investigando tudo por aqui. Temos que descobrir para onde a nave e a mulher foram e com que fim. Ela pode ser perigosa e certamente temos a obrigação de proteger nossos companheiros de vida na Terra. Acho que deveríamos informar o governo, a polícia e os cientistas.
– Você está certo, Mitchum, vamos telefonar imediatamente para a polícia e tentar explicar tudo antes que seja tarde demais – concordei.
Subimos pelo túnel e ligamos para a polícia. Falamos para eles que estávamos passando ali por perto e, após ouvir um forte ruído, entramos na casa para ver o que era e acabamos descobrindo a nave, os corpos decompostos e todos aqueles objetos.
Em pouco tempo, o local pululava de policiais que observavam e fotografavam tudo, principalmente os corpos, que para suas mentes fascinadas pelo mórbido ofereciam um espetáculo à parte.
Nós fomos conduzidos a um quarto contíguo ao banheiro, na parte de baixo da casa, onde nos esperavam dois avalheiros circunspectos com pesados paletós de tweed. Eles se identificaram como cientistas do FBI, e disseram que estavam encarregados do caso. Sentamos em torno de uma mesa e explicamos que havíamos primeiro obliterado os verdadeiros fatos por acharmos que a polícia não estava preparada para ouvir de nossas bocas a história completa. Poderia parecer loucura da nossa parte.
Mas agora nos sentíamos seguros o suficiente para contar tudo a nossos colegas de ciência sem subterfúgios.
Quando encerramos nosso relato, os dois cientistas-policiais ficaram muito perplexos. Eles nos convidaram a descer até o salão secreto para examinar os equipamentos e ajudá-los a entender o que estava acontecendo, pois havia algo de desconcertante naquela história toda. Muito gentilmente, os dois providenciaram nossa estadia em um bom hotel da região, dizendo que nós três éramos cruciais para as investigações. Também deixaram à nossa disposição um automóvel do governo americano, para que fôssemos ao hotel quando quiséssemos. Por fim, disseram que contavam com a nossa presença na manhã seguinte para um encontro com seus superiores.
Chegando ao hotel, que se chamava Red Apple, resolvemos discutir os fatos. Pedimos três Coca-Colas no bar e uma porção de salgadinhos. Estávamos nervosos. A alma do dr. Harness não parecia estar brincando conosco quando especificou a urgência do caso e nos mandou ir até os Estados Unidos. Começamos então a montar o quebra-cabeça de impressões preliminares a respeito do subterrâneo e dos objetos que lá se encontravam:
– Eu não consegui ver direito todas as coisas que estavam lá – disse Mitchum. – Estranhei aqueles cientistas tão atenciosos. Para dizer a verdade, nunca ouvi falar de cientistas do FBI. Já ouvi falar de cientistas da NASA, das Universidades, até do Exército, mas do FBI, nunca.
– Ora, cale a boca, Mitchum! – disse eu meio nervoso por concordar em parte com a opinião de meu amigo. – Há ocasiões em que nossas mentes se apegam a fatos sem importância nenhuma. Não é necessário nos preocuparmos com as intenções dos homens do FBI, pelo menos por agora. Precisamos nos concentrar no problema maior. Para onde foi aquela mulher e a nave?
Apolinário concordou comigo de imediato:
– Sinceramente, não acho que podemos fazer muita coisa a respeito do sumiço da nave e da mulher. Talvez seja possível reconstruir a nave com base nos planos e réplicas dos objetos encontrados lá embaixo. Quem sabe assim a gente consiga seguir a mulher, ou pelo menos entender para onde ela foi. O governo americano com certeza disponibilizará os recursos necessários.
– Deveríamos propor também a aquisição dos terrenos vizinhos à casa, para que haja espaço suficiente para a transformação da área em um grande laboratório de pesquisas.
Mitchum também gostou da idéia. Depois de concordar com a cabeça, acrescentou:
– Imagino que o dr. Harness tenha sido o equivalente a um Einstein, ou mais, se pensarmos nas coisas extremamente estranhas que temos presenciado. Pena que a humanidade não tenha descoberto o pensamento desse homem mais cedo, assim evitaríamos dissabores.
– Não acho que ele estivesse totalmente enganado em ocultar seus inventos – disse Apolinário. – Algumas vezes me perguntei o que teria feito Einstein se tivesse uma visão clara em sua época. Será que ele sabia que suas teorias levariam a Terra a se tornar esse lugar estranho, uma ilha no espaço cheia de bombas atômicas e com idiotas se ameaçando o tempo todo? É, na realidade, uma situação bastante estúpida! Sem querer ser radical.
Para mim, havia chegado a hora de resumir a conversa e finalizar:
– Bem, então está resolvido. Daremos essas sugestões e poderemos também compartilhar nossas descobertas com os cientistas do Brasil, para que participem das investigações, de acordo?
Meus dois amigos balançaram a cabeça em sinal afirmativo.
– Vamos descansar um pouco então. Desde que chegamos, ainda não pregamos o olho e vejo que teremos dias longos pela frente.
No momento em que vi aqueles três estranhos batendo em minha porta, fui tomada de um súbito pânico.
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