Publicado originalmente por Marcio Orsolini na revista Bravo! em setembro de 2008.
Para Marçal Aquino, qualquer autor brasileiro contemporâneo deve algo a Fonseca. Já o escritor Fernando Molica acredita que a nova geração busca uma voz independente da influência do escritor mineiro. E você, o que acha?
Desde que despontou na década de 60, o escritor mineiro Rubem Fonseca sacudiu a literatura brasileira ao tratar da violência das ruas brasileiras com uma brutalidade narrada meticulosamente. Autor de clássicos como
Agosto (1990), Fonseca definiu as características do conto urbano brasileiro moderno e sua abordagem literária influenciou gerações posteriores de "escritores urbanos" na forma de retratar a realidade, seja de maneira cruel e direta ou com meios-tons.
Escritores da geração imediatamente posterior à sua, como Marçal Aquino e Paulo Lins, trazem traços fortes da literatura fonsequiana. Mas será que a influência dele ainda é visível na nova geração? Os escritores mais novos como João Paulo Cuenca e Fernando Molica, por exemplo, têm opiniões diferentes. "Os autores só não citam Rubem Fonseca para tentar fugir da sua sombra", diz o carioca Cuenca, autor de
O Dia Mastroianni (2005), apontado como um dos expoentes da literatura atual e que considera ainda relevante a figura do autor mineiro.
Para Molica, autor de
O Ponto da Partida (2008), a influência de Fonseca está diminuindo. "A produção atual dele já não justifica tanto barulho. E a influência não foi apenas sobre os autores, mas também na crítica, que, em alguns casos, exagera sobre a presença da marca Rubem Fonseca na produção contemporânea. A simples existência de um homicídio passou a ser vista como fruto de influência fonsequiana".
Na literatura brasileira, a predominância da tendência realista é um dos fatores responsáveis pela discussão da herança de Fonseca na prosa de outros autores. Tal fato é endossado pelo paulista Marçal Aquino. "Ele foi de fundamental importância na minha formação como escritor. Na minha opinião, qualquer autor brasileiro contemporâneo que incursionar pelo universo da narrativa policial deve algo a ele", diz. Para a carioca Adriana Lisboa, hoje existem outras vertentes na literatura brasileira aparecendo com tanta força quanto a prosa orientada por Rubem Fonseca. "Isso não significa que a importância e a influência dele estejam sumindo. Apenas que a diversidade é maior e mais aparente", diz a autora de
Rakushisha (2007).
As duas gerações (de Marçal Aquino e dos novos autores) apresentam como traços comuns uma prosa urbana, ágil e - em alguns casos - o tratamento da violência como forma de denúncia social. Mas a temática não se restringe a isso. Também não significa que uma geração seja a única responsável pelas distintas nuances na abordagem dos autores. "Acho que a divisão geracional se presta unicamente a facilitar as análises críticas. Literatura é sempre continuidade - eu não escreveria se não tivesse lido os autores que me precederam", afirma Marçal. Molica, por exemplo, é dois anos mais novo do que Marçal, mas publicou seu primeiro livro apenas em 2002, aos 41 anos. "Sou um autor novo ou veterano? Vale o critério do ano de nascimento ou o da estréia em livro?", questiona ele.
A narrativa policial, tão característica de Fonseca, trouxe a agilidade na linguagem da literatura brasileira, mas a herança do escritor não chega a restringir os temas tratados pelos autores que o sucederam. Prova disso é a diversidade de obras de qualidade no mercado hoje que têm como pano de fundo temas diversos dos tratados por Rubem Fonseca.
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