Publicado originalmente em 10/05/2006.
O leitor é convidado a continuar um texto dos cinco autores do Portal e concorre a um exemplar de um livro do autor escolhido autografado. Conheça os leitores que tiveram coragem de dar continuação a textos de Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura e Rubem Fonseca na promoção do Portal Literal Agora é com você.
Ferreira Gullar
Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa
Ferreira Gullar | Renata Miloni
Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa.
Como se a secura
durante o tempo
ficasse grudada no
buraco que cega
a poeira da parede
impedindo os ouvidos.
E os livros sabotados
de repente
se distanciassem da falsa
ficção e pulassem em
suposto abismo dos mais
distantes e incontroláveis.
E todas as palavras
esquecidas
se encontrassem na travessia
do inventado para o real
a se sentissem sufocadas por
aquilo antes óbvio.
Como se a volta
dolorida
fosse improvável e a mentira
se tornasse suportável e
os gritos já não parassem
o tempo escondido.
Lygia Fagundes Telles
Abro meu guarda-roupa e pego a boina e as luvas cor-de-caramelo que a tia fez. Mas essa boina não ficaria melhor sem essa pena de ganso? Mas se tiro a pena pode ficar um buraco no crochê, paciência, eu digo, e enterro a boina até as orelhas. Dou uma eriçada na franja que de tão comprida está entrando pelos meus olhos, tenho que aparar essa franja. Calço as luvas. E aparar as unhas. Olho Matilde que continua taque-taque, roendo as próprias.
Luvas cor-de-caramelo
Lygia Fagundes Telles | Tânia Cardoso de Cardoso
Abro meu guarda-roupa e pego a boina e as luvas cor-de-caramelo que a tia fez. Mas essa boina não ficaria melhor sem essa pena de ganso? Mas se tiro a pena pode ficar um buraco no crochê, paciência, eu digo, e enterro a boina até as orelhas. Dou uma eriçada na franja que de tão comprida está entrando pelos meus olhos, tenho que aparar essa franja. Calço as luvas. E aparar as unhas. Olho Matilde que continua taque-taque, roendo as próprias. Quem olha assim para Matilde não entende o que se passa. Ela parece tão indefesa! Ao mesmo tempo sempre parecera tão forte, com tanto vigor.
Matilde e eu nascemos com seis anos de diferença. Ela veio primeiro – a urgência sempre gritando dentro dela. Desde pequena fora uma criança diferente, com o olhar que penetrava as pessoas. Aprendeu a ler e a escrever cedo. "Essa criança promete", dizia nosso pai. Mas gostava mesmo era de ler fotonovelas, ver filmes românticos na frente da tv. Não foi uma nem duas as vezes que minha mãe flagrou Matilde vestida de Marilyn Monroe, Greta Garbo – ou dançando como Fred Astaire, com a vassoura de palha. Matilde não gostava de brincar com as outras crianças; sempre havia alguma confusão e a brincadeira acabava cedo. Ficava horas ouvindo a conversa dos adultos. Meu pai, no início, achava engraçado, brincava com a situação. Mas Matilde começa a dar palpites. E isso incomodou papai. "De onde essa menina tira tais idéias?", dizia ele entre um gole e outro de vermute. O mesmo que Matilde adorava provar quando ninguém estava por perto.
Nessa época nasci. No início Matilde não deu muita bola. Brincava comigo como se eu fosse uma pequena personagem de suas histórias. Mas as diferenças foram aparecendo logo nos primeiros anos. Eu, compenetrada, sempre disposta a ajudar mamãe em tudo; Matilde, com ar de preguiça, ficava horas na frente do espelho sem acabar sequer de tirar o pó da penteadeira. Eu era uma aluna exemplar na escola. Estudava muito, tirava notas boas, ia à missa com mamãe e ajudava na hora de preparar o bolo. Matilde passava de ano, mas não estudava e muito menos queria saber de ir à missa. Não que não acreditasse em Deus, ao contrário, muitas vezes via Matilde fazendo suas orações em voz alta. "Meu Deus, por favor, quero muito viajar para o outro lado do mundo", ou "Por favor, meu pai, ajude a minha mãe a ter bastante trabalho para que possa nos comprar sabonetes perfumados". Matilde vivia num mundo próprio e não gostava de disciplina. Mas não era exatamente egoísta, apenas não dava bola para o mundo exterior. Por isso não gostava de missa, nem de ir para o colégio.
