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É claro que você sabe do que estou falando
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 15/8/2008 · 62 votos · nenhum
  
Leia aqui com exclusividade um conto de É claro que você sabe do que estou falando, da cineasta e escritora Miranda July, lançamento da Agir.
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Velhinhos deitados no chão de uma cozinha simulam movimentos de natação ensinados por uma professora sem piscina; lésbicas adolescentes não conseguem se tocar até que uma peruca transforma seu relacionamento; solteirão vai a diversos encontros armados por um amigo mas não vê a parceira; mulher goza e sente repulsa ao ouvir os relatos detalhados das aventuras eróticas da irmã.

No universo de Miranda July http://mirandajuly.com nada é direto além da voz, que seus personagens lhe roubam para narrar as próprias histórias. E o que eles têm para contar são casos recheados de melancolia, sexo e solidão. O mundo em que vivem é duro e sua constituição mole nem sempre lhes dá chance.

Perdidos entre cobranças e especificidades, não é todo dia que as muletas de sentimento e memória são capazes de lhes aliviar o peso da vida e mantê-los de pé. Alguns abandonam qualquer apoio e esquecem o ideal para abraçar o concreto e inusitado ("A irmã"). Outros se sustentam em lembranças de tempos bizarros mas seguros ("A equipe de natação"). Há ainda aqueles que falham em sair da bolha e, mesmo apavorados, forçam-se a continuar sobrevivendo com o pouco ar que há dentro dela (O quintal compartilhado).

Miranda July ama esses outsiders e constrói estranhas e belas margens para que eles habitem. Sua escrita segue o ritmo pessoal de cada um deles, calma e intensa. As mais excêntricas atitudes chegam até o leitor impregnadas de carinho, como numa ponte de empatia erguida pela autora. Os contos de É claro que você sabe do que estou falando dão vida a um mundo agridoce, brutal e instigante. Seus moradores são como parentes que prezamos visitar apesar da casa desarrumada e da família disfuncional.

[Introdução: Juliana Fausto]
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"Alguma coisa que não precisa de coisa alguma" - Miranda July

Num mundo ideal, teríamos sido órfãs. Nos sentíamos órfãs e nos sentíamos merecedoras da piedade que recebem as órfãs, mas, um tanto embaraçosamente, tínhamos pais. Eu até tinha dois. Eles nunca me deixariam ir, então eu não disse adeus; fiz uma mala minúscula e deixei um bilhete. No caminho para a casa de Pip, descontei meus cheques da formatura. Depois me sentei na varanda da casa dela e imaginei que tinha doze ou quinze ou até dezesseis anos. Em todas essas idades, eu tinha sonhado com o dia de hoje; cheguei a me imaginar sentada aqui, esperando Pip pela última vez. Ela enfrentava o problema oposto: sua mãe a deixaria ir. Sua mãe tinha gigantescas pernas inchadas que eram sintoma de algo muito pior, e passava o tempo todo medicada com enormes doses de maconha.

Estamos indo agora, mãe.
Aonde?
Para Portland.
Você pode me fazer uma coisa primeiro? Pode me trazer aquela revista ali?

Estávamos ansiosas para começar nossa vida como gente que não têm ninguém. E era fácil achar um apartamento porque não tínhamos padrões; estávamos apenas deslumbradas que aquela fosse a nossa porta, o nosso carpete puído, a nossa infestação de baratas. Decoramos com bandeirinhas de papel e lanternas chinesas e dividimos a cama velha que veio com o conjugado. Aquilo era tremendamente emocionante para uma de nós. Uma de nós sempre esteve apaixonada pela outra. Uma de nós vivia num perpétuo estado de espera. Mas nós nos conhecemos quando éramos crianças e parecíamos destinadas a dormir como crianças, ou como um casal de velhos que se conheceram antes da revolução sexual e eram tímidos demais para aprender o novo jeito.

Estávamos entusiasmadas para conseguir empregos; quase nunca íamos a algum lugar sem preencher uma proposta. Mas, uma vez empregadas — como lixadoras de móveis —, não podíamos acreditar que aquilo era realmente o que as pessoas faziam o dia todo. Tudo o que tínhamos pensado ser O Mundo era na verdade o resultado do trabalho de alguém. Cada linha na calçada, cada biscoito salgado. Todos tinham um carpete puído e uma porta para pagar. Horrorizadas, desistimos. Tinha que haver um modo mais digno de viver. Precisávamos de tempo para refletir sobre nós mesmas, para desenvolver uma teoria sobre quem éramos e dizer isso com música.

Com esse objetivo em mente, Pip veio com um novo plano. Partimos para ele com determinação; por três semanas seguidas escrevemos e reescrevemos e ressubmetemos nosso anúncio ao jornal local. Finalmente, o Portland Weekly aceitou; não soava mais como prostituição evidente e mesmo assim, para o leitor certo, não pareceria ser outra coisa. Nosso público-alvo eram mulheres ricas que gostassem de mulheres. Isso existe? Também aceitaríamos uma mulher de não muitos recursos que tivesse economizado seu dinheiro.

O anúncio saiu por um mês, e nossa secretária eletrônica transbordou de interesse. Todos os dias descartávamos centenas de homens para encontrar aquela senhora especial que pagaria nosso aluguel. Ela estava demorando a aparecer. Talvez ela nem mesmo lesse aquela seção do jornal semanal grátis. Ficamos agitadas. Sabíamos que aquela era a única maneira de fazer dinheiro sem nos comprometermos. Será que poderíamos pagar o sr. Hilderbrand, nosso senhorio, em tíquetes-refeição? Não podíamos. Será que ele estaria interessado na velha máquina fotográfica que a avó de Pip emprestara a ela? Não estava. Ele queria ser pago da forma tradicional. Pip começou furiosamente a pescar entre as mensagens alguma de um homem gentil. Observei seu rosto de rapazinho enquanto ela ouvia e percebi que ela estava apavorada. Pensei no botãozinho dela que era tão parecido com um confeito e no tépido mundo de complicações entre suas pernas. Permita que ele seja um homem brocha, rezei. Um homem que na verdade só quisesse nos ver dando pulinhos de calcinha. De repente, Pip arreganhou os dentes e escreveu um nome. Leanne.

