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Massificação Cultural e Religião
 
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Arthur Queiroz, Mossoró (RN) · 10/2/2010 · 58 votos · 1
Editora Biblioteca 24x7
Em meados do século XIX, em plena revolução industrial, a Ciência triunfava, o homem ampliava seu conhecimento do mundo de forma tão acelerada que muitos luminares da época pensavam que as religiões tradicionais estavam definitivamente superadas. Auguste Comte, com o seu famoso positivismo, foi um desses.

Mesmo os que ainda acreditavam na espiritualidade procuravam apresentá-la sob uma nova ótica. O hegelianismo com seu “espirito que evolui”, procurava fazer uma “racionalização de Deus”. Acreditava-se que os alegados fenômenos espirituais poderiam ser objeto de estudo científico, seguindo os mesmos métodos. O Kardecismo nasceu nessa época, acreditando ser possível comprovar com experiências controladas a crença na reencarnação. Tudo era plausível porque bastaria confrontar as crenças com os novos métodos científicos. Madame Blavatsky percorria a Europa fazendo conferências que eram muito bem aceitas, pois parecia tudo, afinal, muito científico. Alan Kardec acreditava que estava fundando uma Ciência nova, não uma religião. Freud, no início do século XX, num ensaio famoso, proclamou a religião como “uma ilusão”.

Por que então as religiões tradicionais não acabaram? O kardecismo persistiu, mas com uma obediência absoluta ao que escreveu seu fundador (que não desejava isso, mas o prosseguimento da sua investigação), Madame Blavastky continua viva, tivemos ramificações como a antroposofia, mas de modo algum houve um decisivo novo rumo na espiritualidade. O que se viu no século XX foi, até pelo contrário, um recrescimento das antigas religiões. Esse livro, Massificação Cultural e Religião, de Cleber Resende, publicado pela Editora Biblioteca 24x7 trata desse assunto – ou pelo menos, a primeira parte dele trata. Creio que este longo parágrafo sobre a evolução da Ciência nos últimos cem anos oferece uma síntese do pensamento do autor sobre o assunto:

O homem criou novas teorias físicas revolucionárias, reinventou a Medicina e o conhecimento do seu corpo, descobriu seus próprios processos mentais inconscientes, passeou pelos espaços vazios e pelo fundo dos oceanos, visitou a Lua e viu o seu lado oculto, enviou um robô ao planeta Marte. Fez coisas que nem o mais delirante paranormal de 100 anos atrás poderia imaginar. Hoje ele vê e ouve acontecimentos que estão se desenrolando a milhares de quilômetros de distância – e sem ser necessário qualquer dom privilegiado para isso. Desvendou o segredo da reação que dá energia ao Sol e a recriou na Terra. Conseguiu inferir teorias consistentes que mostram a curvatura do próprio espaço, explicou de um modo coerente, como evoluiu o Universo durante os últimos bilhões de anos e como se originaram as estrelas. Estudou seu próprio passado, aprendendo a medir a idade dos ossos ancestrais, explicou a extinção dos dinossauros, após constatar que os ossos encontrados anteriormente não eram de gigantes como se pensava e compreendeu como surgiu a sua própria espécie. Pesquisou novos tipos de ondas invisíveis, fabricou máquinas inteligentes, fez aparelhos que pode comandar de longe, com um controle remoto que lembra a varinha de condão das fadas. Inventou materiais inexistentes na Natureza, mais convenientes aos seus propósitos, deslindando para isso o estofo mais íntimo da matéria. Investigou cada componente e deduziu quais são as forças fundamentais que as fazem interagir. Avaliou o peso do átomo e de cada partícula que o forma, montou um espectrograma com a intensidade de cada frequência da luz que ele emite. Nunca enxergou, enfim, tão bem e mesmo assim não pôde lobrigar o mais tênue sinal que corroborasse o apelo das massas pelos fenômenos extranormais. (pgs. 56/57)

Este é basicamente o ponto de vista que o autor expõe na obra.

