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O Quinto Elemento — A história privada de uma mulher pública
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 15/8/2008 · 39 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 13/02/2008.

Leia um trecho do lançamento 'Toda prosa II' (Record), de Marcia Denser, que reúne 11 contos e três novelas escritos pela autora paulistana desde a década de 90.

"Um mito da literatura brasileira. E engasgada de fertilidade, totalmente viva. E não sabemos o que fazer com você," confessa o poeta Fabrício Carpinejar em seu prefácio ao livro. Conheça a força de La Denser:
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O Quinto Elemento — A história privada de uma mulher pública

Na minha fenomenologia as anfetaminas são o quinto elemento, e como não se fica pensando no ar que se respira, nem na água ou na luz, nunca penso nelas, uma vez que a ingestão diária (mínima) de 100 mg é inevitável como o sol nascer todas as manhãs. Mas nem sempre foi assim. Durante meus primeiros vinte anos de vida elas simplesmente não existiam, portanto não são como o universo e a eternidade, tiveram um começo.

Aos vinte anos eu namorava um cara muito rico, gordo e careta, careta num sentido de usar umas roupas caretas, falar com sotaque da Mooca, o protótipo do paulistano babaquara de arrepiar, mas que basicamente era um maluco absoluto, alcoólatra e devastador, um sujeito radical enfim, fundamentalista em Cristo, em Camaros vermelhos, em Paris, radical em certa inocência e perversidade básicas (iguais às minhas), e naturalmente em dietas para emagrecer. Foi aí, começou aí.

Porque não existe força de vontade, percebem? William Burroughs (os mais junkies aí devem ter lido WB), viciado em heroína, disse precisamente isso: que para o Dr. Dent, de Londres, médico que o curou com apomorfina, força de vontade realmente não existe, você tem que chegar a um estado mental em que não quer ou não precisa da droga que for. O mesmo a respeito da fome, abolida pela anfetamina, um euforizante que além de liquidar a fome te deixa feliz, pleno, esperto, lúcido, maravilha.

Maravilhosamente travados passávamos o dia com meio bife e duas folhas de alface. Engolidos, aliás, com certa dificuldade. Fora isso, estava tudo perfeito, para mim, mas para Alvim — o namorado bem rico, gordo (mas emagrecendo a olhos vistos), maluco e fundamentalista e que era também alcoólatra e devastador desde os 14 anos, as coisas começaram a ficar ligeiramente alteradas uma vez que ele esqueceu de abolir o litro de uísque da dieta, porque as anfetaminas não liquidam a sede, ao contrário, incrementam a boca seca — aliás, a sensação de boca seca é um dos únicos colateral damages do bichinho — e infelizmente no caso do Alvim, meio que beirando o letal essa associação de speed, uísque e fundamentalismo, isto é, ele ficava letal, perigosíssimo, querendo jogar o Camaro contra penhascos, isso quando não me associava a Maria Madalena, incitando apedrejamentos em praias, restaurantes, discotecas, coisas do tipo, havia toda uma liturgia.

Mas aos 23 anos não se acha nada engraçado, a falta de cultura exclui o senso de humor, tende-se para o trágico e fazer drama de tudo (claro que lá no fundo JAMAIS me ocorreria ficar com aquela hecatombe masculina), mas sempre fui uma garota demasiado pragmática, pois havia a questão do aluguel e da faculdade que Alvim me pagava, sem contar as roupas de Courréges e Paco Rabanne que me trazia de Paris, assim o que eram uns penhascos e uns apedrejamentos a mais ou a menos se era tudo o que eu tinha que engolir, afinal, não eram apenas alucinações, isto é, de mentirinha?

Naturalmente, nessa fase das alucinações e do pragmatismo já não havia amor, porque eu apenas era jovem, mas não estúpida, e quanto a Alvim, este sobretudo era rico, o pai era rico, o avô fora rico etc., várias gerações sem preocupações com a sobrevivência, e isto abria um abismo entre nós. O que me permitia dar o fora sem muitos escrúpulos. Por isso, como o coveiro nos dramas elisabetanos, Alvim cumpriu seu papel introdutório e desapareceu de cena.

