Relendo
“O Lobo da Estepe” -
Hermann Hesse, reencontrei minhas passagens favoritas. É um daqueles livros que me faz bem e mal: bem porque assisto nele muito do que sempre carreguei no âmago e mal exatamente por perceber que tais males existem ou existiram em alguém (mesmo que seja ficção... embora a obra de Hesse demonstre cunho autobiográfico) ou ainda foram tão somente sonhados por algum escritor que não os sentia, mas sentiu que poderia retirar de seu baú de imaginação alguma temática que não representasse o que vinha de si mesmo, mas que vinha de outros ou que nem vinha de outros e tão somente de sua mente divagante:
“Muito se tem a dizer sobre o contentamento e a ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam; em que tudo apenas murmura e parece andar na ponta dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar para outras regiões, se possível a caminho do prazer, senão, a caminho da dor. Quando não encontro nenhum deles e respiro a morna mediocridade dos dias chamados "bons", sinto-me tão dolorido em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor do quê essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, estéril, bem como um desejo louco de destruir algo belo, seja uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias.”
Na postagem em que escrevi sobre o conto da Clarice, já divaguei bastante sobre um sentimento paradoxal: sentir dor exatamente por não senti-la. E em tal citação do livro do Hesse é também o que ele evidencia. Os dias que ele considera ‘bons’ são os mesmos que o fazem ir em busca de algo menos ‘medíocre’ ou de algo que possa ser identificado como mais ‘palpável’ à sua atroz realidade na qual o sofrimento é a notoriedade mais bem-vinda ou apenas bem-aceita já que não seria coerente que tais dias bons fossem os mais vivenciados. Deve ser por essa falta de costume com ‘bons dias’ que os maus soem como um agrado, como a representação do que existe num determinado intrínseco. E quando este se vê em ausência de sofrimento, logo vem a idéia de que foi roubado, corrompido e maculado (por ele mesmo) ou que entre lobo e homem encontra-se o ser num vão estreito e pouco cômodo. E é sobre essa falta de comodidade quando a alegria se apresenta – como se fosse absurdamente eterna – é o que causa o terror e desperta o ódio na parte lobo e na parte homem de Harry Haller, personagem de Hesse:
“Pois o que mais odeio profundamente é essa satisfação, saúde e comodidade, esse otimismo, a educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado (...)”.
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