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Literatura, estética e inclusão: da estranheza à luz
 
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J. C. Peu, Nova Iguaçu (RJ) · 17/5/2010 · 46 votos · 1
A literatura é uma das maiores formadoras de opinião na sociedade moderna. Não que a maioria da população forme sua opinião embasando-se em uma leitura de mundo construída a partir da leitura de obras literárias de autores consagrados por crítica e público, mas, creio que os formadores de opinião em nossa sociedade são, estes sim, influenciados pela leitura de clássicos literários. Deste ponto em diante, a população em geral se apropria de conceitos e pré-conceitos que são, em maior ou menor grau, apresentados por autores literários que, por sua vez, apresentam em seus discursos conceitos ideológicos e representações sociais próprias dos momentos históricos e locais sociais onde se situa sua escrita (Dominantes x Dominados ; Burguesia x Proletariado). Um estudo do discurso literário pode servir para indicar como práticas excludentes se tornaram tão comuns na sociedade atual.
O Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro no dia 12 de maio de 2005, numa Quinta-feira, publicou normas para a Educação Especial na Educação Básica válido para todo o sistema educacional público do governo estadual, nesta lei encontramos objetivos específicos para a organização da Educação Especial a serem atingidos na Educação Básica como, entre outros:

“Considerando que a Educação Especial, como uma política de educação
escolar que se baseia no paradigma da diferença enquanto construção do
sujeito cultural, histórico, político e social, deve organizar-se em função
da reafirmação dos valores éticos, estéticos e políticos estabelecidos pela declaração dos direitos humanos;” (D.O. Rio de Janeiro, 12 de maio de 2005)

Como reafirmar valores estéticos que nunca foram afirmados? A deficiência em nenhuma época na linha do tempo fora reconhecida como valor estético digno de ser representado em pinturas, esculturas ou em poesia , desvelada de estigmas, preconceitos e crenças religiosas ou mitológicas próprias de seu tempo e grau de desenvolvimento característico.
Concepções funcionalistas da beleza, aplicadas a objetos de arte ou não, muitas vezes até mesmo a pessoas, atravessaram os séculos no ocidente e influênciaram filósofos e estetas de todas as épocas a sustentarem idéias tais como as de Sócrates de que “um cesto durável de estrume pode ser uma coisa bonita e um escudo mal feito de ouro, uma coisa feia; que as casas mais ‘belas’ são as que se mostram quentes no inverno, frias no verão e à prova de ladrões”, e Diderot ao dizer em seu ‘Essai sur la Peinture’, de 1775, “O belo ser humano é aquele que a natureza afeiçoou para o propósito de realizar, o mais facilmente possível, as duas grandes funções: a autopreservação individual e a propagação da espécie...” (Ambas as citações são de OSBORNE, H, Estética e Teoria da Arte,1968, Editora Cultrix/ Editora da Universidade de São Paulo, páginas 35 e 46).
Obras de arte como o quadro renascentista “O Nascimento de Vênus” de Botticelli, esculturas como o “David” de Miguelangelo e livros como “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde tornaram-se contribuições fortes na formação de um imaginário social que valorize o culto do corpo perfeito, ou acima de tudo, a atual concepção de beleza de nossa sociedade, concepção esta bastante influenciada, também, pelo pensamento dos gregos, que diziam que imitar boas ações é imitar o bom senso; imitar o justo é imitar o meio termo; o belo é acima de tudo o bom; os extremos levarão inevitavelmente ao riso. Não é difícil perceber que tais pensamentos sobre a beleza são extremamente desfavoráveis para os portadores de algum tipo de deficiência.
No capítulo VII parágrafo 44 da “Poética”, Aristóteles define assim o belo:

“Além disso, o belo – ser vivente ou o que quer que se componha de partes
não só deve Ter essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que não
seja qualquer. Porque o belo consiste na grandeza e na ordem, (...) tal como
os corpos e organismos viventes devem possuir uma grandeza, e esta bem
perceptível como um todo.”