O ônibus nos deixou no alto da rua de cascalho que Leanne tinha descrito ao telefone. Tínhamos dito a ela que nossos nomes eram Astrid e Tallulah e esperávamos que Leanne também fosse um pseudônimo. Queríamos que ela estivesse usando um paletó de smoking, ou uma echarpe de plumas. Esperávamos que ela estivesse familiarizada com a obra de Anaïs Nin. Esperávamos que ela não fosse como sua voz ao telefone. Que não fosse pobre, nem velha, nem querendo pagar pela companhia de ninguém que viesse dirigindo até Nehalem, população 210.

Pip e eu descemos a rua de cascalho até uma casinha marrom. Havia comida ruim sendo preparada, já podíamos sentir o cheiro. E agora a mulher apareceu na varanda, ela estava de cara amarrada. Sua idade era difícil de determinar de nosso ponto de observação, um ponto de nossas vidas no qual não éramos capazes de ver com clareza corpos mais velhos. Ela talvez tivesse a idade da irmã mais velha de minha mãe. E, como a tia Lynn, usava leggings, leggings azul-real, e uma camiseta maior do que ela, com algum tipo de aplique. Minha cabeça parecia um balão cheio de medo. Olhei para Pip e por uma fração de segundo senti como se ela não fosse ninguém especial no esquema maior da minha vida. Era só alguma garota que tinha me amarrado à sua perna para ajudá-la a afundar quando ela pulasse da ponte. Então pisquei e estava outra vez apaixonada por ela.

Ela acenou e nós acenamos. Acenamos até estarmos perto o suficiente para dizer oi e aí dissemos oi. Agora estávamos perto o suficiente para um abraço, mas não abraçamos. Ela disse, Entrem, e dentro é escuro, sem crianças. É claro que não há crianças. Pip pede o dinheiro logo de cara, coisa que tínhamos decidido antes. É sempre terrível ter que pedir alguma coisa. Gostaríamos de ser alguma coisa que não precisasse de coisa alguma, como tinta. Mas até tinta precisa ser repintada. Leslie nos diz que somos mais moças do que ela esperava e para nos sentarmos. Nós nos sentamos num velho sofá de vinil e ela sai da sala. É uma sala horrível, com revistas empilhadas por todo canto e uma mobília que poderia ter vindo de um motel. Não olhamos uma para a outra nem para nada que refletisse. Olho fixo para meus próprios joelhos.

Por muito tempo não sabemos onde ela está e então, devagar, posso sentir que ela está de pé bem atrás de nós. Percebi isso logo antes que ela enfiasse suas unhas em meu cabelo. Não pensei que ela fosse do tipo sexual, mas agora vejo que não sei nada. Já começou e a cada segundo estamos mais perto do fim. Digo a mim mesma que unhas compridas igual a riqueza; a idéia de riqueza sempre me acalma. Finjo que sinto cheiro de perfume. E se nós todas usássemos xampus caros? E se estivéssemos o tempo todo brincando e não tivéssemos com que nos preocupar? Minha cabeça relaxa e eu faço o exercício em que a gente imagina que está se transformando em mel. Minha mente diminui a velocidade até um ponto que não seria considerado funcional para qualquer outro emprego. Só estou viva em um a cada quatro segundos, só registro quinze minutos a cada hora. Vejo que ela está de pé atrás de nós só de calcinha e ela não é muito limpa e morro. Vejo que Pip está tirando os sapatos e morro. Vejo que estou apertando um mamilo e morro.

No longo caminho de volta, nem uma nem outra disse nada. Éramos pipas voando em direções opostas presas a barbantes seguros por uma mão. O dinheiro que tínhamos acabado de fazer também estava nessa mão. Pip parou para comprar um saco de batatas fritas no caminho para casa, e agora tínhamos um dólar e noventa e nove menos do que nosso aluguel. Parecia óbvio agora que deveríamos ter cobrado mais. Pip botou o dinheiro num envelope e escreveu Sr. Hilderbrand nele. Então ficamos ali de pé, separadas, machucadas e com cheiro de Leanne. Nos afastamos e começamos a apertar todas as minúsculas cordas de nossa miséria. Preparei um banho. Logo antes de entrar na banheira, ouvi a porta da frente se fechar e congelei; ela tinha ido embora. Ela às vezes fazia isso. Nas horas em que outros casais teriam brigado ou feito as pazes, ela me deixava. Com um pé na água, fiquei ali de pé esperando que ela voltasse. Esperei por um tempo irracionalmente longo, longo o bastante para que eu chegasse à conclusão de que ela não voltaria naquela noite. Mas e se eu esperasse mesmo, se ficasse aqui de pé e nua até que ela voltasse? E aí, exatamente quando ela entrasse pele porta de frente, eu terminaria o gesto, sentando na água então fria. Eu já tinha feito coisas estranhas assim. Já tinha me escondido atrás de carros por horas, esperando ser encontrada; já tinha escrito a mesma palavra sete mil vezes tentando enganar o tempo. Estudei minha posição na banheira. O pé na água já estava enrugado. Como eu me sentiria quando a noite caísse? E quando ela viesse para casa, quanto tempo se passaria até que ela olhasse para dentro do banheiro? Será que compreenderia que o tempo tinha parado enquanto ela estava fora? E, mesmo que ela percebesse que eu tinha feito aquela coisa impossível por ela, e daí? Ela nunca era agradecida ou solidária. Lavei-me depressa, com movimentos exagerados que afastavam a paralisia.

Andei em círculos pelo nosso quartinho minúsculo. Nem mesmo me ocorreu ir lá fora; eu não tinha idéia de como navegar pela cidade sem ela. Só havia uma coisa que eu não podia fazer quando ela estava comigo, então, depois de um tempo, me deitei no sofá e fiz. Fechei os olhos. Em todas as velhas e boas lembranças, tínhamos entre seis e oito anos. Estávamos debaixo das cobertas no sofá-cama da mãe dela, ou na cama de cima do meu beliche, ou numa tenda no quintal da casa dela. Todos os cenários eram marcantes à sua maneira. Não importava onde estivéssemos, tudo começava quando Pip sussurrava, Vamos casar. Ela corria para cima de mim; fechávamos os braços sobre as costas uma da outra. Esfregávamos uma na outra nossos pequenos quadris, tentando conseguir uma fricção. Quando fazíamos direito, a sensação vinha como um frenesi do corpo todo.

Mas, bem na hora em que eu ia conseguir, percebi um ruído de clique no ar. Era um ruído presente, que me distraía, suavemente insistente. Olhei para o alto. Em cima da minha cabeça, nossas cinco lanternas chinesas de papel balançavam de leve, por conta própria. Enquanto esticava a mão para elas, de repente entendi por quê, mas era tarde demais para recuar. Sacudi uma lanterna e, do buraco embaixo, baratas começaram a jorrar. Rastejavam até quando caíam. Planejavam a conquista de qualquer lugar em que caíssem, mesmo antes de chegar lá. E, quando batiam no chão, não morriam, nem mesmo pensavam em morrer. Corriam.

