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Fotografia (s)em negativo IV
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 7/8/2008 · 37 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Pedro Vasquez* em 31/03/2006.

No quarto capítulo da série exclusiva para o Portal Literal, o pesquisador Pedro Vasquez analisa os impasses e maravilhas provocados pela transição das máquinas fotográficas para o universo digital.

Há quem pense que é muito fácil fazer qualquer tipo de imagem técnica, bastando para tanto dispor de "uma máquina boa". Tanto que qualquer fotógrafo já ouviu dezenas de vezes ao longo de sua vida a indefectível pergunta: "qual é a sua câmara". Indagação equivocada e capciosa, pois traz em seu bojo a convicção de que são as boas câmaras as responsáveis pelas boas fotos. Mas câmaras são produtos da mente humana e precisam da mente humana para operar, são meros instrumentos e não seres pensantes e semoventes. Para operá-las, o fotógrafo é obrigado a realizar uma série de escolhas que influem diretamente no resultado final. São tantas as opções a fazer e tantas as possibilidades que, literalmente, dez fotógrafos podem estar atuando lado a lado, visando o mesmo tema com câmaras idênticas, e, ainda assim, produzindo imagens bastante diferentes entre si, tal a gama de filmes (negativos, positivos, em cor ou PB, infravermelho, etc.) disponíveis, com sensibilidades que podem ser alteradas, com diferentes possibilidades de uso do flash, e com dezenas de combinações possíveis da conjugação velocidade/diafragama. Isto, sem falar na possibilidade de troca de objetivas e no uso de filtros que, entre os de correção e os de efeito, se contam às dezenas. Além disto, depois de realizada a fotografia, o laboratório oferece ainda dezenas de outras possibilidades criativas. Portanto, somente um leigo completo pode pensar que fotografar é tão simples, mecânico e natural quanto apertar um botão.

A fotografia digital não oferece a mesma variedade de opções que a fotografia de película no momento de captação da imagem. É pequena a diferença existente entre os cartões de memória e, de modo geral, o fotógrafo tende a usar sempre o mesmo tipo de cartão (aquele indicado pelo fabricante da câmara). Apesar de apresentarem boa resolução, e, sobretudo, uma invejável flexibilidade em termos de sensibilidade, os cartões de memória produzem um resultado mais padronizado e previsível do que os antigos filmes. Mas esta característica é compensada pela enorme gama de possibilidades de manipulações oferecidas pelo pós-processamento no universo do digital. Característica que, inclusive, está redundando numa mudança comportamental na nova geração de fotógrafos, que tende a tratar suas próprias imagens quando a anterior ficava mais dependente da intervenção/colaboração dos laboratoristas. Neste sentido é interessante lembrar que, para ficarmos apenas no universo da imprensa, os fotógrafos do tempo do preto e branco — período que se desdobrou por mais de um século — sempre tinham uma boa experiência de laboratório, mesmo porque para alguns o laboratório havia sido a via de acesso à Editoria de Fotografia.

Depois, houve um período de transição, em que as revistas passaram a empregar os filmes coloridos diapositivos, e, muito embora a maioria dos fotógrafos não dominasse o processamento e ampliação de filmes coloridos, ainda pertenciam à geração que dominava o laboratório PB. Recentemente, quando os jornais passaram a empregar filmes negativos coloridos, surgiu uma geração mais nova que não teve qualquer passagem pelo laboratório, fosse este PB ou cor, ficando, portanto, inteiramente à mercê dos laboratoristas. O mesmo acontecia com os chamados amadores sérios e até com muitos profissionais, já que o custo de instalação e manutenção de um laboratório cor desencorajava a maioria.

Com a introdução das tecnologias do digital, os antigos laboratoristas dos jornais foram se transformando em técnicos especializados no tratamento de imagens, coisa para a qual tinham facilidade em virtude da mestria na correção de cores apurada no laboratório. Por outro lado, o fotógrafo que antes tinha pouco ou nenhum controle sobre o processamento das suas imagens, passou a agir como um "laboratorista de computador", ao fazer pequenos, ou grandes ajustes, no momento de descarregar seus cartões no computador. Tem assim maior controle sobre sua produção, evitando as surpresas desagradáveis de cortes mal-feitos ou de distorções cromáticas devidas à pressa no processamento em laboratório. De certa forma, um círculo foi fechado assim, para a alegria daqueles que acreditam que o "verdadeiro" fotógrafo é aquele que tem controle total sobre todas as etapas de produção de suas imagens.

[FOTO]

Com mestrado em Artes Visuais, Bianka Tomie Ortega é uma destaca representante da nova geração que utiliza a fotografia como meio de expressão, empregando alternadamente o suporte em película e a imagem digital. Aqui ela optou pelo filme em PB para focalizar o Cemitério da Consolação (acima), na capital paulista, e o digital/cor para o detalhe da corda de pular com as joaninhas no cabo (logo abaixo).


