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São fragmentos do real e do imaginário aparentemente independente, mas sei que há um sentimento comum costurando uns aos outros no tecido das raízes…” (Lygia Fagundes Telles)
O homem é um ser social. Ao longo da sua trajetória, sentiu necessidade de permanecer num local. Era o iniciar das cidades. Nelas, a sociedade passou a se interagir. Era o ser humano integrando-se ao local e as pessoas a sua volta. Mas será que ainda continua desse jeito? Ou o mundo atual realçou ainda mais as diferenças de classes? Será que as construções de hoje visam mais o lucro?
Mais! O que antes se construía para durar por várias gerações, agora estaria fadado a não mais durar tanto assim? Numa de igualar a efemeridade da sua própria existência com aquilo que realiza? Por mais que vivencie o presente, algo do passado deve ficar de lição também para o futuro. Me pego a pensar se as gerações bem mais jovens conhecerão novas marcas que ultrapassarão décadas.
O mundo atual tem tanta pressa, que por vezes nem dá tempo de escrever um longo capítulo da sua própria história. Em se deliciar com cada detalhe. Cada momento. Num aniversário, conversávamos sobre fotografias… É! Agora com as digitais, é um tirar sem cessar que, nem dá tempo de ver todas. Vão para um banco de dados, e por lá ficarão meio esquecidas, já que se faz necessário o uso de um leitor eletrônico… Quase não mais se vê álbuns de fotografias que se possa manusear.
O novo e o velho, por mais que se tente uma harmonia, sempre haverá um que de discordância. Pois essa é uma das molas do universo. E a cidade de Paris tem esse contraste muito intenso. A modernidade penetrando quase que de modo invisível. É preciso um olhar não mais atento, mas sim com mais tempo. Ainda bem que ela não se deixou tomar por arranha-céus.
No filme ‘Paris‘, Cédric Klapisch nos mostra esse microcosmo, que há numa grande cidade, em detalhes. Sua gente. Os nascidos nela. Os que vieram de fora. Seus prédios. As diversas classes sociais. E traz como mestre de cerimônias, aquele que vai costurar cada pedacinho dessa colcha de retalhos, um coreógrafo, que está com o coração parando… É o personagem de Romain Duris, Pierre.
Embora meio paradoxal, Pierre, ciente que poderá morrer em breve, passa a observar as pessoas a sua volta. O seu pouco tempo de vida, lhe dá esse tempo. O que leva a sua irmã, Elise (Juliette Binoche), junto com as filhas, buscar um tempo maior para dedicar-se mais a ele. Por não querer explicar o porque, de pedir um tempo maior, cria um pequeno conflito entre suas colegas de trabalho. Todas querem um tempo maior para si. Mas são poucos os que sabem o que fazer desse tempo livre. O que me fez lembrar de um texto de Nilton Bonder: ‘
Os domingos precisam de feriados?‘
Elise é Assistente Social. Por ela, também conheceremos outras pessoas dentro desse emaranhado parisiense. Além daqueles que buscam por um auxílio. Até por não querer sair dali… Há também as pessoas que trabalham na feira onde ela faz compras. Lá, há Jean (Albert Dupontel), o vendedor de frutas. Seus amigos. Companheiros de trabalho. Mas também de bares. Entre eles, há sua ex-mulher, assediada por um deles… Jean é um cavalheiro à moda antiga…
Num outro núcleo, há o Professor de História, Roland (Fabrice Luchini), que embora crie uma atmosfera agradável em sua aula, mostrando que a modernidade interage bem com o passado… sabe que ainda é tempo de mudar a sua vida. Por ainda se sentir jovem. Por voltar a se apaixonar. Ela é uma de suas alunas, Laetitia (Mélanie Laurent). Que por sinal, mora próximo a Pierre.
O irmão de Roland, Philippe (François Cluzet), trabalha numa Construtora. É um arquiteto. Sentiu mais a morte do pai, que Roland. Philippe projeta o novo, mas gosta de cultivar o passado. Enquanto um membro da família se vai… Philippe tenta ser pai.
Também há preconceitos de alguns. Como da dona da boulangerie. Onde a jovem Khadija tenta uma vaga de balconista. Na padaria que Pierre frequenta.
E assim, temos uma Paris encantadora. Valeu Pierre! Quem sabe se outros não deixarão de curtir o percurso somente após um golpe do destino…
É um filme para um público seleto. Pena! Mas há uma grande maioria que não gosta de ver histórias comuns. Simples. Rotineiras. À esses,
Au revoir! Aos demais, fica a sugestão. Todos os atores estão em sintonia em ‘
Paris‘. A fotografia é um deslumbre. A trilha sonora nos convida a dançar. Um filme excelente! E que entrou para a minha lista de que vale a pena rever.
Por: Valéria Miguez (LELLA).
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