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No olho da rua
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 15/8/2008 · 26 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 12/05/2008.

Leia capítulo de No olho da rua (Nova Fronteira), de Marcelo Antonio da Cunha, sobre a Fazenda Modelo.
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Mendigos, indigentes, marginalizados, excluídos, esquecidos; ou, como têm sido chamados recentemente, "em situação de vulnerabilidade social": assim é vista a população de rua, vez por outra mandada para abrigos; vez por outra queimada viva, como lemos nos jornais.

No olho da rua trata de um grupo de abrigados da Fazenda Modelo. Boa parte deles não nascera na miséria. Alguns chegaram um dia a ter casa, carro, emprego e famílias estáveis - tudo perdido nalgum estranho revés. O livro reúne casos tão diferentes quanto o da ex-aeromoça que passou anos na Fazenda enquanto aguardava uma vultosa indenização trabalhista e do mendigo conhecido como Bacana, que pensava ser um cachorro.

Marcelo Antonio da Cunha, médico e autor deste lançamento da Nova Fronteira, revela através de histórias surpreendentes como era a vida em um dos maiores abrigos do mundo para população de rua.


A dança dos sapatos

O clima de apatia e indiferença que dominava os moradores só mudava em ocasiões especiais: nos dias de pagamento, por exemplo, por ocasião dos festejos promovidos pelo Serviço Social ou ainda quando chegava à Fazenda alguma remessa de donativos a serem distribuídos entre eles. Mas nunca vi tanto rebuliço como no dia em que recebemos, à guisa de doação, uma grande partida de calçados.

Era comum recebermos doações. Não que entre estas não viessem coisas realmente úteis para a instituição e os moradores. Mas muitas vezes nos enviavam objetos imprestáveis, talvez só para desocupar espaço – em geral coisas de má qualidade, refugos industriais, sobras de produtos recusados pelo controle de qualidade de alguma fábrica. Afinal, deviam pensar certos doadores, tratava-se de um abrigo de mendigos – e para mendigo qualquer coisa servia.

Desta vez íamos receber sapatos, e sapatos, em princípio, são coisas úteis. Os abrigados saíram da costumeira letargia e ficaram alvoroçados com a notícia, muitos mais, por sinal, que eu poderia esperar. Gostavam de sapatos, portanto, e fiquei imaginando se aquela agitação eventual não poderia ter um certo caráter simbólico.

Lembrei-me de uma frase de Beckett: "Eis o homem, culpa os sapatos, quando o culpado é o pé". Sabe-se que os escravos, no Brasil, eram proibidos de usar sapatos. Os pés descalços eram a marca de sua triste condição na sociedade escravocrata. Quando conseguiam alforria, sua primeira providência era adquirir um par de calçados. Muitos, por falta de hábito, não conseguiam nem usá-los. Mesmo assim, os levavam junto ao corpo, pendurados ao pescoço pelo cadarço, só para exibir sua nova condição social, o novo status de homens livres.

Fiquei matutando se aquela prática antiga não teria ficado impregnada, de alguma forma, na memória coletiva daquela nova categoria de despossuídos, por assim dizer escravos da atenção alheia, que eram os moradores da Fazenda Modelo. Isso, pelo menos, podia explicar a sua euforia.

Eu recebera telefonema da funcionária de uma fábrica de sapatos, me consultando se o abrigo aceitaria a doação de uma "ponta de estoque". Como sempre acontecia, por razões que nunca entendi direito, a novidade correu celeremente pelos alojamentos. Logo se formaram pequenos grupos no pátio do casarão. Talvez quisessem garantir o seu lugar na fila ou, como eram muito desconfiados, constatar se, de fato, não haveria desvio da mercadoria e ela chegaria de fato até eles.

Desde cedo rondavam a administração à espera do caminhão com a remessa; alguns, com olhares enviesados, acompanhavam de longe os nossos movimentos. Pedi aos funcionários que seguissem a rotina de sempre: as doações deviam ser depositadas numa sala, para uma avaliação inicial. Aí os calçados seriam separados, por tamanho, cor e modelo, para que assim pudesse ser feita a distribuição.

No final do dia, fui procurado pela equipe encarregada. Não tinha conseguido realizar a tarefa. É que os pés dos sapatos estavam desencontrados. Haviam tentado, durante toda a tarde, sem êxito, formar os pares. A grande quantidade de calçados, de diversos modelos e tamanhos, ocupava quase que totalmente a sala, formando numa montanha que ia até quase ao teto, de modo que não se podia nem mesmo entrar no recinto. Separá-los, então, era um trabalho praticamente impossível.