É um modo de pensar, válido sem dúvida, quando se pensa que a fotografia tem o caráter duplo de último processo artesanal de produção de imagens e de primeiro processo industrial de produção de imagens. Porém, mesmo sem enveredar por esta senda tão purista, é preciso reconhecer — sobretudo no Brasil, onde os serviços de laboratório sempre foram sofríveis – que é bem melhor ter o controle total sobre o processamento das próprias imagens sem ter que lidar com o ambiente insalubre do laboratório. Forçoso é reconhecer que toda e qualquer pessoa que tenha visto pela primeira vez a imagem de formando sobre o papel fotográfico na banheira do revelador, viveu um instante de epifania, de genuíno e inesquecível deslumbramento, como se estivesse presenciando um toque de mágica. O problema é que esta mágica é realizada com produtos caros, tóxicos e poluentes, e passar seis ou oito horas por dia no ambiente escuro e mal-cheiroso do laboratório, como o faziam os laboratoristas profissionais, logo se transforma em insalubre servidão. Além disto, o processamento de determinados filmes, em particular do Kodachrome, era tão poluente que só podia ser realizado em umas poucas unidades industriais estrategicamente espalhadas pelo mundo, de tal forma que em pouco tempo a própria Kodak preferiu não comercializá-lo mais em muitos países — entre os quais o Brasil — apesar deste filme ser unanimemente considerado como insuperável. Ernest Haas, por exemplo, celebrado como o grande mestre da fotografia colorida da agência Magnum, desenvolveu toda sua carreira com este filme.

Além de ser uma tecnologia mais limpa do que a da fotografia tradicional de película, a digital, é de mais fácil domínio, por não exigir muito dos seus praticantes do ponto de vista artesanal. Os grandes laboratoristas são artesãos de talento indiscutível e inimitável, muitos dos quais dotados de um talento para o retoque encontrado apenas entre os restauradores de quadros. Alguns são tão conhecidos, a ponto de os próprios fotógrafos se preocuparem em assinalar a colaboração destes. Na França, a menção "tirage Fresson", pode ser encontrada em muitos catálogos de leiloeiros, como um elemento a mais de valorização das ampliações coloridas realizadas com seu processo exclusivo pelo Atelier Fresson, de Michel Fresson, a partir de um método de quadricromia ao carvão desenvolvido em 1952 por seu pai, Pierre Fresson, tomando por base o processo desenvolvido por seu próprio pai, Théodore-Henri Fresson em 1899.

É de se prever inclusive que, à medida em que a fotografia de película for desaparecendo, ocorrerá uma valorização cada vez maior deste tipo de artesão, a exemplo do que existe hoje no campo da gravura. Mas é de se prever também que em breve a fotografia tradicional ficará restrita ao nicho das artes plásticas e de uns raros campos da indústria e da ciência, à medida em que a imagem digital for conquistando um espaço cada vez maior nos setores em que a fotografia de película hoje é soberana. Isso é tão inevitável quanto natural, não havendo muito motivo para choro nem desespero. É claro que existirão sempre aqueles que, como Gustave Le Gray ao assistir à invasão da popularesca carte-de-visite, preferirão abandonar a profissão do que enveredar por um campo que consideram reles e pouco digno.

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A grande verdade é que a tecnologia só elimina o que é inconveniente e realmente dispensado, renovando o que tem valor perene. Prova disto é que hoje somente um indivíduo de espírito extravagante ousaria fazer uma apologia do penico em detrimento do vaso sanitário, ou defender a supremacia da barulhenta e pouco versátil máquina de escrever em detrimento do computador. Nada impede, no entanto, a opção consciente por um sistema que possa ser considerado ultrapassado quando este espelhe uma verdade íntima do criador. Neste sentido é interessante notar que assim como Eugène Atget, Cartier-Bresson e Josef Sudek mantiveram-se fiéis às suas respectivas câmaras antiquadas, um escritor moderno e antenado como Paul Auster prefere escrever à mão, com caneta Parker 51, que ele troca a cada dois anos depois de esbeiçar completamente a pena. Procedimento similar ao de Nélida Piñon, que transforma a escrita num ritual comparável ao encontro com a pessoa amada, banhando-se, perfumando-se e servindo-se de uma taça de bom vinho antes de munir-se de papel de boa qualidade e de caneta tinteiro para escrever seus livros.

No campo da fotografia ocorre o mesmo. Existem entre os alunos e freqüentadores da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, dezenas de adeptos de processos oitocentistas como a cianotipia e o bromóleo, bem como do pinhole, a fotografia buraco de agulha, feita com câmaras artesanais improvisadas em latinhas de chá ou de biscoitos. Ao passo que a Daguerreian Society, dos EUA, congrega usuários contemporâneos da daguerreotipia, o primeiro processo fotográfico e ter utilização comercial, em 1839. Aqui no Brasil, o fotógrafo paraibano radicado no Rio de Janeiro Antonio Augusto Fontes, capitaneia um abaixo-assinado solicitando à Unesco o tombamento do filme fotográfico preto e branco como patrimônio cultural da humanidade.

Um exemplo de que o novo costuma provocar a ressurgência e a renovação de tudo aquilo que é válido, foi dado pelo caderno Ela do jornal O Globo, no dia 3 do mês de dezembro de 2005, com a matéria de capa: "Espelho meu. Eternizar a imagem num quadro volta à moda", focalizando esta tendência que a jornalista Suzete Ache qualificou de "o novo retrô, em plena era da fotografia digital via celular". O toque irônico ficou por conta da jovem apresentada em destaque junto ao seu quadro em estilo "Mona Lisa da Gávea", pintado por Susan Malpas: Laura Pagano, filha do conhecido fotógrafo Sérgio Pagano, comprovando que, ao contrário do que pensam os tolos, os fotógrafos não são inimigos e sim cúmplices dos pintores. Valendo não esquecer, por exemplo, que a primeira exposição dos Impressionistas, escorraçados do Salon oficial, foi realizada no estúdio do fotógrafo Nadar no Boulevard des Capucines, em 1874.


* Com mais de 20 anos dedicados à pesquisa fotográfica, Pedro Vasquez é autor de obras fundamentais como D. Pedro II e a fotografia no Brasil.


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tags: Rio de Janeiro RJ artes-visuais fotografia fotografia-digital maquina-fotografica negativo fim-do-filme


 
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