No intervalo de uma semana eu tive o prazer de assistir a dois lançamentos de livro com duas escritoras maravilhosas, Nélida Piñon e Patrícia Melo. A primeira eu havia visto no jornal e me programado para tal ocasião. Foi um encanto presenciar tal apresentação. No dia seguinte fui a biblioteca ler um ou outro conto da Nélida.
Aconteceu diferente com a Patrícia Melo, no caso. Eu estou curioso com seu novo livro,
O ladrão de cadáveres, e resolvi procurar por ela no youtube. Antes havia um ou outro video-entrevista, agora já tem uma porção. Que beleza! Assisti a uma delas na terça à noite. E nisso fiquei pensando, bem que ela poderia vir aqui em Belo Horizonte...
Na quarta-feira eu passei na biblioteca pública para procurar um livro para estudo, e chegando lá eu vi um cartaz: “Sempre um papo com Patrícia Melo”. Curioso que sou fui lá ver a data e a hora: 25/8, 19h30. Bem no horário do meu compromisso. Bem no horário que eu vejo e admiro minha musa. E agora, o que fazer?
Deixei meu compromisso para mais tarde, sabendo que mesmo assim eu veria a beleza daquela que já me inspirou a outras crônicas, e não querendo perder a beleza da escritora. (Eu perdi de ver a Patrícia aqui na Bienal do Livro por algum motivo, e não gostaria de perder novamente.)
Pois bem, já dentro do teatro e acomodado, só ouvindo. No início da conversa com o apresentador ela tocou no assunto de sua mãe, segurou o choro e a emoção e voltou a falar sobre o livro, as pesquisas, a criação, a motivação de criar. E nesse ponto achei muito interessante ela falar sobre a questão de finitude como motivadora para a criação artística.
Foi tocado no assunto de que sua literatura é considerada por alguns como ‘policial’, e por ela mesma não é considera policial – pelo menos dentro das escolas conhecidas. Eu também não penso na literatura dela como policial. Não creio que haja em
Elogio da mentira uma trama policial; também não creio que haja o mesmo em
Jonas. Mas essa questão eu deixo para os mais sabidos.
Um assunto muito interessante que entrou na conversa foi a oralidade. Foi uma fala interessante por que não ficou ‘apenas’ na questão oralidade, foi reflexão sobre como vivemos hoje. Por exemplo, segundo ela, as pessoas não mais ficam paradas, não mais apenas caminham pelas ruas, as pessoas ficam paradas e caminham falando ao celular. Não há mais espaço para refletir, não há introspecção – este foi um tema abordado por ela que eu gostei muito. E eu concordo com ela. É dificílimo você encontrar pessoas paradas, apenas esperando pelo ônibus, ou dentro do ônibus sem um fone no ouvido, sem estar ao telefone com alguém, ou mesmo mandando mensagem ou brincando no celular.
Outro ponto que eu gostei foi sobre o escritor ir ao encontro dos leitores. Eu sou receoso quanto a isso, pois em alguns casos nós nos distanciamos de determinados autores; só que no caso das duas escritoras citadas aqui é o contrário, há uma aproximação, uma admiração crescente por elas.
Também falou sobre pesquisa para um novo livro, a dificuldade que é pesquisar e colocar dentro da narrativa junto com a imaginação; até que ponto a pesquisa ajuda e até que ponto ela ‘atrapalha’ – no sentido de limitar a criação pelo tanto de ‘provas’ que você tem.
E já no fim ela falou sobre a dúvida que surgiu para o final do livro. E então ela fez uma associação muito feliz com o futebol: quando um atleta é expulso a torcida adversária grita de emoção ao ver o juiz cumprir a lei e punir o atleta. E foi justamente assim que terminou, falando sobre justiça e impunidade. E ela soltou esta frase – vocês podem conferir no programa, eu anotei, como o professor ensinou: “a punição é o sonho de consumo do brasileiro”.
Eu saí de lá atordoado, sem saber se a escolha que fiz era a certa, sem saber se entre a escritora e a musa eu havia escolhido certo. Saindo do Palácio das Artes, encontrei-me com ela, pedi uma folha de papel, conversamos um pouco, e chegando em casa escrevi umas palavras para ela também, afinal, musa e escritora são quase a mesma coisa. Ainda mais quando se fala de quem eu falei...
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