Quando Pip afinal chegou em casa, concordamos que a coisa com Leanne não tinha valido a pena. Mas poucos dias depois vimos Nastassja Kinski no filme Paris, Texas. Ela usava um suéter vermelho comprido e trabalhava num show de strip. Achei que parecia um trabalho bem fácil, enquanto Harry Dean Stanton não aparecia, mas Pip não concordou.

De jeito nenhum. Eu não vou fazer isso.
Eu podia fazer sem você.

Isso a deixou tão zangada que ela lavou a louça. Nunca fazíamos isso a não ser que estivéssemos tentando ser grandes e autodestrutivas. Fiquei de pé na soleira da porta e tentei manter minha parte de silêncio enquanto a olhava tentar arrancar pedaços de macarrão calcificado. Na verdade, eu ainda não tinha aprendido a odiar ninguém além de meus pais. Eu só estava mesmo de pé ali, com amor. Eu nem estava mesmo de pé; se ela tivesse ido embora de repente, eu teria caído.

Não vou fazer isso, deixa pra lá.
Você parece desapontada.
Não estou.
Tudo bem; eu sei que você quer que eles olhem pra você.
Quem?
Homens.
Não, não quero, não.
Se você fizer isso, então eu não vou poder ficar mais com você.

Aquilo era, de certo modo, a coisa mais romântica que ela já tinha me dito. Dava a entender que estávamos vivendo juntas não porque tínhamos crescido juntas e éramos as únicas pessoas que conhecíamos, mas por causa de alguma outra coisa. Porque nós duas não queríamos que homens olhassem para mim. Eu disse a ela que nunca iria trabalhar num show de strip e ela parou de lavar a louça, o que queria dizer que ela queria dizer que estava legal de novo. Mas eu não estava legal. Nos últimos dez anos, só tínhamos nos tocado três vezes.

1. Quando ela estava com onze anos, seu tio tentou abusar dela. Quando ela me contou, chorei e ela me atingiu no queixo e eu me enrosquei como uma bola por quarenta minutos até que ela me desenroscou. Fiquei de olhos fechados enquanto ela puxava meus joelhos para longe do meu peito e pude sentir que ela olhava para meu corpo e sabia que se eu ficasse de olhos fechados iria acontecer e aconteceu. Ela deslizou a mão por baixo das minhas coxas e apalpou até encontrar a coisa que ela conhecia nela mesma. Aí ela sacudiu o dedo de um jeito violento e animal que logo logo me deu o velho frenesi. Quando acabou, ela me disse pra não contar pra ninguém, e eu não soube se ela estava falando daquilo, comigo, ou sobre seu tio.

2. Quando tínhamos catorze, ficamos bêbadas pela primeira vez e, durante nove minutos, tudo pareceu possível e nós nos beijamos. Aquele encontro pareceu esperançosamente normal, e nos dias seguintes esperei por mais beijos, talvez até algum tipo de troca de anéis ou medalhas. Mas nada foi trocado. Continuamos cada uma com suas próprias coisas.

3. No nosso último ano do ensino médio, tive por uns tempos uma outra amiga. Era uma garota comum, seu nome era Tammy, ela gostava dos Smiths. Não tinha jeito de eu poder me apaixonar por ela porque ela era tão patética quanto eu. Todos os dias ela me dizia tudo o que estava pensando, e eu achava que aquilo era o que quase todas as garotas faziam juntas. Eu queria falar de mim também, queria muito, mas era difícil saber por onde começar. Ela estava sempre tão na minha frente, nas minúcias dos poemas que tinha escrito em relação aos sonhos que tinha sonhado. Então eu só me deixei ficar, numa fraca imitação de Pip. Pip não achava Tammy grande coisa, mas ficava um tanto intrigada com a normalidade da amizade.

O que vocês fazem?
Nada. Ouvimos fitas e essas coisas.
Só isso?
Fim de semana passado fizemos biscoitos de manteiga de amendoim.
Ah! Isso parece divertido.
Você está debochando?
Não, parece mesmo.

Então ela foi junto na outra vez que fui à casa de Tammy. Isso me deixou meio nervosa porque Tammy tinha aqueles pais que estão sempre por perto. Tradicionalmente, pais não sabem o que fazer com Pip, que parecia muito mais um garoto do que uma garota e de algum jeito fazia mães se sentirem flertando e pais se sentirem estranhamente ameaçados. Mas os pais de Tammy estavam assistindo a um filme e só abanaram as mãos por trás das cabeças, distraídos, quando nós chegamos. Como previsto, ouvimos fitas. Pip perguntou se íamos fazer biscoitos de manteiga de amendoim, mas Tammy disse que não tinha as coisas que precisava. Então ela se atirou na cama e perguntou se nós éramos namoradas ou alguma coisa assim. Um silêncio constrangedor encheu o quarto. Olhei fixo para fora da janela e repeti a palavra "janela" na minha cabeça, estava pronta para janela, janela, janela indefinidamente, mas de repente Pip respondeu.

É.
Legal. Eu tenho uma prima gay.

Tammy nos disse que o quarto dela era um lugar seguro e que não precisávamos fingir, e aí ela nos mostrou um adesivo cor-de-rosa néon que a prima tinha mandado para ela. Dizia: FODA O SEU GÊNERO. Todas nós olhamos para o adesivo em silêncio, absorvendo seus dois significados — pelo menos dois, provavelmente até mais. Tammy parecia estar esperando alguma coisa, como se Pip e eu fôssemos obedientemente cair uma em cima da outra no momento em que lêssemos a audaciosa ordem do adesivo. Eu sabia que éramos um desapontamento, só sentadas ali na cama. Pip deve ter sentido isso também, porque de repente jogou o braço em cima do meu ombro. Aquilo nunca tinha acontecido antes, então eu congelei, com razão. E então, bem devagar, redirecionei meu corpo para uma atitude casual. Pip só piscou quando eu suspirei e deixei cair a mão em sua coxa. Tammy olhava para aquilo tudo e até fez um pequeno gesto de aprovação com a cabeça antes de voltar a atenção para a música. Ouvimos os Smiths, o Velvet Underground e os Sugarcubes. Pip e eu não tínhamos mudado de posição. Depois de uma hora e vinte minutos, minhas costas doíam e minha mão azul e entorpecida se sentia separada do resto do meu corpo. Educadamente pedi licença.

