Dom Helder Pessoa Câmara (Fortaleza 1.909 – Recife 1.999)
O professor Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura de Portugal, através do site e-Cultura, fez uma homenagem aos 100 anos do nascimento de Dom Helder. Achei a homenagem muito apropriada para estes tempos em que alguns bispos se notabilizam pelos equívocos, e reproduzo aqui alguns textos:
Dom Hélder Câmara – escreve o professor - Arcebispo mítico de Olinda e Recife, merece ser recordado no momento em que assinalamos a 7 de fevereiro o primeiro centenário do seu nascimento: “O verdadeiro cristianismo rejeita a idéia de que uns nascem pobres e outros ricos, e que os pobres devem atribuir a sua pobreza à vontade de Deus”.
UMA BIOGRAFIA INCONFORMISTA:
Foi um dos promotores da renovação da Igreja brasileira, através da criação de comunidades de base e da idéia de libertação humana. Resistiu ao regime militar e pregou, no interior e no exterior, a defesa intransigente dos direitos humanos e da causa dos pobres. Como disse um dia, "Quando dou comida aos pobres chamam-me de santo. E quando pergunto por que existe tanta pobreza, chamam-me de comunista".
O seu inconformismo tornou-se de tal modo incomodo a ponto de lhe ser negado o acesso aos meios de comunicação.
A IMPORTÂNCIA DA LIBERTAÇÃO HUMANA:
Anselmo Borges, teólogo, recordou Dom Hélder numa entrevista concedida em 1974: "Tudo o que for sobrecarga, laço, prisão, criados pelos homens; tudo o que for tabu; tudo isso pode e deve ser raspado, como quem raspa o fundo de um barco. Quando penso na Igreja, me lembro da barca, não apenas a de Pedro, porque a barca é de Cristo. Precisamos raspar periodicamente o limo que se vai juntando no fundo do barco e inclusive substituir de vez em quando alguma tábua que apodrece".
E acrescentou: "Cheguei como arcebispo a Recife, uma cidade do Nordeste brasileiro, uma das áreas subdesenvolvidas do país. Mesmo assim, eu recebi como casa uma casa já velha, mas enorme, com o nome de palácio. E dentro dele havia duas salas de trono: uma, mais solene, para as grandes recepções, e outra para o diário. Para receber todas as pessoas era um trono!... Pois bem! Eu levei seis meses para poder livrar-me da primeira sala e ano e meio para livrar-me da segunda!... Como é difícil arrancar-nos das estruturas!”
Em outra ocasião recomendou: “Precisamos unir estas minorias que desejam um mundo mais respirável, mais humano. Uni-las dentro de uma mesma cidade, de uma região, de um país, e de nação a nação. Hoje, sobretudo com as multinacionais, e todo o complexo de poder econômico utilizando técnicas, meios de comunicação, infiltrando-se nos governos, utilizando não raro militares; diante dessa força imensa, é impossível a um país sozinho construir uma sociedade mais humana”. Eu sei que há tentativas aqui e acolá, mas ainda se não chegou a um socialismo verdadeiramente humano que, longe de esmagar a pessoa, pelo contrário, de fato nos arranque da engrenagem capitalista, mas não para meter-nos em novas engrenagens”.
Anselmo Borges recorda que Dom Hélder "foi um dos animadores do chamado Pacto das Catacumbas - assinado por quarenta Padres, pouco antes do encerramento do Concílio Vaticano II (16.11.1965), nas catacumbas de Domitila em Roma. Aí se sublinhava “a pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos nem ostentações mundanas”.
"Feliz de quem atravessa a vida inteira com mil razões para viver” (D. Helder Câmara).
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