Ana Paula Fanon :Quando você começou a se interessar pelas obras de Cruz e Sousa?
Uelinton Alves: O primeiro contato foi quando criança; depois no ensino médio, consagrado no curso superior. Uma particularidade é que Cruz e Sousa é um poeta estigmatizado pela crítica e pelos estudiosos. Duas razões me levam a pensar assim. Sua origem escrava e o seu estado de nascimento. Se ele nascesse no Rio de Janeiro ou na Bahia certamente ele não seria tão percebido quanto ao nascer em Santa Catarina. O fato de ser negro, filhos de escravos, incomoda o poder branco que gostaria de ter como exemplo de intelectual um carantonha branca.
APF :São 110 anos da morte de Cruz e Sousa. Você poderia fazer uma breve síntese da contribuição do poeta negro na literatura brasileira ?
UA: Cruz e Sousa cumpre um papel fundamental para a literatura brasileira. Tenho dito que ele descende diretamente de cidadãos escravizados, ou seja é negro sem mescla do sangue europeu. Na literatura criar um modo de expressão literária única no Brasil, denominada simbolista, considerada uma escola entre nós. Isto o coloca na linha de frente do movimento literário, dando-o a primazia como um dos mais importantes poetas da literatura brasileira de todos os tempos. Isto é muito importante para a nossa história como negros e negras.
APF :Para você qual é a obra de Cruz e Sousa que deixa mais evidente a sua luta abolicionista ?
UA: Cruz e Sousa tem uma produção abolicionista concentrada no período em que militou no movimento abolicionista. São poemas e textos em prosa de grande profundidade pelo seu conteúdo crítico e conceitual. Que eu me lembre, de relance, posso destacar sonetos como "Na senzala...", "Vinte e cinco de março", poemas como "Crianças negras", etc.; em prosa, sobretudo "Consciência tranqüila" e "O padre". Na fase pós abolicionista, são muitos textos, sobretudo poemas e sonetos, que ferem a questão social, com foto na situação de opressão do negro, como "Abrindo féretros...", "Emparedado", e muitos poemas e sonetos de "Broqueis", "Faróis" e "Últimos sonetos".
APF:Em seu livro "Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil" (Pallas, 2008) você utiliza de muitos sonetos do poeta. Existem sonetos de sua preferência ?
UA: Olha, eu não diria que exista um sonetos de minha preferência. A fase madura de Cruz e Sousa é a mais brilhante da literatura brasileira, especialmente do final do século 19. Para mim os "Últimos sonetos" são incontestavelmente os mais importantes. Mas existem peças fundamentais também em "Faróis" e nos "Broqueis".
APF:Tem um capitulo do seu livro que me chama a atenção: o acontecimento da academia para você a respeito da rejeição de escritores e escritoras negros e negras na Academia Brasileira de Letras é fruto da mentalidade deformada da elite brasileira ?
UA :Diria duas coisas que acho essenciais: acho que devido, em primeiro lugar, a mentalidade deformada da elite do final do século, mas havia também uma disputa de território, no campo literário, fica esclarecido desta forma. No caso do Poeta Negro, um exilado no coração de uma cidade movimentadíssima como a do Rio de Janeiro, o processo de exclusão tinha a ver mais por uma questão de posicionamento no grupo, do qual ele não fazia parte, do que de valores culturais e literários. Tanto que na nascente Academia, existiram duas coisas: escritores que foram convidados e não aceitaram, caso do historiador Capistrano de Abreu, e de escritores fundadores que não tinham sequer livro publicado, como é o caso de Graça Aranha.
APF:Este livro lhe consagrou como finalista do prêmio Jabuti de Literatura. O que significa para você o reconhecimento da sua produção escrita ?
UA: A indicação ao Jabuti 2009 foi uma surpresa grande para mim, não esperava, até porque foram mais de duas mil obras no páreo. Nessa perspectiva, fica entre os dez finalistas na categoria Biografia, é algo muito especial. De certo modo, isto demonstra que devemos seguir em frente.
APF:Você pretende escrever mais livros sobre Cruz e Sousa ?
UA:Há ainda algumas coisas a se tratar sobre Cruz e Sousa. Como exemplo, posso lhe dizer: a reunião de textos em prosa e versos dispersos (parte dos quais citei no meu livro) e a reunião de sua correspondência, ativa e passiva.
APF:Como os críticos literários têm reagido as suas produções relevantes sobre as obras e vida de Cruz e Sousa ?
UA: Penso que a reação dos críticos, até agora, tem estado dentro da normalidade: uns elogiam, outros dizem o que gostam ou não gostam nela. É normal, faz parte do processo.
APF:Para você esta crescendo o número de escritores (as) negros (as) no Brasil ?
UA:Sim, sem dúvida. A Internet, segundo uma pesquisa internacional, está democratizando o ato de escrever, estimulando e educando a escrito. Concordo plenamente. Quanto aos escritores e escritoras negras, não tenho a menor dúvida que hoje a nossa representatividade é bem maior.
APF:Você é especialista em literatura do século 19. Em sua opinião existe uma influência desta produção escrita na produção literária atual ?
UA: Perfeitamente. A experiência da produção literária do passado aperfeiçoou a que fazemos agora. É a evolução das escolas. Ao lado da evolução das escolas, a tecnologia favoreceu em muito esse avenço das formas de escrever.
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