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Os dias bons que causam dor - Hermann Hesse
 
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Fernanda R. Barros, Porto Alegre (RS) · 12/7/2010 · 69 votos · 8
oldehermannhesse
“Pois o que mais odeio profundamente é essa satisfação...”
Relendo “O Lobo da Estepe” - Hermann Hesse, reencontrei minhas passagens favoritas. É um daqueles livros que me faz bem e mal: bem porque assisto nele muito do que sempre carreguei no âmago e mal exatamente por perceber que tais males existem ou existiram em alguém (mesmo que seja ficção... embora a obra de Hesse demonstre cunho autobiográfico) ou ainda foram tão somente sonhados por algum escritor que não os sentia, mas sentiu que poderia retirar de seu baú de imaginação alguma temática que não representasse o que vinha de si mesmo, mas que vinha de outros ou que nem vinha de outros e tão somente de sua mente divagante:

“Muito se tem a dizer sobre o contentamento e a ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam; em que tudo apenas murmura e parece andar na ponta dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar para outras regiões, se possível a caminho do prazer, senão, a caminho da dor. Quando não encontro nenhum deles e respiro a morna mediocridade dos dias chamados "bons", sinto-me tão dolorido em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor do quê essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, estéril, bem como um desejo louco de destruir algo belo, seja uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias.”

Na postagem em que escrevi sobre o conto da Clarice, já divaguei bastante sobre um sentimento paradoxal: sentir dor exatamente por não senti-la. E em tal citação do livro do Hesse é também o que ele evidencia. Os dias que ele considera ‘bons’ são os mesmos que o fazem ir em busca de algo menos ‘medíocre’ ou de algo que possa ser identificado como mais ‘palpável’ à sua atroz realidade na qual o sofrimento é a notoriedade mais bem-vinda ou apenas bem-aceita já que não seria coerente que tais dias bons fossem os mais vivenciados. Deve ser por essa falta de costume com ‘bons dias’ que os maus soem como um agrado, como a representação do que existe num determinado intrínseco. E quando este se vê em ausência de sofrimento, logo vem a idéia de que foi roubado, corrompido e maculado (por ele mesmo) ou que entre lobo e homem encontra-se o ser num vão estreito e pouco cômodo. E é sobre essa falta de comodidade quando a alegria se apresenta – como se fosse absurdamente eterna – é o que causa o terror e desperta o ódio na parte lobo e na parte homem de Harry Haller, personagem de Hesse:

“Pois o que mais odeio profundamente é essa satisfação, saúde e comodidade, esse otimismo, a educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado (...)”.

tags: Porto Alegre RS literatura hermannhesse livro divagacoes citacoes releitura


 
FERNANDA: CONFESSO QUE NÃO LI ESSE LIVRO, MAS LENDO UM POUCO ATRAVÉS DE VOCE, GOSTEI E SABE QUE O QUE MAIS ME ATRAI DESSE LIVRO, SÃO AS IDÉIAS TOTALMENTE CONTROVERSAL DO AUTOR.COLOCAREI NA MINHA LISTA DE LEITURAS .ABS. SANDRA

verdades e mentiras · Uruguai · 10/7/2010 22:00
Fernanda, minha amiga: Entendo perfeitamente sua posição na análise profunda que você fez de Clarice e, nesse texto o faz de Hermann Hesse. Todavia, não esqueça que são obras que deixaram marcas na L. B. e na Literatura Alemã. Hermann Hesse, grande escritor alemão!!! Autor de acumular sólida cultura autodidata e dedicou-se à literatura. O lobo da estepe, conforme colocado por você é um paradoxo de um mundo contemporâneo, onde há a comodidade das pessoas medíocres, acomodadas... Ao ler a obra, não sei se minha interpretação bate com a sua, mas associei a uma realidade vivida pelo autor, quando, ainda jovem, abandona sua famíla religiosa(protestante), e vai em busca do espiritismo. Daí, entra num misto de apreço e desprezo pela vida burguesa, que numa transcendência , ainda, pelos "martírio da carne", não encontra força bastante para esta libertação, e volta sua atração pela vida burguesa, ao sentir-se aprofundar demais na vida do libertino. Quanto ao romance narrar a desintegração da personalidade de um homem maduro. E, nos passa uma conclusão pessimista quanto à possibilidade de formação da unidade pessoal. O que parece estar prefigurado na demonstração da unidade oculta das mil almas, no capítulo final da obra. Será que estou certa??? Embora, também seja uma crítica que o autor faz contra o militarismo e o revanchismo vigente na sua terra natal. Gosto e destaco essa frase de Hermann: " O homem culto é apenas mais culto; nem sempre é mais inteligente que o homem simples"...(Hermann Hesse). Bjao. Solange.

Solange Gomes da Fonseca · Curitiba (PR) · 11/7/2010 18:20
Fernanda: Excelente artigo.Lí o Lobo da Estepe há muito tempo, na época em que havia até uma banda de rock Stepenwolf.O próprio Hesse admitiu uma natureza auto-biográfica no livro (suas iniciais são as mesmas do personagem).Foi lançada a versão em dvd do filme, estrelado por Max von Sidow, rodado há uns vinte anos ou mais.Também sou fascinado pelo livro, porque acho O Harry uma figura nietzcheana,em seus conflitos.Abs.Votado.André

andre albuquerque · Recife (PE) · 12/7/2010 00:33
Votado!

Solange Gomes da Fonseca · Curitiba (PR) · 12/7/2010 04:06
Fernanda, em minha leitura de Steppenwolf, Harry Haller é uma criatura em eterna busca do aprendizado e da evolução, inconformado à mera contemplação dos dias e relacionamentos amenos. Ele adimira àqueles que conseguem satisfazer suas necessidades nesse torpor das horas brandas - coisa que lhe é impossível. Ele é o homem transmutado em lobo que agride a si mesmo. Ele é o arrependimento da experiência. Mas, sem essa vivência, como é possível conhecer-se, não é mesmo? Jorge X

Jorge Xerxes · São Carlos (SP) · 12/7/2010 10:44
Fernanda.....Lembrar "O lobo da estepe".....Um livro que guardo no coração já a muitos anos. Sem comentários. Mas gostei. ...Abs........Muita luz....Amor...Paz....MF.

Milton Filho · Ribeirópolis (SE) · 12/7/2010 20:22
Votado.Abs.André

andre albuquerque · Recife (PE) · 15/7/2010 11:31
Faz muito muito tempo que li esse livro e confesso que ele não marcou de modo muito relevante minhas sensações, mas pensei sobre o que escreveste e já conjuguei os dias nesses termos. Hoje, sinceramente, considero essa sensação mais como bom material para a ficção do que como viabilidade para viver.

Maurem Kayna · Guaíba (RS) · 1/10/2010 14:39
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