Entrar
Novo no Literal? Registre-se
José Saramago recebe o envelope roxo
 
1
Erick da Silva Cerqueira, Salvador (BA) · 22/6/2010 · 51 votos · 2
Montagem: ESC
Do Evangelho de Jesus às intermitências da Morte
Ninguém foi tão inverossímil para relatar a realidade quanto ele. José de Souza Saramago! Sim, seu nome deve ser sempre seguido de uma exclamação. Aos 87 anos, no dia 18 de junho de 2010, o maior escritor contemporâneo do mundo, deixou o mundo. Seu corpo está sendo velado na Biblioteca, que leva o seu nome, em Tías, nas Ilhas Canárias. Apropriado, não?

Em seu refúgio nas Ilhas Canárias, foi vitimado por uma leucemia que o levou à falência múltipla dos órgãos. Mas não há como falar da morte de um homem que, em seus realismos-surreais, simplesmente deu férias a ela. A morte.

A imagem viva do velho comunista, meio ranzinza quanto à tradução dos seus livros do português de Portugal para o português brasileiro, ficará na mente dos seus fãs. Porém, se puder, escolherei lembrar apenas dele chorando emocionado ao assistir a avant-premiere do filme Cegueira, de Fernando Meirelles. Aliás, fica a dica. Assistam ao filme no DVD, mas não deixe de ver também, o fantástico making-of nos extras. No making-of, Meirelles viaja até as Ilhas Canárias para pedir a permissão do Mestre para fazer um filme de um dos seus livros. O diretor sabia que o escritor não gostava da idéia de ver suas páginas nas telonas, mas conseguiu convencê-lo. Porém, com uma condição. Se ele, José Saramago, não aprovasse a película, ela não iria aos cinemas. Meirelles aceitou o desafio e quando exibiu Cegueira pela primeira vez ao autor, emocionado, assistiu às lágrimas do Velho Senhor. Saramago aprovara e se apaixonara pelo que assistira.

Autor de livros como "As intermitências da morte", "Caim" e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998, ano seguinte ao lançamento do livro "Todos os nomes". Suas obras possuem uma identidade própria, com diálogos sendo intercalados por vírgulas seguidas de letras maiúsculas para alterar o locutor. Se pudéssemos manter um diálogo com ele, diríamos: Você foi o maior gênio da língua da portuguesa, Muito grato, mas fiz apenas a minha parte, Obrigado ao senhor por nos inspirar a pensar.

Em 1991 escreveu sua obra mais polêmica: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O seu Jesus humanizado chocou os retrógrados religiosos portugueses que consideraram a obra como uma blasfêmia. O governo português, obviamente influenciado pela Igreja, vetou a indicação do livro para a lista do Prêmio Literário Europeu. Em retaliação a essa censura, Saramago abandona Portugal e parte para a Espanha, aonde viveu até receber o seu “envelope roxo”. Não sabe o que é o “envelope roxo”? Então recomendo a leitura de "As intermitências da morte", para esclarecer esse mistério e se aprofundar na magistral obra desse português que imaginava o inimaginável para explicar a realidade humana.

Ave, Saramago!
* 16/11/1922 + 18/06/2010



tags: Salvador BA blogs jose saramago morte escritor-portugues


 
Votadíssimo!

Dhiogo José Caetano - O Pensador · Uruana (GO) · 23/6/2010 14:21
Ah, Saramago... o que senti quando soube que ele havia recebido o envelope roxo (também não irei dizer o que significa, embora já esteja praticamente claro e evidente... fica o incentivo para que as pessoas leiam "As intermitências da morte") foi um misto de desespero, dor e agonia, não pelo homem que partiu, mas pelo gênio das letras que ainda poderia ter escrito mais e com isso nos deixado menos tocados pela ignorância e mais tocados pela fascinação, admiração e sapiência. Excelente o artigo, Erick! Está bem evidenciada a emoção de ser um leitor tão apegado quanto assíduo de Saramago, está também muito bem colocado o fato da emoção dele quando assistiu ao filme baseado em "Ensaio Sobre a Cegueira". Assisti ao filme e depois vi numa reportagem Saramago ao lado do Meirelles, nas primeiras poltronas, assistindo e a expressão dele era de um misto de surpresa, alegria... gostei bastante do filme, mas não abro mão do livro. E, é com uma frase que jamais olvidei, do primeiro livro que dele li ("A Caverna"), que despeço-me mais contente por ter lido este texto e mais triste por ainda sentir a dor latente compartilhada da partida dele: "... às vezes não são suficientes as lágrimas que já choramos, temos de pedir-lhes por favor que continuem". E continuarão!

Fernanda R. Barros · Porto Alegre (RS) · 29/6/2010 19:08
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Portal Literal, e adicione seus comentários em seguida.



visite nossa seção de perguntas mais freqüentes



Termos de uso | Expediente | Privacidade | Alerta
Salvo indicação em contrário, todo o conteúdo (c) 2009 Portal Literal e seus autores