Publicado originalmente em 30/06/2008.
Confira o terceiro capítulo do livro que narra a trajetória da grife Daspu.
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A Daspu tornou-se conhecida antes de existir. Como você vai ler neste terceiro capítulo abaixo, a procura pela grife criada com as prostitutas da região da Praça Tirandentes, centro decadente do Rio de Janeiro, assim que surgiu um boato na imprensa vários grandes veículos impressos e de televisão correram atrás da grife que tinha somente o logotipo.
Por trás disso tudo está Gabriela Leite, fundadora da ONG Davida Gabriela é referência nacional no trabalho social e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis com prostitutas. Uma das idealizadoras da grife Daspu, também ajudou a criar o jornal Beijo da Rua e é autora de Eu, mulher da vida.
Daspu. A moda sem vergonha (Aeroplano Editora) é de autoria de Flávio Lenz, jornalista e assessor de imprensa da Davida, e marido de Gabriela. O livro integra o projeto Tramas Urbanas, que em dez volumes vai dar voz a diferentes maniestações da periferia urbana e social brasileira.
Em um prosa informal, ele vai narrando a breve porém intensa trajetória da Daspu, que tem alcançado reconhecimento e respeito para muito além da Praça Tiradentes. Como bem resume Lenz na Apresentação:
"Era 16 de dezembro de 2005, rua de batalha Imperatriz Leopoldina, Praça Tiradentes, centro histórico e boêmio do Rio. Com apoio de artistas e um empresário da noite, assistidas por outros profissionais e apreciadas por gente de toda parte, profissão e origem, seis prostitutas da ONG Davida e uma convidada autônoma lançavam a grife Daspu. Concebida em julho e descoberta em novembro, a iniciativa pretendia, pela moda, sacanear o estereótipo da puta, dar visibilidade aos desafios e conquistas do movimento organizado da categoria, destruir o preconceito e a caretice e, claro, vender roupas para gerar recursos. Um negócio social. Desde então, dezenas de desfiles em ruas, boates, espaços culturais, de moda e de arte, em colégios, congressos e até em vagões de trem, presenciados por milhares de pessoas e retratados em centenas de reportagens mundo afora, consolidaram o desejo e a esperança das fundadoras, que também venderam milhares de produtos."
Daspu. A moda sem vergonha tem lançamento nesta segunda, 30 de junho , às 19h, na Livraria Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo, 316, Botafogo, Rio de Janeiro).
> Confira uma entrevista com Gabriela Leite. E leia abaixo o terceiro capítulo do livro.
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Capítulo 3. De bar em bar
Se Daspu foi concebida em clima de alegria e cerveja, também assim foi dscoberta. Não naquela madrugada, mas em alguma outra noitada entre a segunda metade de julho e a de novembro. Quase certamente, em novembro.
Ao longo dos quatro meses de gestação da Daspu, trabalho intenso ocupou a equipe da ONG. Poucos dias depois da festa, por exemplo, recebemos, em plena Praça Tiradentes, o diretor do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids), Peter Piot. Ele estava no Rio para uma conferência de Aids e tomou a iniciativa de pedir o encontro. Queria ver de perto o trabalho liderado por Gabriela, então conselheira da Unaids, que conhecera na reunião com Kofi Annan.
Piot, um médico e professor belga premiado por pesquisas científicas e dono do título de barão, concedido pelo Rei Alberto II, havia apoiado a posição brasileira de rejeitar recursos americanos condicionados à condenação da prostituição. Este, aliás, fora um dos temas do encontro com o secretário-geral da ONU. Embora impossibilitada de interferir numa política nacional, a ONU sempre deixou clara a insatisfação diante de ações contra a Aids, como a adotada pelo governo americano, que privilegiam abstinência, fidelidade e, apenas em último caso, a camisinha (a política do ABC – Abstinence, Be Faithful and Condom,
if necessary).
O governo brasileiro, num processo iniciado pelo movimento de prostitutas, vinha de recusar, com grande repercussão, os 48 milhões de dólares da Usaid. E fizera isso em nome de uma política de Estado para Aids, da "parceria histórica" com as prostitutas e da "soberania nacional" – na primeira vez, em décadas, que essa expressão fazia sentido.
Nesse contexto, nada mais natural – e político – do que ver
in loco as mulheres que haviam desdenhado e peitado o império. Foi assim, na Praça Tiradentes, que a comitiva da Unaids, ladeada pelo alto escalão do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, conviveu e conversou, por duas horas, com as ativistas prostitutas brasileiras. E, de quebra, Piot levou para o chefe a edição do alternativo
Beijo da rua, com manchete e foto do histórico encontro de 1º de junho.
Os contornos dessa visita não estariam aqui relatados se não contribuíssem para mostrar o que representou 2005 para Davida e porque a gestação de Daspu era acompanhada sem formalidades e raramente no escritório. Mas, nos bares...
