Publicado originalmente em 11/10/2006.
Com ensaios ligando Ferreira Gullar a Freud, Marx e Bakhtin, dois leitores do Literal foram os vencedores do concurso que comemora os 30 anos do "Poema sujo". Confira.
O alto e o baixo em Poema sujo
Paulo de Toledo
Muito já foi falado, escrito e publicado sobre
Poema sujo, obra que, para muitos, seria a melhor de Ferreira Gullar, o ponto mais "alto" da carreira do autor de
A luta corporal.
Poema sujo, como todos os que o lêem percebem, é um poema organizado pela memória. Se Gullar fosse um poeta grego, provavelmente teria pedido a bênção para a deusa Mnemósine. E, em nossa opinião, além da memória, o que organiza o poema são os pares opositivos, dentre eles: memória/esquecimento, escuro/claro, limpo/sujo, belo/feio, palavra/silêncio, presente/passado etc. etc. etc. Porém, o principal deles é o par alto/baixo.
O poema começa assim:
turvo turvo
a turva
(...)
escuro
menos menos
menos que escuro
(...)
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro: coisa alguma
e tudo
(...)
Esse "turvo turvo", essa escuridão que vira claridade, é o esquecimento virando memória, que depois vira novamente esquecimento ("mas como era o nome dela?", p. 12) e assim sucessivamente.
A relação alto/baixo, além de conceitual (o que nos remete às idéias de Bakhtin), é também concretizada, no poema, por diversas imagens. As que melhor representam o "alto" situam-se nos trechos do poema em que lemos as seguintes passagens: "ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico" (p. 14); e "alguém que venha de avião dos EUA / poderá ver" (p. 73). Essas imagens traduzem duas diferentes formas de ver o mundo: a primeira, em que o poeta está num 707, mostra que, apesar do distanciamento físico, pode-se ainda haver uma proximidade emocional, desde que o sujeito fique "perfeitamente fora / do rigor cronológico / sonhando (p. 14); a segunda imagem do avião, em que americanos sobrevoam a costa do Nordeste brasileiro durante a 2ª Guerra Mundial, simboliza a impossibilidade de se compreender uma realidade que só é possível ser captada pelo sujeito que viveu, que sentiu na carne, aquela realidade: "nada disso verá / de tão alto / aquele hipotético passageiro da Braniff" (p. 73).
O "alto" (no sentido bakhtiniano), em
Poema sujo, também é representado pelas belas imagens e pelos sentimentos "elevados", como o amor, a amizade, a saudade etc. Por sua vez, o "baixo" perpassa, impregna e domina toda a obra em imagens contundentes, como:
"um urubu / que é ele mesmo um dia preto farejando carniça / e na carniça / junto do matadouro / que fede / o dia (um dia) apodrece / envolvendo o dia" (p. 41)
"o apodrecer de uma coisa / de fato é a fabricação / de uma noite: / seja essa coisa / uma pêra num prato / um rio num bairro operário" (p. 51)
"um rio / não apodrece como as bananas / nem como, por exemplo, / uma perna de mulher" (p. 56)
"A morte se alastrou por toda a rua, / misturou-se às árvores da quinta, / penetrou na cozinha de nossa casa / ganhou o cheiro da carne que assava na panela / e ficou brilhando nos talheres / dispostos sobre a toalha / na mesa do almoço." (p. 68)
"(...) cidade / que me envenenas de ti, / que me arrastas pela treva / me atordoas de jasmim / que de saliva me molhas me atochas / num cu / rio me fazes / delirar me sujas / de merda e explodo o meu sonho / em merda." (p. 83)
Mas por que Ferreira Gullar criou um poema em que, apesar da alternância entre as imagens "baixas" e "altas", o "baixo" (o
sujo) parece predominar?
Talvez encontremos uma resposta nas palavras de Bakhtin sobre a obra de Rabelais:
As coisas novas, as riquezas que estão escondidas na terra são muito superiores ao que existe no céu, na superfície da terra, nos mares e rios. A verdadeira riqueza, a abundância não residem na esfera superior ou mediana, mas unicamente no baixo. (Bakhtin, p. 323)
Quem sabe, Ferreira Gullar, na sua situação de exilado e com a morte o espreitando a cada esquina, tenha percebido que a verdadeira "riqueza" está oculta sob camadas grossas de repressões civilizatórias e que só escavando essas camadas (ou seja, rememorando e estando "fora / do rigor cronológico / sonhando") poderia ele encontrar o ouro bruto da vida, com suas sujeiras, dores e delícias.
Referências bibliográficas:
BAKHTIN, Mikhail.
A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. O contexto de François Rabelais. São Paulo/Brasília: Edunb / Hucitec, 1996.
GULLAR, Ferreira.
Poema sujo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
Um poema de tempos sujos
Tatiana Aparecida
Em 1975, Ferreira Gullar escreve o Poema sujo em Buenos Aires. Trata-se de uma obra poética que emerge durante o exílio do autor. Os versos contidos em mais de sessenta páginas são gerados no contexto da ditadura militar. Em termos de conteúdo, os versos perpassam pelo tema da repressão nos mais variados aspectos, a saber: familiar, política, sexual e sócioeconômica. Tendo como referências teóricas autores como Freud e Marx, analisaremos alguns pontos da obra.