O livro tem uma apresentação pobre, e uma capa muito feia (julguem vocês, que a capa é essa aí da ilustração do artigo). Mas, talvez por uma certa afinidade com o pensamento do autor, gostei muito do conteúdo. Creio que é a leitura perfeita para um jovem universitário à procura de um livro de iniciação filosófica. O autor demonstra possuir um conhecimento enciclopédico dos grandes pensadores, que são profusamente citados.

O livro se divide em 3 partes: a primeira, Sexo, Magia e Violência, onde ele estuda o fenômeno da massificação cultural associado ao da vulgarização religiosa. A segunda, chama-se Psicologia, e aí é mostrado como muitos dos fenômenos associados à religião podem ser explicados pela ciência (como a esquizofrenia, etc.). Há um interessante capítulo “como enxergar fantasmas” em que ele fala como o cérebro humano pode enganar qualquer um, construindo suas próprias imagens e fazendo-nos crer que são reais.

A Terceira Parte, chamada Pequena História do Pensamento Moderno, é a que considero a mais importante – e não seria de graça, pois a sua leitura é um pouco mais difícil. Creio mesmo que deveria ser um livro separado. Ele pegou desde o início da Filosofia Moderna, com o cogito ergo sum cartesiano, e veio até a Fenomenologia de Husserl e Heidegger, e o Existencialismo de Sartre. Isso é uma verdadeira iniciação em Filosofia, e a parte que recomendo fortemente a quem deseja uma obra desse tipo. O livro chega a misturar a história da Ciência com a da Filosofia, pois trata-se da evolução do conhecimento humano nos últimos 400 anos, a Ciência no seu início chamava-se "Filosofia experimental" e alguns pensadores importantes com Descartes, Pascal e Leibniz foram ao mesmo tempo matemáticos, cientistas e filósofos.

O autor critica o modo como é ensinada hoje a Filosofia Moderna, usando os famosos nomes terminados em “ismo”: racionalismo, empirismo, iluminismo, criticismo, idealismo, positivismo, pragmatismo, intuicionismo, modernismo, existencialismo etc. Comumente explica-se o que significa cada corrente dessas a quem ainda não tem a capacidade de perceber as sutilezas dessas definições, e preenche-se com os nomes principais de cada “ismo” correspondente. Método complexo demais para um curso introdutório, ele diz. O aluno desiste antes de compreender qualquer coisa.

Por isso ele vai à essência da questão e aborda isso de uma forma como nunca tinha visto antes, fazendo uma simplificação radical e dividindo todos os pensadores do período em duas únicas categorias: os idealistas e os positivistas. Para isso ele se baseia numa teoria de William James, de que as diferenças ideológicas entre os homens provêm da existência de dois tipos psicológicos básicos. A esquerda e a direita políticas estariam também associadas a esses dois tipos, um idealista, o outro pragmático (positivista).

Do lado idealista ele põe Descartes, Leibniz, Berkeley, Fichte, Hegel, Husserl, Heidegger. Do lado positivista ele põe Francis Bacon, Hobbes, Locke, Hume, Kant, Comte, Stuart Mill, Wittgenstein. E vai acompanhando as aquisições desses pensadores ao longo do tempo, mostrando os dois pontos de vista. O autor posiciona-se claramente do lado positivista, mas não é radical e consegue explicar o lado idealista de modo que me pareceu isento.

Talvez numa tentativa de tirar a sisudez do texto, os títulos dos capítulos são no mínimo curiosos: Lorde Bacon e o Samba do Crioulo Doido, (capítulo dedicado a Francis Bacon) Hegel e os Quadrados Redondos (O de Hegel, por causa da sua linguagem contraditória) etc. Auguste Comte é O Homem que Exagerava. E a famosa Crítica da Razão Pura de Kant (O Homem de Juízo, que ele põe entre os positivistas, e explica porque), também está lá, devidamente dissecada.