Então me pergunto: será assim tão absurdo intentar uma exposição de motivos, inventariar minhas escolhas, descrever como foi se estruturando um desígnio a partir de um dos periféricos de sustentação? (porra, se não é um bom nome para as anfetaminas).

A palavra talvez fosse cristalização para descrever o processo. Porque elas funcionam como catalisadores que interligam os elementos preexistentes, vinculando-se e vinculando-os entre si, promovendo uma síntese única para tornar manifestas nossas luminosas qualidades.

Isoladamente, em meio árido, são como notas mudas — nada fazem, nada transformam, não se manifestam, silêncio absoluto. Combinadas, operam maravilhas — ou catástrofes (vide Alvim).

Absolutamente não são mágicas, mas algo em mim as tornava magnéticas (algo a ver com o talento inato para a literatura, ressoando ocultamente do passado e já avançando para um hipotético futuro e, desta vez, como um desígnio) e eis que mil nadas existenciais — desses que a gente não lembra e jamais esquece — começaram a fazer sentido, saltar sozinhos, alados, vindo, um após o outro, prender-se ao bico imantado da minha bic, em fila interminável e trêmula de significação.

Que fique bem claro: não estou fazendo a apologia de porra nenhuma, até porque anfetaminas é preciso merecê-las. Mas insisto: terá esta química atuado para acelerar a revelação e o reconhecimento público duma vocação e dum desígnio, terá ajudado a liberar as forças do inconsciente para emergirem, colocando-se a serviço duma poética, terá atuado no sentido de forçar as paixões para fora do seu balbuciante elemento nebuloso?

Eu diria que sim, contudo não estava inaugurando nada, se já citei Burroughs, também penso em Edgar Allan Poe (ou no meu filtro para Poe que é Cortázar) cuja recorrência ao láudano, ao ópio, ao álcool justifica-se plenamente num poema como O Corvo, num conto como Ligéia, porque escritores precisam soltar a mão, dar nomes aos bois, sem contar que então precisamos sobretudo nos entender em questão de centros: se arrancar o olho dum gato é o eixo dum conto de Poe, não significa que o seu sadismo seja suficiente para produzir um conto. Toma-se conhecimento do sadismo pelas crônicas policiais, a partir daquela filmografia de quinta, mas não bastam maus sentimentos (tampouco euforizantes) para produzir boa literatura.

Já sexo não dava ibope — anfetaminas não admitem relaxamentos — de forma que no espírito do "vamos-logo-com-isso", no intervalo, eu perdera a virgindade com um coroa bonitão-brega-básico, desses que se bronzeiam com lâmpada, usam correntes de ouro e te cantam com sotaque carioca só para enfatizar a malandragem, principalmente se são de Araçatuba.

Então vieram os tempos da faculdade, vamos continuar acompanhando as anfetaminas e estas são acima de tudo drogas de poder, o meu número, right, baby? Aos 20 anos eu pensava que meu objetivo existencial seria ter poder sobre os homens, porque ainda não sabia, não havia encontrado (tampouco que estivesse procurando) um projeto de vida, o desígnio por detrás das minhas ações e motivações posteriores, sequer que teria algum. Tolamente me concentrava APENAS nos homens (ou seria ao
contrário?).

Agora eu tinha uma certa pressa, havia concluído o segundo grau aos 17 anos, mas entrava na graduação aos 23, sempre a maldita falta de grana e o lobo na porta, a milímetros do pescoço.