Quando crescemos, enquanto Matilde namorava – namoros que nunca davam certo –, eu, logo cedo, começava a trocar cartas com um colega da escola. E Matilde ria, ria muito de minhas cartas, embora me desse muitas idéias para escrevê-las. Matilde começara a fumar; fumava escondida fazendo poses que só ela sabia fazer. Mas para desespero de meus pais, queria fumar nas festas, na frente de todos, e beber feito homem, sem ter que sentar com as mulheres e falar da vida doméstica que ela tanto detestava. Meu pai ficava furioso. Até porque papai havia trocado o vermute, já há algum tempo, por bebidas mais fortes (isso eu sei porque Matilde me contou) e se tornava cada dia um pouco mais agressivo.
Matilde o enfrentava, com aquele olhar que até hoje só vi nela, e com gritos. Palavras mais dramáticas do que duras. E eu ficava quieta, no meu canto, pensando no dia do casamento, da formatura do curso Normal, que eu estava para concluir (enquanto mamãe se punha a rezar).
Mas, no quarto, quando íamos dormir, Matilde se deitava e, no silêncio da noite, eu escutava taque-taque; era minha irmã roendo as unhas, depois os dedos. Acho que era a forma de Matilde mostrar que os ossos tremiam e que tinha alguma coisa que lhe dava medo.
Quando completei 19 anos casei. Papai e mamãe ofereceram uma festa simples, simples como o meu desejo de casar e ter filhos. Matilde não gostava de meu marido, dizia que ele era um parasita preguiçoso. Mas acho que minha irmã sentia que o tempo passava e ela nem havia se tornado uma artista, nem havia ao menos se casado. Ela queria casar, queria muito! Só não queria o casamento que conhecia, não queria ser professora que tivesse que preparar aulas, nem falar em bordados.
E lá ficou Matilde, solteira, vivendo na casa de meus pais, entre o sonho e o tédio na vida que nunca fora dela (ela sentia isso). Mas as brigas com papai eram constantes, principalmente quando ele bebia ou quando Matilde resolvia sorrir para os cadetes na frente da Escola Militar. E como as notícias corriam!
No segundo ano de casamento, fiquei grávida de meu primeiro e único filho, para felicidade de meus pais. Matilde desiste do curso Normal. Novamente o desespero de minha mãe, novamente a briga com meu pai. E Matilde a ler fotonovelas e assistir a filmes enquanto ajudava, do jeito dela, minha mãe nas lidas da casa. E à noite, taque-taque, taque-taque vindo do quarto de Matilde. Eu observava tudo de longe, sem nunca entender exatamente o que se passava com minha irmã.
O tempo passou, meu filho já era grandinho nessa época, e fomos morar em outra casa. Um dia, após as mesmas discussões de sempre, meu pai proíbe Matilde de sair de casa. Tranca a porta, as janelas e promete uma surra caso ela saia sozinha. Mamãe e papai haviam combinado de ir lá em casa jogar cartas. Minha irmã não quis ir – nem com o tempo ela aprendeu a gostar de meu marido. Minha mãe foi com o coração apertado. Matilde ficara em casa, sem poder sair, sem dar uma palavra, apenas observava com o mesmo olhar que lhe acompanhava desde que nascera. Foi com esse olhar que ela observou meus pais saírem.
Lembro bem desse dia, ganhamos no jogo de canastra; minha mãe parecia nervosa e preocupada. Pediu para voltar mais cedo. Não queria deixar Matilde sozinha. Meu pai tomou o último gole da garrafa e levantou com um suspiro. Passava das dez horas quando retornaram pra casa. Ao entrar, minha mãe dá um grito. Lá estava Matilde no chão. Cabelos arrumados, unhas pintadas (o que restava delas), com o perfume dos sabonetes que tanto gostava. Ao lado estava a arma de meu pai, caída junto ao corpo. Foi apenas um tiro, apenas um. E lá estava Matilde, deitada, parecendo dormir, pela primeira vez sem taque-taque.
