Publicado originalmente em 03/06/2008.
Leia o conto "Ninfa e Fauno", da coletânea
As setas do cupido (Rocco), um mergulho no universo sombrio e sensual da autora de Gordon, romance proibido na Inglaterra e na Alemanha em 1966, e publicado com o verdadeiro nome da autora apenas em 2007, pela Rocco.
Edith Templeton nasceu em Praga, em 1916, de família de classe média alta, foi educada no liceu francês e passava seus períodos de férias escolares em um castelo que pertencia à sua avó, a 20 minutos de Praga. Casou-se com um inglês, em 1938, e foi viver na Inglaterra, alistando-se no exército e trabalhando como intérprete em conferências de cúpula. Em 1956, mudou-se para a Índia com seu segundo marido, um célebre cardiologista que se tornou médico do rei do Nepal, sendo o primeiro europeu a freqüentar o palácio real deste país. O casal conheceu Nehru, Dalai Lama, bem como outras importantes personalidades e, mais tarde, fixou residência na Riviera Italiana. A escritora viveu durante muito anos em Bordighera, na costa da Itália, e morreu em junho de 2006, aos 90 anos.
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NINFA E FAUNO - Tradução de Aulyde Soares Rodrigues
Há um tipo de mulher, rica e que aparenta riqueza, climatérica, viúva ou divorciada, que, quando tem de enfrentar uma tarde vazia, cede à insistência da malícia e da insatisfação e inventa uma expedição ao centro comercial mais próximo. Lá, ela entra em uma ou duas joalherias ou lojas de roupas sofisticadas. Finge procurar uma peça especial. Engenhosamente diz aos vendedores que uma determinada peça é "quase o que ela procura, mas..." e vai embora depois de uma hora ou mais. Ela chama esse esporte de "virar a cabeça deles" ou "embromar os vendedores", acrescentando: "Não há nenhum mal nisso, há? Afinal de contas, não é para isso que eles estão lá?"
Sempre desprezei mulheres como essas. Detesto que brinquem comigo. Mas houve um tempo em que entrei nesse jogo. E, então, fiquei primeiro curiosa, depois comovida, em seguida encurralada, mais tarde arrastada e, finalmente, compreendi que meu marido estava realmente morto, que meu casamento não existia mais e que ele não estava mais ausente, como eu sentia, mas tinha desaparecido para sempre.
Devo me desculpar dizendo que, no meu caso, o jogo não foi premeditado. Fui levada a ele por acaso e eu jogava ao contrário, não fingindo que queria comprar uma certa coisa, mas vender. Aparentemente estava bem equipada para entrar no jogo. Era rica, viúva, tinha cinqüenta e dois anos, a areia na minha ampulheta diminuía rapidamente, com apenas uma leve mancha de sangue marcando a passagem de cada mês. Enviuvei após permanecer casada por quase vinte anos. Mas, embora o casamento tivesse desaparecido, eu não sentia que havia acabado. Eu ainda escovava e arejava os ternos de meu marido com mais cuidado do que tratava da minha roupa. Nunca me sentava à mesa dele, nunca me sentava na sua cadeira favorita e, no inverno, em vez de usar meu edredom, eu me aconchegava no roupão marrom pesado, de listras, de atoalhado turco que ele sempre usava em casa no último ano da sua vida. E nunca tomava uma decisão sem pedir o que eu imaginava ser sua aprovação.
Eu não me casei com ele, como muita gente pensava (considerando que ele tinha idade para ser meu pai), por dinheiro. Eu não sabia que ele era rico quando o conheci. Nem fiquei sabendo durante nosso casamento. Só descobri depois de sua morte. O que eu vi, logo que o conheci e que nunca deixou de me encher de admiração pelo resto da vida, foi sua distinção.
Para mim, um almirante ou um marechal pode ter nariz de batata, uma barriga avantajada ou as pernas tortas, mas deve ter um certo ar de comando que lhe permita andar completamente despido no convés do navio ou parar na frente de um pelotão e mesmo assim ser obedecido e venerado pelo que é. Meu marido, que era médico, possuía um ar de inquestionável, incontestável autoridade. Não importava se seu corpo esbelto estivesse enrolado numa toalha ou coberto pela discreta elegância dos seus ternos de Savile Row. Essa rara qualidade, tão misteriosa quanto impressionante, para mim, que não sou inglesa, era o máximo da distinção britânica e brilhava nas circunstâncias mais banais. Assim, ele podia dizer para uma empregada: "Terei de arranjar outra criada para andar atrás de você e apagar as luzes que deixou acesa", e isso seria recebido com um sorriso respeitoso. Se eu fizesse a mesma observação, usando as mesmas palavras, a criada pediria demissão.
Uma certa jovem em Hampstead, diz a história, visita seu médico para um check-up. O médico pergunta:
– E como está se sentindo?
– Na verdade, sinto-me bem – ela responde. – Só que, como sabe, sou viúva. Não tenho vida amorosa.
– O que você quer? Está no mesmo barco que todas as outras mulheres de Hampstead.
Conheci a verdade da história, sem remorso, quando meu marido me disse, depois dos nossos primeiros anos juntos:
– Você me entedia na cama. Você é passiva demais. E não tem senso de humor.
Eu nem perguntei o que o senso de humor tinha a ver com o resto.
Como eu podia me ofender com isso com Gordon sempre em minha mente? Gordon havia me aprisionado no seu coração, jogou a chave fora e caminhou para o suicídio. Acabou o nosso relacionamento, de repente, sem que eu estivesse preparada.
– Tem de acabar – disse ele. – Não vou mais ver você.
– Você tem outra mulher? – perguntei.
– Sim. Tenho e estarei farto dela dentro de seis semanas. Mas a questão não é essa.
– Qual é a questão?
– Sexualmente eu nunca me cansaria de você, poderia continuar com você para sempre. Mas tem de acabar.
– Por quê?
– Porque tenho medo do que posso fazer para você. Veja o que eu já fiz. Você está escravizada por mim. Não quero me livrar de você, mas devo. – E então, com um ar jovial forçado, acrescentou:
– Comi, bebi e dormi com você. Eu dei prazer a você. Ouvi sua tagarelice infantil, eu, um homem altamente qualificado. Você tem alguma queixa?
– Não – respondi.
Gordon era psiquiatra, o que fazia dele um ouvinte altamente qualificado. Quando o conheci, ele acabara de deixar a marinha e havia alugado alguns cômodos e um consultório na rua Queen Anne, uma travessa da rua Harley. Gordon não era soldado. Era marinheiro. Não era carne. Era peixe. E assim como o peixe deve ser comido às sextas-feiras e durante a Quaresma, quando a carne não é permitida nos dias de penitência, assim também Gordon queria me torturar, mas com uma tortura que levaria à salvação. Ele também pretendia que eu me abrisse para ele, para ser aceita e levada ao seu peito. Um pouco antes de acabar o relacionamento, Gordon me disse:
– Eu a aprisionarei para sempre. Porque sempre encontrarei novos meios de torturar você.
Suponho que é uma forma de autotortura continuar a perguntar a mim mesma como foi possível que os dois homens mais importantes de minha vida fossem médicos. Não sei dizer por quê, exceto que tenho certeza de que, mais do que uma pálida semelhança na profissão, era a diferença entre Gordon (que estava morto) e meu futuro marido, vivo, que me levou ao casamento. Gordon era um psiquiatra obscuro, com um longo tempo de serviço na marinha, ao passo que meu marido era um cardiologista internacionalmente conhecido, com muita pesquisa e muitas publicações com sua assinatura. Quando o escolhi e me casei rapidamente com ele, eu não estaria dizendo a mim mesma que não sentia o fato de Gordon ter cometido suicídio, que eu tinha superado tudo aquilo que sentia – havia me forçado a sentir –, que estava acima da lembrança de um passado de tanta dor?
QUANDO O TELEFONE TOCOU às três e meia da tarde, no fim de janeiro, eu quase não atendi. Morando como eu morava, na Riviera Italiana, com Monte Carlo a menos de uma hora de carro, no outro lado da fronteira, nenhum dos meus amigos iria me telefonar àquela hora. Eram todos expatriados, como eu, a maioria aposentada, sem trabalhar, descansavam depois do almoço e não tinham disposição para amabilidades até o fim da tarde.
