Publicado originalmente em 14/08/2008.
Leia trecho de Heranças (Rocco), em que o premiado autor Silviano Santiago dá voz a Walter, homem rico que se depara com um problema enquanto faz os preparativos do próprio enterro: para quem deixar a fortuna?
Três vezes vencedor do Prêmio Jabuti, Silviano Santiago trata neste romance das memórias do alquebrado milionário e mulherengo Walter. As lembranças de como enriqueceu e de amores extintos conduzem a narrativa envolvente.
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Elegi a cidade, escolhi o cemitério. Decidi passar os últimos anos de vida no Rio de Janeiro e ser enterrado no S. João Batista.
Há pouco mais de ano me transferi do bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, para o de Ipanema. Moro no apartamento que comprei à beira-mar. O edifício escolhido é, ao estilo de Oscar Niemeyer, sem sacadas. São desnecessárias na velhice. Há que se proteger o corpo das clemências e inclemências do tempo e os ouvidos do ruído mecânico do trânsito na avenida Vieira Souto. Resguardo-me por detrás de espessas vidraças esverdeadas e de aparelhos de ar-condicionado. Não foi para velhos e enfermos que o homem inventou vidro e refrigeração? Se um de nós tivesse descoberto o elixir da juventude, gozaríamos a vida ao ar livre e na praia. No ambiente de silêncio sepulcral e no conforto da temperatura amena e estável, subdivido-me entre o quarto de dormir e a sala de jantar, entre o amplo salão de visitas e o escritório. Por sugestão minha, o decorador roubou praticamente metade da grande sala social para transformá-la em escritório. Neste, estão instalados dois moderníssimos computadores.
Aqui estou frente a um deles, a batucar palavras no teclado.
Já tomei as medidas legais cabíveis para que, exalado o último suspiro, meu corpo seja encaminhado ao campo santo. Não lego problemas a síndico, porteiro e vizinhos do prédio, tampouco aos bons samaritanos dessa quadra da avenida Vieira Souto. Na verdade, todos eles mal me conhecem de vista.
Não quero ter o corpo cremado. Não quero despedir-me do mundo em partículas minúsculas, depositadas em urna funerária. Não quero ser entornado lá do alto da pedra do Arpoador, a flutuar como folha seca à mercê do vento atlântico. Não quero ter carne, ossos e vísceras transformados em cinza e diluídos em água salgada. Reconheço as virtudes filosóficas e teologais do fogo. Educado pelas aulas de catecismo na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, amedrontam-me as chamas e os instrumentos de tortura flamejantes. Por mais abstrata que seja a imagem, a fogueira fustiga tanto a pele, quanto o metal candente. Tudo o que me apavora se fixa para sempre na memória.
Aborrece-me pensar que possa ter os restos mortais liquefeitos ao contato das águas atormentadas e espumosas do oceano Atlântico. Meus achaques atuais têm a ver com a circulação dificultosa dos líquidos pelas tubulações e órgãos do corpo envelhecido. Às vésperas do novo milênio, coração, rins, pâncreas e bexiga — de uma só vez — resolveram entrar em pane. Neste ano de 2007, aguarda-se a derrocada.
Para que escamotear o que desde sempre soube?
Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás?
— Lembro-me, sim, todas as manhãs.
Lenta e organicamente, voltarei de bom grado a ser o pó da terra que serviu ao oleiro divino para nos moldar a todos.
Que o cadáver sobreviva passageiramente num caixão a ser confinado ao buraco aberto no cemitério pelo coveiro, e a ser tapado por ele. A morte nunca perdoa. Persegue o corpo em vida e perseguirá eternamente o cadáver encarcerado. Lá de dentro, observarei como a madeira de lei, que, aliás, está custando os olhos da cara em virtude das leis de proteção ao meio ambiente, desacelera a decomposição da carne, das vísceras e dos ossos. E sentirei como o lento apodrecimento do corpo — sob o ímpeto e a voracidade dos vermes que espinicam as células — significa a futura comunhão da existência humana com a terra num lento processo de combustão fria. Enquanto jovem, comprei — e vendia a preço de custo — a idéia de que o corpo humano é unidade indivisível, irretocável e passível de aprimoramento. Morto, saberei como é fluida e regressiva sua configuração no espaço natural, onde sobrevive à espera da metamorfose definitiva em adubo.
