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Entrevista: Muniz Sodré, Diretor da Biblioteca Nacional
 
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Ana Paula Fanon, Salvador (BA) · 19/8/2010 · 98 votos · 10
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Ao ter contato com textos e alguns livros do professor Muniz Sodré, comecei a questionar como Platão cumprimentava Sócrates, e como Aristóteles cumprimentava Platão na antiga Grécia com o surgimento da filosofia. Não faço a mínima ideia, porém se Sócrates, Platão ou Aristóteles quisessem saber como eu cumprimentaria o Professor Muniz Sodré , eu os responderia: primeiro com uma saudação em Yorubá Agô, Mojubá, que significa licença, meus respeitos e depois o daria a benção de um jeito keto, nagô, banto, angola, enfim, gêge de ser.
Todo discípulo procura aprender com o seu mestre valores que intensifiquem a sua forma de atuar e ver o mundo de modo que possa refletir sobre as ciências, as artes, a literatura, e pensar no presente, mas dialogando com e sobre o futuro.
O professor Muniz Sodré é um intelectual engajado com as questões do seu tempo. Soteropolitano, jornalista e sociólogo, professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com vários livros publicados na área da comunicação, da cultura e da literatura, além disso exerce a função de diretor-presidente da Fundação Biblioteca Nacional .
Nessa entrevista concedida para o Portal Literal, o professor Muniz Sodré fala sobre a sua gestão à frente da FBN,a política da leitura no Brasil, sua candidatura para Academia Brasileira de Letras (ABL) e o papel do negro na literatura brasileira .




Ana Paula Fanon:O senhor poderia falar um pouco da sua gestão como diretor da Biblioteca Nacional ?


Muniz Sodré: A minha gestão tem se pautado pela preservação e pela ampliação do escopo social da Biblioteca Nacional. Veja só: ao longo dos dois últimos séculos, a Biblioteca Nacional –– de fato, a oitava do mundo em acervo –– tem servido à formação de elites culturais, e não apenas àquelas oriundas das classes dirigentes. Antes da popularização de editoras e da maior democratização dos meios de acesso ao patrimônio das letras, membros dos estratos economicamente menos favorecidos do país, encontraram na BN os livros e os materiais que lhes seriam formativamente essenciais.
Hoje, a Fundação Biblioteca Nacional, vinculada ao Ministério da Cultura, dá continuidade ao que sempre se afigurou como seu destino: preservação da memória e criação de uma ecologia cognitiva em escala nacional por meio da implantação de bibliotecas públicas em municípios carentes. No final do ano de 2010, O Ministério da Cultura, por meio da Biblioteca Nacional, terá implantado 1.074 novas bibliotecas municipais no país, num esforço que visa a zerar o déficit. E agora, com os aparatos tecnológicos do tempo, que permitem a virtualização e, claro, a democratização progressiva de seu acervo.
Não podemos ignorar que herdamos um pesado déficit cultural. Coube e cabe, portanto, ao Ministério da Cultura a tarefa de operar políticas públicas enraizadas e promissoras. Agora, a realidade brasileira em termos de acesso público a livros pode ser descrita pelo montante de cinco mil bibliotecas públicas e dez mil comunitárias. Entretanto, estão defasadas em sua maioria e com escassa capacidade de atração de leitores, sobretudo quando se localizam nas periferias urbanas e no interior dos estados. A reversão do quadro desfavorável vem sendo rigorosamente priorizada. O que exige a inclusão da cultura como trabalho social avançado.
Nesse horizonte é que vem se erguendo a nova política social do governo federal e do MinC, que engloba entre os seus diferentes desafios socioculturais  para citar apenas o que diz respeito às finalidades da Fundação Biblioteca Nacional  o de potencializar as ações de inclusão cultural; o de reincorporar a cultura como vetor de qualificação da educação; o de desenvolver a prática da leitura como fator determinante para o acesso à cidadania; o acesso à produção cultural; a potencialização da cultura digital.

APF:E a política da leitura no Brasil, avançamos ou ainda é um sonho a democratização do acesso aos livros e à leitura ?


MS: Creio não ser exagerado afirmar que a América Latina esteja agora começando a abrir os olhos para o fato de que a inserção dos indivíduos no estatuto da cidadania plena começa, ao lado da questão do trabalho, com a questão do aprendizado e exercício da interação social por meio da potenciação do que a leitura e a escrita guardam de expressão criativa dos sujeitos sociais. Mas hoje colocar leitura e escrita num horizonte que seja de fato culturalmente mais interativo implica uma maior largueza política. Política –– não no sentido partidário-eleitoral que vicia esta palavra, mas no sentido de distribuição efetiva dos cidadãos na variedade dos espaços públicos, portanto, política voltada para a cidadania como acesso aos bens sociais. Política que se destina a proporcionar, tanto a adultos como jovens, novos espaços de aquisição de conhecimento e de interação com a diversidade cultural.
Além da dimensão puramente técnica, há quem pense na leitura como o meio de se promover a interação das diversas culturas que hoje habitamos com aquelas que a escola exclui e que a hegemonia letrada despreza econdena: as culturas orais e as sonoras, especialmente as musicais, as audiovisuais e as digitais, e isso tanto em sua projeção escolar como trabalhador tanto em seu desfrute lúdico como na ação cidadã e na participação política.