Apanhei o fone com um "Sim?" em voz alta, lânguida, pronta para ficar aborrecida.
– Sra. Richardes? – perguntou uma voz de homem.
Não reconheci a voz de barítono, cheia e firme. Tive logo certeza de que ali estava um inglês, da classe alta e sem frescuras. Eu sabia também que ele era preciso e cauteloso. Não havia dito meu nome descuidadamente, de qualquer jeito, como a maioria das pessoas, que costumava pronunciar "Richards", mas a voz marcara bem o d e o s, dando ao e, entre os dois, a devida importância.
– Sim, é ela – respondi, dessa vez com a voz completamente diferente.
– Estou com sua carta na minha frente. Foi mandada por nossa casa em Paris.
– De onde está falando? – perguntei.
– De Genebra.
– Mas isso é muito caro.
Ele riu discretamente.
Reconheci a risada, indulgente, polidamente divertida, que eu não ouvia – há quanto tempo? – havia quase trinta anos. Sentei na beirada da minha cama, com o cotovelo na mesa-de-cabeceira e apoiei a testa na mão livre. Fechei os olhos, numa tola tentativa de fechar o presente que me rodeava e me deixar inundar por uma onda do passado.
Um pouco depois, ele continuou:
– Vejo que a carta diz que seu aparelho de chá Odiot é de 1808. Como sabe? Quem lhe disse isso?
– Ninguém me disse pessoalmente, nenhum perito, quero dizer. Meu marido me disse.
– Seu marido estava enganado, porque com o Odiot nunca se pode precisar o ano, não como acontece com outras marcas de autenticidade. Seu Odiot pode ser de 1815, ao que podemos
saber.
– Compreendo – concordei humildemente.
Estávamos falando sobre prata. Odiot foi o maior ourives de prata da França. Começaram a fazer objetos de prata para Luís XIV, continuaram a fazer para Luís XV e depois para todos os monarcas, incluindo Napoleão. Ainda são os maiores fabricantes da França.
– É prata branca ou vermeil?
Feliz por ter entendido, respondi:
– Prata branca. – A essa altura, além de ter reconhecido sua risada eu sabia exatamente como ele era. Atordoada como estava com o som de sorridente indulgência daquela voz, achei meu raciocínio perfeitamente lógico. E, seguindo essa mesma linha obscura, eu sabia também que qualquer coisa que dissesse seria recebida com interesse e sem julgamento. Seria da mesma forma que acontecia com Gordon. Se eu dissesse que havia acabado de estrangular meu pai com os intestinos de minha mãe, ele teria aceito a notícia com um "Ah, sim" levemente entusiasmado.
– Os candelabros, o par – ele prosseguiu. – Quase dez quilos os dois, tem certeza disso?
– Oh, perfeitamente. Está escrito num inventário que descobri. Para a alfândega. Quando meu marido os mandou de Chiasso. Eu nunca os vi, apenas fotografias tiradas por meu marido antes de os candelabros serem acondicionados para armazenagem. Figuras de um homem e uma mulher. Extremamente feios. O conjunto chama-se "Ninfa e Fauno". Eu sei que a beleza não quer dizer nada quando se trata de prata rara. Mas tenho uma sensação horrível de que não são da Renascença. Meu marido pensava que eram desse período, pois queria que fossem, mas nunca conseguiu uma opinião sobre eles. E se forem vitorianos, do mais terrível dos períodos?
Ele disse, outra vez com a risada acariciante e indulgente:
– Não se preocupe, mesmo que sejam vitorianos, há mercado para eles. Um mercado muito decente.
– Ainda bem. Desde que sejam vendidos... Não se trata de... eu não me importo. Não estou passando fome. Só que estou tão farta e cansada de guardar uma coisa que nunca vi, e pagar por ela todos os anos.
– E estão guardados em Chiasso, num depósito com isenção de impostos, certo?
– Sim, estão lá há trinta anos, ou melhor, há trinta e dois anos, mas na carta eu quis dar um número redondo.
– Ah, sim.
– Estão num engradado – continuei. – Eu os vi uma vez. Estava em Lugano e fui à Rosecrans, em Chiasso. Fui a pé da estação até a Rosecrans, e então fui ao escritório do encarregado do depósito, com um dos funcionários da Rosecrans. Isso foi em 1972. Estamos agora em 1990, quanto tempo faz isso?
– Dezoito anos – ele respondeu amavelmente.
– Você deve ser louco. Nenhuma pessoa de mente sã pode fazer a conta tão depressa.
– Continue – ele pediu, rindo.
– Eles os tiraram do engradado e pesaram. O peso estava certo, sessenta quilos, e o engradado parecia perfeito, ninguém havia tocado nele. E então eles foram guardados outra vez.
– Qual o tamanho do engradado?
– Em pé é quase do meu tamanho. Eu tenho um metro e cinqüenta e dois. E está segurado por cinqüenta mil francos, contra fogo, roubo e não sei mais o quê.
– Ah, sim. E os pagamentos têm sido feitos há trinta e dois anos?
– Sim, meu marido disse que nunca deveriam ser vendidos porque podiam ser muito valiosos. Ele acreditava que quanto mais se guarda uma coisa, mais valiosa ela fica. E para a Rosecrans eu pago vinte e cinco francos por ano pelo Mühewaltung. Sabe o que isso quer dizer?
– Claro que sei. Quer dizer que a Rosecrans tem a administração do caixote. Estou certo?
Senti-me gratificada com aquela demonstração de conhecimento do assunto, da mesma forma que me sentira gratificada antes, quando mencionei a Rosecrans, a grande firma internacional de mudanças e armazenamento e ele demonstrou saber do que eu estava falando. Ele parecia saber também que o escritório da Rosecrans era em Chiasso, na extremidade Sul da Suíça.
– Mas eu tenho um problema – continuei.
– Ah, sim, diga qual é.
– A prata está no nome do meu marido. E meu marido está morto, mas eles não sabem disso. E se eles dificultarem as coisas? Se recusarem me entregar o engradado? Temos um trust em Liechtenstein, do qual sou a única, não sei como se chama. Mas e se meu marido esqueceu de incluir a prata no trust? Tenho vários testamentos e últimas vontades, um feito em Lisboa, por um advogado inglês, e outro feito em Londres, quando meu marido estava lá por acaso. São válidos, com duas testemunhas e exatamente idênticos, deixando tudo para mim. Precisarei mostrar esses testamentos?
– Diga uma coisa. Quanto paga pelo armazenamento?
– Quinhentos francos por ano.
– E desde a morte do seu marido, tem feito esses pagamentos em seu nome?
– É claro, mas não tenho os recibos.
– Sem problema. Não diga nada, apenas vá a Chiasso e retire o engradado. Há quanto tempo seu marido morreu?
– Três anos.
– Isso é perfeito. – Ele deu uma risada breve.
– Mas há outro problema. Terei de pagar tarifas alfandegárias quando retirar o engradado da guarda deles.
– Não vai tirar da guarda deles. Eu faço isso. Tiro tudo de suas mãos. Não se preocupe. Deixe que eu me preocupe com isso.
– Mas como vou me comunicar com você para deixar as preocupações por sua conta?
– Vou escrever uma carta. Ponho no correio esta noite.
– Obrigada – eu disse na linha vazia. Ele tinha desligado.
Outra vez percebi as batidas do meu coração, não mais agitadas como antes, mas lentas e fortes, enviando sinais de alarme, acentuando pesadamente cada palavra, como fazem as pessoas dogmáticas.
ERA QUINTA-FEIRA da primeira semana de janeiro e eu havia ido a Monte Carlo, antes do Natal, ao Palácio dos Esportes de Inverno, no dia da exibição dos itens dos estupendos leilões que a Brentford fazia várias vezes por ano. Eu estava morando na Bordighera, um deserto cultural, e esperava ansiosamente por aquelas exposições para compensar minha sede de cultura artística.
Era uma tarde quente, clara e ensolarada, o que não chamava a atenção por ser exatamente o que todos esperavam que fosse. O salão principal onde eram exibidos quadros franceses do começo do século XIX, destacando nomes como David, Géricault e Legros, estava apinhado de gente, e, em busca de um intervalo de descanso, fui para uma estreita sala próxima, feericamente iluminada com vitrines fechadas repletas de pratarias. Isso também, fiquei sabendo, era parte da exposição, o leilão de prata rara seria feito após o dos quadros, no dia seguinte.