No calor empoeirado do banheiro eu me senti eufórica. Estar sozinha parecia de repente ser o máximo. Tranquei a porta e fiz uma série de gestos barrocos e involuntários no espelho. Acenei para mim mesma que nem uma maníaca e contorci meu rosto em expressões medonhas e desagradáveis. Lavei as mãos como se elas fossem crianças, embalando uma e depois a outra. Eu estava sentindo um paroxismo de individualidade. O nome científico desse espasmo é Último Viva. A sensação passou logo. Sequei minhas mãos numa minúscula toalha azul e voltei para o quarto.

Eu soube um minuto antes de ver. Soube que as encontraria juntas na cama daquele jeito, soube que ficaria atordoada, soube que elas dariam um pulo e se separariam e esfregariam a boca. Pip não me olharia nos olhos. Eu nunca mais falaria com Tammy. Soube que nós todas nos formaríamos no ensino médio, soube que Pip e eu viveríamos juntas como planejado. E soube que ela não me queria daquele jeito. Não ia querer nunca. Outras garotas, qualquer garota, mas não eu.

Agora que tínhamos pagado o aluguel, nos sentimos no direito de mencionar a situação das baratas para o proprietário. Ele disse que mandaria alguém, mas que não deveríamos ter esperanças.

Por que não?
Bem, não é só o seu apartamento, o prédio inteiro está infestado.
Então o senhor talvez devesse mandar cuidar do prédio inteiro.
Não adiantaria; elas viriam dos outros prédios.
É o quarteirão inteiro?
É o mundo inteiro.

Eu lhe disse para não se preocupar e desliguei o telefone depressa, antes que ele pudesse ouvir Pip martelando. Estávamos fazendo algumas inovações; especificamente, estávamos construindo um porão. Nosso apartamento era minúsculo, mas o pé-direito era alto e havia uma inquietante abundância de espaço inútil acima de nossas cabeças. Pip achava que lofts eram para hippies, então, embora nosso conjugado ficasse no segundo andar, ela fez o esboço de uma planta que nos permitiria viver num andar principal de teto baixo e então, quando estivéssemos de mau humor, descer por uma escada até o porão. Deixaríamos as coisas pesadas ali embaixo, como a geladeira e a banheira, mas todo o resto subiria. Nós duas podíamos perfeitamente imaginar o porão na nossa cabeça. Ele tinha um cheiro úmido e mineral. Calor e frestas de luz filtravam através do teto. Lá em cima ficava o lar. O jantar nos esperava lá em cima.

Uma das muitas ótimas razões para construir um porão era o nosso acesso à madeira grátis. Pip tinha conhecido uma garota cujo pai era dono da Madeiras e Suprimentos Berryman. Kate Berryman. Ela era um ano mais nova do que nós e freqüentava a escola particular de ensino médio perto da casa da avó de Pip. Eu nunca tinha me encontrado com ela, mas estava contente pelo fato de a estarmos usando. Praticávamos uma forma muito vaga e esporádica de luta de classes que sancionava toda espécie de roubo. Não havia uma só pessoa, negócio, biblioteca, hospital ou parque que não nos tivesse roubado, fosse de forma física ou histórica, e estávamos assim sempre tentando recuperar o que era nosso. É provável que Kate tenha pensado estar do nosso lado da restituição quando batalhou para tirar grandes pedaços de compensado da traseira da caminhonete de seus pais. Ela os deixou no beco atrás do nosso prédio, buzinando três vezes quando saiu com o carro. Ao seu sinal, perambulamos do lado de fora do prédio, fingindo dar uma volta, às vezes até parando para comprar um refrigerante, antes de decidir arbitrariamente, num capricho, dar uma chegada no beco. Arrastamos aquilo para cima, certas de que tínhamos enganado todo mundo. Estávamos sempre fugindo com alguma coisa, o que fazia com que alguém sempre estivesse nos observando, o que queria dizer que não estávamos sozinhas neste mundo.

Toda manhã Pip fazia uma lista do que precisávamos fazer naquele dia. No topo da lista em geral estava ir ao banco, onde havia café de graça. Os itens seguintes eram muitas vezes vagos — descobrir sobre tíquetes-refeição, cartão da biblioteca? —, mas a lista ainda me dava uma sensação de aconchego. Eu gostava de vê-la escrevendo, sabendo que alguém estava dando um rumo ao dia. À noite conversávamos sobre como iríamos decorar o porão, mas durante o dia nosso avanço era lento. Basicamente, o que tínhamos era um monte de pedaços de madeira; eles ficavam encostados nas paredes e em cima do sofá como cachorros não treinados.

Estávamos tentando pregar uma coluna no linóleo do chão da cozinha quando Pip percebeu que precisávamos de certo tipo de suporte.

Tem certeza?
Tenho. Vou ligar para Kate e ela vai trazer.
Ela não tá na escola?
Tá tranqüilo.

Pip telefonou e foi tomar uma chuveirada. Eu continuei a martelar grandes pregos que atravessavam a coluna e o chão. A coluna ficou firme. Era uma sensação boa. Ela não suportaria qualquer peso, mas ficava de pé sozinha. Era quase tão alta quanto eu e eu não podia deixar de lhe dar um nome. Parecia uma Gwen.

A campainha tocou e Pip molhou tudo ao correr até a porta. Era Kate. Olhei para ela de onde estava sentada no chão da cozinha. Ela usava um uniforme escolar. Não estava segurando os suportes. Talvez os tivesse escondido debaixo da saia.

Onde estão os suportes?, perguntei.
Com pânico nos olhos, Kate olhou para Pip. Pip segurou a mão dela, virou-se para mim e disse, Temos que te dizer uma coisa.

De repente, gelei. Minhas orelhas ficaram tão frias que precisei apertar as mãos sobre elas. Mas logo me dei conta de que com isso eu parecia estar tampando os ouvidos para não escutar, como o macaco que não ouve coisas más. Então esfreguei as mãos e perguntei, Suas orelhas estão frias? Pip não respondeu, mas Kate sacudiu a cabeça.

Tá, vão em frente.
Kate e eu vamos morar juntas na casa dos pais dela.
Por quê?
Como assim?
Bom, tenho certeza de que o pai de Kate não quer você vivendo na casa dele depois de você ter roubado todo aquele material dele.
Vou trabalhar na Madeiras Berryman para pagar pra ele. Posso até fazer dinheiro bastante pra comprar um carro.