APF: Quando surgiu o interesse em se candidatar para a Academia Brasileira de Letras (ABL) para ocupante da vaga da cadeira de nº29 ?



MS: Com o falecimento de José Mindlin, conhecido por seu grande amor aos livros e por sua preciosa biblioteca, achei que sua vaga na Academia Brasileira de Letras poderia ser preenchida por alguém que, nos últimos cinco anos, tem ajudado a alavancar institucionalmente a Fundação Biblioteca Nacional. Também achei que meus 34 livros nos campos da comunicação, cultura nacional e ficção constituiram uma boa plataforma.Além disso, tenhos bons amigos na ABL, que é um lugar de convívio e de memória

APF:O senhor escreveu em 1985 o livro A Literatura de Mercado. Após vinte e cinco anos, que análise o senhor faz da literatura atual ?
MS: Escrevi um livrinho de iniciação denominado “Best-Seller: a literatura de mercado”. Continuo interessado no fenômeno da literatura de grande consumo, tanto que, em livro recente (A Narração do Fato, Ed. Vozes), dedico um capítulo à narrativa policial, que aprecio e que faz parte dessa literatura, nem sempre bem compreendida pelos cultores do cânone literário.

APF:O senhor poderia falar um pouco do projeto Periódicos Literários: publicações efêmeras, memória permanente, realizado pela Biblioteca Nacional ?

MS: Este projeto está em andamento. Trata-se de recuperar publicações que, há mais de um século, se encontram “enterradas” em arquivos, sem a devida análise. Desse trabalho deriva um esforço conceitual no que diz respeito a gêneros editoriais (jornal, revista etc.), que poderá vir a ser de grande valia para os historiadores do impresso e para os pesquisadores da literatura brasileira.

APF:E o negro na literatura Brasileira. Que análise o senhor faz da atuação e representação do negro no universo da escrita ?


MS: Sobre o negro na literatura brasileira, aconselho você a tomar contato com o prof. Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais, que elaborou um excelente trabalho sobre a produção literária de autores brasileiros afro-descendentes. Ele deixa bem claro que, desde o período colonial, essa produção autoral abrange todos os campos da atividade artística, com escasso reconhecimento. Um exemplo: em nenhum manual de História da Literatura Brasileira consta o nome de Maria Firmina dos Reis, a primeira negra a publicar um romance no Brasil: Úrsula (1859). O interesse do trabalho de Assis Duarte está, além do levantamento com resultados surpreendentes, no fato de que não se trata simplesmente de averiguar a côr da pele do escritor, mas de buscar marcas discursivas da cultura afro-brasileira

APF:Cruz e Sousa, Lima Barreto, Luiz Gama, José do Patrocínio são grandes escritores da literatura Brasileira, porém não aceitos pela Academia Brasileira de Letras. Em sua opinião o critério da cor prevalece diante da competência no campo das letras ?

MS: Vejá só, dos autores que você menciona, um, José do Patrocínio, foi membro da Academia Brasileira de Letras, aliás fundador da cadeira 21. Lima Barreto foi candidato derrotado: teve apenas dois votos. Luiz Gama morreu em 1882, e a ABL foi fundada em 1897. Cruz e Sousa não pertenceu à Academia, mas, ao que eu saiba, é lido e lembrado É preciso não esquecer que fundador da ABL, Machado de Assis, era negro. Além dele, houve o bisco Dom Silvério, também negro, grande conhecedor das línguas clássicas e vivas, famoso por suas cartas pastorais. O filólogo Domício Proença, que hoje integra os quadros da ABL, deve ser aí incluido.

APF: Quando o senhor proferiu o discurso na entrega do prêmio Luiz Beltrão(2001) que ganhou por maturidade acadêmica,o senhor fez a seguinte citação: “Pensar”, diz Nietzsche, “é meter o corpo” Como se dá esta relação nietzschiana com a literatura ?


MS: Pensar é de fato “meter o corpo”. Entendo esta afirmativa como uma recusa à compreensão platônica do Ser, limitadas às idéias que se situam acima das transformações históricas: as famosas “idéias eternas” de Platão. Meter o corpo significa “narrar” (literatura?) a formação do mundo (Weltbildung) a partir do “jogo” da vida, ancorado nas vicissitudes da História, sem separar corpo de espírito.

APF: Para Platão a poesia não é ética, filosófica ou pragmática pois ele acreditava que a criação artística não imitava a natureza verdadeira ( o universo das idéias). O senhor concorda ?

MS: Discordo. A poesia pode ser ética e filosófica. Pragmática... certamente, não. Mas, veja só, Platão, ele próprio, era um poeta em seus diálogos e mitos. Ele não queria realmente expulsar os poetas da República. Referia-se apenas aos maus poetas, geralmente rapsodos.


APF:E o intelectual Muniz Sodré? Como senhor definiria este intelectual ?