Várias jovens da equipe do leiloeiro estavam na sala, todas saídas do mesmo molde – louras, altas, magras, lábios finos, o cabelo liso num rabo-de-cavalo preso com uma fita de veludo negro. Pareciam solteironas, apesar dos trinta e poucos anos, e imaginei se a Brentford possuía preferência por aquele tipo ou se era aquele tipo que possuía preferência pela Brentford.
Só então notei que havia um homem presente também. Eu não o tinha visto antes porque ele estava num canto da sala, mas agora caminhava na minha direção. Foi ele quem detonou e pôs em movimento os eventos decisivos que se seguiram, não só por ser o encarregado, mas graças ao seu porte aristocrático e os grandes olhos castanhos sem nenhum sentimento. Ao vê-lo, resolvi entrar no jogo de fingir indiferença.
Ele andou calmamente para mim, evidentemente sem ter certeza de que eu era digna de sua atenção.
– Posso ajudá-la?
– Eu tenho um aparelho de chá Odiot – respondi em francês. O efeito de minhas palavras foi notável. Parando bruscamente, o jovem disse:
– Oh, sim? – Logo fui rodeada por um coro de jovens com lábios finos e rabo-de-cavalo, com exclamações de prazer, quando souberam que eu tinha um engradado com sessenta quilos de prata, na Suíça, pelo qual há trinta e dois anos pagava o armazenamento. A alegria ficou tão ruidosa que outro funcionário apareceu da outra sala reclamando do barulho.
O jovem me deu um cartão com o endereço da Brentford em Paris e pediu para informá-lo dos detalhes seguintes, deixando claro que minha obstinação em manter aquela prataria era tanto ridícula quanto inútil.
Quando cheguei em casa, ainda estava naquele clima de provocação e queria descobrir o quanto a prataria poderia valer, sem a menor intenção de vendê-la. Escrevi uma carta para ele, informando o peso total do Odiot, que consistia de um suporte, um bule de chá, uma leiteira, uma jarra para creme, um açucareiro e uma travessa para bolo. Dei o peso do par de candelabros como sendo de aproximadamente nove quilos e meio e os descrevi como duas figuras, uma ninfa e um fauno. Escrevi "Ninfa & Fauno", sentindo que o & fazia a carta mais comercial. Não comecei a carta com "Caro senhor", mas com o nome que constava do cartão, Du-Cross-Lafalaise, notando com satisfação que havia acertado ao considerar seu porte aristocrático. Escrevi meu nome e endereço no alto da carta.
E agora, sentada na beirada da minha cama, lembrando a cena em Monte Carlo, a minha carta para Paris e sentindo o sinal das enfáticas batidas do meu coração, de repente fiquei sem fôlego.
O homem da Brentford em Genebra, cujo nome eu não sabia, havia telefonado para mim. Isso queria dizer que ele tinha se dado ao trabalho de procurar o número do meu telefone depois de ler a carta enviada para ele do escritório de Paris; que ele não pensou em me escrever uma carta, que eu poderia jogar fora; que preferira usar a tática do choque e da surpresa; que pretendia me obrigar a dar respostas para as quais podia não estar preparada; que ele não pretendia desistir. E lembrando de sua risada e de seu rosto, que eu tinha certeza de conhecer, pensei no quanto ele se parecia com Gordon, invadindo e tomando posse, antes que a pessoa tivesse tempo de se preparar.
Conheci Gordon num bar, em Mayfair, onde eu fora na esperança de encontrar um grupo de amigos que se reuniam ali todos os dias. Sem que eu houvesse notado, de repente, ele estava ao meu lado, tirou o copo de minha mão, colocou-o no parapeito da janela, segurou meu pulso e disse: "Vamos a outro lugar." E como se a pressão dos seus dedos no meu pulso me tivesse atordoado, antes que tivesse tempo de me refazer eu estava fora do bar com ele. Gordon me violentou no banco do jardim de uma casa em Kensington, onde ele morava em cômodos alugados. Tinha me levado para mostrar o terreno e eu concordei, acreditando que, enquanto estivéssemos fora de casa, não haveria perigo de investidas amorosas. Continuei acreditando nisso enquanto andávamos nos caminhos de cascalho de um jardim eduardiano malcuidado, com velhas árvores altas e arbustos com a folhagem coberta pela fuligem do ar de Londres. Eu ouvia distraidamente o relato do quanto ele detestava a marinha quando parou na frente de um banco. Interrompendo a frase, Gordon me empurrou, fazendo-me deitar no banco, e, de pé na minha frente, mostrou o quanto eu estava errada. Naquele dia, em junho, exatamente como o homem em Genebra, ele não tinha nome.
Quatro dias depois do telefonema, recebi a carta prometida de Genebra, se é que aquilo podia ser chamado de carta. Havia dois cartões no envelope, ambos impressos, o maior com o endereço da Brentford de Genebra e "Com cumprimentos", o menor, o cartão do sr. E. Byrnes Forbes, da Brentford, com o mesmo endereço e o número de seu telefone direto. Ele era um homem da Brentford, então – eu não estava certa –, mas agia por conta própria na nossa transação. No cartão maior estava sua assinatura, em letras grandes, na qual nenhum único E, B ou F podia ser distinguido. Então, escrevi uma carta dizendo: "Vamos fazer imediatamente", como se acentuasse nossa intimidade e querendo disfarçar o significado daquelas palavras para qualquer outra pessoa que lesse a carta. Então acrescentei: "Assim que for conveniente", para mascarar meu desejo ardente de me encontrar com ele.
Ele telefonou três dias depois, dizendo:
– Sra. Richardes – com sua pronúncia precisa e seu modo de dizer meu nome.
– Eu escrevi uma carta – comuniquei.
– Acabo de receber. Estive consultando minha agenda. O dia 10 de fevereiro é conveniente?
– É que...
– É uma quinta-feira – ele insistiu.
Nós dois repetimos "Quinta-feira, 10 de fevereiro" em uníssono.
– E onde vamos nos encontrar? – ele perguntou.
– Na Rosecrans, porque eles são os encarregados.
– Como vai chegar lá?
– De trem. Não tenho carro. Acho que há um trem numa hora horrível, alguma coisa como sete da manhã, não tenho certeza, mas eu acho, eu acho. Passa por Milão e, então, se faz baldeação. Acho que chegarei a Chiasso mais ou menos à uma hora.
– Tomarei um avião para Lugano. Fica perto de Chiasso, não fica?
– Sabe, estive olhando outras listas que encontrei depois que falamos. Há mais prata, nada específico. Travessas e jarras. E três chocalhos. Chocalhos de criança. Parece loucura.
– Oh, sim – ele disse, calmamente. – Não se preocupe. Eu me encarrego de tudo.
– Até dos chocalhos?
– Sim, eu me encarrego. O Odiot e os candelabros trago para Genebra e o resto deixo em Zurique. Temos um lugar lá para esse tipo de coisa. Não se preocupe. Isso é definitivo – acrescentou depois de uma pausa. – Estou ansioso para conhecê-la. – E eu, para disfarçar minha avidez, desliguei com um até logo apressado.
Depois disso, me senti culpada. Eu devia parecer uma desmiolada com aquele "eu acho, eu acho", falando do horário dos trens. E por que tinha de falar naqueles chocalhos malucos, como se um número incerto de travessas e jarras não fosse suficiente para deixá-lo exasperado com minha tagarelice desordenada? E pensei com amargura no quanto sem sentido sua cortesia devia ter sido quando nos separamos.