Hoje moro novamente na casa de meus pais, durmo no mesmo quarto que eu e minha irmã dormíamos. Meu pai parou de beber, minha mãe de rezar. Novamente olho as unhas, as luvas e penso na pena de ganso. Mas se tiro a pena pode ficar um buraco no crochê. Olho Matilde que continua taque-taque, roendo as próprias unhas. Quem olha assim para Matilde não entende o que se passa. Ela parece tão indefesa! Ao mesmo tempo sempre parecerá forte e com vigor. Enterro mais a boina na cabeça, penso que devo aparar a franja. Calço as luvas cor-de-caramelo que a tia fez, bato a porta e saio. Morro de medo de roer unhas.
Luis Fernando Verissimo
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualqer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.
Luis Fernando Verissimo | Ana Peluso
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualquer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro. E comigo. Ele, outrora, um boa pinta, e não sei se, proposital ou desgraçadamente, metido em roupas que comprovavam sua ruína, me conta da verdadeira bancarrota blues da vida de um homem.
Quis o destino que ele fosse despedido. Trinta e tantos anos de casa. Coincidiu e se aposentou. Quis o destino que ele fosse louco por blues. Quis também o destino que ele fizesse uso do fundo de garantia, que a princípio não era pouco, para abrir um bar noturno. E quis ele mesmo, e não o destino, que o bar tivesse música ao vivo. Às terças, quintas e sábados. "Os dias que mais combinam com blues!" "Sério!" Quis, idem, ele, eufórico, já quase maníaco, nessa neobusca de pós-aposentado – e as redundâncias são todas por conta dele - chamar alguns amigos do começo da vida para tocarem no bar. Os sobreviventes. E parecia que o destino conspirava para tudo dar certo.
Para ele, antes de tudo um resistente, aquilo soava como uma espécie de pressentimento de que algo aconteceria, e sua vida mudaria. Para sempre. Os anos dados como perdidos, gerenciando contas, para levar para casa a fama de "tesoureiro de partido", quando um escândalo financeiro abalou a empresa. Um pé na bunda da mulher aos quarenta. Justo quando ele mais precisava. De mulher, e dela mesma, a dele. A calvície, a barriga, e toda bagagem que se tem quando se chega na esquina. Aquela aonde todos chegam. Os anos de solidão que se sucederam à separação. A desconfiança, o medo de se entregar a um novo amor. A ejaculação mental precoce. O pânico do primeiro beijo. Tudo de novo. "Pura recorrência arcaica", como ele gostava de definir sua situação. Pois então. Parecia muito justo que ele passasse o resto de seus dias fazendo o que mais gostava. Ganhar algum dinheiro, ouvindo os amigos tocarem blues. E por algum tempo ele teve isso – concedo. Cheguei a conhecer o bar, logo no início, inclusive. Também fictício. Mas um luxo. Só que o destino voltou a querer, e um dos amigos, músico, levou até o bar, certa noite… ela.
Melinda. Sim, a mulher, nada fictícia, que mudaria de vez o rumo da história do meu amigo chamava-se Melinda. Era uma louraça que cantava como Billie Holiday, mas não sabia disso. Insegura, como um bicho perdido. Voraz como um bicho perdido. E meu amigo se apaixonou por Melinda num tempo que deve ter durado uma única e semifusa nota em uníssono a percorrer a escala musical completa. De bemóis a sustenidos. Do topo da sua voz até a ponta das unhas dos seus dedos dos pés. Sim. Ele se apaixonou por Melinda todinha, e de forma circular, percebi. A ele, naquele momento, nada daquilo parecia ficção, e nunca saberei realmente se ele chegou a saber que foi. A voz melancólica, e todo o restante que Melinda carregava dela mesma, e que não era pouco, fez dele, aos sessenta, um anjo caído. As asas de pseudoquerubim-sênior se trincaram. Mas ele ainda podia voar pelo simples desejo de vislumbrar um pouco do paraíso. Uma vez mais.