Estava criado, assim, um problema. Como explicar a questão àquela pequena multidão impaciente, que não via a hora de pôr as mãos nos donativos e certamente nem conseguia dormir pensando nos sapatos? Eram situações prosaicas desse tipo que muitas vezes provocavam os maiores qüiproquós dentro da Fazenda.

Resolvi, então, que no dia seguinte toda a carga seria transportada para o mini-estádio de futebol que existia no abrigo, fosse lá deixado o imenso amontoado de sapatos. Caberia aos próprios moradores encontrar e casar os respectivos pares. Pareceu-me, na ocasião, que aquela era a maneira mais prática e participativa, até porque dissiparia o clima de desconfiança que quase sempre as doações provocavam. Nunca pensei, todavia, que fosse ver-me diante de uma das situações mais inusitadas que presenciei nos tempos de Fazenda.

Organizei-me para, no dia seguinte, acompanhar o grande acontecimento, e até para intervir, caso se tornasse necessário encontrar uma outra forma de encaminhar o problema. Porém, entretido com outros compromissos, acabei esquecendo. Fui de repente surpreendido por alguns funcionários. Estavam preocupados com a possibilidade de tudo aquilo acabar em tumulto e pediam para que eu acompanhasse de perto a distribuição.

Caminhei apressadamente até o estádio, onde pude observar um "espetáculo" realmente impressionante. A montanha de calçados estava sendo escalada, avidamente, por um monte de moradores. A cena fez-me lembrar das imagens que vira há tempos na TV do garimpo de Serra Pelada, onde multidões de mineiros subiam e desciam dificultosamente, como formigas, uma grande colina, em busca do ouro escondido sob a terra. Na Fazenda, também, crianças, homens e mulheres se movimentavam, encurvados, por cima e ao redor do amontoado, indo de um canto a outro numa busca obstinada, como se os sapatos que procuravam fossem verdadeiras pepitas de ouro.

Cada morador, naturalmente, escolhia, à primeira vista, o calçado que mais lhe atraía. Em seguida, saía em busca da parelha, com a ilusão de que poderia encontrá-la com certa facilidade. Só que, com exceção de alguns sortudos, não encontrava nunca. E, no afã de achar o outro pé no meio daquela massa de artefatos de couro, ia se tornando cada vez mais a empenhado na busca, como se aquela fosse uma questão de vida ou morte.

Aproximei-me mais e pude observar de perto o modo diverso pelo qual cada um lidava com o acontecimento. Alguns sorriam, em algazarra, como se participassem de uma atividade lúdica, de uma gincana, de uma brincadeira de criança. Outras, talvez de personalidade mais grave, desanimavam minutos depois de tatear por entre os calçados. Deixavam-se encostar então na parede ou se sentavam nas arquibancadas para acompanhar aquela algazarra como se assistissem a um jogo, com apenas um pé de sapato na mão.

Avistei outros abrigados que escolhiam vários modelos, na esperança de aumentar suas possibilidades de êxito. Alguns, já descrentes em encontrá-los no monte, procuravam nas mãos de outrem pés de sapatos que combinassem com os seus. Duas mulheres estavam negociando, para ver qual delas ficaria com o par.

Era uma manhã calorenta de verão. Apesar do sol a pino, a maioria continuava empenhada na busca. Depois muitos, já fatigados e desiludidos, iam engrossando as fileiras dos desistentes. Mas, ao mesmo tempo, iam chegando novas levas de moradores, entusiasmados, que acabavam estimulando muitos dos que haviam desistido a continuar.

Permaneci por longo tempo contemplando aquela estranha movimentação. Embora não tenha visto nenhuma briga, o clima, de fato, transpirava uma certa tensão, de modo que pedi que reforçassem o número de guardas.

Minha atenção voltou-se, de repente, para uma adolescente que buscava o par de uma bota de couro aveludado que desencavara do monte. Ela segurava um pé do calçado com uma das mãos. Com a outra, escavava sofregamente o amontoado de sapatos. Não levava essa tarefa na brincadeira. Na verdade, parecia bastante ansiosa. Corria de um canto a outro do monte como se achar o outro pé da bota fosse fundamental, a coisa mais importante da sua vida.

Era uma moça esguia, ágil, com todo o viço da puberdade irradiando do corpo. Talvez por isso se destacasse, aos meus olhos, dos demais moradores. Tinha os pés descalços. Vestia uma mini-blusa de malha que lhe deixava o ventre à mostra e um short jeans já desbotado, possivelmente, imaginei, produto de uma outra leva de doações. Seus cabelos, de tão molhados pelo suor, colavam-se ao rosto, denunciando o longo tempo em que estava envolvida naquela faina.