DEVO DEIXAR BEM CLARO outra vez que minhas negociações com Forbes não tinham nada a ver com dinheiro, pelo menos da minha parte. Nenhum de nós havia mencionado um preço para o Odiot e o resto, mas eu sabia, e ele também, que o total em questão seria de milhares, se não de dezenas de milhares de libras – uma soma considerável, mas que naquela época eu realmente não precisava. Mas nem sempre foi esse o caso, ou o que eu acreditava que fosse o caso, sobre o estado da minha fortuna. Meu marido, que sempre dizia "Uma vida sem criados não é vida", tinha, nos últimos anos do nosso casamento, nos feito mudar de uma grande vila no Estoril, em Portugal, para o pequeno apartamento na Bordighera, na Riviera Ocidental Italiana. Sem empregados por causa da mudança, aceitei sem questionar a mudança no nosso estilo de vida, certa de que era reflexo da redução da nossa renda. Eu sabia também das queixas constantes dele sobre seus investimentos, e dos telefonemas para seu banqueiro em Zurique, os quais ele sempre começava, sem dizer o nome, dizendo: "Como vai você?... Bem... O mesmo aqui. Escute... eu tenho algum dinheiro? Quanto? Oh, meu Deus, meu Deus. O que vou fazer? Porque tive uma idéia. Estive pensando..." – Nesse ponto eu sempre deixava de ouvir, pois o que vinha depois não tinha sentido para mim, a não ser o de reforçar a convicção de que as finanças dele estavam em péssimo estado. Ignorante como era da riqueza de meu marido, eu não sabia que poderíamos ter facilmente alugado uma opulenta residência como sempre fazíamos.
Eu fazia todo o trabalho da casa. E embora ele sempre afirmasse que sentia que eu tivesse de fazer isso, suas exigências e regras não se abrandavam: uma toalha de mesa colorida no café-da-manhã, uma toalha branca adamascada no jantar, espirais de manteiga em conchas de prata em todas as refeições e um pequeno saleiro de prata com uma diminuta colher na frente de cada lugar. Ele gostava de dizer que não passava um dia sem que lesse no noticiário o nome de algum conhecido. Seria imperdoável se agora, pensando que ele estava pobre, eu lhe negasse seus confortos – um homem daquela distinção e eminência, um homem que fora médico de um rei e que tinha desistido de praticar a profissão depois da morte do cliente real, dizendo que não podia pôr um anúncio no Times à procura de outro rei para cliente.
Na Bordighera, no último ano da sua vida, ele adquiriu um maneirismo que eu achava cada vez mais difícil de suportar. Ele estava então com oitenta e três anos e cada vez ficava mais fraco. Embora conseguisse ainda se vestir e ir ao café, à noite, passava os dias deitado ou sentado na nossa sala de estar. Obrigado a economizar as forças, ele evitava se mover, o que significava que eu estava sempre levando e trazendo coisas. O mais cansativo para mim eram seus pedidos constantes de água mineral, que ele tomava em goles pequenos, como se fosse uísque. A água mineral tinha de ser gelada, de modo que eu tinha de ir sempre à cozinha, tirar a garrafa da geladeira e depois levar de volta. O movimento constante de vaivém, carregando a garrafa pesada, era para mim um cansaço tremendo.
Era nesse ponto que aparecia o maneirismo. Depois do costumeiro pedido de água mineral, quando eu estava já na porta da sala, ele me fazia parar.
– Olhe, venha aqui e leve o cinzeiro, está bem? Está cheio – ele dizia.
E eu voltava para a mesa de centro com tampo de mármore, na frente da cadeira dele, apanhava o cinzeiro e voltava da cozinha com a garrafa de água e com o cinzeiro vazio. Logo depois, quase sempre, ele me fazia parar quando eu estava na porta e voltar, mandando, digamos, que eu apanhasse um lenço que havia caído e levasse para o cesto de roupa suja, ou para retirar um copo vazio, apanhar um jornal caído no chão ou coisa assim.
Depois de alguns dias, reclamei:
– Por favor, não me chame de volta quando já estou quase fora da sala. Prefiro fazer primeiro uma coisa e depois outra.
– Mas só faço isso para poupar mais trabalho – ele explicou. – Como sabe, tenho pena de você, com tanta coisa para fazer, agora que não temos mais criadas. Só estou tentando poupar você.
Achei isso razoável. Porém, depois de mais alguns dias, aquele "Só estou tentando poupar você" se tornou cada vez mais irritante. E quando reclamei outra vez, dizendo que preferia que ele não me fizesse parar e voltar sempre, ele disse que eu estava sendo ridícula. Não discuti mais depois disso, mas, ridícula ou não, não sentia que ele estava se preocupando comigo, e sim me sufocando, agrilhoando, estrangulando.
Aquela mania obsessiva de me fazer voltar e me atrasar ele punha em prática também quando eu estava saindo para as compras. No momento em que eu ia abrir a porta da frente, ele me chamava de volta duas ou três vezes seguidas, dizendo: "Não esqueça de olhar a caixa de correspondência quando descer", ou "Passe na farmácia para apanhar meu pedido", ou "Procure o Herald Tribune na agência de notícias". E quando eu dizia que nunca esquecia de olhar na caixa de correspondência, ou que o farmacêutico havia dito que o remédio ainda não tinha chegado, ou ainda que a agência de notícias não podia ter o Tribune porque os jornais estrangeiros nunca chegavam antes das quatro horas da tarde, ele dizia: "Não importa, você pode tentar. E a caixa de correspondência você pode esquecer desta vez."
Cada vez que eu tinha de sair era mais uma batalha desesperada, mas eu não dizia nada. Enquanto meu ressentimento ardia em fogo lento e começava a ferver e a ficar cada vez mais difícil de controlar, meu sentimento de culpa aumentava. Ele estava para morrer e eu me censurava por não gostar dele realmente.
Ocorreu-me, é claro, que aquilo que ele dizia ser cuidado benevolente era, na verdade, maldade disfarçada. Pensei que ele começara a me odiar por minhas deficiências, pois antigamente eu demonstrava má vontade para supervisionar os criados e restringir seus hábitos de desperdício. Eu sabia também, embora ele nunca me tivesse culpado abertamente, que me considerava responsável pela diminuição e pelo fim de sua vida amorosa, devido ao que ele considerava minha inaptidão para as artes do amor. Por outro lado, no meu caso, nunca houve amor para acabar. Gordon ficou comigo para sempre, mesmo depois de seu suicídio. Talvez para mostrar que obtivera sucesso nos relacionamentos com mulheres antes de nosso casamento, a ponto de ganhar a afeição eterna de todas, meu marido começou a convidar suas antigas amantes para passar um tempo conosco, duas ou três semanas de cada vez, quando vivíamos ricamente e tínhamos muito espaço em nossa vila, nossa imitação de fortaleza, no Estoril, com uma torre e telhado com ameias, uma passagem fechada, floreiras na frente e um bosque de pinheiros nos fundos. Eu não podia dar a desculpa de ser incomodada pela presença delas numa casa com seis banheiros, uma lavanderia, uma sala para passar roupa, a sala da caldeira e alojamentos para o chofer e o jardineiro. Mas nessas ocasiões ele me censurava por não demonstrar um prazer sincero com a presença das nossas convidadas, dizendo: "Não estou criticando, apenas dizendo."
E quando aquelas convidadas e outras pessoas também viam com admiração nosso estilo de vida de grand seigneur, ele dizia que a casa era alugada, que a vida em Portugal era ridiculamente barata e que o que ele pagava de aluguel no Estoril não poderia pagar nem por dois cômodos em Londres.
Aquelas visitas das antigas mulheres de meu marido acabaram quando nos mudamos para a Bordighera. Mas, então, houve outra ocasião. Mais ou menos seis semanas antes da sua morte, ele recebeu um telefonema de Nova York de uma de suas antigas amantes. Naquela noite, quando estávamos num café, falamos nela e meu marido disse:
– On revient toujours à son premier amour. Fomos amantes desde a primeira vez que a vi.
– Mas isso foi há muito tempo – comentei.
– Verdade. Ficamos muito tempo sem nos ver, mas quando nos encontrávamos reatávamos de onde tínhamos parado. Lugano e Estoril.
Olhei para meu marido atônita e ele disse rispidamente:
– Isso não é da sua conta.
Nenhum de nós se referiu a ela outra vez. Como é meu costume, não demonstrei que estava perplexa. O que aconteceu entre eles na última vez que ela nos visitou no Estoril, quando ele estava com mais de setenta anos, eu nem queria imaginar. Eu não acreditava que ele ainda tivesse muitas setas de Cupido em sua aljava. Eu estava atônita com minha ignorância, com o fato de nunca ter notado o que podia ter acontecido naquelas visitas. Porém, o que me magoou foi ele ter feito essa revelação gratuitamente. Isso me arrasou, pois a intenção fora mostrar minha incapacidade. O casamento é o túmulo do amor.