Logo vislumbrou ao menos a chance de o céu descer a terra. Terça-feira, final de tarde, salão vazio, e Melinda com o olhar perdido em um ponto que não adiantava nada do que ela pudesse estar pensando. E ele se declarou. Estava apaixonado como nunca. Não se sentia assim desde os quinze anos, jurava! Parecia renascer! Sentia no peito a coragem que o mundo toma de volta quando se começa a acreditar que ela existe! Não entendeu direito, mas me contou que Melinda mantinha os lábios trêmulos enquanto ele falava, e que caiu em um pranto convulsivo, assim que ele perguntou "Aceita?". Em seguida ela o agarrou, e fizeram amor loucamente, em cima da mesa que ficava ao lado do piano. A mesma à que ele se sentava para ver Melinda cantar. Todas as terças.
Por algum tempo, o romance sobreviveu de sua própria eclosão. Mas Melinda era insaciável, e de nada adiantou meu amigo tentar dar o mundo para ela. Nem gozos suplementares, que complementavam os seus. "Queria era ficar famosa!", confessou a loura, uma noite, depois de se amarem. O cigarro aceso na penumbra, a fumaça se enrolando pelo ar. Meu amigo não sabe, mas enquanto me conta sua história, eu teço meus pontos de vista particulares, que ele – ou qualquer outra pessoa – poderia, prévia e vulgarmente, tomar por julgamento, mas juro: eu não chego a tanto. Só acho que Melinda não era para ele. Mas não poderia lhe dizer isso. Jamais.
Então, o sonho de Melinda era cantar, dar certo e ser feliz? Claro que ela não tinha a menor noção do que significava a última hipótese, que se travestia em síntese para ela, mas sonhava. Talento para isso, ela tinha. Outros atributos jorravam pelo decote da blusa, e dançavam por baixo da saia justa. Daquele tipo que vai até os joelhos, se afunilando e formando uma sinuosa silhueta de sereia, ou algo similarmente erótico. E isso acontecia, ali, na frente de todos.
Aos poucos, o bar passou a lotar às terças-feiras. Todos queriam ver Melinda cantar com os olhos semicerrados por entre as mechas louras, a voz rouca. E assim foi. Nos outros dias de serviço, aparecia um ou outro freguês. Alguns pensando que era "dia de Melinda". Quando percebiam que não era, na maioria das vezes pediam a conta e iam embora. Mas nas terças, a noite era nobre. O bar literalmente lotava, e figurava por ali uma aura de glamour que antes não existia. "Melinda tinha o dom de transformar um ambiente em outro, completamente diferente. Algo que não era 'de verdade'. 'Você consegue compreender?' Era sua aura!" Eu, claro, compreendia, a contragosto e já meio embevecido.
Me parece bastante lógico e compreensível aceitar o fato de que não demorou muito, e Melinda foi descoberta por um produtor artístico. Meia boca. Mas melhor do que nada. No entanto, a primeira afirmação não ficou tão clara para ela, o tanto que se mostrou cristalina para meu amigo e eu. Ela faiscava pelo salão, como uma estúpida lâmpada ao sabor do vento, que sequer sabe que existe.
A princípio, ele a levaria para a Argentina, depois México, Equador, Honduras. A carreira dela seria internacional. E, no brilho dos olhos sonhadores de Melinda frente à proposta que se desenhava com traços de suas preferências, meu amigo logo se deu conta que não apenas seu bar iria à falência, muito em breve, mas também que seu coração acabara de pedir concordata. Ali, naquele final de noite. Mais uma noite, daquelas comuns para muitos, mas nunca para ele. Em que Melinda, saciada pela repentina fama, depois do bar fechado, faria amor com ele até amanhecer.