Muito da discriminação que os portadores de deficiência sofrem hoje, se deve a representações sociais baseadas em declarações como estas, que desconsideram o deficiente como membro ativo da sociedade e, por isso digno de respeito e consideração. Evidentemente não podemos ser anacrônicos e acreditarmos que as palavras de Aristóteles a cima citadas são as únicas responsáveis por isto. É mais sensato creditar a falha aos pensadores posteriores a ele, que mesmo tendo se passado mais de dois mil anos desde que Aristóteles escreveu a sua “Poética”, não avançaram muito em pensar o binômio beleza/deficiência.

Le Carré, Hawthorne e Kafka

“A princípio os colegas trataram-no com indulgência – talvez aquela decadência os assustasse como nos assustam os aleijados, os mendigos e os inválidos, pelo nosso receio de vir a ser como eles - , mas, com o tempo, o seu desleixo e a sua maldade brutal e sem razão isolaram-no.” ( LE CARRÉ, J., O Espião Que Saiu do Frio, Editora Abril Cultural, São Paulo, página 28.)

Tornou-se ‘lugar comum’ repetir a frase de que ‘todos os homens são iguais’, mas quer em sentido jurídico, quer em sentido social, étnico ou cultural é fácil observar que esta frase não corresponde a realidade e que infelizmente ainda é utilizada para mascarar injustiças e desigualdades que velam atitudes claramente excludentes.
O fragmento supracitado de Le Carré faz alusão a ‘estranheza’ que as pessoas incluídas sentem ao se depararem com os excluídos da ordem social, pessoas que por algum motivo fogem do padrão estipulado de normalidade. Isto, evidentemente, causa certo grau de desconforto aos ditos ‘normais’, que talvez por não estarem preparados para lidar com tal situação, não conseguem explicar a si mesmas como ‘todos os homens são iguais’ e, ao mesmo tempo, diferentes. Este sofisma trás a tona sentimentos ambivalentes dos ‘incluídos’ em relação aos ‘excluídos’, que podem ser portadores de deficiência ou outros grupos discriminados.
Segundo a professora Rosana Glat no livro “A Integração social dos portadores de deficiências: uma reflexão”, tal ambivalência provém não de um forte desagrado nosso, os ditos ‘normais’, para com os pertencentes a grupos estigmatizados, mas sim de uma confusão de nossos próprios sentimentos. “A confusão se origina do fato de que pessoas não-estigmatizadas mantém sentimentos tanto negativos quanto positivos em relação aos que são estigmatizados”. (Gibbons : 1986; pagina 127, por meio do citado livro de Glat)
Glat nos explica que toda esta confusão de sentimentos se deve ao fato de que mesmo que não nos sintamos atraídos aos diferentes, somos educados, pelo menos a maioria de nós, para sermos bons cidadãos, o que inclui lutar contra injustiças. Sentimos, então, pena dos excluídos, depois, certa medida de satisfação por ter sido o outro que foi acometido por tal ‘fatalidade’ e não nós. Mas, começamos a nos sentir culpados pois eles não tem culpa de terem nascido ou ficado nesta situação. A culpa é uma companheira da raiva e serve para nos lembrar que fizemos alguma coisa errada, ou que não fizemos algo que deveríamos Ter feito. Sentimos assim raiva destas pessoas que mesmo caladas em seus cantos, muitas vezes em guetos, nos ofendem e perturbam a nossa harmonia interna quando, em dado momento, mesmo que num momento fugaz cruzam o nosso caminho. Logo nos sentimos culpados novamente, pois se nós não temos culpa por elas serem do ‘jeito que são’, muito menos elas próprias o são, e no entanto nós sentimos raiva destas pessoas.
O passo seguinte que muitos, talvez a maioria das pessoas que se consideram “normais”, tomam é não encarar tais pessoas virando o rosto para o outro lado ao se deparar com elas seguindo em frente como se elas simplesmente não existissem , ou encarar (olhar) de forma prolongada e não apropriada para tais pessoas que são ‘desviantes’ potencializando nelas o sentimento de que são inferiores.
Logo nós, pessoas ‘normais’, planejamos nossas vidas e até mesmo a vida de outras pessoas, sem levarmos em conta a existência destas pessoas. Projetamos prédios, ruas, cidades inteiras, escrevemos contos, novelas, poesias, criamos leis e fazemos programas de televisão sem nem sequer nos darmos o luxo de pensarmos nessas pessoas, sem termos a devida cura –cuidado- que deve, segundo Manoel Antonio de Castro impulsionar o nosso agir. (“A Poesia e o Mito de Cura”, www.blocosonline.com.br/literatura/prosa/artigos/art038.htm; www.travesiapoetica.com) Agir sem o devido cuidado só tende a excluir ainda mais os excluídos do convívio social.
A estranheza que sentimos em relação aos deficientes é, em certo sentido, semelhante a estranheza que o próprio deficiente, ou qualquer outra pessoa que esteja em situação desviante, sente em relação a si mesmo, principalmente os que se tornam deficientes após uma certa idade. Estas duas formas diferentes de se apreender a deficiência são expostas de forma magistral por Franz Kafka, utilizando o personagem Gregor Sansa sempre estranhando sua nova relação indivíduo/mundo, seu novo simulacro, e a relação de seus parentes para com ele numa relação mundo/indivíduo.
"Se ao menos Gregor pudesse conversar com sua irmã; se lhe tivesse podido agradecer por tudo o que fazia por ele, esses trabalhos que ocasionava e que desse modo tanto lhe faziam sofrer lhe teriam sido mais leves. Sem dúvida a irmã fazia tudo o que podia para apagar o que havia de doloroso na situação, e à medida que transcorria o tempo ela ia conseguindo melhor o seu intento, como é natural. Mas também Gregor à medida que os dias se passavam via tudo isso com maior clareza." (KAFKA,F. A Metamorfose, Editora Martin Claret, São Paulo,2002, pág. 38, 39.)