MS: Zé Limeira, o grande repentista dos sertões da Paraíba, definia-se assim: “Sou um negro moderno/ foi não foi, estou pensando”... Faço minhas as palavras de Limeira. Como ele, “peço licença aos prugilos/ dos quelés da juvenia/ dos tolfus, dos aldiacos/ dos baixos da silencia/ do Ginuíno da Bíbria/ do grau da grodofobia”...





tags: Salvador BA entrevista literaturaacademialetrasfilosofialivrosgestao negro


 
Votando pela qualidade da entrevista.

Paola Rhoden · Brasília (DF) · 18/8/2010 22:38
Paula,obrigado por mais esta excelente entrevista com um dos mais importantes homens da cultura,da intelectualidade brasileira.Com um vastíssimo saber,o Professor Muniz Sodré,mais um baino de cepa,demonstra a sua versatilidade cultural passeando sobre todos os assuntos abordados pela grande reporter Ana Paula Fannon.Tive a felicidade de conhecer o Proessor Muniz Sodré,que é primo de um cunhado meu,na década de oitenta,aqui em Feira de Sanatan e gostei da simplicidade do homem.Parabéns,grande Ana Paula.

Cezar Ubaldo · Feira de Santana (BA) · 19/8/2010 09:17
Votadíssimo.

Cezar Ubaldo · Feira de Santana (BA) · 19/8/2010 09:18
VOTADO . abraços Alice

Alice Luconi Nassif- Horas ou Momentos · Rio de Janeiro (RJ) · 19/8/2010 20:18
Excelente entrevista Ana Paula. Alice

Alice Luconi Nassif- Horas ou Momentos · Rio de Janeiro (RJ) · 19/8/2010 20:20
Ana Paula Fanon: conforme, coloquei à você no e-mail, não tive a oportunidade de conhecer o Professor Muniz Sodré na UFRJ. Pois, o campo academico é vasto de excelentes profissionais nas diversas áreas, principalmente, nas que trata da retórica das comunicações. Porém, o conhecimento que tenho dele é que contextualiza a questão do poder com outros aspectos, além do campo de análise do própriop código, que ele pensa em relação do "poder" com a forma excluida na cultura de massa. Ele vale-se do instrumento metodológico do estruturalismo e procura esgotar esse conceito de cultura em função da estrutura de seu próprio código linguístico. Interpreto e PARABENIZO sua atuação de entrevistadora, como um excelente resultado de "perguntas" e "respostas" que a sua pauta jornalistica, nos ofereceu, onde sabemos que numa comunidade, quem domina e organiza as pessoas para desenvolver projetos finalísticos, na cultura de massa são os intelectuais de vários saberes, conforme li na sua entrevista ao professor. Outra coisa que percebo nas suas entrevistas é o levantamento que você faz sobre a literatura negra. E, peço sua licença, para acrescentar o que eu acho: quando falamos dessa literatura negra estamos, também falando sobre a condição social afro-descendente dentro da sociedade brasileira. Não podemos esquecer de como se traçava um paralelo entre a forma como o negro era mostrado na literatura brasileira, desde suas primórdios e a maneira como essa figuração foi se transformando , na medida em que os movimentos pela igualdade étnica e social foram se fortalecendo, e o afro-descendente pode assumir a narração de sua própria história e, no "meu" entender sem preconceitos. Temos um acervo cultural de grandes nomes da literatura afro-descendente, que não podemos ignorar como: Machado de Assis, Lima Barreto, Solano Trindade, Luís Gama, Domingos Caldas Barbosa, Maria Firmina dos Reis e tantos outros que deixaram sua construção literária com a imagem do negro na literatura brasileira. A literatura negra é um dos elementos mais importantes para a conquista definitiva do respeito de uma sociedade. Porém, caso você tenha lido alguns dos meus textos educacionais, vai notar que luto e defendo uma educação de baixa renda, onde , infelizmente, o preconceito e a desigualdade socioeconomicacultural se faz presente. O preconceito de forma geral, ainda é a expressão de uma das várias facetas da cultura brasileira, e que para tanto, devemos colocar no papel e divulgar nosso trabalho que deve ser lido, compreendido e respeitado por toda uma comunidade. Você no seu Jornalismo e eu na Educação. Um Forte Abraço. Solange. VOTADISSIMO!!!

Solange Gomes da Fonseca · Curitiba (PR) · 20/8/2010 03:41
Ana Paula, Uma Excelente Entrevista! Um Beijo, Jorge X

Jorge Xerxes · São Carlos (SP) · 20/8/2010 14:58
Excelente entrevista.A citação de Zé Limeira, a meu ver , veio mesmo á calhar.Votado.Abs.André

andre albuquerque · Recife (PE) · 20/8/2010 16:22
Apreciei muito esta entrevista com o Mestre Muniz Sodré. Parabéns a autora pela iniciativa.

Zacarias Martins · Gurupi (TO) · 20/8/2010 16:41
V O T A D O !

Helton Cenci · Porto Alegre (RS) · 22/8/2010 12:01
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