AGORA, NA ÚLTIMA SEMANA de janeiro, quando me preparava para o encontro com Forbes em Chiasso, desejando ardentemente realizar o que ele chamara de nosso "rendez-vous", surgiu um contratempo que prometia ser desastroso. Foi anunciada uma série de greves dos ferroviários, que impediriam minha viagem. Fiquei tão desesperada que perguntei a um taxista o quanto ele cobraria para me levar a Chiasso, e ele disse que chegava a meio milhão de liras, ou duzentas e cinqüenta libras. Mão fechada como sou (uma qualidade muito apreciada por meu marido), não hesitei. Nem por um momento pensei em adiar o encontro com Forbes. Nessa mesma ocasião, meu cabeleireiro, que durante todos aqueles anos nunca havia desmarcado uma hora, ficou impossibilitado de me atender não uma, mas duas vezes, devido a problemas inesperados de cunho pessoal. Esses incidentes não tinham nada a ver um com o outro, mas resolvida como eu estava então a desafiar a vontade de meu marido em relação à prata, pelo único motivo de me encontrar com Forbes e sentindo-me culpada com isso, comecei a imaginar que meu marido estendia mãos fantasmagóricas do túmulo, tentando me deter, me sufocar. Uma sensação muito parecida com a que eu experimentei muitas vezes no último ano do meu casamento, quando ele me dava ordens e me deixava exausta com suas exigências, recostado na poltrona, atrás da mesa com tampo de mármore na sala de estar. Como eu disse, ele sempre vestia o roupão de atoalhado turco, que o fazia parecer o monumento do próprio túmulo, uma laje funerária com a cabeça e os ombros do finado esculpidos e postos num pedestal quadrado e fino. Ele me dava arrepios.
Então, na quarta-feira, como se Forbes, lutando com meu marido morto, tivesse finalmente soltado as mãos, os obstáculos desapareceram. Meu cabeleireiro teve um cancelamento e me encaixou na última hora, e chegaram notícias de que, embora o caos nas ferrovias fosse continuar por pelo menos dez dias, haveria um dia de serviço normal no meio das greves, porque as várias facções de grevistas não estavam se entendendo. Telefonei para Forbes imediatamente para dizer que eu viajaria no dia seguinte.
– Vou tomar o último trem aqui, às onze horas – eu disse. – É um trem expresso, que me deixará em Chiasso às cinco horas. Passarei a noite lá. E estarei na Rosecrans na quinta-feira, antes de abrir as portas, no começo da tarde.
Quando desliguei, fiquei surpreendida e aborrecida comigo, lembrando do que dissera. Que interesse tinha para ele qual o trem que eu ia tomar e quando chegaria a Chiasso? Por que dizer que ia passar a noite lá? Pelo muito que ele se importava, eu podia dormir numa vala. Porém, logo depois, minha irritação foi substituída pela vergonha. Compreendi que aquilo que a princípio eu havia tomado por tagarelice vã e supérflua tinha uma causa simples e forte. Dando a ele informação minuciosa e precisa, eu esperava fazer acontecer o que desejava ardentemente. Tive uma visão do meu desembarque do trem em Chiasso às cinco horas, na quarta-feira. Eu me vi parar na plataforma entre o primeiro grupo de passageiros apressados que se dirigiam para a saída, e então um homem louro, alto, esbelto, de quarenta e poucos anos, aparece e caminha para mim. Veste o mesmo sobretudo elegante e macio, azul-marinho, com golas estreitas de veludo, que Gordon sempre usava. Aproximando-se de mim com um sorriso, sem dizer nada, tira da minha mão a valise leve, a azul-escura que eu tinha escolhido entre tantas outras para combinar com o sobretudo Crombie azul-marinho dele.
Então ele disse: "Vamos, está bem? Reservei quartos num hotel, a um passo da praça da estação." Envergonhada, tenho de admitir que minha vaidade não parou aí. Vi a mim mesma com Forbes, depois do jantar, andando pelo corredor e parando diante de minha porta, e eu o vi tirar a chave da minha mão trêmula. Ele abriu a porta para mim.
A outra vez que a mão fantasmagórica do meu marido se estendeu para mim, avisando-me para não contrariar os desejos dos mortos, foi durante a viagem – a viagem verdadeira, não a do meu sonho. Meia hora antes de chegarmos a Gênova, um dos passageiros, um rapaz, voltando do carro-restaurante para nosso compartimento, comunicou:
– Um homem na cabine ao lado acaba de morrer. Não é de admirar, ele tinha oitenta e três anos.
Surpresa, perguntei:
– Como sabe que ele tinha oitenta e três anos?
– A mulher dele disse.
– Meu marido também morreu com oitenta e três – comentei.
– É uma boa idade para morrer – ele disse, como consolo. E depois de um olhar rápido e apreciativo, acrescentou: – E ele teve o melhor da vida, com uma mulher tão jovem. Aposto que todos pensavam que era filha dele.
– Aconteceu algumas vezes.
– Bom... para ele, não para você.
Quando chegamos a Gênova, havia uma ambulância na plataforma com dois atendentes de jaleco branco esperando. Houve outra demora e nos disseram que o trem não ia partir na hora marcada.
– Por quê? – perguntei, contrariada. – O que eles estão esperando?
– Estão esperando os carabinieri – o mesmo jovem que sabia das coisas me disse. – Sempre que há uma morte súbita a polícia deve ser chamada. – Ele riu. – Não esqueça, a mulher estava com ele. Ela pode ter ajudado o marido a fazer a última viagem.
O trem partiu finalmente, apenas com meia hora de atraso, e mais uma vez tive a sensação de que meu marido estava me chamando de volta quando cheguei na porta.
Então, houve outro atraso. Um enguiço, antes de Como. E ficamos durante quarenta minutos no meio de campos e pastos. Eu estava extremamente ansiosa porque íamos chegar a Chiasso depois das seis horas, quando os guichês de câmbio estariam fechados e eu não trazia moeda suíça. Mas quando finalmente chegamos, um coletor de passagens que não estava de serviço, quando me viu ao lado do balcão de passaportes deserto, aproximou-se e me levou até a porta de um hotel de primeira classe, perto da estação. O recepcionista riu quando ofereci meu relógio de ouro como garantia em troca de alguns francos suíços, até a manhã seguinte. Ele disse que eu podia pagar o jantar com dinheiro italiano e receber o troco em francos suíços. E, enquanto eu jantava, ele fez questão de ir até a minha mesa para perguntar se eu havia gostado do quarto.
Na quinta-feira de manhã, caía uma chuva fria, tão fina, tão constante e fechada que parecia uma mortalha imóvel de névoa. O taxista, idoso e mal-humorado, olhou para mim desaprovadoramente quando eu disse que queria ir à Rosecrans, resmungando, rabugento, que era longe demais e fora do seu caminho. Mas a essa altura eu não me importava mais, porque já não sentia a mão do meu marido tentando me deter. Os novos escritórios da Rosecrans ficavam no fim de uma fileira de prédios baixos e novos, estranhamente localizados num trecho de uma estrada rural. A entrada com paredes de vidro levou-me à recepção, subdividida por várias portas. Na extremidade do salão havia um balcão ladeado por cadeiras negras e brilhantes. Deserto e silencioso, o lugar me deu a sensação de estar entrando ilegalmente em uma casa noturna ao meio-dia. Mas, quando cheguei ao balcão, apareceu atrás dele uma mulher gorducha e sorridente. Olhou para mim da cabeça aos pés, aparentemente aprovou meu velho casaco de fazenda escocesa, feito à mão, em tons verdes e azuis, feito por um alfaiate de homens que só trabalhava excepcionalmente para certas clientes femininas. Aprovou minha valise azul, minha bolsa preta de crocodilo, minhas luvas cinza-claro de pele de porco, costuradas à mão, minha aparência indiscutivelmente não-inglesa, acentuada pela discrição do meu modo de vestir tipicamente inglês.
Eu disse, apressadamente, insegura, temendo barreiras de negação, torres de recusas:
– Estou aqui... é complicado, escrevi há dez dias... tenho um engradado cheio de prata, armazenado aqui. Isto é, não aqui com a senhora, mas armazenado.
