Entrar
Novo no Literal? Registre-se
Pensamentos Imperfeitos | Transexualismo
 
1
Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 16/9/2008 · 51 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Rubem Fonseca em 07/08/2008.
________________________________________________



TRANSEXUALISMO
Lembrando o travesti Viveca, personagem de seu livro O romance morreu, Rubem Fonseca conta a história do transexualismo desde a Grécia até hoje, quando escolas já se preparam para receber adolescentes transexuais.


O fenômeno do transexualismo é antigo. (Os eunucos não devem ser incluídos nessa categoria, eles eram castrados para serem zeladores dos leitos; o termo "eunuco" deriva de uma expressão grega com esse significado. É possível que os eunucos fossem escolhidos entre aqueles homens com tendências femininas.) Na Grécia, como em Roma, o travestismo era comum. Os gregos tinham um deus chamado Hermafrodita, que era o patrono da união sexual. Filho de Hermes e Afrodite, possuía mamas e pênis. Conforme estátuas e representações existentes nos museus, ele lembra muito os atuais travestis ou transexuais, tanto em forma física como em postura: masculina e feminina ao mesmo tempo. Platão, em O Banquete, afirma que todo ser humano é composto de duas partes, ou homem ou mulher, que teriam sido separadas por decisão divina. Dessa forma, desde então todos buscam a metade perdida (homem ou mulher), a "alma gêmea".

Vários imperadores romanos foram travestis. A história mais interessante é a do infame imperador Heliogábalo, que se casou formalmente com um escravo, adotando o papel de esposa. Consta que ofereceu metade do seu império ao médico que o provesse com uma genitália feminina.

Mas o motivo dessa introdução é para falar de uma experiência numa escola secundária da Tailândia, e de que maneira esse fenômeno é encarado em nossos dias.

A escola a que me refiro está situada em Kampang, no norte da Tailândia. Seus alunos são, principalmente, filhos de fazendeiros da região. Todo dia de aula, às 8h da manhã, os alunos se reúnem em frente à escola, cantam o hino nacional enquanto a bandeira do país é hasteada. Kampang orgulha-se da sua limpeza, inclusive dos seus banheiros, e recebe sempre prêmios nacionais por isso. Quanto aos banheiros, há algo além da limpeza. Entre os banheiros das meninas e dos meninos, que na porta têm as respectivas figuras, há um banheiro que ostenta uma figura metade menina metade menino: é o banheiro dos transexuais. O diretor da escola Sitisak Sumontha informa que cerca de 20% dos meninos consideram-se transexuais, meninos que querem ser meninas. Eles costumavam ser importunados quando usavam o banheiro dos meninos e então passaram a usar o banheiro das meninas; mas isso fazia com que elas se sentissem inconfortáveis. Tal situação tornava os meninos que queriam ser meninas muito infelizes, o que afetava o seu desempenho escolar, sendo que muitos se incluíam entre os melhores alunos do ginásio. Assim, a escola decidiu fazer um banheiro só para esses meninos transexuais. Eles ficaram muito contentes e passaram a ter um rendimento escolar acima do normal.

A iniciativa da escola de Kampang, em vez de criar controvérsia, promoveu discussões em outras escolas, que estão inclinadas a fazer o mesmo.

Mas isso não quer dizer que não exista discriminação, e a principal queixa dos transexuais tailandeses é a dificuldade de mudar a sua identidade legal. Há uma proposta de se fazer um adendo constitucional nesse sentido, que ainda não foi aprovada.

Quando uma iniciativa dessas será realizada em nosso país?

Lembro-me de que quando estudava no ginásio (como eu trabalhava de dia tinha que estudar à noite, e já disse alhures que o meu primeiro colégio noturno era o mais noturno de todos os colégios noturnos, e que um dia pegou fogo e foi destruído), mas nesse colégio havia um aluno chamado Ivo C. Sempre que ele entrava no banheiro, os outros alunos enfiavam o dedo no seu ânus, e Ivo saía correndo e chorando enquanto os pulhas davam gargalhadas. É claro que, na minha frente, ninguém fazia isso; eu era tinhoso e punia essa maldade com o pobre menino distribuindo socos e pontapés que apavoravam os covardes, deixando marcas nos cornos deles. Esse problema provavelmente ocorre também em ginásios diurnos que não pegaram fogo.

A Organização Mundial de Saúde considera a transexualidade como um tipo de transtorno que pode ser considerada apenas um extremo do espectro de transtorno de identidade de gênero; refere-se à condição do indivíduo que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento, tendo o desejo de viver e ser aceito como sendo do sexo oposto. Usualmente, os homens e as mulheres transexuais apresentam uma sensação de desconforto ou impropriedade de seu próprio sexo anatômico e desejam fazer uma transição de seu sexo de nascimento para o sexo oposto (sexo-alvo), com alguma ajuda médica (terapia de redesignação de gênero) para seu corpo. A explicação estereotipada é de "uma mulher presa em um corpo masculino" ou vice-versa, ainda que muitos membros da comunidade transexual, assim como pessoas de fora da comunidade, rejeitem esta formulação.