No entanto, havia uma expectativa de esperança no seu rosto jovem e quase alegre. Sentado na arquibancada, não conseguia me desvencilhar dos movimentos e da feição contraída da moça. Ela me hipnotizava. Seus braços, apesar de finos, pareciam no entanto os de uma guerreira, quando os enterrava até o ombro no monte de calçados. Fazia-me lembrar as pescadoras de caranguejo nos manguezais da minha terra, ou então uma criança num jogo de tirar a sorte, que não desanima apesar do insucesso de muitas tentativas.

Sua atenção concentrada fazia-me vê-la como uma fêmea primitiva em busca da caça que farejou na mata e saciará a fome do filhote. O movimento ardente com que buscava o outro pé da bota lhe dava ares também de uma atleta, uma jogadora de futebol que leva toda fé nos seus formidáveis dribles sobre os adversários, movimentando-se com desenvoltura, de modo a encontrar, antes deles, o objeto tão desejado.

Sentia-me, na arquibancada, como um torcedor ardoroso de um time que perdia, mas continua convicto da improvável vitória. No entanto, pude vê-la, lentamente, se cansando e a desilusão ofuscando, pouco a pouco, o brilho dos seus olhos. Fatigada, seus movimentos foram se tornando cada vez mais lentos, até que desistiu de procurar, sentou-se no chão e calçou o único pé de bota que trazia na mão.

Andou, assim, com um pé calçado e outro não, por alguns metros, como uma modelo desfilando na passarela. Em seguida passou a olhar para os próprios pés como se experimentasse um novo modelo numa loja de sapatos. Talvez, do prisma da fantasia, estivesse vendo as duas botas de couro aveludado, novas e intactas, brilhando nos seus pés. À medida que ela ia também se encostando à parede, desiludida, de volta à realidade, senti a angústia de torcedor que vê o seu time ser derrotado, no último momento, pelo gol da humilhação.

A tenacidade inicial e a posterior prostração daquela moça provocou em mim um profundo sentimento de indignação. Já não me divertia, se é que me diverti, já não apreciava mais aquele espetáculo. Muito pelo contrário, comecei a vê-lo como uma forma sutil, porém cruel, de humilhar o próximo. A fábrica de sapatos não poderia ter organizado a remessa, selecionado os pares e modelos antes de enviá-los, poupando os abrigados de tamanha decepção?

Fui tomado pelo impulso de mandar interromper aquilo tudo e organizar um grande mutirão de funcionários que procedesse em ordem, num outro dia, a distribuição. Era, no entanto, tarde demais, não dava mais para reverter o processo. Até porque já havia vários funcionários envolvidos na busca, auxiliando um e outro morador a achar os sapatos que procuravam.

No final da tarde os abrigados, tão entusiasmados no começo, começaram a deixar o estádio com a sua postura costumeira: postura de gente derrotada. Desistiram de uma vez por todas das buscas, perceberam que não havia motivos que alimentassem suas ilusões. Haviam perdido tempo e o sapato suspirado. Aos poucos, foram voltando, um a um, para os alojamentos, carregando com eles as desesperanças de sempre.

Começava a anoitecer e tivemos de negociar uma solução com alguns poucos que ainda persistiam na busca. Prometemos que no dia seguinte poderiam voltar para tentar encontrar sapatos que certamente nem existissem ali. Houve, é verdade, aqueles que conseguiram formar pares completos. Outros, mesmo não encontrando o pé que faltava, fizeram valer o esforço da busca, e saíram de lá usando sapatos de tamanho e cor diferentes.

Por uns três dias a montanha feita de sapatos permaneceu no estádio. Um ou outro morador ainda a visitava, movidos por uma derradeira esperança. Depois, com as sobras das sobras, os restos dos restos, formamos uma grande fogueira, que ardeu durante horas. E ficamos ali velando a incineração daqueles calçados cujos pares se perderam, para sempre desencontrados, apesar de todo o esforço humano que presenciei.

O espetáculo chegara ao fim, tudo se transformava numa fumaça negra e mal cheirosa, e não pude deixar de fazer uma associação terrível entre aquela doação maldita e a vida na Fazenda: sobras de sapatos e sobras de seres humanos, amontoados num abrigo, vítimas de tantos desencontros, procurando, em vão, um sentido a dar às suas existências.

tags: literatura degustacao 2008 no-olho-da-rua nova-fronteira marcelo-antonio-da-cunha fazenda-modelo


 
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