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O fim do botim de Alexandria, ou Copiar de um é plágio...
 
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j., Rio de Janeiro (RJ) · 8/8/2009 · 154 votos · 3
  
Por Julia Vidile

Fui criada em uma cidade do litoral em que o maior “evento cultural” eram umas meninas de 14 anos dançando seminuas na praia às custas da prefeitura durante o verão; por isso, não creio exagerar quando digo que minha família possuía provavelmente a maior biblioteca privada da cidade. Como é de se esperar, éramos a tábua de salvação dos vizinhos ignaros que necessitassem, por motivo de estudo ou trabalho, de um daqueles objetos místicos chamados “livros” (também costumavam pedir dinheiro, mas disso eu falo quando a CartaCapital me contratar).

Dentre os alfarrábios de nossa invejável (embora não pelos parâmetros dos habitantes daquela cidadezinha) coleção estava uma Enciclopédia Barsa, edição de 1964, que provavelmente ainda dizia que a Lua era feita de queijo. Mas tirando certos assuntos mais contemporâneos que demandavam uma consulta a outras fontes, as informações contidas naqueles fascículos eram suficientemente exatas para poderem ser usadas em nossas pesquisas escolares, especialmente em um mundo em que quase ninguém tinha computador em casa (na verdade, até as máquinas de xerox só se tornaram acessíveis aos mortais comuns quando eu já estava terminando o ensino fundamental…).

Ocorre que há alguns meses, meu pai (que ainda mora naquela casa) comentou que uma vizinha com quem brinquei na infância viera lhe pedir aquela mesma Barsa emprestada, agora 20 anos mais desatualizada, para um trabalho da faculdade. De início, senti-me aliviada por dois motivos: o primeiro, por não mais precisar sair para brincar com esses vizinhos; depois, por não morar mais na mesma cidade, já que a faculdade em questão era na área da saúde e não me parece muito legal cair nas mãos de um profissional desses quando a gripe suína finalmente atingir a classe sensata. Posteriormente, repensando no caso, comecei a enxergar os diversos níveis da falta de bom senso não apenas dessa vizinha, mas de muitas (muitas!) pessoas que já deram um passo além e chegaram à internet como principal fonte de pesquisa para seus trabalhos.

Estou falando, aqui, da prática do Copiar-e-Colar o verbete relativo ao assunto de interesse sem nem se dar ao trabalho de ler o texto. Repare o simpático leitor que estou dando uma colher-de-chá a meu estudante hipotético, pressupondo que ele não seja analfabeto funcional (quem quiser discutir esse assunto, que visite o blog do Dimenstein). Ora, já muito se falou sobre o quanto as fontes na internet podem ser pouco ou nada confiáveis, sobretudo aquela que costumamos visitar em primeiro lugar, a Wikipédia – já que pode ser editada por qualquer pessoa com acesso à internet. Você não pediria um conselho sobre aplicações financeiras a seu açougueiro, que já tentou ser caixeiro-viajante, palhaço de circo e faxineiro de motel e fracassou todas as vezes; mas foi esse açougueiro quem escreveu o artigo sobre debêntures que você copiou e colou no seu TCC em Economia. E muito do que vale para a Wikipédia vale também para outras fontes na internet: seus autores são anônimos e, até onde você pode saber, podem ser tanto autoridades mundiais no assunto como o parabólico macaco com a máquina de escrever que acaba por recriar, ou não, a obra completa de Shakespeare.

A dica aqui é bem simples: ao fazer pesquisas na internet, fique de olho nos autores e nos sites em que aqueles artigos foram publicados. Artigos anônimos são invariavelmente arriscados; blogs pessoais podem ser válidos, mas procure ler mais de uma postagem, além da descrição do blog, para saber se aquele autor tem de fato um certo conhecimento do assunto ou se é só diletante (costuma ser o caso, infelizmente); sites de universidades e instituições conhecidas provavelmente são mais confiáveis… e, principalmente, nunca se contente com uma fonte só, e leia cuidadosamente cada um dos textos encontrados antes de usá-lo.

No fim das contas, minha vizinha antiquada foi quem provou estar com a razão: pelo menos a Barsa, nos idos de 1964, passava pelo crivo de gente especializada antes de chegar às gráficas…

perguntar-me-ão se a Wikipédia é, então, totalmente daninha e deve ser descartada por qualquer um que deseje fazer uma pesquisa séria; nada disso, digo eu, e mesmo que a Comunidade Acadêmica afirme o contrário, pretendo apresentar na próxima edição as razões pelas quais a Wikipédia pode ser útil e as maneiras mais inteligentes de usá-la em pesquisas.




tags: blogs


 
Pertinente isto, Julia. Aliás, creio ser este o maior argumento em defesa da existência dos livros. Outro dia participei de uma mesa redonda sobre Literatura e internet, e alguém na plateia disse que a tendência para o futuro da literatura sob a égide da internet seria a proliferação do autor anônimo, aquele mesmo, que assina sob o nome de um Fernando Pessoa, Veríssimo etc, ou anônimo mesmo. Com o livro, pelo menos, tenho um mínimo de segurança quanto à autoria.

Viegas Fernandes da Costa · Blumenau (SC) · 8/8/2009 13:39
Júlia, nada escapa à proliferação: lendas, pandemias, ilusões e outros exageros. A internet é muito nova para tudo isso. Com o tempo (sempre ele), a adequação será inevitável: daí o simples copiar-colar serão descartados por falta de conhecimento de quem assim agir. Agradeço pelo texto. Votei. Abraços, Pedro.

Pedro Du Bois · Balneário Camboriú (SC) · 8/8/2009 21:19
A wikipéida é um epifenômeno da internet:pode ser uma maravilha ou os pés da besta,(como falam por aqui) , mas na dúvida, o folhoso ainda é a melhor opção, em comparação á versão cibernética da biblioteca de Alexandria .Òtimo texto . Abs .André.

andre albuquerque · Recife (PE) · 18/4/2010 14:03
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