A mudança da situação de Gregor fez com que ele passasse de esteio familiar, a grande peso a ser arrastado pelos seus. Tal mudança fez com que seus familiares mudassem seus tratamentos em relação a ele, quase cortando completamente relações com ele, alimentando-o parcamente, apesar de terem considerado a mudança ins;olita como normal ou no mínimo uma fatalidade que poderia acontecer com qualquer pessoa. Isto nos lembra o conto "Uma Galinha" de Clarisse Lispector (www.releituras.com), onde este mesmo tratamento é dispensado à galinha que botou um ovo adiando sua morte por um tempo, até a sua morte num domingo em que não havia outra coisa para comer, e anos e anos se passaram normalmente.
Gregor tornou-se um estranho no meio de conhecidos íntimos e não mudara apenas fisicamente, mas seu papel econômico/social dentro da família mudou de provedor para dependente. Gregor passou a representar para sua família o improdutivo, o negativo, a vergonha, a deficiência. Gregor incorporou para si um conceito moderno (séc 18/19) ligado a uma maneira de encarar a vida fortemente calcada em valores sociais industriais e capitalistas onde as pessoas precisam todo o tempo ser rápidas, produtivas, aptas para os mais diversos afazeres, em uma palavra: eficientes. (Para aprofundamento ver : Puppin in R. Bras. Est. Pedag., Brasília, v. 80, n. 195, pág 244-261, maio/ago. 1999.)
Não podemos negar o fato de que a estranheza existe realmente, uma estranheza que é causada justamente pelo fato dos portadores de deficiências e outras pessoas pertencentes a minorias, viverem segregadas em locais sociais específicos. Alguns portadores de deficiências ou até pessoas pertencentes a etnia cigana muitas vezes não chegam a ter a oportunidade, por exemplo, de estudarem numa escola, fato que não contribui para a diminuição da estranheza nossa em relação aos excluídos.
Não podemos, entretanto, nos permitir ceder a esta estranheza, pois ela pode ser um fator contribuinte para a idéia de que os desviantes devam ficar em seus lugares "instituídos".

