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Pensamentos Imperfeitos | Rubem Fonseca Inédito
 
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Portal Literal 2.0, Rio de Janeiro (RJ) · 31/10/2008 · 117 votos · 19
  
Luiza Santoloni
Confira a crônica inédita e exclusiva de Rubem Fonseca para os leitores do Portal Literal.


Cinismo
Rubem Fonseca

A semântica, que estuda o significado das palavras, me lembra Janus, que segundo a mitologia era o porteiro celestial. Ele possuía duas cabeças, simbolizando os términos e os começos, o passado e o futuro, o dualismo relativo de todas as coisas. A semântica também têm duas cabeças, uma sincrônica, que fala de palavras com o mesmo significado ao mesmo tempo, e outra diacrônica, que estuda a modificação das palavras ao longo do tempo.

Vejamos a palavra cínico. Ela deriva da palavra grega kŷ;;ő;;n, kynós, que significa “cão”, animal cuja vida seria igual à pregada pelos cínicos, pois morde aqueles que merecem, é capaz de distinguir os amigos dos inimigos, e principalmente, o cínico é capaz de viver como o cão, indiferente às convenções sociais. (Os cães daquela época deviam ser diferentes dos atuais “cachorrinhos de madame” que viajam com elas para Paris dentro de bolsas Louis Vuitton). Hoje, através de desvios diacrônicos, este termo se refere àquelas pessoas desavergonhadas, impudentes; que desdenham dos escrúpulos alheios, que se mostram atrevidos ou descarados ao seguir seus impulsos ou interesses, uma pessoa, conforme a definição de H.L. Mencken, que quando cheira uma flor olha ao redor procurando o caixão do defunto.

Como todos sabem, o cinismo foi uma corrente filosófica fundada por Antístenes, um discípulo de Sócrates. O mais famoso dos cínicos se chamava Diógenes, o sujeito que ficava dentro de um tonel, ou vaso funerário, que durante o dia vagueava com uma lanterna acesa a procurar homens virtuosos. Uma história famosa dele é a de que certo dia, quando estava tomando sol, chegou inesperadamente o todo poderoso imperador Alexandre Magno e lhe disse: “Pede-me o que quiseres” e Diógenes lhe respondeu: “Desejo apenas que te afastes do meu sol e não me faças sombras.”

Perguntaram a Platão que tipo de homem era Diógenes e Platão respondeu: “Um Sócrates que ficou maluco”. Por falar em maluco, Nietzsche disse que "o cinismo é a única forma sob a qual as almas vulgares se aproximam do que seja a honestidade.”

Mas afinal, qual a filosofia dos cínicos? Os antigos, da época de Antístenes, pregavam o desapego aos bens materiais e externos, a rejeição à hipocrisia, e estabeleciam uma correlação entre conhecimento e virtude, virtude que consiste, sobretudo, na conduta moral do ser humano, naquilo que lhe é intrínseco – e não nas conquistas materiais. Exatamente o oposto do significado da palavra em nossos dias.

E os filósofos cínicos modernos? Peter Sloterdijk, autor do cultuado Crítica da razão cínica, foi há alguns anos o pivô de uma briga que dividiu a intelectualidade européia. Sloterdijk propôs um Conselho de cientistas e filósofos para criar um discutível “Parque Genético Humano” – “Menschenpark”, para salvar a espécie da imbecilidade e brutalização induzida pelas mídias. O famoso filósofo alemão Jürgen Habermas atacou Sloterdijk e um monte de filósofos se meteu no meio, confundindo mais do que esclarecendo.

Onde se encontram os cínicos autenticamente seguidores de Diógenes?, pergunta o filósofo Michel Onfray, onde se aninham os descendentes do filósofo do cão? Primeiramente entre os filhos de Nietzsche, que, como sabemos, morreu louco. E os outros, quem são eles? Entre os mais recentes Michel Foucault e Gilles Deleuze, “que morderam feito cães, cagaram e mijaram nas falsas aparências da época, levantaram as patas diante das honrarias e dos poderes.”