Como Diana Marini sou meio ruim de cronologia e ordem dos fatos — malgrado tudo se ordene milagrosamente ao fim e ao cabo — mas vamos dizer que a graduação foi um alto momento sem perdão, em que me envolvi plenamente, profundamente: lá eu namorava, descobria o mundo, competia, ME inventava, estudava disciplinas tão prescindíveis quanto irrelevantes (do ponto de vista duma garota de 23 anos que precisasse trabalhar para sobreviver, notadamente pelo ângulo brasileiro da vida) como Semiologia via Roland Barthes e Saussure ou Estética I, II e III; lá pintaram pessoas como o grande D, Alexandre, Horácio Kutuzov, um carinha chamado Benjamin e, já fora do ninho, no início do crime e da vida literária, Xavier, meu guia irretocável ainda que sorocabano.

Cinco anos, puxa vida, dos 17 aos 23 eu amargara num escritório abafado, lutando numa máquina de escrever que parecia o mix duma chaleira com a Medusa. Estudei sozinha para o vestibular e entrei num dos primeiros lugares em Arquitetura e Urbanismo no Mackenzie. Não me perguntem como, levaria tempo para explicar e não estou a fim, até porque naquela época eu andava um bocado confusa. Então fui parar num nebuloso Curso de Comunicação e Artes, período noturno. E isso é fácil esclarecer: arquitetura requer tempo integral e eu tinha que trabalhar, certo?

Mas eu andava feliz. O futuro já podia começar. Bem, de certa forma. Adiava-o durante as janelas entre as aulas no bar do Zé enquanto conspirávamos contra o regime, o trânsito, os militares, nossos pais, mestres, patrões, muito marxismo e luta armada após a quinta espremidinha.

Toda nossa subversão (subversão que eu só exerceria efetivamente anos depois pela via literária) consistia em passar cadernos e livros para as biscates que batalhavam no pedaço quando a polícia baixava. A repressão comia solta e a paranóia idem. Pregávamos a greve em frente ao nosso diretório, as turmas da Engenharia e do Direito, além de remanescentes do CCC, estavam "infiltradas", até em nossa classe havia um sujeito que suspeitávamos ser do DOPS, o Muzambinha, porra, se não era nome de tira, sem contar o jeito de vira-lata manso. Nunca soubemos seu verdadeiro nome, parece que não constava da lista de presença.

Mas aquele primeiro ano eu fazia o gênero altamente magra, sempre meio bandida, meio sabida, conquanto cdf, dois terços dos mestres — todos homens, todos meio gabirus — já haviam sucumbido mediante minhas evidentes e luminosas qualidades, que o diga Horácio Kutuzov, que era da turma e meu melhor amigo e teria sido algo mais se eu tivesse permitido. Judeu-russo refinadíssimo, desses que usam cotoveleiras, desenham ouvindo Mozart, com quem mantemos essas conversas profundas e definitivas e intermináveis, porque ele era exaustivamente educado, como um príncipe no exílio, um intelectual de trinta anos, gênero barba-bigode-óculos e um peculiaríssimo sotaque no qual pareciam se fundir várias línguas, menos o português.

Assim como Alvim, Horácio teve um papel iniciático, um elemento de ligação entre o tango dos anos 40, meu pai, falsos desmaios em verdadeiros joelhos, flores amarelas, Buenos Aires em versão contemporânea tocada por Piazzolla (e a gravadora Pic Jazz) de quem eu acabara de comprar todos os discos e cujo tango ouvia de joelhos, o mesmo tango em rotação alterada, twenty years after, twenty years ago, a fusão de duas épocas numa terceira virtual, no mesmo tom daquilo que já pulsava em mim, de algo a que eu teria que dar uma voz, um rosto, uma biografia, algo que naturalmente tinha tudo a ver com Horácio, o tango e Buenos Aires, como também teriam George Raft, Bolero, sapatos de pulseira e Gilda (e a gravadora Pic Jazz).

Logo Horácio não era o caso, mas foi a ligação que favoreceu as melhores aproximações, permitindo um reajuste de foco, como o sacerdote nas cerimônias de iniciação: levou-me pela mão até o limiar dos mistérios e retirou-me a venda dos olhos.