Pensei naquilo. Imaginei Pip dirigindo um carro, um Modelo T, usando óculos de proteção e um cachecol que balançava ao vento atrás dela.

Também posso trabalhar na Madeiras Berryman?

Pip de repente ficou zangada. Peraí!
O quê? Não posso? Diz só se posso ou não posso.
Você não tá entendendo de propósito.
O quê?

Ela levantou a mão de Kate, apertou-a na sua e sacudiu-as no ar.

De repente minhas orelhas ficaram quentes, estavam fervendo, e eu tive que abanar as mãos dos dois lados da cabeça para esfriá-las. Aquilo foi demais pra Pip; ela agarrou a mochila e saiu marchando do apartamento, com Kate atrás.

Eu não podia deixá-la sair do prédio. Corri até o hall e me atirei em cima dela. Ela me sacudiu; apertei meus braços em volta dos seus joelhos. Eu soluçava e gemia, mas não como uma caricatura de alguém soluçando e gemendo — aquilo estava mesmo acontecendo. Se ela fosse embora, eu ficaria muda, como aquelas crianças que testemunharam atrocidades horríveis. Ninguém além daquelas crianças me entenderia. Pip estava arrancando meus dedos de suas pernas. Kate ajoelhou-se para ajudá-la e eu fiquei enojada com o toque de sua pele de pudim, queria furá-la, avancei para o peito dela. Pip aproveitou o momento para fugir correndo escada abaixo, e de algum jeito Kate foi atrás. Fiquei agarrando o casaco de Kate. Corri atrás delas, vi as duas entrando depressa no carro de Kate. Antes que arrancassem, fechei os olhos e me atirei na calçada. Fiquei lá. Era minha última esperança — que Pip ficasse com pena de mim. Ouvi o carro delas andando devagar. Ouvi o trânsito e o som de pedestres andando com cuidado em volta de mim. Quase podia ouvir Kate e Pip discutindo no carro, Pip querendo sair e me ajudar, Kate apressando-a para irem embora. Apertei minha bochecha no chão, rezando. Saltos altos bateram na minha direção e pararam; uma voz de mulher mais velha perguntou se eu estava bem. Sussurrei que estava e em silêncio implorei que ela saísse dali. Mas a mulher era persistente, então abri afinal os olhos para dizer a ela que se fosse. O carro de Kate tinha ido embora.


Puxei o telefone para cima da cama e dormi três dias. De vez em quando eu abria os olhos tempo suficiente para me lembrar e mergulhava de volta na inconsciência. Nos sonhos eu sabia que ia até ela por um túnel — se pelo menos eu conseguisse cavar fundo o bastante, eu a encontraria. Os túneis se estreitavam à medida que eu rastejava por eles, até que se tornavam fios de cabelo absurdamente emaranhados em cima dos quais tudo o que eu podia fazer era chorar.

Na tarde do terceiro dia, o telefone tocou. Puxei-o das pantanosas profundezas da cama. Queria que ela soubesse, no instante em que ouvisse minha voz, que eu estava morrendo. Atendi com uma saudação tão fraca, tão miserável, que soou como pedrinhas rolando. Alô.

Era o sr. Hilderbrand, o proprietário. Em alguma realidade maluca, alternativa, de ficção científica, o aluguel estava vencido. Fazia só um mês que tínhamos levantado a calcinha suja de Leanne. Desliguei o telefone e olhei em volta. Minha coluna ainda estava de pé na cozinha, diplomaticamente silenciosa. Uma estrutura em forma de mesa, perigosamente alta, oscilava no meio do cômodo. Eram os primeiros centímetros quadrados do andar de cima. Rastejei para baixo deles e imaginei Pip e Kate jantando com o sr. e a sra. Berryman. Era o tipo de cena que Pip tinha descrito muitas vezes. Não podíamos passar defronte a uma casa bonita sem que ela fantasiasse que seus donos gostariam que ela fosse viver com eles, só por saberem que ela estava disponível. Ela se via como uma encantadora moleca de rua, um bichinho de estimação para mamães ricas. Aquilo era uma fraude. Não havia nada no mundo que não fosse um blefe, de repente entendi. Nada tinha realmente valor, e nada podia ser perdido.

Fui para o banheiro e atirei montes de água no meu rosto, e aquilo era fácil. De fato, eu podia fazer qualquer coisa. Tirei o jeans e a camiseta com que tinha dormido. Nua, fiquei de cócoras no chão e fatiei as pernas de minhas calças com um cortador de madeira. Vesti-as e estavam miudinhas. Miudinhas, minusculinhas. Serrei a camiseta, deixando SE GOSTAR DE JAZZ no chão. BUZINE mal cobria meus pequenos seios, mas pô. Pô, eu estava saindo do apartamento. Eu estava descendo para o hall e havia uma pequena cesta de maçãs velhas na frente da porta da vizinha com um aviso que dizia PARA MEUS VIZINHOS POR FAVOR PEGUE UMA. E pô, eu estava morta de fome. Peguei uma maçã e a porta se abriu. Eu nunca tinha visto aquela vizinha, mas agora podia ver que era uma viciada. Uma velha viciada. E estava usando um suéter que eu sabia que ela tinha encontrado no hall. Era o casaco de Kate. Ela me disse para pegar outra e então me pediu um abraço. Abracei-a com força, uma maçã em cada mão. Semana passada eu teria tido medo de tocar nela, mas agora eu sabia que podia fazer qualquer coisa.

Eu não tinha dinheiro para o ônibus, então andei. Era uma distância incrível. Um cavalo ficaria cansado de galopar por ali. Quando os pássaros voavam por ali, o nome era migração. Mas não era difícil, era só demorado. Era uma experiência nova andar pela cidade com um minúsculo short e uma meia-camiseta que dizia BUZINE. As pessoas buzinavam mesmo sem ver a camiseta. Muitas vezes achei que ia levar um tiro ou uma flechada nas costas, mas não aconteceu. O mundo não era mais seguro do que eu tinha pensado; pelo contrário, era tão perigoso que meu eu praticamente nu combinava direitinho com ele, como uma batida de carro, aquilo acontecia todo dia.

O lugar para onde eu estava indo ficava numa rua comercial, entre uma loja de bichos e um caixa eletrônico. Perguntei ao homem no balcão se precisavam de gente e ele me deu um formulário para preencher numa prancheta. Quando devolvi, ele olhou para o papel sem mover os olhos, o que me fez pensar que ele talvez não soubesse ler. Ele disse que eu podia começar naquela noite se quisesse voltar às nove. Eu disse, Ótimo. Ele disse que seu nome era Allen, eu disse que meu nome era Gwen.