"Embora se dissesse que ele nunca fora moço, mas somente um pouco mais moço, Tio Venner, na mocidade, fora tido como fraco de idéias. Ele próprio fora culpado disso por nunca desejar o sucesso ambicionado pelos outros homens e só tomar, no intercambio da vida, aquela parte humilde e modesta que cabe aos deficientes". (HAWTHORNE, N. A Casa das Sete Torres, Editora Círculo do Livro S.A., São Paulo, pág. 47.)

Não podemos acreditar que "aquela parte humilde e modesta que cabe aos deficientes" na vida tenha sido escolhida por livre e espontânea vontade deles. Definitivamente o modo como a sociedade encara tais pessoas influi, em maior ou menor grau,, na maneira em que eles mesmos se encaram.

"Reingressar na vida cotidiana é sempre o maior desejo de pessoas que dela se desviam, seja para melhor ou para pior. No cume de uma montanha ou no fundo de uma caverna a solidão é desesperadora". (HAWTHORNE, N. A Casa das Sete Torres, Editora Círculo do Livro S.A., São Paulo, pág. 95.)

É necessário que vençamos a estranheza que nos causa os excluídos, visando a criação de um tipo de "ETHOS" social que prime pela inclusão plena. Evidentemente tal inclusão plena não deve ser encarada apenas no âmbito escolar, mas deve ser entendida como fenômeno positivo que transbordará o ambiente escolar invadindo todas as instancias do convívio social e todos os meios de transmissão de conhecimento entre os homens, inclusive a arte.

Considerações finais
Felizmente passos neste sentido, utilizar a arte como forma de empoderamento de portadores de deficiências e outros excluídos, são sempre tomados por artistas conscientes de que seu fazer poiético. Mais uma vez citamos Manuel Antonio de Castro, que diz: "A cura impulsiona todo o nosso agir. Agir se diz em grego poieim, de onde nos vem poiesis, a essência do agir, a poesia. Poesia só é linguagem quando se torna verbo-ação-poiesis. Toda poesia nos advém a partir de cura. É essa a fala do mito "CURA"". Alcântara Machado em seu conto "Apólogo Brasileiro Sem Véu de Alegoria", entendeu a cura, cuidado, que os formadores de opinião, por meio da literatura, devem ter ao tratar de um assunto tão importante quanto a inclusão/exclusão de portadores de deficiências. A história nos conta sobre pessoas que viajavam de trem no mais completo breu, até que um cego patrocinou uma verdadeira revolução por luz.

"-Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! ...
Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois, a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providencias? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia que a coisa pega fogo". (www.releituras.com).

Todas as produções sociais, entre elas a literatura, a estética, etc, precisam de um novo olhar, um olhar que inclua no sentido mais amplo possível todos os excluídos. Um olhar que vise iluminar todos os caminhos existentes e criar outros que clamem única e exclusivamente por luz! Luz! Luz! Luz!

Bibliografia
Aristóteles, Poética.
Castro, M. A., A Poesia e o Mito de Cura.
Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 12 de maio de 2005.
Glat, R., A Integração Social dos Portadores de Deficiência: uma reflexão.
Hawthorne, N., A Casa das Sete Torres.
Kafka, F., A Metamorfose.
Le Carré, J., O Espião Que Saiu do Frio.
Lispector, C., Uma Galinha.
Machado, A., Apólogo Brasileiro Sem Véu de Alegoria.
Osborne, H., Estética e Teoria da Arte.







tags: Nova Iguaçu RJ artes-visuais


 
Votodo!

Dhiogo José Caetano - O Pensador · Uruana (GO) · 20/5/2010 11:49
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