Mas eles, os cínicos autênticos, existem entre as pessoas simples, “pode ser qualquer um que se sinta revoltado e animado por uma vontade política de acabar com os cínicos vulgares, aqueles que querem vender um amanhã ideal para fazer engolir o hoje insuportável. Sua insubordinação, sua rebelião, sua revolta, sua reinvindicação reatualizam o gesto de Diógenes.”

Todavia, os cínicos autênticos, em sua maioria, não sabem que são cínicos. Eles desafiam as falsas convenções sociais e a moralidade hipócrita, mas não sabem que isto é um cinismo genuíno. Lamentavelmente, a palavra cinismo, para eles, sofreu a diacronia semântica e passou a ter um significado pejorativo.

Esta conversa está ficando muito filosófica, e chata. Vamos voltar à diacronia da semântica.

Um instrumento de tortura denominado “tripalium” com o passar dos anos tornou-se a palavra “trabalho”. (Sei que para muitos “trabalho” continua sendo uma forma de tortura.) Todos aqueles que têm computador conhecem a palavra inglesa “delete”, que significa apagar. É uma demonstração de como as palavras se movimentam no tempo e no espaço. O verbo delete vem do latim delere (apagar). Agora, no século 21, a palavra, migrando do inglês, reaparece em português no seu sentido original, deletar, devidamente integrada ao nosso vernáculo. A palavra estilo, do latim stilum, designava originalmente uma pequena haste usada para escrever, um tipo de caneta antiga. Não demorou para que surgisse um novo sentido para a palavra, ou seja, a “maneira de escrever” — “o estilo literário dos escritores”, como também o conjunto de tendências e formas de comportamento, além de significar requinte, habilidade esportiva, etc. A palavra avião, do francês “avion”, significava ave grande; quando foi inventado um aparelho com asas que voava, qual o nome que lhe foi dado? Avião. A palavra “tela” indicava (e ainda indica) um tipo de tecido; quando o cinema foi inventado, as imagens eram projetadas num retângulo deste tecido. Surgiu então a palavra tela ligada à imagem com o seu sentido puramente cinematográfico. A metáfora também influência as mudanças das palavras. Para não ter que usar palavras vulgares a fim de denominar órgãos genitais e excretores, (por exemplo, em português, boceta e cu), passou-se a usar vagina e ânus, oriundas das palavras latinas “vagina” e “anulus”, que significavam respectivamente vagenzinha e anelzinho.

Porém, a nossa discussão sobre a mudança de significados das palavras tem que passar pela semântica, pela metonímia e pela metáfora. Eu costumo dizer que a superioridade da literatura sobre todas as artes resulta da sua polissemia mais rica, isto é, a sua capacidade de ter muitos significados. O leitor, à medida que lê, recria a história, usa a sua imaginação. Isso é impossível olhando para a “tela”.

Mas vou deixar este assunto para outra ocasião.

Voltando ao cinismo. Você é um cínico autêntico, seguidor, ainda que inconsciente, do Diógenes, ou é um cínico que faz parte da outra categoria?



tags: Rio de Janeiro RJ literatura rubem-fonseca cinismo pensamentos-imperfeitos cronica rubem-lado-b


 
Ribem Fonseca de volta! Bem-vindo, meu escritor favorito :)

Não pare de escrever aqui no Portal. Dependo de seus textos para pensar e viver melhor.

B. · Alemanha · 31/10/2008 14:57
Ribem Fonseca de volta! Bem-vindo, meu escritor favorito :)

Não pare de escrever aqui no Portal. Dependo de seus textos para pensar e viver melhor.

Carlos · Brasília (DF) · 31/10/2008 14:59
Rubem fonseca + filosofia = um belo saborear literário para uma tarde nublada ( em Juiz de Fora, MG) de sexta feira.Fico feliz ao ler sobre os cínicos tão esquecidos.

Um convite à reflexão de boas leituras, e uma decisão árdua: qual cínico eu seria?

Acredito que o amor com conhecimento e ética ( enquanto hávito e virtude), mas acabarei louca, e repulsarei como cão as falsas aparências da minha época.