Nos bares, continuamos a nos reunir e nos divertir. Muitas vezes, falamos da grife – "pô, e a Daspu, hein..." –, planejamos alguma coisa, mas logo voltávamos ao cotidiano de tantas atividades. Entre elas, muito nos entusiasmava a criação de um bloco de carnaval.
O fato é que, numa dessas conversas de bar, um ouvido alheio se espichou e registrou algumas palavras. O fotógrafo Marcos Silva, do
Beijo da rua, acredita que isso aconteceu na Taberna da Glória (embora não saiba precisar quando), bar e restaurante que freqüentávamos bastante, como ainda hoje. Perto do escritório, com bom chope e confortáveis cadeiras num amplo calçadão, o local incentiva a expansão.
Outro bar é citado por dois ex-funcionários da ONG, a secretária Ana Maria Cerqueira e o administrador Luciano Alves. O Caçador, chamado pelos freqüentadores de Varanda's, pelo espaço externo na calçada, fica na mesma rua do escritório, a Santo Amaro, no bairro da Glória. Tem cerveja em garrafa, ótimos petiscos, a carinhosa assistência de Marisa e Sol e o inconveniente de elas adorarem a TV ligada bem alto. Daí, a varanda ser o melhor lugar e merecer dar apelido ao botequim. A situação teria sido a mesma, um encontro de fim de tarde em que vários de nós tinham voltado a falar animadamente da Daspu. Essa hipótese ganha força por conta de a calçada ser bem mais exígua que a da Taberna, facilitando o vazamento de palavras para outras mesas.
Palavras que foram, pelo menos e não mais, "Daspu", "grife e confecção", "prostitutas", "ONG", "Praça Tiradentes" e até um tempo verbal do anglicismo "escanear", como se verá adiante.
No penúltimo domingo de novembro, véspera do signo de escorpião, o telefone toca lá em casa. Preocupada, Kátia Monteiro avisa que Elio Gaspari estava noticiando, em sua coluna em
O Globo, o nascimento de uma grife de prostitutas chamada Daspu. A nota, disse ela, não mencionava o nome de Davida e citava o apoio de uma ONG estrangeira.
O jornalão dominical, ainda fechado pela preguiça, se abriu na página exata em segundos. No alto da coluna de ágina ímpar, à direita, estava escrito assim:
Uma nova grife
As moças que batalham à noite nos arredores da Praça Tiradentes, no Rio, tiveram a ajuda de uma ONG escandinava para montar uma pequena confecção onde costurassem suas roupas de trabalho.
A grife das moças vai se chamar Daspu.
Em casa, Gabriela e eu, companheiros de vida e trabalho, entramos em pânico. Roubaram nossa idéia! Deixamos de lado a Daspu, os idiotas, e alguém saiu na frente, sabe-se lá como. ONG escandinava... Que raio de ONG é essa? Vários telefonemas para os colegas, ninguém havia falado nada. Essa era, inclusive, a estratégia institucional. Só iríamos abrir a história quando ela pudesse ser contada, ou seja, quando tivéssemos iniciado de fato a grife, seja em planejamento ou produção. Além do mais, a responsabilidade maior era minha, como assessor de imprensa. E de Gabriela, claro, como dirigente da instituição. E não sabíamos de nada.
O susto não durou uma hora. Toca de novo o telefone, dessa vez o celular de trabalho, e um jornalista do
Dia pergunta: "Você sabe de alguma coisa sobre essa grife Daspu? Quem está fazendo isso, que ONG é essa? Queremos fazer matéria".
Era uma ligação de quem busca uma fonte, ou seja, alguém que possa dar uma informação que leve a um destino, e não de quem chegou ao destino. Como Davida já era muito conhecida por seu trabalho com prostitutas, era óbvio fazer este contato.
Aliviado, leve, lindo e solto, eu disse ao coleguinha que a Daspu era uma criação de Davida e que tampouco sabíamos de nenhuma ONG escandinava. O profissional quis então mais detalhes para a matéria. Quem faz as roupas, desde quando, que roupas são essas, onde estão, dá pra fotografar?
Pedi a ele que voltasse a ligar em uma hora. Só uma puta poderia resolver isso. E aí Gabriela entra em cena. No telefonema seguinte, já havia uma linha completa: "Folia, com roupas de festa; Básica, para o visual do dia-a-dia, e Lingerie, direcionada às prostitutas que trabalham em locais fechados, com direito a peças apimentadas", como publicou o jornal. Enquanto isso, no celular, eu pedia ao Sylvio para criar imediatamente uma marca, com símbolo e logotipo, como deve ser. Em tempo recorde, estava pronta. Aprovada, ilustrou a reportagem de Marcelo Bastos, na página 4 de segunda-feira, 21 de novembro de 2005, do
O Dia.
Pronto. O parto estava feito. Nascida sem pai nem mãe, no susto, mas identificada um dia depois, a grife já podia crescer e ganhar o mundo.