Sempre é confortante chegar ao final de um livro com a sensação de que aprendemos alguma coisa, e Cleber Resende nos dá isso. Há muitas pequeninas revelações surpreendentes, e eis uma delas: o autor desencavou uma curiosíssima citação de Hegel em que este ataca as teorias do seu contemporâneo Lavoisier e sustenta sua fé na teoria dos quatro elementos de Heráclito (Terra, Água, Fogo e Ar), e conclui: se Hegel estivesse certo, estaríamos até hoje andando em carruagens! O título do texto: Por que só a rainha da Inglaterra anda de carruagem. Ele desvenda até mesmo a difícil Fenomenologia de Husserl, a que chama O Osso da Metafísica.

E termina explicando como os sistemas filosóficos idealistas foram superados pela análise da linguagem.

Na década de 30, dois grupos de pensadores estabelecidos em Viena, na Áustria e em Oxford, na Inglaterra, realizaram uma crítica radical da Filosofia, que resultou no seu desmoronamento final. Esses novos pensadores começaram a colocar sérias dúvidas sobre as obras filosóficas, que durante séculos foram tidas como supremas construções da razão. O ponto comum da sua atenção foi o modo como usavam a linguagem: eles verificaram que nessas obras as frases usadas pelos filósofos estavam longe de serem adequadas para expressar seus ambiciosos pensamentos. (p.188)

O autor afirma que, se não fosse o marxismo, Hegel já estaria morto desde a década de 1930, pelo chamado "positivismo lógico", que vai além dos postulados do positivismo tradicional, e afirma que a linguagem também deve passar pela peneira de uma crítica severa, assim como a análise dos fenômenos. Achei muito curiosa essa citação que ele fez da Fenomenologia do Espírito de Hegel, para exemplificar a ininteligibilidade da sua linguagem. Leia isto, mas não é para entender, é para ver como é ininteligível:

“A aparição é o surgir e o passar que não surge nem passa, mas que é em si e constitui a efetividade e o movimento da vida da verdade. O verdadeiro é assim o delírio báquico, onde não há membro que não esteja ébrio; e porque cada membro, ao separar-se, também imediatamente se dissolve, esse delírio é ao mesmo tempo repouso translúcido e simples. Perante o tribunal desse movimento não se sustêm nem as figuras singulares do espírito, nem os pensamentos determinados; pois aí tanto são momentos positivos necessários, quanto são negativos e evanescentes”.
(Hegel, Fenomenologia do Espírito, Ed. Vozes, p. 47)


Segundo ele foi baseando-se em frases assim que os marxistas erigiram suas certezas absolutas. São frases que embora gramaticalmente corretas não podem ser seriamente consideradas, como "os unicórnios não existem" ou "eu estou mentindo", ou "a é igual a não-a", ou até mesmo os "quadrado redondos" e a "substância imaterial" sugeridos por Hobbes no sec. XVII.

Os lingüistas demonstraram que muitos dos problemas que durante séculos permearam o matraquear filosófico sequer são problemas, mas pseudoproblemas, que se diluem através da análise lógica da linguagem. São questões que jamais poderão ser decididas, porque são provenientes do modo de utilização da linguagem. (p.189)

Finalizando: Fiquei muito bem impressionado com essa Pequena História do Pensamento Moderno, a terceira parte do livro. Que é heterodoxa certamente, mas me pareceu muito original, e principalmente muito instrutiva.

Então fica aí a dica: Massificação Cultural e Religião de Cleber Resende, um livro em que encontrei muitos méritos. Pareceu-me um bom escritor, que consegue dar seu recado de forma competente. Achei o livro bastante denso, profundo, por isso aqui vai o último recado: não o compre pensando que é um desses best-sellers água-com-açúcar. Exige atenção e demanda tempo de leitura. Se não for encontrado nas livrarias, o livro pode ser encomendado online pelo site da Editora (www.biblioteca24x7.com.br). Há uma opção de aluguel do livro para leitura online.




tags: Mossoró RN jornalismo-midia filosofia religiao


 
Realmente parece ser uma leitura interessante. Vou anotar para futura leitura.Votarei no artigo. Merece.

Osair Manassan · Goiânia (GO) · 7/2/2010 21:45
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