Do pó vim e ao pó terei voltado. Não penso fazer amigos aqui na antiga capital do país, hoje um balneário decadente, sustentado pelo lucro fácil, audacioso e mortífero do tráfico de drogas entorpecentes. Dinheiro não me falta para atraí-los como a um enxame de abelhas. A amizade é sentimento nobre, privativo do marco ingênuo da infância. Olhos e sensibilidade de menino ultrapassam os limites geográficos determinados pelas mãos dos pais e pela porta do lar e, desamparados nas horas de estudo e de recreio, se abrem para negociações com semelhantes e estranhos. Nascidos no jardim-de-infância, ao acaso das inclinações afetivas experimentadas por coleguinhas da mesma classe social, os sentimentos e emoções, em que me adestrei, foram barganhados e alimentados pela gratuidade da simpatia mútua. Ainda que de modo não freqüente, arrufos temperamentais podem virar comensais no banquete do companheirismo.
Importa pouco se tiveram vida curta os sentimentos e emoções proporcionados pela amizade autêntica. Se eles, como rosas ao cair do dia, se despetalaram à entrada da adolescência. Ou se, unidos, tiveram vida longa, logrando forma definitiva com o correr dos anos. Em amizade, pouco importa o tempo de vida da afeição. Ela se fortalece nesse outro e definitivo alicerce da experiência infanto-juvenil que é a saudade.
A amizade é sempre pasto de velhas e novas carências. Quando os sentimentos familiares, amorosos e profissionais entram em dieta afetiva, o boi-memória se alimenta de capim-gordura no pasto das antigas camaradagens. Como aqueles sentimentos foram parcos na vida de homem solitário, notívago, mulherengo, globetrotter e milionário, os velhos amigos são mais do que o capim-gordura, que sacia a fome do boi-memória. Proporcionam a recuperação de energia vital pelos sete estômagos dos afetos, que ruminam as saudades dos tempos de menino e rapaz na cidade de Belo Horizonte, que crescia anarquicamente. São a força que me impeliu a imaginar — para nela querer acreditar — a inapelável existência da solidariedade no planeta Terra. Se quiser reconhecer a si para além do espelho fixado nos azulejos coloridos acima do lavabo, o ser humano não pode renegar os olhos dos coleguinhas de infância. Não são eles que lhe proporcionaram, e continuam a proporcionar a boa imagem de fora para dentro?
Se os renegar, acabará por pedir socorro à religião. Levantará os olhos do espelho em direção a um deus todo-poderoso, esculpido em barro ou madeira, em letra impressa ou idéias.
— Vade retro!
Desde que optei pela solidão acompanhada, invoco com freqüência essa deusa demasiadamente humana, a que chamo de Amizade. Aos pés de seu altar, onde impera o rosto esculpido em legítima hematita mineira, ajoelho e rezo nos momentos sorumbáticos do dia ou da noite. A Amizade é uma espécie de pólo catalisador da sensação concreta e extraterrena de fraternidade.
A voz de ventríloquo que lhe sai da garganta me incita ao bem, sem olhar a quem, e ao mal, olhos nos olhos. No palco da vida, o poder divino — ou o que quer que se entenda por isso — se serve dos cordéis que a Amizade controla e manipula para me fazer dançar e gingar como marionete feliz ou mofina, indiferente ou vingativa.
Não cheguei a verter a deusa da Amizade em molde de estátua. Não quis esculpi-la na pedra-sabão de Ouro Preto, até porque lhe reservo um lugar virtual, em nada passível de mutilação pelas pedradas e porretadas dos invejosos e iconoclastas de serviço. No altar em que a venero e a preservo da curiosidade alheia, passo-lhe demãos cotidianas de tinta fresca. Deixam cabelos, cútis, mãos, vestimenta e sapatos reluzentes, como o majestoso arco-íris que ontem rajou o céu de Ipanema.
Se conseguir não sentimentalizar o que vou dizer, acrescentarei que, durante a intrépida navegação da vida, a Amizade foi meu único porto seguro. Avalio a comparação e, de bom grado, a subscrevo. Empresto, ainda, iniciais maiúsculas aos dois vocábulos para que fiquem adequadas à expressão clássica de nossa nacionalidade — Porto Seguro. Fique assente que, desde minha origem, é naquele Porto Seguro que se ancora, nos momentos de borrasca, ventos fortes, trovões, relâmpagos e chuva torrencial, que é lá, no reduto fechado pelo recorte geográfico da experiência, lugar onde as ondas do oceano se encapelam, ensurdecendo todos os outros gritos da natureza e das aves em desalinho, que é ali, que se ancora o corpo com suas desavenças para se reabastecer com emoções de primeira necessidade. Meu arroz com feijão. Meu tutu com angu e couve. Meu feijão tropeiro. Minha leitoa pururuca. Minha paçoca de carne-seca. Meu frango com quiabo. Todos os pratos cozinhados com a mão de mestra de Mariazinha, desde sempre nossa cozinheira.