No início do poema, Gullar se pergunta:
"Do corpo. Mas que é o corpo?". Apesar do caráter filosófico da questão, percebemos que a intenção do poeta é discretamente revelar sua própria condição de exilado e foragido:
"Meu sangue feito de gases que aspiro/ dos céus da cidade estrangeira [referência à cidade de Buenos Aires]
/ com a ajuda dos plátanos/ e que pode – por um descuido – esvair-se por meu/ pulso/ aberto... Corpo que se pára de funcionar... não há Ferreira Gullar... e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta/ estarão esquecidas para sempre". Aqui, temos a discussão do corpo que enseja a discussão da morte. Mesmo em terras estrangeiras, o autor sofria a constante ameaça do regime militar. Poderia ser preso, torturado e morto a qualquer momento. O corpo não se constitui tão-somente de nossa carne e osso, já que sempre encerra em si mesmo a consciência dos fatos e, por sua vez, acaba se tornando um testemunho da história: o
"corpo-fato". Durante a repressão militar brasileira, a morte de centenas de pessoas se deu em razão destas "muitas pequenas coisas acontecidas no planeta", precisavam ser esquecidas para sempre. Há uma ironia em
"muitas pequenas coisas". Na verdade, são grandes coisas. São grandes e injustos fatos testemunhados pelo "corpo-fato".
Escolhemos esse momento do poema, "o momento do corpo", já que podemos associá-lo com o texto de Freud. Em
Mal-estar na civilização, temos enunciado que três seriam as fontes de onde o sofrimento humano provém: a força da natureza, a fragilidade de nossos corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos dos seres humanos na família, no Estado e na sociedade. O Estado, agora autoritário, seria a fonte de sofrimento do poeta. E de milhares. Além da sociedade que anula o trabalhador. O poeta não está mencionando o sofrimento físico advindo de um corpo doentio ou velho, mas o flagelo do corpo advindo da agressividade humana, da agressividade do homem em relação a outro homem. É o sofrimento proveniente das relações intersubjetivas. Ademais, temos versos que expõem essa relação conturbada e agressiva entre os homens:
"Que faço entre coisas?/ De que me defendo?"; "... de noite/ todos os fatos são pardos".
Na verdade, o
Poema sujo é uma resposta à insatisfação de um desejo (em suma, do princípio do prazer) do poeta: no momento, não é possível retornar ao Brasil. Portanto, reviver/resgatar no poema a infância e a adolescência em São Luís do Maranhão é um modo de mitigar a saudade e se opor ao horror institucionalizado. Vejamos os versos finais que indicam o seu constrangimento diante do exílio:
"O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade". Então, o corpo "nordestino, maranhense, sanluisense, ferreirense" é inerente a Gullar mesmo que, espacialmente, ele esteja em Buenos Aires. Eis o
"corpo-fato" (expressão usada pelo próprio poeta).
Quanto a Marx, as referências não poderiam ser mais explícitas. O pensamento marxista permeia a obra. A infância vivida em São Luís não é resgatada de modo passivo, pois além da lembrança há a respectiva reflexão suscitada por tal lembrança. São inúmeros os versos que comprovam a adesão do poeta ao pensamento marxista, já que as injustiças sociais são oriundas da exploração do trabalhador:
"combatente clandestino aliado da classe operária/ meu coração de menino"; "busca de cobre e alumínio/ pelos terrenos baldios/ economia de guerra?"; "vale quem tem"; "nada vale quem não tem"; "nada vale quem nada tem"; "nada vale quem nada tem neste vale"; "nada vale quem não tem nada no vale"; "porque a luz da lamparina/ não hipnotiza as coisas/ como a eletricidade/ hipnotiza"; "seja/ um rio num bairro operário"; "onde aquela gente trabalha/ nem do mínimo salário/ que aquela gente recebe"; "e as bananas/ fermentando/ trabalhando para o dono – como disse Marx – ao longo das horas mas num ritmo/ diferente (muito mais grosso) que o do relógio"; "Porque/ diferentemente do sistema solar/ aesses sistemas não os sustem o sol e sim/ os corpos/ em que torno dele giram: não os sustém a mesa/ mas a fome/ não os sustém a cama/ e sim o sono/ não os sustém o banco/ e sim o trabalho não pago". Não se esgotam os exemplos. Temos o fetichismo e a reificação. A força de trabalho do operário se transforma em mercadoria, e por meio da
mais-valia temos o enriquecimento incessante dos donos dos meios de produção. O relógio, tempo mecânico, passou a controlar o ritmo do homem. Ritmo, por sua vez, além do suportável. Além disso, a mercadoria hipnotiza e coisifica o homem. Portanto, temos a repressão advinda do sistema capitalista que transforma tudo e a todos em coisas, em mercadorias.
Em suma, seria necessário explorar todas as referências marxistas que enumeramos. Porém, a exposição ficaria muito grande. Há referências à economia capitalista maranhense: "cobre, alumínio, estrada de ferro, eletricidade, babaçu". Temos a vida provinciana constrastada com a exploração do sistema capitalista. Até hoje, uma região brasileira muito pobre visto que explorada. Maranhão, periferia plena do capitalismo. Apesar da democracia, os tempos continuam sujos...
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