– Um momento, por favor – ela disse e voltou quase imediatamente, acompanhada por um jovem que, por sua vez, pareceu aceitar minha aparência sem nenhum questionamento. Calçava sandálias, vestia calça de flanela amarrotada e um pulôver folgado cinzento de gola alta. Sua expressão era séria e gentil e uma barba estreita e escura emoldurava o rosto e o queixo. Achei que ele devia ser um pacifista, não-fumante, vegetariano, não bebia álcool e era fã do budismo tântrico. Embora eu despreze esse tipo, de modo geral, fiquei feliz por vê-lo.
Ele me levou ao andar superior, a uma sala com uma mesa e nos sentamos em duas velhas cadeiras de madeira. Tirei da bolsa o maço de correspondência, que estava numa pasta transparente de celofane.
– Assim que recebi sua última carta – ele disse – fui ao local do armazenamento e me certifiquei de que seu engradado ainda estava lá. Em perfeitas condições.
– Isso é maravilhoso. Faz mais de trinta anos.
– Madame, para isso estamos aqui – disse ele.
Quando expliquei por que teria de esperar até a tarde, ele ficou incrédulo, talvez na defensiva. Finalmente, perguntou sobre o maço de correspondência sobre a mesa e empurrei a pasta para ele. Eu sabia que, com isso, estava entregando a única prova de meus direitos sobre a prata e até fornecendo a eles argumentos para adiar a transação, uma vez que as cartas deixavam claro que a prata fazia parte dos bens do meu marido, e não necessariamente dos meus, mas não me importei com essa dúvida. Lembrei de um trecho da minha primeira conversa com Forbes quando informei que não possuía sequer os recibos dos pagamentos. "Portanto, pode ver como é incerto." E ele dissera, com uma breve risada: "Na verdade, eu vejo, mas não se preocupe. Quando eu chegar lá, vou limpar o chão com essas incertezas." E foi o tom sorridente da voz dele que me levou à Rosecrans, nada mais. Eu havia usado a prata como isca para fazer com que Forbes se encontrasse comigo.
Não era ainda meio-dia e não tínhamos mais nada para tratar até a chegada de Forbes, o que ele havia dito que seria por volta das três horas. Quando perguntei onde eu podia almoçar, o jovem ficou surpreso.
– Mas a senhora não precisa esperar – ele disse. – Por que precisaria? Basta fazer uma procuração por escrito para esse homem e deixar comigo. – E tirou da gaveta o formulário, escreveu o recibo e o passou para mim.
– Mas vou esperar. Quero falar com ele.
O jovem pareceu desconcertado e sacudiu a caneta sobre a mesa.
Convencido como devia estar de que a minha decisão de vender a prata era devido a dificuldades financeiras, ele queria poupar meus sentimentos, convencendo-me a não estar presente na ocasião da entrega. Eu sabia que a verdade era outra, mas não estava disposta a explicar para ele. Finalmente, um pensamento estava claro em minha mente: por que eu ia continuar a guardar a prata? Não vou deixá-la armazenada só Deus sabe por quanto mais tempo, para que depois da minha morte ela fosse para onde meu marido queria, para aqueles sobrinhos, filhos da irmã dele, na Austrália. Era Forbes contra ele e Forbes devia ficar com a prata.
Mas, então, peguei a pasta e o recibo, e, apanhando a caneta da mão do jovem, eu disse:
– Tem razão. Acho melhor fazer isso. Nunca se sabe o que vai acontecer. Eu vou fazer seu plein pouvoir.
O jovem não poda adivinhar o porquê daquela insinuação da possibilidade de minha morte súbita. Um momento antes, quando vi a caneta movendo-se na mão dele como o pêndulo de um metrônomo, minha imaginação me fez lembrar de uma gravura de Dürer, na qual a figura da Morte, com capuz, carregando uma foice e uma ampulheta, montada num cavalo esquelético, corre para o cemitério. Mas o homem ficou aliviado e pôs os papéis na pasta transparente com um ar de satisfação, como se houvesse marcado um ponto contra o homem que estava para chegar, o homem da Brentford. Era claro que ele estava convencido, embora de forma confusa, que Forbes era nefário, que estava tirando vantagem de mim, que eu era uma vítima e devia ser defendida. Não importava o que acontecesse agora, ele possuía um documento que protegeria sua firma contra minha obstinada inocência. Terminada a negociação, éramos agora aliados. Ele me levou de carro por algumas centenas de metros de estrada rural acidentada até ao que disse ser o único restaurante próximo, pedindo desculpas o tempo todo pelo frio e pela chuva, pelo carro pequeno e maltratado, que não funcionava bem, pela falta de melhores acomodações. Eu o vi olhando atentamente para minha roupa cara e bastante usada. Como de hábito, eu não usava jóias. Minha pele muito branca e o brilho do meu cabelo castanho-escuro, meus olhos egípcios esverdeados e a curva das minhas sobrancelhas negras, que pareciam pintadas com tinta nanquim, tudo isso seria espalhafatoso se eu acrescentasse ornamentos. Ele não tinha muita certeza sobre o que pensar de mim. Provavelmente, achou que eu precisava de dinheiro. Antes que eu descesse do carro, ele me deu seu nome e seu telefone numa folha do caderninho de notas. O nome dele era Cortona. Se eu telefonasse à tarde, ele iria me apanhar na estalagem.
O restaurante era um chalé de madeira comum, circundado por galerias de trabalho ornamental com os gerânios obrigatórios nas floreiras fora das janelas. Comi apressadamente e tomei um copo de vinho. Depois do almoço, perguntei onde ficava o banheiro. Ficava no porão e, enquanto descia, no escuro, uma escada estreita e íngreme, sem corrimão, pensei com amarga satisfação no plein pouvoir que tinha feito para Forbes. Não havia sido uma preocupação exagerada, afinal, e, se eu quebrasse o pescoço, Forbes teria a posse da prata. Pondo um pé para a frente, procurando o próximo degrau e talvez um pouco tonta com o vinho, eu me imaginei, embora zombasse da idéia, como a Bela Adormecida do conto de fadas, esperando ser despertada e libertada pelo príncipe. E quando pensei na simpática comiseração da recepcionista gorducha e de Cortona, ocorreu-me que eles podiam estar certos, afinal. Forbes podia ser príncipe ou ladrão, talvez as duas coisas.
QUANDO VOLTEI PARA a Rosecrans, fui levada a um escritório no primeiro andar, com paredes de vidro e tão vasto que não dava para ver o fim envolto em sombras. Instalaram-me em uma mesa perto da porta e a mulher gorducha e amável me deu um jornal local e uma xícara de café incrivelmente saboroso e forte. Eram catorze horas e vinte minutos.
Enquanto lia o jornal, ouvi um rápido farfalhar atrás de mim. Depois, silêncio. Olhei em volta e lá estava ele, de pé, perto da parede, de lado para onde eu estava sentada. Ofuscada, como se por causa da claridade de um relâmpago, minha visão tornara-se vaga. Parados na porta aberta estavam a mulher e Cortona, humildes e reduzidos de tamanho, como figuras de mecenas nos antigos quadros sacros.
Ele olhava para a frente, como se não tivesse percebido minha presença, mas devia ter olhado para mim quando entrou. Ele era, é claro, exatamente como eu sabia que seria. Eu o teria reconhecido numa multidão, no foyer de um teatro, numa vernissage, numa sala de palestras – entre todos os homens vestidos no mesmo estilo.
Irritada por seu silêncio e sua recusa em olhar para mim, lutei para abafar o riso nervoso que me subia à garganta e a tentação de um sarcástico "Juntos finalmente" ou "Sr. Forbes, eu suponho". Ao mesmo tempo, aproveitei aquela pausa para examiná-lo minuciosamente, linha por linha, cor por cor.
Ele era louro, do mesmo louro desbotado, manchado, desgastado de Gordon. Era alto e magro como Gordon, porém com ossos mais pesados. Fios do cabelo louro-acinzentado caíam nos lados da testa. A pele era pálida, o nariz curto e redondo, o rosto longo e duro, com ossos bem acentuados nas sobrancelhas e na face, e o queixo quadrado. Estava de pé, o corpo relaxado, as pernas levemente separadas, e os magníficos ombros largos e o peito esplêndido sugeriam uma força ameaçadora, mas para mim significavam proteção.