Fiquei três horas esperando na avenida. A loja de bichos estava fechada, mas eu podia ver os coelhos pela vitrine. Apertei os dedos no vidro e um velho orelhudo pulou cansado até onde eu estava. Olhou para mim com um olho e depois com o outro. Seu nariz tremeu, e por um momento senti que ele tinha me reconhecido. Ele me conhecia de antes, como um velho professor ou um amigo dos meus pais. Os olhos do coelho dardejaram através das minhas roupas e farejaram minha urgência selvagem e triste e acharam que eu não servia para nada. Então me levantei, limpei os joelhos e entrei na Mr. Peep's Loja de Vídeos Adultos e Mais.

A parte "e Mais" ficava nos fundos. Allen deixou-me lá com uma mulher chamada Christy. Ela estava sentada numa cadeira de jardim de plástico verde e usava um vestido cor-de-rosa da OshKosh. Olhando para os poderosos fechos dourados, pensei se tudo o que me parecia familiar era na verdade parte de um secreto submundo sexual. Ela me empurrou para a cabine e começou a botar vibradores, garrafas e colares de contas numa bolsa esportiva Adidas. Adidas. As coisas dela estavam sobre uma velha toalha florida, e eu sabia que, se cheirasse a toalha, ela teria o cheiro de minha avó. Vovó. Christy enrolou a toalha em volta de um vidrinho de geléia vazio.

Pra que isso?
Xixi.

Até xixi tinha naquilo. Ela me mostrou a lista de preços e a abertura pela qual viria o dinheiro. Ergueu a mão no ar enquanto me descrevia como a cortina subiria enrolada. Limpou um fone com desinfetante e papel-toalha e me disse para nunca deixá-lo pegajoso. Então, com uma eficiência apressada, amarrou o cabelo longo e fino num rabo-de-cavalo, pendurou a bolsa Adidas no ombro e se foi.

A loja ficou muito quieta, como uma biblioteca. Sentei na cadeira de plástico verde e arrumei minha blusa e meu short. As lâmpadas fluorescentes zumbiam com absoluta regularidade. Olhei para cima e imaginei que elas, e não as estrelas, pairavam sobre a longa criação da civilização. Elas tinham zumbido sobre eras glaciais e homens de Neandertal, e agora zumbiam sobre mim. Levantei-me e andei até minha cabine. Eu não tinha nada para botar em cima de uma toalha; nem mesmo tinha uma toalha. Tudo o que eu tinha era a chave do apartamento. Se eu não fizesse algum dinheiro nessa noite, teria que andar todo o caminho de volta. De noite. Nesses trajes. Eu estava numa situação única, na qual tinha que fazer um Show de Fantasia ao Vivo para proteger minha segurança pessoal.

Ensaiei tirar o fone do gancho. Fiz isso cinco vezes, cada vez mais depressa, como se fosse aquela a habilidade pela qual seria paga. Pensei nas palavras que teria que dizer nele. Eu nunca tinha dito nenhuma daquelas palavras sem ser como palavrões. Tentei pensar nelas como sedutoras. Tentei dizê-las de um jeito sedutor ao telefone, mas elas saíram num sussurro engolido. E se eu não conseguisse dizê-las? Pegaria mal demais? O homem pediria o dinheiro de volta e eu não poderia tomar o ônibus. Em pânico, eu disse de enfiada todos os palavrões que sabia: chupador de pau lambedor de saco cadela puta boceta lambedor de xoxota fodedor de cu. Botei o fone de volta no lugar. Pelo menos eu conseguia dizer.

Fiquei sentada na cadeira de plástico por mais de três horas. Nesse tempo, dois homens diferentes entraram na loja. Os dois me espiaram por cima das prateleiras de vídeos, mas nenhum foi até os fundos. Depois que o segundo homem saiu, Allen gritou lá de trás do balcão.

É o segundo que você deixa escapar!
O quê?
Você tem que ser mais agressiva! Não dá pra ficar só com o rabo sentado aí!
Entendi.

Vinte minutos depois, entrou um homem de moletom preto. Ele me espiou por cima de uma prateleira de revistas e eu fiquei de pé e andei até ele. O moletom tinha uma estampa de uma galáxia com uma flecha apontando para um ponto minúsculo e as palavras VOCÊ ESTÁ AQUI. O homem olhou para mim e fingiu espanto. Imaginei-o instintivamente tirando o chapéu na presença de uma senhora, mas ele não usava chapéu.

Está interessado num show de fantasia ao vivo, senhor?
É. Tá bom.

Ele me seguiu até os fundos da loja. Nós nos separamos por um momento e voltamos a nos reunir dentro da cabine com a divisão de vidro entre nós. Ouvi um barulho de fecho de velcro se abrindo, vinte dólares caíram na caixa de plástico trancada e a cortina subiu. Ele já estava com o pênis de fora e o telefone numa das mãos. Levantei o fone. Mas, como eu temia, eu estava muda, fiquei ali paralisada, como se estivesse em cima de uma pedra num lago gelado. Nunca fui boa em pular, abandonar um elemento e abraçar outro. Eu era capaz de ficar lá de pé o dia todo, deixando as outras crianças passarem na minha frente para sempre. Ele estava bombeando aquilo pra cima e pra baixo e aquela era uma visão estranha, não era uma coisa que a gente vê todos os dias; na verdade eu nunca tinha visto aquilo antes. Ele disse algo no fone, mas não entendi. Apesar de estarmos tão perto, a recepção não era muito boa.

Desculpe?
Você pode tirar a roupa?
Ah! Tá bom.

Desde o início, a gente é treinada a não tirar a roupa na frente de estranhos. Ficar de roupa é realmente a regra número um da civilização. Até um pato ou um urso parece civilizado quando vestido. Empurrei meu short jeans para baixo e ergui a blusa cabeça acima. Fiquei ali nua, como um urso ou um pato. O homem olhou para mim com uma concentração feroz, meus seios pálidos, o tufo de pêlos entre minhas pernas, para cima e para baixo entre esses dois pólos. De vez em quando ele checava para ter certeza de que eu estava olhando para ele. Obediente, olhei fixo para o pênis e desejei que aquilo fosse o bastante, mas depois de alguns segundos ele perguntou se eu gostava do que via. Mais uma vez eu estava na pedra, as crianças se esbaldando lá embaixo gritando, Pula! Mas eu sabia que pular era como morrer, eu teria que desistir de tudo. Avaliei o que eu tinha. Ela não tinha telefonado, ela não ia telefonar, eu estava sozinha e eu estava aqui — não de algum jeito abstrato, não aqui na terra ou no universo, mas realmente aqui, de pé nua na frente desse homem. Empurrei minha mão entre as pernas e disse: Seu pau grande e duro está me deixando no maior tesão.