Um médico inglês, o dr. Russel Reid, conhecido como um especialista em transexualismo, foi considerado culpado pelo General Medical Council (GMC), da Grã-Bretanha, por submeter seus pacientes de maneira inapropriada a tratamento hormonal e cirúrgico visando mudança de sexo. Ele apelou da decisão e foi absolvido, mas o conselho estabeleceu requisitos para o tratamento de GID - gender identity disorder.

Não existem estatísticas confiáveis sobre operações de mudança de sexo em nenhum país do mundo. A mais bem feita - e assim mesmo os especialistas dizem que ela não abrange o número total de procedimentos realizados - afirma que, nos Estados Unidos, aproximadamente 40 mil pessoas do sexo masculino realizaram cirurgia transexual e dezenas de milhares estão em processo de realizá-la. O número, na verdade, é bem maior, um grande numero de "mulheres" não revela que sofreram essa mudança de gênero.

Os especialistas em mudança de gênero sugerem o que eles chamam de "timetable" em três etapas para o transexual se ajustar ao seu novo papel: mental e fisicamente.

1 – tomar uma decisão e ir até o fim;
2 - procedimento envolvendo todos os aspectos físicos;
3 - adaptar-se ao seu novo papel.

A pesquisa é essencial. Quanto mais você souber, melhor você se sairá em suas novas funções. Leia livros sobre o assunto, converse com aqueles na sua área que tiveram êxito com o procedimento. Se necessário, faça terapia para aceitar a nova pessoa que você se tornou. Abra o jogo com a sua família, pai, mãe e irmãos. Se for casado/a, diga ao(à) parceiro/a a verdade. A mesma coisa no emprego. Se você não se sente bem, mude de emprego, arranje outro, com a sua nova identidade.

Escolha um nome. Use outro penteado. Mude a sua voz. Se necessário, faça uma operação plástica no rosto, para torná-lo mais feminino ou masculino.

Finalmente a cirurgia genital:

Para transexuais masculinos: orquiectomia, penectomia, vaginoplastia, clitoroplastia e labiaplastia. A manutenção, sempre que possível, da enervação no tecido usado na construção da neovagina é fundamental na recuperação cirúrgica e na funcionalidade do órgão.

Para transexuais femininos: histerectomia, salpingo-oforectomia, vaginectomia, metoidioplastia, escrotoplastia, uretroplastia, colocação de próteses testiculares e faloplastia.

Escrevi um conto sobre um indivíduo com essas características, intitulado Viveca¸ que foi depois adaptado como um dos episódios da série televisiva Mandrake, da HBO. Na ocasião em que o referido episódio estava sendo filmado, tive oportunidade de entrevistar o ator que desempenhava o papel de Viveca, um travesti que me falou do seu transexualismo, em especial das razões pelas quais não fizera a penectomia ou falectomia, a retirada cirúrgica do pênis que quase todos realizam. (Quem estiver interessado pode ler essa história real no meu livro de crônicas O romance morreu.).

Transcrevendo:

"Há pessoas que possuem a convicção de que pertencem ao sexo oposto, cujas características procuram adquirir, muitos até mesmo se submetendo a cirurgia para obter a transformação sexual almejada. Por que uma pessoa assume uma identidade indefinida sexualmente e não reconhecida socialmente? Freud passou ao largo disso em Totem e tabu. E a simplória visão psicanalítica do complexo de Édipo, entre o desejo de penetrar sua mãe, ou de ser penetrado pelo seu pai, não esclarece o problema. Muita gente tem escrito sobre o assunto, abordando os aspectos médico, ético, jurídico, psicanalítico, do transexualismo. Volta e meia surge à explicação da "mulher fálica".
Talvez os transexuais masculinos sejam iluminados pela sabedoria de Tirésias, essa figura da mitologia grega que, como punição, foi transformado pela deusa Atena em mulher. Tirésias permaneceu mulher durante sete anos, ao fim dos quais voltou a ser homem. Quando lhe perguntaram o que era melhor, ser homem ou ser mulher, ele respondeu que era ser mulher, pois os prazeres do amor eram melhor fruídos pela mulher do que pelo homem. Isso nos remete a uma série de perguntas. O transexual masculino, então, desde cedo, sabe misteriosamente que será mais feliz e verdadeiro como mulher do que como homem? Mas como operar esse milagre, como superar os obstáculos físicos sem os recursos da cirurgia, entre nós denominada de "cirurgia de transgenitalizão", e sem o socorro de hormônios? A primeira operação conhecida ocorreu na Dinamarca, em 1952, e depois disso não se sabe quantas foram feitas em todo mundo. Milhares, milhões? E mudar de aparência é suficiente?" (Viveca em O romance morreu)


Será que existe uma síndrome ou, para os supersticiosos, uma maldição de Tirésias, fazendo com que os homens anseiem por se tornar mulheres, porque, conforme o soothsayer, ser mulher é mais prazeroso do que ser homem?