Melinda partiu num domingo. Não fez seu o show de despedida, conforme havia prometido ao seu fiel público. Consigo levou perfumes e colares fictícios que meu amigo lhe deu de presente nesse tempo em que dividiram sonhos. Ela, o de ser famosa. Ele, o de tê-la consigo para sempre. Não demorou três meses, e o bar realmente foi a pique, como um Titanic. Faliu, deixando meu amigo cheio de dúvidas, dívidas, profundamente infeliz, e o pior de tudo, sem Melinda. Profundamente mergulhado naquilo que ele chamava de recorrência arcaica, agora "Decididamente? Nunca mais.". Sem paz. Sem sentido mais.
Hoje, quase três anos depois, ele me conta que recebeu um telefonema na pensão, na antevéspera, avisando que Melinda fora dada como morta em Punta del Leste. Uma tempestade em alto mar, e o iate virou. Porém, nada do corpo, nada de provas. E a polícia deu o caso por encerrado. Melinda não tinha família. Não, que se soubesse. A prova, talvez, é que só seis meses depois do acidente, um dos músicos que tocava no bar ficou sabendo da notícia por outro músico, que também conheceu Melinda. Foi ele quem telefonou ao meu amigo, contando a tragédia. "O de barba, que tocava trompete, você lembra?". Não, eu não lembrava. Pensava em Melinda afundando como chumbo até a areia fofa do fundo do mar. Melinda afundando no mar, como afundava na música. Afundava para vir à tona. Talvez quisesse o destino que fosse assim-assim. Uma morte quase-fictícia, sem quaisquer tipos de provas. Um sorriso falsamente irônico lampeja no rosto do meu amigo. Finjo que ignoro. Ele senta-se, prostrado.
"Nós éramos tudo, compreende?" Não há semblante algum agora em seu rosto, noto. Pura máscara mortuária, como se uma mórbida simbiose entre ele e a amada se formasse ali, bem na minha frente. A expressão lacônica se mantém até seu queixo cair, e me lembra alguém com ressaca por ter bebido, em excesso, uísque barato. O mesmo ar de náuseas que os bêbados geralmente carregam se estampa em seu rosto. E talvez ele tivesse realmente se embebedado na antevéspera, ou mesmo ontem, ao saber do… "Fim. Nós éramos fogo puro…" Sim, que terminou num incêndio, penso comigo, rápido e destruidor. "Ela me fazia feliz! Era jovem, mas não era por isso que me fazia feliz. Ela era quase uma menina ainda, e a forma como enrolava os cabelos nos dedos…e…" Ele se cala repentinamente. Tento sorrir. Não consigo.
Para distraí-lo, e a mim, pergunto pelo natal. Ele diz que vai passar o natal sozinho, em seu quarto de pensão. Os filhos, já estabelecidos, se esqueceram de que têm um pai. "E quando se tem um pai falido, é realmente melhor que seja assim." Sorri. O sorriso agora é resignado, percebo. A ex-mulher, mora no Acre. Casou-se "Há séculos." com um engenheiro agrícola. "Não sei o que eles fazem por lá…" E eu não encontro traços de assombro em seu olhar baixo, como a frase sugere que pudessem existir.
Me convida para comer frango no natal, ao que gentilmente recuso. Teríamos vinho. Reincidente, agradeço. Afinal eu teria a família inteira para levar comigo e não seria muito elegante de minha parte levar todo mundo para um quarto de pensão. Não pelo quarto de pensão, em si, claro, mas por serem muitos os familiares. Suspiro mentalmente. Ele finge que entendeu. Não me pergunta por que não o convido para minha casa. Nos despedimos com gentis tapas nas costas, como fazíamos quando éramos jovens. Apesar de fictício, meu amigo teve juventude. Tanto quanto eu. À imagem e semelhança. A criatura e criador. Relembro.