Às cinco da manhã eu deslizava pela noite num ônibus. Mas o ônibus era só uma formalidade — na verdade eu estava voando, no ar, e eu era mais alta do que todo mundo, eu tinha três ou quatro metros de altura, e eu podia voar, eu podia saltar sobre os carros, eu podia dizer "pau" de um jeito ávido, gentil, tímido, suplicante, eu podia voar. E eu tinha 325 dólares no bolso. Ficar com um pé na banheira até que ela voltasse não era só um jeito de parar o tempo, era também um ritual para trazê-la de volta. Eu seria Gwen até que ela viesse pra casa.

Comprei um robe verde-limão, um vibrador que usei para me desvirginizar e uma peruca castanha num modelo cacheado chamado Élan. Eu odiava meu trabalho, mas gostava de poder fazê-lo. Eu tinha uma vez acreditado num precioso eu profundo, mas agora não acreditava. Eu tinha pensado que era frágil, mas não era. Era como ser de repente boa em esportes. Eu não ligava pra futebol, mas era bem legal estar na Liga de Futebol Americano. Contei histórias compridas e complexas que giravam em torno de minha própria xoxota eternamente molhada, escancarei todas as partes do meu corpo, disse a clientes que sentia falta deles, e esses clientes se tornaram regulares, e esses regulares se tornaram maníacos. Aprendi a ficar do lado de dentro até a hora em que meu ônibus chegasse e então passar correndo por quem estivesse me espreitando no estacionamento, acenando e gritando: Venha me ver na quinta!
E eu sentia uma falta enorme dela.

Uma noite, o ônibus atrasou e um cliente me seguiu até o meio-fio. Ele ficou ao meu lado no ponto de ônibus e eu o ignorei e então ele começou a cuspir. Primeiro ele cuspiu no chão, depois pelo ar. Eu sentia minúsculos pingos caírem no meu rosto e apertei os lábios e dei um passo pra trás. Ele deu também um passo pra trás e continuou a encher o ar com seus perdigotos. Sua perseguição se baseava numa lógica tão estranha que fiquei desorientada, não conseguia me decidir se ele era apavorante ou idiota, e foi essa sensação que me disse para voltar pra dentro. Andei e depois corri, batendo a porta atrás de mim. Mas Mr. Peeps não era exatamente um porto seguro e eu não podia ficar lá pra sempre. Pedi a Allen para ir lá fora e ver se o cliente ainda estava lá. Estava. Allen não poderia dizer a ele pra ir embora? Allen achou que não poderia porque (a) ele não estava infringindo a lei, e (b) ele era um bom cliente. Allen achou que eu deveria chamar um amigo ou um táxi para me apanhar.

Eu tinha esperado por aquele momento e fiquei maravilhada ao ver como ele tinha chegado de forma tão natural. Eu em geral me imaginava tomando veneno ou sendo atropelada por um carro. Alguém oficial, um guarda ou uma enfermeira, perguntaria se havia alguém que eu queria que eles chamassem. Com a voz entrecortada, eu diria o nome dela. Ela trabalha na Madeiras e Suprimentos Berryman, eu diria. A situação não era tão horrível, mas envolvia segurança e, mais importante, não era minha a idéia de ligar para ela. Eu tinha recebido uma ordem, quase um comando, de um superior, Allen.

Liguei depressa para a Berryman, quase distraída, reproduzindo o modelo do tipo de pessoa que faria uma pergunta a respeito da substituição de serras circulares. Mas, no instante em que a ligação começou a chamar, meus sentidos se dilataram, expulsando tudo o que não fosse o toque da chamada ou o som do meu próprio coração.

Madeiras e Suprimentos Berryman, em que posso ajudá-la?
Poderia falar com Pip Greeley?
Só um segundo.
Só um segundo. Só dois meses. Só uma vida inteira. Só um segundo.
Alô.
Sou eu.
Ah! Oi.

Aquilo não ia dar certo. Aquele Ah! Oi. Eu não podia ser a pessoa que gerava uma resposta como aquela. Endireitei minha peruca. Sorri para o ar do jeito que sorria quando os clientes desafivelavam os cintos, e fiz meus olhos rirem como se tudo fosse alguma versão de um dia feliz. Comecei de novo.

Ei, estou numa pior aqui e pensei que você talvez possa me ajudar.
É? O quê?
Estou trabalhando nesse lugar, Mr. Peeps. E tem esse cara realmente assustador me rondando. Você tem um carro?

Ela ficou em silêncio por um instante. Eu quase podia ouvir o nome Mr. Peeps vibrando na cabeça dela. Era a descrição de um homem com olhos do tamanho de relógios. Pip tinha passado toda a vida evitando Mr. Peeps e agora lá estava eu, de gracinha com ele. Eu era repulsiva e idiota, ou era outra coisa. Uma coisa surpreendente. Prendi a respiração.

Ela disse que achava que dava pra pegar uma van emprestada, e será que eu podia esperar vinte minutos até que ela saísse do trabalho? Eu disse que provavelmente podia.

Não falamos, na van, e eu não olhei para ela, mas pude sentir muitas vezes o olhar perplexo dela em cima de mim. Eu em geral trocava de roupa e tirava a peruca antes de ir para casa, mas tinha feito bem em não fazer isso nessa noite. Eu olhava pela janela para outros passageiros apaixonados por seus motoristas, mas estávamos bem disfarçadas, fingíamos tédio e rezávamos pelo trânsito. Assim que o antigo lar dela ficou à vista, ela deu uma virada brusca para a esquerda e perguntou se eu queria ver onde ela vivia agora.

Você quer dizer na casa de Kate?
Não, aquilo não deu certo. Estou vivendo no porão do apartamento do cara com quem trabalho.
Tá bom.

O porão era o que se chama de "inacabado". Era sujo, com umas tábuas jogadas aqui e ali, ilhas que serviam de suporte para uma cama e alguns caixotes de leite. Ela passeou uma lanterna por ali e disse, São só setenta e cinco dólares por mês.
Caramba.
É, sim, todo este quarto. São mais de cento e quarenta metros quadrados. Posso fazer o que eu quiser com isso.