O primeiro caso famoso dos tempos modernos é o de Cristina Jorgensen, cuja mudança de sexo em 1952 causou uma repercussão internacional e fez dela a mais conhecida transexual da história moderna. Outro caso que teve também imensa repercussão foi o de James Morris, o jornalista inglês que acompanhou sir Edmund Hillary na triunfal conquista do Monte Everest. James Morris escreveu um livro denominado Conundrum, que na época [1974] provocou grande comoção, no qual ele fala da sua transformação em mulher, através de tratamento hormonal e cirúrgico. O termo conundrum em inglês significa: charada, enigma, mistério, qualquer coisa que estarreça, surpreenda, desconcerte. Morris serviu no Exercito Britânico na segunda Guerra Mundial, ganhando medalha por bravura, e depois trabalhou como agente da Inteligência Britânica. Era casado e pai de cinco filhos. Nascido em 1926, Morris mudou de sexo em 1972, antes de fazer quarenta e seis anos de idade. Como James Morris escreveu dezenas de livros de história, de viagens, de memórias e de ficção, mas Conundrum, que fala da sua transexualidade, foi escrito por Jan Morris, a mulher na qual ele se tornara. Aliás, esse livro se tornou um clássico, no gênero.



ADENDO: ALGUMAS DATAS E PESSOAS IMPORTANTES REFERENTES AO ASSUNTO

577 – O rei Henri III da França freqüentemente se vestia de mulher e assim vestido era chamado de Rainha pelos cortesãos.

1654 – A rainha Cristina da Suécia (considerada bissexual) abdicou do trono, passou a se vestir de homem e a se chamar conde Dohna.

1700s "Molly houses" eram locais de encontro da comunidade gay inglesa. "Mollies" eram homens que gostavam de se vestir de mulher e desejavam ardentemente ser do sexo feminino (Infelizmente ainda não existiam os procedimentos cirúrgicos modernos de mudança de sexo)

1728 – O famoso Chevalier D'Eon, nascido Charles d'Eon, famoso espião e que também serviu de embaixador da França na Inglaterra, viveu a maior parte da sua vida como se fosse uma mulher.
1839-1844 - "Rebecca e suas filhas," era um grupo de galeses que se vestia de mulher e adotava nomes femininos.

1861- Franklin Thompson, nascido Sarah Emma Edmonds, lutou pelo exército da União na Guerra Civil Americana, servindo como soldado, espião, enfermeiro, a única mulher a receber homenagem no exercito da República. Um dos poucos casos de mulher de trangenerização masculina.

1897 - Dr. Magnus Hirschfeld fundou a primeira organização de liberação gay, na Alemanha. Foi Hirschfeld quem criou o termo "travesti", sendo ele mesmo useiro desse disfarce.

1952- Christine Jorgensen, já mencionado.

1969 - Transexuais não conformistas resistiram à prisão no bar em Stonewall Inn em Greenwich Village, New York, dando inicio ao moderno movimento LGBT (lesbias, gays, bissexuais e travestis).

1974 - Jan Morris, autor de "Conundrum", já mencionado.

1989 - O célebre musico de jaz Billy Tipton morre em Spokane, Washington, revelando que ele era uma mulher. Tipton viveu 56 anos como homem, casando várias vezes e criando os filhos das mulheres com quem se casava,

1993 - O jovem transexual Brandon Teena foi estuprado e assassinado em Humboldt, Nebraska. Esse crime chamou a atenção para a questão da violência e da discriminação sofridas pelos transexuais, e foi assunto do filme, "Boys Don't Cry", do ano 2000, que deu projeção à atriz Hillary Swank.

1997 - O trans ativista Leslie Feinberg publicou "Transgender Warriors: Making History from Joan of Arc to Dennis Rodman", um quem-é-quem no mundo dos transexuais, que procura traçar as raízes das opressões transgenéricas.


tags: Rio de Janeiro RJ literatura rubem-fonseca rubem-lado-b pensamentos-imperfeitos transexualismo 2008


 
Nenhum comentário até agora!
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Portal Literal, e adicione seus comentários em seguida.



visite nossa seção de perguntas mais freqüentes



Termos de uso | Expediente | Privacidade | Alerta
Salvo indicação em contrário, todo o conteúdo (c) 2009 Portal Literal e seus autores