Seu sobretudo de tweed espinha-de-peixe, cor de canela, estava aberto, revelando um terno que podia ser de Gordon: risca-de-giz marrom-escuro, como chocolate amargo ou café puro. Era um terno completo, com colete, o traje de um homem da sua profissão. A gravata marrom trazia desenhos de pequenas meias-luas prateadas.
Vi que ele estava sorrindo, um sorriso de lábios fechados, como quem diz: "Aqui estou. Acho melhor eu parecer agradável, já que estou no jogo, mas se você não gostar, azar o seu."
Mais irritada ainda com aquela silenciosa arrogância, eu disse, finalmente:
– Chegou mais cedo do que eu pensava. Está exausto? Teve de se levantar muito cedo para chegar aqui?
– De modo nenhum – ele respondeu, olhando diretamente para mim pela primeira vez, e seu sorriso era agora jovial e inofensivo.
Foi até a mesa onde eu estava e parou na minha frente. – Levantei às oito horas esta manhã, a hora de sempre. E, no caminho, aproveitei para adiantar meu trabalho. Tive um encontro no aeroporto de Lugano. Depois fui ver um cliente lá. Então, atravessei o lago para ver outro cliente em Campione. Depois vim para cá.
Vendo-o de tão perto, com apenas uma mesa entre nós dois, senti-me dominada pela presença daquele jovem de menos de trinta anos, que podia ser o irmão mais novo e mais decidido de Gordon. Era como se eu estivesse embriagada, num estado em que ouvimos a própria voz dizendo coisas proibidas.
– Mas você é tão jovem – eu disse.
Ele pareceu desconcertado, como se eu estivesse duvidando de seus conhecimentos, de sua competência.
– Desculpe-me por ser tão jovem – ele murmurou.
E eu ainda abalada disse uma coisa que podia ser tida como relacionada aos nossos negócios, mas que de fato era algo muito diferente:
– Estou em suas mãos agora.
Forbes endireitou o corpo e olhou demoradamente para mim. Um pouco depois ele disse, em voz baixa:
– Sim, você agora está em minhas mãos. – Então, saindo da frente da mesa, murmurou: – Eles não são muito hospitaleiros, são? – Sentou na outra única cadeira e olhou para mim.
– O homem da Rosecrans – eu disse –, você sabe, quando eu disse que um cavalheiro da Brentford viria me ajudar, não tinha a menor idéia do que eu estava falando. Nunca ouviu o nome. Incrível.
– Incrível! – ele exclamou.
– Mas eu não disse a ele. Por que ia dizer? Brentford é Brentford.
– Obrigado.
– Quer saber, quando você me telefonou, gostei da sua voz no telefone. Se não tivesse gostado, não teria vindo.
– Vozes são importantes para você? Julga o caráter das pessoas pela voz? – ele disse, com o mesmo tom calmo.
– Não, não de todo – respondi. – Não realmente. Ou, talvez, sim. Na verdade, nunca pensei nisso – e então algo me veio à mente que eu não sabia antes. Que eu jamais gostei da voz do meu marido no telefone. Parecia fraca e lamurienta.
Sentindo-me num beco sem saída e percebendo o quanto devia parecer tola para Forbes, me apressei em dizer:
– Mas uma voz pode ser profética. Por exemplo, a de Sibyl Hunter, a mulher de Sterling. Eles moravam no apartamento em cima do meu, quando eu ainda morava em Londres, em Hunter's Lodge...
– Onde exatamente fica isso?
– Em Hammersmith, no caminho na margem do rio – continuei. – Eu morava muito bem numa casa Queen Anne e o jardim dava para o caminho do rio. A casa era tombada como Belas-Artes e Monumentos.
– Quer dizer, sob a proteção do Ministério das Belas-Artes e Monumentos? – ele perguntou.
– Sim. E Sibyl, que trabalhava numa editora, telefonou para a Architectural Review. O homem no outro lado da linha disse que mandaria pelo correio a matéria que ela queria. Ela disse: "Não precisa, vou até aí agora mesmo e apanho" e desligou o telefone porque ficou caída por ele naquele momento, estava louca para conhecê-lo e foi assim que eles se casaram e, como Sterling era primo de Daisy e Daisy era a dona de Hunter's Lodge, eles conseguiram o apartamento em cima do meu.
– Notável – ele disse com sua voz sorridente. – E como foi o casamento?
Juntos, começando com "está exausto?", havíamos passado para uma conversa leve e bem-humorada, uma forma de fofoca de alto nível que nós dois conhecíamos tão bem.
– O sr. Smith, o encanador – continuei. – Vai à minha casa um dia e diz: "Acabo de vir da casa dos Sterling Hunter aí em cima. A pia deles está entupida e, na minha opinião, aquele casamento está descendo pelo cano."
– Notável. E você diria que o sr. Smith era digno de confiança?
– O problema com o sr. Smith era o seguinte: ele era tão devastadoramente bonito, embora não fosse mais assim tão jovem, mas foi o que o salvou com Daisy. Ela não suportava homens, mas você precisa ter um encanador, e o fato de ele ter idade o tornava mais digerível para ela, se entende o que quero dizer. Ela costumava dizer: "O sr. Smith é simplesmente devotado ao próprio rosto. Não pode passar por um espelho sem parar." E certa vez, quando o sr. Smith estava no hospital, por causa do coração, Daisy foi visitá-lo. Era muito boa para os criados e todos que trabalhavam para ela. Ela voltou do hospital e disse para Caroline e para mim: "Caroline era uma prima que também morava lá", mas, então, Daisy disse: "Minhas queridas, vocês sabem como o sr. Smith é bonito, mas, minhas queridas, na cama ele é simplesmente celestial." E nós caímos na gargalhada, Caroline e eu, porque Daisy não sabia o que acabava de dizer.
– E qual era o problema de Daisy com os homens? – perguntou Forber.
– Começou quando Daisy era muito jovem e foi passar uns tempos com amigos na Índia.
Conheceu um major e eles se apaixonaram, e a mulher do major era doente e ficou combinado que os dois se casariam assim que acontecesse. Então, Daisy voltou para Londres e ficou sabendo, não por ele, mas por amigos, que a mulher do major morreu de fato e ele foi e se casou com outra. Mas eu nunca acreditei, quero dizer, que Daisy não queria saber de homem por causa disso. Quero dizer, é fácil demais, não acha?
– Concordo.
– Para mim, foi sorte. Eu era uma mulher livre, e do mais alto nível, como Daisy dizia. Mesmo com estrangeiros como eu, você pode saber imediatamente. Assim, consegui o apartamento. Porém, antes de mim, ela o alugara para um coronel do Ministério da Guerra e a mulher, e, quando a mulher ia para a maternidade para ter um bebê, o coronel vestia a roupa dela à noite e ia para o caminho do rio e contava para os Sterling Hunter as maravilhosas aventuras que está tendo. Não que eles tivessem contado para Daisy, Deus nos livre. Mas ela punha a culpa nos homens. Veja só o pequeno Harry. Ele não era realmente pequeno, apenas um menino crescido, se é que me entende. Ele botou cortinas de xadrez vermelho nas janelas da frente quando se mudou. Daisy o mandou embora e ele teve de ir, porque estava ofendendo Hunter's Lodge. E, depois disso, houve outro homem que não chegou a ficar nem uma semana.
– Por quê? – Forbes perguntou, encorajando-me, por cortesia ou genuíno interesse.
– Ele se mudou numa segunda-feira e na terça-feira apareceu uma mulher, passou a noite e saiu logo depois das seis horas, mas Daisy estava regando o jardim, embora estivesse chovendo a cântaros, ninguém podia esperar isso, não é mesmo? Mas com Daisy nunca se sabe. Então Daisy telefonou para o homem e disse: "Senhor, quando alugou o apartamento, entendi que era solteiro", e ele retrucou: "Sim, eu sou." "Então", ela disse, "como explica o fato de uma mulher ter passado a noite com o senhor?" "Sou solteiro, é verdade, mas não sou monge", ele respondeu, e ela concluiu: "Nesse caso, por favor, deixe um mês de aluguel sobre a mesa do vestíbulo lá embaixo e as chaves e saia daqui hoje mesmo." Depois disso, não houve mais homens e Caroline ficou com o apartamento porque ela queria morar em Londres para estudar piano.
– E você morou lá por quanto tempo? – Forbes perguntou.