Ela me levou por entre as tábuas, descrevendo seus planos. Uma descarga soou no andar de cima e eu quase pude ver o colega de trabalho dela andando acima de nós. Ele parou, um sofá rangeu, uma tevê foi ligada. Era o jornal. Ela enfiou a lanterna no laço de uma corda e um facho de luz fraca caiu no travesseiro. Estiquei-me na cama e bocejei. Ela me olhou de cima a baixo.

Pode ficar aqui se você quiser, quero dizer, se estiver cansada.
Posso dar uma cochilada.
Tenho umas coisas para limpar.
Você limpa, eu vou cochilar.

Eu a ouvi varrendo. Ela varria cada vez mais perto, varria em toda a volta do colchão. Então ela largou a vassoura e subiu na cama comigo. Ficamos ali deitadas, totalmente imóveis, por um bom tempo. Finalmente, o homem lá em cima tossiu, o que desencadeou uma onda de energia cinética. Pip ajeitou os ombros de modo que a pontinha da sua camiseta roçasse meu braço; recruzei as pernas, deixando sem querer que meu tornozelo caísse encostado à perna dela. Mais cinco segundos se passaram, como pesadas batidas de bumbo, nós três imóveis. Então ele mudou de lugar no sofá e instantaneamente nos viramos uma para a outra, a boca de uma caiu sobre a da outra, nossas mãos se agarraram com urgência, até com dor. Pareceu necessário ser brutal no início, fingir raiva e não ceder. Mas depois que lutamos noite adentro e apagamos a lanterna, fiquei surpresa com suas atenções gentis.

Então era assim que era não ser eu. Era assim que Pip era. Porque, não se engane, eu fiquei com a peruca na cabeça o tempo todo. Achei que ela tornava tudo aquilo possível, e acho que eu tinha razão. A peruca e o fato de que não chorei mesmo querendo desesperadamente chorar, dizer a ela como eu tinha estado infeliz, apertá-la e fazê-la prometer que nunca mais me deixaria. Eu quis que ela me implorasse para largar meu emprego e depois quis largar meu emprego.

Mas ela não implorou e, na verdade, Mr. Peeps era essencial. Toda noite ela me apanhava na van da Madeiras Berryman, me levava para debaixo da casa e fazia amor comigo. E toda manhã eu ia pra casa e tirava a peruca. Eu coçava meu couro cabeludo suado e deixava minha cabeça respirar por duas horas antes de pegar o ônibus para ir para o trabalho. Vivi desse jeito por oito lindos dias. No nono dia, Pip sugeriu que podíamos sair pra tomar café-da-manhã antes que eu fosse trabalhar.

Bem que eu gostaria, mas tenho que ir em casa me arrumar.
Você está ótima.
Mas tenho que lavar o cabelo.
Seu cabelo tá ótimo.
Toquei minha peruca e ri, mas ela não sorriu.
É verdade, tá ótimo.

Nossos olhares se enfrentaram e um sentimento de inimizade passou entre nós. É claro que era uma peruca — eu sabia que ela sabia —, mas ela estava de repente determinada a me desmascarar. Imaginei que estávamos duelando, floretes delicados ao alto.

Tá então, vamos tomar café.
Posso deixar você no Mr. Peeps depois.
Legal. Obrigada.

Todo mundo sabe que, se pintar um ser humano inteiro com tinta de pintar paredes, ele vai viver, desde que não pinte as solas dos pés. Basta uma coisinha dessas para matar alguém. Eu tinha usado a peruca por quase trinta horas seguidas e, enquanto tirava a roupa e me balançava e gemia, comecei a me sentir quente, toda quente. No meio do dia, o suor escorria pelos lados do meu rosto, mas os homens continuavam a chegar, foi um dia de lucros incríveis. Allen chegou a me dar tapinhas nas costas quando eu saí, dizendo, Bom trabalho, campeã. Pip estava esperando na van, mas andar pelo estacionamento foi demorado e estranho. Achei que reconhecia um cliente agachado perto do carro dele, mas não, era só um homem normal curvado sobre alguma coisa numa gaiola. Ele murmurou: Tá tudo bem, vamos levar você pra casa.

Pip me pôs direto na cama e chegou a pedir emprestado um termômetro do seu colega no andar de cima. Mas ela não sugeriu que eu tirasse minha peruca e, na minha febre, eu entendi o que aquilo queria dizer. Eu a vi na clareira com uma pistola e eu sabia mesmo sem olhar que minhas mãos estavam vazias. Mas eu poderia vencer fingindo ter uma pistola. Se eu dissesse bang e deixasse ela atirar em mim, eu venceria. Se eu morresse daquele jeito, como Gwen, será que o resto de mim ainda ficaria vivo? E o que era o resto de mim? Adormeci com essa pergunta e me enfiei pelos túneis noite adentro me batendo nos fios emaranhadas até que a peruca caiu. Não a coloquei pela manhã e Pip não perguntou como eu estava me sentindo; ela podia ver que eu estava bem. Não se ofereceu para me levar para o trabalho, e nós duas sabíamos que ela não estaria lá para me pegar.

Sentei-me na cadeira de plástico verde debaixo das luzes fluorescentes. Foi um dia extraordinariamente lento. Parecia que todos os homens do mundo estavam ocupados demais para se masturbar. Imaginei-os lá fora fazendo coisas virtuosas, solucionando crimes e ensinando seus filhos a plantar bananeira. Era a última hora de meu turno de oito horas e eu não fizera nenhum show. Aquilo era quase sinistro.

Olhei para o relógio e para a porta e comecei a fazer promessas. Se nenhum cliente me chamasse nos próximos quinze minutos, eu gritaria o nome de Allen. Quinze minutos se passaram.

Allen!
O quê?
Nada.

Agora só faltavam vinte minutos. Se ninguém chegasse nos próximos doze minutos, eu ia gritar a palavra "eu", como em eu, eu mesma, e. Depois de sete minutos, a porta fez ding e um homem entrou. Ele comprou um vídeo e saiu.

Eu!
O quê?
Nada.

Eram os oito finais. Se nenhum cliente entrasse, eu ia gritar as palavras "me demito". Como em nunca mais, chega, vou pra casa. Fiquei olhando para a porta. Ela ameaçava se abrir a cada vez que eu respirava, a cada minuto que passava. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito.

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