Não por acaso, quatro anos depois, meu primeiro livro se chamaria Tango Fantasma, mas tudo isso ainda estava longe, eu não poderia advinhá-lo, bobagem.

Por descaminhos chega-se lá.

Evidente que eu estudava, sabia quanto custava a porra do curso, certo? Solidariamente eu e a turma permutávamos aptidões, habilidades e falta de tempo. Estava acima das minhas forças a execução daqueles trabalhos gráficos (feitos à mão, com esquadros, nanquin e régua T) e quanto aos rapazes, ao final de cada aula de História, se quedavam com os olhos fixos no vazio, como quem acaba de assistir a um filme tcheco sem legendas.

Assim, enquanto eles caprichavam minhas artes finais, em dias de exame de História ou Antropologia ou Estética ou Semiótica, eu chegava a escrever seis provas dissertativas, incluindo a minha. Aquele professor pernóstico não era nada bobo, razão pela qual era preciso imitar o "estilo" de cada um. Conforme o caso, não acertar demais, errar o previsível, a ponto do mestre deduzir que, afinal de contas, o sujeito tinha se esforçado. Sempre pintava um mal-agradecido: só sete e meio? Você teve dez! Um sujeito para quem o Objetivo era o sacrossanto reduto da inteligentsia brasileira, seu ídolo, Roberto Carlos, as garotas eram "frescas" ou "gatinhas", seu carro, um Maverick vermelho (imobilizado na garagem por falta de grana para a gasolina, dizíamos que era o drive-in dele, ficava putíssimo).

Mas o futuro, meu futuro, só começou no segundo ano, dentro do laboratório fotográfico. O trabalho consistia em converter o texto de James Joyce, Symbad, o Marinheiro, numa seqüência fotográfica. Era minha chance. Escrevi um poema, legendando com um verso cada foto, aliás, todas irretocavelmente desfocadas. Mas tirei nota máxima. Pelo texto. Então, foi aí.

Eu poderia ter sido uma aplicada artista gráfica, afinal sempre soube desenhar, nasci sabendo, essas coisas, tipo melhor aluna nas aulas de modelo vivo — uma mulatona de olhar miasmático, seios enormes como tamarindos murchos e queimaduras de cigarros pelo corpo: esta descrição, podem apostar, supera meus mais sensíveis esboços.

Escrever não. Era uma espécie de trunfo definitivo, algo que me fazia sorrir secretamente sem mover um só músculo do rosto. Como um jogador profissional com um Royal street flash entre os dedos. Então, foi aí. Naquele laboratório fotográfico, o mestre atônito diante desse talento desconhecido (secreto, retifico, afinal não fazia meia dúzia de provas em menos de uma hora? Era preciso talento, inclusive para ghost. E algum speed, claro), mas finalmente fora reconhecida, identificada. Publicamente.

Daí em diante esqueci os homens, porque agora via claramente, meu objetivo existencial não eram eles, não senhor, não era o poder sobre eles, absolutamente, ia dar muito trabalho, me fora reservado algo bem mais fácil, infinitamente mais fácil, algo a ver com o Royal street flash, as fixações a partir do tango, flores amarelas, sapatos de pulseira, Astor Piazzolla e Horácio Kutuzov, sem contar o Cafetín de Buenos Aires e a poesia de Mariano Mores, trenzas y garras de Aníbal Troillo e José Maria Conturci, a aceleração e o coração, Alvim, Maria Madalena e os penhascos, sim, meu lance era a literatura, era ser escritora e isso fazia sentido, tudo ficava muito claro, claríssimo, o futuro se desenrolando agora diante dos meus olhos feito um tapete mágico, acelerado, aceleradíssimo, rápido, cada vez mais rápido, eu mal podia esperar.

(...)
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A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O Animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias no Brasil e no exterior e é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.

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