À única experiência de ancoragem, os trinados dissonantes do corpo, incrementados pela desarmonia terrestre, anulam-se como que por milagre e me adentro pelo túnel da vida — ou será pela caverna do útero? —, onde, se faltam as graças azuis e solares da vida, sobejam as lembranças subterrâneas da companhia de desconhecidos conhecidos em tempos idos e vividos.
A copeira bate à porta do escritório e interrompe bruscamente o diálogo que mantenho comigo na tela do computador. Ainda nos estranhamos todos. Os dedos e o teclado. As palavras e a tela. A copeira e eu. Nós e o apartamento. Ao ouvido mineiro, o ligeiro sotaque europeu denuncia a filiação sulista. Tem jeito de governanta alemã, aclimatada ao frio das serras de Santa Catarina, ou de sargento gaúcho, aquartelado no Rio de Janeiro. Como lidar com ela? Ainda não sei. Não consigo ser cortês, não quero ser áspero.
Ela vem saber se pode me servir o uísque do fim de tarde.
Respondo que hoje não. Estou ocupado. Muito ocupado.
Ela não se satisfaz com a resposta. Quer puxar conversa com o patrão. Pergunta se pode acender as luzes do escritório e, ao mesmo tempo, aconselha o indispensável descanso recomendado pelo médico do Hospital S. Vicente. Ela não disse descanso, disse relaxamento, deixando-se trair pelo cursinho de doméstica, feito em escola de enfermagem especializada no trato de idosos.
Pergunto se no bom ou no mau sentido da palavra relaxamento. Visivelmente, ela não entende a pergunta. Em resposta, opta por acender as luzes, pedir licença e fechar a porta atrás de si.
Receio as conseqüências da pergunta. A ironia com o subordinado nunca substitui o aperto de mão cordial. Não é boa para o relacionamento recente. Não convém deixá-la aturdida. Preciso dela. Não posso cair sozinho, sem dó nem misericórdia, no despenhadeiro de lixo humano que fui amontoando por décadas e mais décadas. Longe da colina de Lourdes, no chique Aterro Sanitário da Vieira Souto, ela me preserva da solidão absoluta. Precisa menos de mim que eu dela. Precisa da carteira de trabalho assinada e do salário quinzenal, pago religiosamente. Qualquer outro velho, em condição financeira semelhante à minha, pode assinar-lhe a carteira e, com pontualidade equivalente, pagar o mesmo ordenado. Levanto-me e caminho até a porta. Abro-a. Pelo nome, chamo-a de volta.
Digo-lhe que pode, pode, sim, trazer o uísque. Peço-lhe apenas que guarde silêncio. Estou concentrado, escrevendo. Ela entende e abre um sorriso meio vago, que eu, no entanto, julgo engraçado. Diante do patrão a dedilhar o teclado do computador, ela... — que caraminholas passam por sua cabeça? Não consigo imaginar.
Enquanto aguardo o uísque, levanto os olhos do teclado, passo-os por cima da tela do computador e os entrego de mão beijada à natureza lá fora.
O sol se põe envergonhado por detrás do leque de nuvens multicoloridas.
O pôr-do-sol em Ipanema é magnífico e inédito para o olhar que — emborcado nas profundezas da bacia em que foi enraizada a capital mineira — sempre se sentiu tolhido pelo horizonte desenhado pelas montanhas do Curral Del-Rei.
Hoje, o olhar alforriado sobrenada à altitude zero de cidade plantada à beira-mar.
Vejo a miríade de cores que, para saudar as últimas vibrações da luz, se confraternizam no horizonte marinho. Ali embaixo, mais para a esquerda, na praia do Arpoador, a molecada jovem e os surfistas puxam seu baseado e cheiram sua cocaína. As inocentes vítimas do novo milênio espoucam latinhas de refrigerante ou de cerveja. Esvaziado o conteúdo, a latinha é atirada na areia. Passa um mendigo de plantão e a cata. Quando ganha o calçadão, achata a todas com pisadas firmes da sandália havaiana. Elas se juntam a outras num saco de plástico. O depósito de reciclagem as comprará por minguados reais. Os jovens banhistas aplaudem o sol crepuscular, do mesmo modo como os fãs tocam bumbo e batem palmas no momento em que, no Cemitério de S. João Batista, o caixão de celebridade desce às profundezas dos sete palmos. Não demora e estaremos imitando as funerárias norte-americanas, especializadas no make up de cadáver, em especial o do desfigurado por acidente, arma de fogo ou doença maligna.