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. Mas volto para casa com a sensação de que extrapolei todos os limites da crueldade. Eu. Alguém que pensava conhecer a si mesmo. Alguém nunca caridoso para não carregar vaidade alguma sobre isso. Mas justo. Eu e a sensação da minha humanidade, presente, nesse instante de pura inveja dos meus feitos, e malgrado o que eu possa realmente pensar a respeito disso tudo, nunca poderei afirmar que o conhecimento de tal fato teria o poder de afetar, de alguma forma, a minha decisão de não fazer absolutamente nada por ele. Pausa. Afinal, eu poderia levá-lo comigo, dar-lhe uma nova chance como ficção. Eu, que estou em uma situação muito mais confortável. Diga-se de passagem, desde o início da história. Eu, que poderia convidá-lo para passar o natal em minha casa, em vez de deixá-lo só com seu frango e seu vinho, no gélido – decido – quarto de pensão. Eu, que poderia dar-lhe de comer e beber bem, por um dia. Que fosse. Mas que raio – penso ficcionalmente – ele comeu Melinda, enquanto eu sequer a conheci ainda.
Caminho lentamente com a única sensação de conforto que me é permitido carregar. A de quê, caso eu não mude de idéia, ele possa nunca mais existir em ficção alguma. E com isso, Melinda, mesmo não sendo fictícia – reitero – nunca mais seria dele. Diante dessa insanidade completa que se apodera de mim, isso seria, no mínimo, um trunfo. Tipo de coisa que se situa realmente no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média.
Enquanto seguimos rumos opostos, meu amigo e eu, sorrio para Melinda, madeixas louras, pernas torneadas, cintura fina, lábios de cetim vermelho, voz rouca, cantando Blues, vivíssima da silva. Os cabelos molhados, o relato de como foi parar naquela ilha depois do naufrágio, e de como eu poderia chegar até ela. Sorrindo, olho para trás uma vez mais, a tempo de ver meu amigo fictício dobrar a esquina e desaparecer totalmente do meu campo de visão. Como se eu nunca o tivesse visto. No entanto, lá estou eu, seguindo para uma ilha deserta, onde uma mulher loura, que canta como Billie Holiday me aguarda. Com o dedo indicador de silêncio sobre o sorriso cúmplice, que imagino, seja para mim. Afinal, para quem mais poderia Melinda sorrir, quando eu decido que será assim?
Zuenir Ventura
Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha. E que prestem atenção: a inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.
Zuenir Ventura | Valdemir Valença
Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha. E que prestem atenção: a inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.
Guardem essas distinções com cuidado, pois só poderão usá-las em caso de extrema necessidade e quando tiverem a completa convicção de que realmente estão perdidos.
Observem-se uns aos outros a procura de qualquer sinal de espuma, de ganho de peso, de brilho estranho ou outro sinal de infecção, haja vista que eu não poderei avisá-los sobre qualquer possível contaminação.
Se por acaso se perderem sozinhos, esperem no lugar onde tiverem dado conta disso até que outro perdido os encontre, daí então, formarão um enorme bando de desorientados.
Não perguntem pelo autor, pois se acaso alguém o conhecer, com certeza duvidará que você, uma pessoa com esse "tipo de bagagem" seja seu amigo de verdade.
Em último caso, abram um buraco suficientemente grande pra se guardar a quantidade de ciúme, cobiça e inveja que esteja aos seus cuidados, joguem-nas bem no fundo, cubram com terra e o máximo de pedras que encontrarem ao redor, coloquem uma placa indicativa dizendo: "Cuidado! Perigo de contaminação." E fujam para o lugar mais distante possível.
Nos reencontraremos nesse local...
Rubem Fonseca
3 - Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios.
Rubem Fonseca | Marcelo de Oliveira Tacuchian
Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios. Como se fora vingança, com a ventania constante, a folga da porta da varanda produzia um mesmo ploc-ploc de volta que me impedia de fechar os olhos de vez. Eu me culpava por não ter consertado a porta antes, quando podia, e agora estava claro que eu mesmo era o causador da minha miséria. Nem o vento, nem a folga da porta, nem o vizinho, nem Deus. Eu era o grande culpado.
Quando o sangue do infeliz atingiu meu rosto, o desejo imediato que aquela nojeira se espalhasse por todo meu corpo foi imediato. Naquele momento, eu tinha que ter sido contaminado pelo mais letal dos vírus, pela mais mortal das bactérias. Uma morte rápida e súbita que pudesse facilitar as coisas para mim.