– Cinco anos, até me casar.
– Esses foram os anos mais felizes da sua vida – ele afirmou.
Não respondi e mudei de assunto:
– Caroline ficou lá também, até se casar, mas, veja só, embora fosse mulher e uma Hunter, houve uma época em que as coisas ficaram pretas para ela também.
– Como foi isso? Conte.
– Aconteceu o seguinte: Daisy é o que chamamos de "muito corajosa", porque não tem nenhum criado permanente, apenas uma faxineira, e, naquela manhã, ela fez seu desjejum, levou para a sala de jantar, e parou, de repente, quase caiu com a bandeja, porque viu um jovem no chão, vestido a rigor e profundamente adormecido. Daisy deu um pontapé nas costas dele e disse: "Meu jovem, não sei quem você é e não quero saber, desejo apenas que me informe como veio parar aqui, mas antes vou tomar meu café." Isso não foi maravilhoso da parte de Daisy?
– Maravilhoso, sem dúvida, mas continue.
– Acontece que Caroline o trouxera para casa depois de uma festa. Foram a um jantar dançante e depois ao Bag of Nails. Ele a estava levando para casa num táxi e, quando chegaram a Hunter's Lodge, ele desmaiou e o taxista recusou continuar a viagem só com ele. Ele foi atrás de Caroline, entrou na casa, antes que ela tivesse tempo de fechar a porta e foi isso que a salvou de ser mandada embora por Daisy, o fato de ele estar no chão, no térreo, e completamente vestido. Mas, mesmo assim, Caroline passou raspando.
– E você nunca teve nenhum problema?
– Eu sempre tive muito cuidado em Hunter's Lodge. Mas, mesmo assim, passei um momento muito embaraçoso certa vez e, na verdade, Daisy não foi justa. Não foi como se ela já tivesse me avisado; portanto, como eu podia saber?
– Tenho certeza de que Daisy foi injusta – Forbes disse – e que você não podia saber se ela não tinha dito nada antes. E exatamente o que foi? Acho que devo saber, para o caso de eu vir a conhecer Daisy.
– Teve a ver com o admirador de Caroline. Ela o convidou para o chá e ele era perfeito. Estivera em Sandringham e Osborne. Esteve no Palácio de Buckingham quando a rainha era ainda a princesa Elizabeth. O chá foi na sala de estar de Daisy, no térreo. Caroline não podia recebê-lo no seu apartamento, naturalmente. Então, lá estava eu na minha sala de estar, lendo o Sunday Times, porque, quando me mudei, Daisy, disse que não ia tolerar que eu continuasse a ler o Observer, que era liberal, praticamente bolchevista e prejudicaria o bom nome da casa.
Mais um olhar para Forbes e percebi claramente que ele sabia que eu não costumava tagarelar daquele modo e que ele e eu estávamos falando numa língua particular, quase num código que aprendêramos muito tempo atrás.
– Ele entrou sem bater – continuei. – Aquele jovem que parecia esculpido numa peça de tronco de carvalho disse: "Com licença, este é o banheiro?" Lembrei, então, que Daisy tinha no momento algumas peças de roupa íntima secando no seu banheiro; por isso, eu o levei ao meu. E, quando vi Daisy depois disso, me referi ao fato e ela olhou arregalada para mim e perguntou: "Não está dizendo que... o deixou usar seu banheiro?" Ao que respondi: "Mas, Daisy, qual é o problema, você praticamente o mandou para mim, não mandou?" E ela disse: "Que coisa absurdamente ridícula. Como você deixou um homem usar seu banheiro?" Ela o havia mandado para o banheiro no jardim. Tínhamos um, numa casinha de madeira, nos fundos, com um gato de pedra sentado no telhado, para parecer algo mais atraente, não tão parecido com uma privada. Eu nem havia pensado nisso. Pensei que fosse só para a gentinha, não para pessoas como nós, mas para gentinha como o lavador de janelas, o jardineiro, gente desse tipo e criaturas semelhantes. Mais tarde, o tronco de carvalho disse que queria muito me conhecer e nem Daisy foi capaz de pôr objeção e, depois disso, ele me convidou para sair várias vezes, quase sempre para festas dadas por damas de honra da princesa, até eu me casar.
Ele também se casou, com uma das damas da rainha. Cortona entrou, passou entre nós dois e ergueu as duas mãos como quem pede desculpas, balançando a cabeça, indicando que ainda não estava pronto para nós. Quando ele continuou a andar na sala comprida, Forbes disse:
– Esse sujeito estava nos espionando, mas você não o viu porque está de costas para a porta.
Ficamos calados, acompanhando Cortona com os olhos até ele desaparecer num escritório. Eu tinha certeza de que, embora ele não tivesse ouvido as palavras de Forbes, sentira o tom de desprezo delas.
– Então você morou na casa de Daisy cinco anos, não foi, até se casar? – Forbes perguntou. – E, então, saiu de Londres. Por quê?
– Meu marido não gostava da neve no inverno.
– E então foram para onde?
– Primeiro, seis meses no Sul da Espanha. Então, dois meses em Londres. Depois, duas vezes em Salzburgo, duas vezes em Lugano, seis meses de cada vez. Certa vez alugamos uma casa em Lausanne. Então, três invernos na Bordighera.
– E Portugal – ele acrescentou. – Você me disse, quando falou do advogado inglês de Lisboa, do testamento.
– Sim. Foi quando ficamos no Estoril. Foi onde permanecemos por mais tempo, porque não tem neve e tínhamos muitos criados.
– E sempre alugavam esses lugares, nunca compraram uma casa, compraram?
Não respondi.
– Por que tanta mudança? – ele perguntou.
– Porque meu marido não trabalhava. Ele deixou de trabalhar antes de nos conhecermos.
– Mesmo não trabalhando, por que não se instalaram definitivamente em um único lugar?
– Eu não sei.
– Ouça – ele disse. – Você estava falando encantadoramente até alguns minutos atrás sobre Daisy, a privada com o gato de pedra no telhado, o problema de Caroline e o sr. Smith devotado ao próprio rosto. E, de repente, quando começamos a falar de seu marido, você se cala. Por quê?
Não respondi.
Ele disse: – Olhe, quero chegar ao fundo disto. – A voz dele, mais baixa do que antes, perdera a indulgência sorridente. Respirei rapidamente para abafar o soluço que subia na minha garganta. Eu estava com Forbes há menos de meia hora e já havia sugerido indiscutivelmente uma coisa da qual nunca me conscientizei antes. Que eu nunca tivera coragem de perguntar ao meu marido por que não podíamos ficar definitivamente num lugar, qualquer lugar, assim como nunca tive coragem de questionar qualquer outra decisão dele. E eu sabia agora que aquele estrangulamento ao qual ele me submetera era uma continuação do que havia acontecido antes.
Não era apenas isso. Forbes, naquele pequeno espaço de tempo, demonstrara mais interesse em mim do que meu marido havia demonstrado em todos os anos que passamos juntos. No começo, sempre que eu queria falar sobre minha família e meu passado, ele me interrompia dizendo: "Quem quer saber o que sua mãe disse para Clara, sua copeira? Quem quer saber o que a cozinheira disse para sua avó e por que sua mãe e sua avó discutiram sobre aquilo mais tarde e o que Clara contou para você? Quem se importa com a vez que o conde húngaro jantou na sua casa pela primeira vez e não deixou uma gorjeta para as criadas?"
– Eu pergunto e você diz que não sabe – disse Forbes. – Ou não responde. Por quê?
– Não posso responder porque nunca pensei nisso.
– Quer que eu acredite que nunca pensou no modo que viviam, que nunca achou estranho?
– Eu não me permitia pensar. Meu marido era um grande médico. Era tão eminente, tão superior, e eu era tão ineficiente, até com os criados.
– O que você está dizendo realmente é que ele a fazia se sentir inferior o tempo todo, é isso?
– Sim, isso mesmo... eu também tenho algumas qualidades, você sabe. Ele me elogiava dizendo, por exemplo: "Você faz um excelente pot-au-feu, sem dúvida", mas era um elogio truncado, como se fosse espantoso o fato de eu poder fazer bem alguma coisa.
– Então era assim que ele a dominava. Um homem velho com uma bela e jovem mulher. Era bastante sistemático esse modo de humilhar você, n
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