Estranha essa dupla mania que tomou conta do carioca. A alegria ao cair do dia. O júbilo pela morte do corpo que baixa à sepultura. Este não tem antecedentes na história da humanidade. À beira do túmulo, irmanados pelo que um dia foi ocasião para tristeza e luto, os cariocas se despedem aos risos do ente venerado. Ao som de violão, ou a capela, desafinados sempre, entoam velhos sucessos da música popular. Na pré-história brasileira predominou atitude oposta. Em sua oca, nosso tupinambá antropófago,
de quem certamente descendo, saudava a visita com lágrimas convulsivas. O bom canibal previa o desenlace trágico de qualquer confraternização.
Das lágrimas diante do visitante à alegria das palmas diante do morto, eis como decorreu a vida social no Brasil. Nós, os atuais brasílicos, somos cordiais. Não choramos ao receber as visitas, que logo serão mastigadas pelo dente da fome antropofágica. Tampouco choramos os defuntos que serão mordiscados pelos vermes. Alongados pelas areias do Arpoador, alegramo-nos como adolescentes desmiolados a sorver o pó branco que chega da Bolívia ou da Colômbia. Bem acondicionados em aviões-adolescentes de carcaça negra, os papelotes descem em vôo rasanteda favela do Pavãozinho e pousam na praça General Osório, e nas ruas e avenidas adjacentes.
O pôr-do-sol em Ipanema, culto da juventude. Minha desolação atual. Deveria ter arribado a essas plagas há cinqüenta anos. Teria discordado das idéias de Oscar Niemeyer sobre arquitetura residencial e comprado um belo apartamento com sacadas abertas ao sol, à lua, às estrelas e ao tempo inclemente.
Encarcerado no caixão, meu corpo morto não deve ser aplaudido por quem quer que seja. Ao baixar à cova, que o cadáver perca definitivamente o contato com os humanos. O matraquear das palmas pode espantar o bando buliçoso dos vermes que põem a cabecinha de fora para se alimentar com o inesperado jantar servido em madeira de lei. Do contrato assinado com a Funerária Botafogo consta uma cláusula especial. Ao ser arriado o caixão no S. João Batista, haverá uma única e solitária testemunha. Silenciosa também. O coveiro do cemitério. Sozinho, ele se encarregará dos atos necessários e definitivos, e os executará com competência. Do contrato consta uma segunda cláusula especial. Ao pé do túmulo, dispensa-se a presença do papa-defunto, esse que me atende agora em casa. Fiz consignar um adendo epistolar ao pacote. A agência funerária não deverá exagerar no valor da propina ao coveiro. Eu o quero nem triste nem alegre. De preferência, cabisbaixo e, em virtude do baixo valor da gorjeta, à beira do impropério.
A copeira volta silenciosamente ao escritório. Na bandeja, traz a garrafa de Black Label, balde de gelo e copo curto de cristal. Sem me perturbar, enche o copo de cubos de gelo e me serve uma dose generosa. Agradeço. Está aprendendo, penso com meus botões, enquanto releio o que está escrito na tela do computador.
Beberico o uísque e reganho galeio.
De há muito a terra ignota da Amizade é apenas habitada pelos fantasmas do passado. Já mortos, guardam estatuto de zumbis. Para que investigar a aparência física atual dos velhos amigos? Independentemente da estação do ano e da vida, a amizade é masculina para o homem e expatria para o concubinato qualquer fêmea que queira adentrar-se pelo recinto. A amizade é terreal e é divinal. Reviver o diálogo que houve entre amigos, e continuou a existir nos arredores, ou na saudade, é dar-se conta
de que, aos olhos curiosos do velho doente, o passado remoto se apresenta como texto escrito em hieróglifos.
Se por acaso tiver sucesso na derradeira empreitada da vida, vou-me apelidar de Jean-François Champollion, como outros se apelidam de romancista, contista ou poeta. Sobre os três, o Champollion
mineiro terá uma vantagem. Sou obsessivo, por isso venho calma e silenciosamente destrinchando minha vida sentimental. Lembranças e mais lembranças já se empilham em minha cabeça e são semelhantes às mil e uma observações feitas pelo egiptólogo a fim de chegar à leitura do decreto de Ptolomeu V, inscrito na pedra de Roseta. Se já não me qualificassem de cabotino, acrescentaria: De tal modo tenho sido perspicaz nas análises, que se tranqüilizem quanto aos bons resultados na transferência da aventura humana para frases.
Só me interessam possível leitor destas páginas os atos de vida que não cheguei a compreender e os acontecimentos que permanecem como incógnita. Debato-me noite e dia com aquela letrinha x, que é fundamento e razão de ser das equações matemáticas. Pela correspondência entre os dados decifrados de episódio vivido e as criptografias dum outro, e pelo jogo entre o incompreensível e o já solucionado e assimilado pela consciência, é que irei destrinchar minha experiência de vida para melhor comunicá-la a você, que porventura venha a se interessar por ela.
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