Ao descobrir o coitado na minha cama, ou melhor, na cama da minha mulher com a própria, eu deveria saber qual seria o destino final daquela história por demais antecipada. História esta que começou bem antes do meu casamento. Antes do meu nascimento, talvez. Digo isso para ser justo com ela, pois esperar que a mesma mudasse meu destino era uma grande pretensão de minha parte. Ela seguiu seu destino e eu sigo o meu. Entendia agora com clareza as surras que tomei de meu pai. O mais novo de cinco irmãos com uma diferença de oito anos para o anterior já demonstra que meu nascimento fora um erro, um ponto fora da curva. Hoje tenho curiosidade de imaginar a cara de meu pai quando soube que minha mãe engravidara de novo apesar de já ter passado dos quarenta anos. Tudo contra as possibilidades naturais.
A situação financeira da família já não era nada boa e eu, ao contrário dos meus irmãos, não tinha a menor vontade de ajudar na separação das frutas para meu pai vender na feira. Eu nem mesmo gostava de acordar cedo. Ficava no colégio lendo depois da aula só para não ter que ajudar. Diferente do que pensavam meus professores, minha dedicação aos estudos não tinha nenhum motivo nobre, mas era apenas uma desculpa para não ajudar em casa. Apesar das marcas que deixou, o cinto do meu pai não foi suficiente para que eu parasse de brigar com meu destino. Insistindo, fugi para morar com um tio que havia sido renegado pela família.
Foi uma época feliz, reconheço hoje. Apesar das eventuais investidas de meu tio, nunca houve violência. A continuação dos estudos era incentivada e ele sempre desejou que eu pudesse mudar e ter uma vida melhor. Consegui até mesmo concluir os estudos e entrar para uma universidade. O seu carinho por mim era incondicional e cheguei a pensar que seria feliz. Morreu de uma doença desconhecida.
Apesar de não ter nenhuma idéia de como tratar uma mulher, o destino me empurrou para este lado. A conheci quando terminava meus estudos e tinha acabado de conseguir um emprego. Um emprego. Aquela maré de sorte, que insistia em continuar e me iludir, foi um sinal que eu deveria prosseguir naquele caminho apesar das impossibilidades naturais. Era mais rica, mais bonita, mais sagaz que a média das mulheres e do que eu, logicamente. No início, me esforcei ao máximo para diminuir a diferença, ou melhor, as diferenças, entre nós. Horas e horas a mais no trabalho para receber um pouco a mais enquanto sua ascensão profissional era meteórica e indiscutível. Corrigi o rumo e tentei me dedicar às tarefas de casa (bons exemplos e lições de meu querido tio) para compensar minhas deficiências profissionais e a pouca ajuda no orçamento doméstico. Depois de um bocado de tempo ausente, os gritos do meu pai voltaram a me assombrar, relembrando o quanto eu era inútil em ajudar a família. O inevitável rumo dos eventos já dava sinais de inequívoca retomada do controle da situação.
O fosso entre nós só fazia aumentar. Suas amizades se diversificaram e muitas vezes eu nem tinha ânimo de perguntar o motivo dos seus constantes atrasos na volta para casa. Eu já considerava como um direito adquirido por ela o seu desprezo pela nossa vida em conjunto. Já que eu não contribuía em nada, ela não necessitava prestar contas a mim. Este era o acordo tácito.
– Não faça nada. Foram suas palavras quando, devido a um acidente no trabalho, retornei para casa mais cedo e a encontrei no quarto com o amante. Nem vi a cara do mesmo, mas talvez parecesse meu pai. Eu sentei na cama e o outro se postou de pé, nu, em posição de absoluta incapacidade de pronunciar algo. Ela, por sua vez, pediu calma e correu para a cozinha como se temesse que eu fizesse alguma insanidade. Quando ela fechou a porta, dei os tiros. No outro e em mim.
