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Mario Benedetti e o Recife
 
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Urariano, Olinda (PE) · 23/5/2009 · 131 votos · 17


Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti foram lacônicas, medíocres e omissas. Se pegarmos o google notícias, em España, teremos um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil... Uma nota do Estadão nada disse sobre o papel político da sua obra. Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passou-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: "Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA".

Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti foi ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:



"O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu". Isso é mais que ridículo, é criminoso. Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam "El poeta del compromiso". Um banho de informação.



Como a grande imprensa não lembrou nem vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses.


MORTE DE SOLEDAD BARRET



Mario Benedetti



Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do íbero

agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente
só em mirá-los

só em sorrir
só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas


porém o avô rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões

soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais

soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida

ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans
quando a rajada de pernambuco
acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.





tags: Olinda PE jornalismo-midia benedetti poeta poesia jornalismo espanha uruguai literatura ditadura


 
Uraniano,
não conhecia este poema do Benedetti.
valeu.

Marcilio Medeiros · Aracaju (SE) · 23/5/2009 13:30
Grato, Marcílio. Mas sou mesmo UraRiano, amigo. Tudo bem, 99,99% das pessoas sempre pensam que venho de Urano.
Abraço fraterno.

Urariano · Olinda (PE) · 23/5/2009 13:38
"Como a grande imprensa não lembrou nem vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses".

Urariano:
Agradeço a oportunidade de ler o artigo sobre Benedetti e o belo poema...
Abs
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 23/5/2009 13:43
Devidamente votado...

gustavodourado · Brasília (DF) · 23/5/2009 13:44
Salve, Gustavo. Grato pelo voto e comentário. Que a poesia esteja contigo. Abraço.

Urariano · Olinda (PE) · 23/5/2009 13:52
Urariano:
Sempre gosto de ler os seus textos aqui e em Cronópios.
Sempre que publicar, me avise para eu ler, votar e comentar...
Obrigado
Abs
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 23/5/2009 14:02
nos'senhora! que poema belo e pungente
e o quanto é grande o meu desconhecimento!...
valeu, urariano!

samuca santos · Olinda (PE) · 23/5/2009 18:10
Valeu, Samuca. Esse poema eu venho mastigando e amargando há mais de 10 anos. Abraço.

Urariano · Olinda (PE) · 23/5/2009 22:37
Omissão é o meu nome! É sempre a postura da mídia nacional desde que eu existo. Ainda bem que existe gente 'teimosa' que enfia a realidade nas fuças dos idiotas. Tá lido, amado e votado!

TõeRoberto · João Pessoa (PB) · 23/5/2009 23:43
Valeu, TõeRoberto, grato. Um abraço para a princesa do litoral brasileiro, a cidade onde ainda vou morar. Penso em João Pessoa sempre como um lugar para escrever e andar, e passar no bar Peixe Elétrico, cujo dono é sobrinho de José Lins do Rego.
Abraço.

Urariano · Olinda (PE) · 24/5/2009 09:57

Muito bem lembrado,

e sobretudo com grandes colocaçoes a respeito

e um poema q recusa comentarios.

realmente nuito bom

valeu


André de Aviz · Peixe-Boi (PA) · 25/5/2009 10:13
Grato, André, pea mensagem e apoio. Você disse bem: o poema de Mario Benedetti recusa comentários.
Abraço.

Urariano · Olinda (PE) · 25/5/2009 10:26
Li algumas obras do Benedetti e todas foram incríveis, sua morte seria triste se não soubessemos o modo como ele encarava a vida. Embora seja renomado poeta, é um incrível escritor de prosa.

A Trégua é uma belíssima história sobre o envelhecer e sobre o amar, linda e na minha opinião, dos 4 que vou falar, é a mais forte. Conta em forma de diário a vida de um homem prestes a se aposentar, com medo de ser esquecido pelos filhos e cair na monotonia e ostracismo.i Publicada no Brasil tanto pela Alfaguara como pela L&PM.

Quem de Nós publicado pela Record é um pequeno livro que conta a história de um triângulo amoroso, é dividido em três partes nas quais cada um dos envolvidos conta sua versão. Destaque para as formas de linguagem que ele usa, cada personagem usa uma diferente.

Gracias por el Fuego foi a única que eu li que não fala tão diretamente de amor. Conta a história de uma família, principalmente da relação de pai e filho. A crítica à hipocrisia e principalmente à burguesia uruguaia. Também publicado pela L&PM.

Por fim, Primavera num Espelho Partido, publicada no Brasil esse ano pela Alfaguara, conta a história de um preso político, sua mulher, um amigo e seu pai. Também cada qual com sua própria voz narrativa. Intervindo na história o próprio Benedetti narra alguns acontecimentos biográficos durante a ditadura.

Queria falar mais e colocar trechos, mas já falei muito.
Abraço,



Daniel Lameira · São Paulo (SP) · 26/5/2009 15:35
Caro Uraniano, lido e votado. Também estou com um texto em votação. Apreciaria sua leitura e comentário. Abraços, Tânia.

http://portalliteral.com.br/artigos/alem

Tânia Du Bois · Balneário Camboriú (SC) · 29/5/2009 00:07
Votado. Parabéns!

Haron Gamal · Rio de Janeiro (RJ) · 29/5/2009 21:43
Grato por sua manifestação, Daniel. O que sinto mais é o Brasil não conhecer o magnífico poeta, que o mundo hispânico cultiva tão bem. Da Espanha ao Uruguai, da Argentina à Venezuela.
Valeu, Tânia, vou lá no seu texto.
Grato, Haron Gamal.
Abraços.

Urariano · Olinda (PE) · 29/5/2009 21:57
Amigo uraniano
Somos um pais se memória literária. teu texto magnifico resgata a vida de Mário Benedetti, sua relação com a Recife dos teus amores e nos ofereces um belo poema que, confesso, desconhecia. Uma primor de aula.De ensinamentos sobre a cultura, tão pobre nessa terra chamada Brasil.
Grande, parceiro
Abraços fraternos
Noélio A. de Mello


Noélio A. de Mello · Belém (PA) · 30/5/2009 22:51
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