“Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir.” É assim que começa o conto “Tanta mansidão” da Clarice Lispector. Logo após, ela descreve um sentimento de vazio, como se “o coração tivesse sido tirado, e no lugar dele houvesse uma súbita ausência”, tal ausência poderia ser interpretada como a ausência do sentir de contentamento, porém, a Clarice, em tal conto, evidencia o desaparecimento, a retirada da dor e do sofrimento ‘natural’ que algumas almas possuem mais do que as outras: “uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão da dor”. Fugindo ao comum, a autora adentrou no campo antagônico da idéia de evidenciar aquele momento em que um coração desesperançado mostra-se assim exatamente por não estar sob os efeitos de sofrimento e de desolação. E como se quisesse dizer que tal instante não é sentido ou percebido por qualquer um, argumenta de forma a tornar mais palpável sua premissa: “Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.” Quiçá, o sentimento mais evidente quando um ‘esvaziamento’ de agonia ocorre é exatamente esse ‘sentir nada’. Mas... será que às vezes esse nada ou esse vácuo não é apenas uma justificativa que se dá para dizer “não estou mal, logo deveria estar bem, mas parece-me que sinto falta do contrário sentir de agora”.
Em uma análise mais crua, o texto traz em si a idéia de que nem sempre nos descobrimos padecendo mil males internos e externos, porém, exatamente por isso, exatamente por não nos vermos dessa forma agônica, em todo e qualquer momento, que vamos arrumando motivos para que algo nos prove o quanto estamos melancólicos. E paradoxalmente, o texto demonstra que alguém pode se sentir terrivelmente entristecido por um único fato: não estar triste ou por não existir motivos, embora sinta algo como “querer consolar-se da angústia e da dor, mas simplesmente possuir uma simples e tranqüila alegria”.
No terceiro parágrafo do conto, a personagem (existem alguns contos da Clarice que me fazem pensar que os personagens são apenas ela conversando consigo mesma) relembra que a chuva costumava consolá-la, mas ela conclui novamente que “não tem dor a consolar”. Buscando ainda uma justifiicativa para mostrar-se nada satisfeita com sua ausência de dor, desencadeia uma sentença enunciativa que cai exatamente num confronto e num conforto para a sua tão presente falta de sofrimento (ou presença dele, ainda que pelo motivo de não sentir dor): “Estou procurando agora na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça a agudez da dor.”
Desesperadamente, no penúltimo parágrafo, o eu-lírico, ainda procura no próprio pulso o latejar tão dolorido e conhecido da dor. “Constato que não há o latejar da dor”. E tal situação, devendo assemelhar-se com um sentir de conforto provido de satisfação e alegria, mostra-se cada vez mais uma prova meio incoerentemente humana de que existe uma dor camuflada que é desencadeada pela presença de uma alma desprovida de males. “Quanto durará esse meu estado?”, é o questionamento que salta da página enquanto a personagem apalpa ainda seu pulso em busca... em busca de uma dor que a chuva, a qual mansamente cai, possa acalmar e consolar.
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