Bom acho que me tornei a neocínica. Da semântica, metonímia e metáfora, diretamente para os neologismos.


Agora vou acender minha lanterninha e procurar o sol, pois sei que nao existem mais Alexandres para sombrear, ou seria a forma de Alexadre que estaria escondendo o sol de mim?

Lilian Gonçalves · Juiz de Fora (MG) · 31/10/2008 15:00
Terminei de ler agora. o texto está MATADOR!

Se puderem fazer chegar meu comentário ao José Rubem, por favor, mande com meus cumprimentos.

abs

Carlos · Brasília (DF) · 31/10/2008 15:10
Luv him.

B. · Alemanha · 31/10/2008 15:13
E vêm mais crônicas inéditas por aí! Certo, Rubem?

Portal Literal 1.0 · Rio de Janeiro (RJ) · 31/10/2008 15:14
Espero que sim. Sou viciada na obra de José Rubem, inclusive as crônicas do Portal, sempre inéditas e exclusivas. Surpreendentes, melhoram meu dia. Um abraço, Zé Rubem!

Eliza B. · São Paulo (SP) · 31/10/2008 15:15
Diógenes e sua moradia num barril seriam perfeitas para nossa era...

Nelly · Rio de Janeiro (RJ) · 31/10/2008 15:16
Salve! Escreva mais para o Portal Literal, Rubem.

Abraço, Ramones.

Ramon Mello · Araruama (RJ) · 31/10/2008 16:46
Fiquei mais curiosos de estudar mais sobre o assunto.

dudu oliva · Rio de Janeiro (RJ) · 31/10/2008 20:22
Que surpresa agradável ter o Rubem por aqui. Assim como Mandrake, um grande investigador - das palavras e da literatura. Fico esperando pela próxima.

Carina Lessa · Rio de Janeiro (RJ) · 1/11/2008 11:54
É muito bom ver um escritor como Rubem Fonseca escrevendo sobre cinismo. Tal como Diógenes, deveríamos pedir aos políticos corruptos para saírem da frente do noso sol e não nos fazerem sombra..

Carlos Eduardo Leal · Niterói (RJ) · 1/11/2008 21:56
Realmente uma grata surpresa =]

Vanghorn · Rio de Janeiro (RJ) · 5/11/2008 11:45
É difícil decidir, dentre os Pensamentos Imperfeitos do Rubem Fonseca, qual o melhor. Para ser justa, deveria reler todos os outros. Mas se o fizesse, dificultaria muito a decisão. Por isso não vou relê-los e escolher o Cinismo o melhor de todos.
É uma sorte para nós, leitores, o Portal Literal poder publicar, quase que mensalmente, um texto do melhor escritor brasileiro. Parabéns a vocês do Portal e muito obrigada ao Rubem Fonseca por escrevê-los.


N.L. · Rio de Janeiro (RJ) · 7/11/2008 01:06
E, vc, de, quem?

Gustavo Krawser · Belo Horizonte (MG) · 8/11/2008 23:31
Gostei muito de ler este texto do Rubem Fonseca sobre o Cinismo.Inclusive também a oportunidade de reler outros textos como Prefácios Literários,e outros mais antigos.Aprendi e aprendo muito com este escritor maravilhoso Te amo Rubem Fonseca,escreva mais,muito mais.....Espero que ele também escreva um novo conto,para o Portalliteral.

Helena Dutra · Rio de Janeiro (RJ) · 12/11/2008 19:25
Sempre uma luz...
Quando sairá o próximo livro?
um abraço

márcioafsouza · Belo Horizonte (MG) · 22/1/2009 23:17
Ficaria honrado de compartilhar os meus textos infantis contigo, receber crítica ou voto se merecer.Grande abraço

André Polidoro Pinto · Balneário Camboriú (SC) · 9/2/2010 11:44
Parece que somos cínicos nos dois sentidos. Não sei é se estou certo.
Abraço,
Jorge


Jorge Sader Filho · Niterói (RJ) · 27/8/2011 04:02
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