Eu agora naquela cama, na cama que é dela e eu a empestiando de sangue. O sangue não parava e mais sujeira era produzida. Daqui a pouco o quarto todo terá se transformado naquele cenário de filmes de matadores seriais. Ela odiava esses filmes. A arma estava cada vez mais longe, eu jamais a alcançaria agora de modo a abreviar meu fim e estancar aquele sangue todo escorrendo e deixar o quarto menos purulento. Meu grande erro foi mirar no meu coração. Errei. Mais um erro. E agora prostrado, deitado, incapaz, a única coisa que eu desejava era dormir. Impossível. As sirenes dobraram a esquina e em breve os paramédicos estariam entrando no quarto dela e fazendo mais sujeira ainda. O que fazer? Eu era o grande culpado.
Menção honrosa
Rubem Fonseca | Docia
Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios.
(...)
Deitado na cama, abro os olhos. Observa à minha frente uma mulher ruiva de costas para mim. É a única mulher que conheci que sem roupa ficou mais bonita. Os curtos cabelos vermelhos brilham, embora estejam na penumbra. As costas, sem espinhas. Duas suaves concavidades acima dos glúteos. Coxas roliças, com posteriores sem ondulações ou nódulos de celulite. Panturrilhas perfeitas.
Ela pergunta: Pensou na minha proposta?
Ela está encostada à janela, olhando ao longe o mar.
Eu: Ainda não.
Ela: Vai esperar até quando? Até estarmos envelhecidos e acabados?
Eu: Já estamos velhos. Por dentro. E acabados.
Ela: Você pode estar ? com seus trinta? Ou trinta e um? ? eu não...
(Ela, de fato, não. Nem velha. Nem acabada. Nem por dentro. Nem por fora.)
Ela: ...Como é que é, vai se acovardar?
Alguns anos de relacionamento entre nós. Ela sabe como conseguir as coisas de mim, basta ferir meu orgulho machista.
Eu: Não é covardia, você precisa entender que o cara é meu irmão!
Não é uma barata.
Ela: Sim, ele é uma barata!
Ela dá as costas à janela. Seus olhos verdes me encaram. A janela, atrás dela, parece uma moldura de quadro. Ela parece uma pintura que extrapolou a moldura. Uma pintura perfeita. Meu olhar escorre pela pintura nua.
Ela começa a contar uma história para mim: Eram quatro mulheres, as primeiras mulheres a atravessar a América do Norte numa viagem de automóvel. Tudo estava tranqüilo até que, no estado americano de Nevada, elas tomaram o grande medo. Seguiam por uma estrada deserta quando de repente, ao lado da estrada, surgiu um bando de índios yokuts armados com arcos e flechas, machadinhas e gritos. Eles corriam na direção delas. Elas, de tão apavoradas, sequer se mexeram. Os índios vieram em direção a elas, mas neste momento atravessou a pista um grande roedor, era este animal que os índios perseguiam. O roedor perseguido e os índios perseguidores passaram pelo automóvel sem darem a mínima. Depois, passado o medo, elas riram.
Ela vem até a cama. Deita-se. Sussurra ao meu ouvido: Os medos são erros que temos de desmascarar, agindo. E talvez você vai até rir no final.
Sinto o corpo dela sobre o meu. Não é a primeira vez. Seriam centenas?
Milhares? Mas é sempre a primeira vez. De perto, ela ainda é mais bonita...
Ela, antes de adormecer: Como posso amar tanto um covarde?
Ela está dormindo agora. Sua cabeça está recostada sobre meu ombro esquerdo. Sua mão esquerda está espalmada sobre meu peito. Vejo no dedo anular da mulher a área esbranquiçada da aliança ausente. Ela sempre tira a aliança antes de me encontrar.
Liberto-me do abraço adormecido dela. Saiu da cama. Fico de pé ao lado do móvel por um longo tempo, pensativo. Abro a gaveta do criado-mudo.
Lá está a arma que a mulher trouxera.
Encosto a arma na têmpora da mulher mais linda do mundo. Ela tem o sono pesado. Agora, pesado demais ? e eterno. Aciono o gatilho.
Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi?
Já não tenho mais dúvidas. Sei agora o gosto estranho que tem o cano quente de uma arma, enquanto faço meu último Ploc.
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