Bem depois de tudo isso, surgiu uma jornalista a dizer que tinha sido a autora do vazamento para a imprensa. Estaria no bar na noite fatídica, teria contado a um colega e este passado a informação ao Elio Gaspari. Como jornalistas não costumam fazer revelações do tipo (isto é, revelar ter passado informação em off), como a pessoa em questão tinha acesso à Davida e bem poderia ter consultado a equipe, e como jamais tomaríamos a iniciativa de inquirir o Gaspari – profissionais de mídia também não revelam suas fontes e têm até proteção constitucional para isso –, a versão careceu de credibilidade e ficou, no máximo, se verdadeira, na conta da vaidade.
Mas uma divertida hipótese sobre a aparição da "ONG escandinava" no texto de Gaspari foi, ainda mais tarde, cunhada pelo imaginativo Sylvio de Oliveira: alguém teria dito, na noite das grandes orelhas, que conhecera uma pessoa que "escaneava" de tudo.
Samba na segunda
A semana começou fervendo. À noite, haveria o segundo ensaio do bloco Prazeres Davida, lançado há três semanas pela ONG, com apresentações justamente às segundas-feiras. Decidimos aproveitar a ocasião para disseminar pelas ruas a criação da grife, até porque a camiseta do bloco, com arte-final pronta, poderia ganhar a etiqueta Daspu rapidamente, ao lado da peça com a marca de véspera já estampada no jornal daquele dia. E foi só mesmo o desenho da estampa do bloco reproduzido em papel (o da marca da grife não apareceu) que os espantados freqüentadores viram de Daspu. Bem, e o recorte do
Dia, que passava de mão em mão e já tinha sido lido por muita gente.
Ao mesmo tempo, com muitos foliões na principal rua de batalha da Praça Tiradentes, a Imperatriz Leopoldina (a coluna de Ancelmo Góis, do
Globo, havia descoberto o bloco e publicado nota sobre o ensaio), tentamos traçar, em meio a samba, suor e cerveja, uma estratégia-foguete para a grife. Já tínhamos nome, boa repercussão e apenas desenhos de duas (futuras) peças. Era preciso produzir, até porque a imprensa continuava interessada na Daspu, o bloco também estava se tornando conhecido e os carnavalescos já queriam comprar suas camisetas.
A única decisão tomada, lembra o então administrador de Davida, Luciano Alves, foi de investir na produção de camisetas do bloco, que teriam boa saída. Mas não havia dinheiro na instituição para este fim, e a grana foi adiantada por Gabriela: 500 reais. "O dinheiro das primeiras vendas foi reaplicado em novas camisetas e algum tempo depois acertamos a dívida com ela", conta. O problema era encontrar um bom e ágil fornecedor, já que, em finais de ano, há muita demanda por camisetas promocionais e as estamparias estavam lotadas de serviço. "A gente estava envolvido com os outros projetos da ONG, não tinha tempo, não tinha fornecedor, não tinha equipe especializada e já pressentia uma enorme demanda", recorda Luciano.
Naquela mesma segunda-feira, pela manhã, tínhamos recebido ligações da
Folha e da
IstoÉ. O repórter Francisco Alves Filho, da revista semanal, veio à sede da ONG na terça-feira. O fotógrafo Renato Velasco clicou e a revista publicou, no fim-de-semana seguinte, a única foto possível. Gabriela segurando dois papéis A4, um com a imagem da marca e outro com a arte-final da camiseta do bloco, já oficializada como peça da grife.
A reportagem da Folha, apurada por telefone, não destacava a Daspu, e sim a participação das prostitutas no processo de revitalização do Centro histórico do Rio. Mas citava a nova grife e se tornaria fonte importante para a Daslu atacar a suposta concorrente. Isso porque o repórter escreveu, de punho próprio e sem citar ninguém, que "o nome é uma brincadeira com a milionária loja de São Paulo".
Ainda era quarta-feira 23, e o bebê Daspu, com apenas três dias, já recebia muitas visitas e não tinha sequer uma peça de roupa para recebê-las, já que a decisão tomada no samba não frutificara tão rápido. Decidimos então produzir em
transfer (método rápido de impressão) uma camiseta preta com a marca. Ficou pronta no dia seguinte e virou objeto de adoração entre nós.
Nisso chega um e-mail do
Fantástico, programa assistido por 40 milhões de pessoas. No contato seguinte, por telefone, a produtora Bia Rónai me disse que estava pautada para fazer matéria sobre a Daspu com um desfile exclusivo. Contei toda a história, disse que ainda estávamos produzindo peças e consegui adiar a reportagem para a semana seguinte. Agora não tinha mais jeito. Depois de tanto esconder a gravidez, o nascimento nos obrigava a tomar outras providências além da primeira roupinha.
Convocamos – a iniciativa é atribuída a mim – todas as mulheres de Davida, e os homens também, pedindo que trouxessem idéias e modelitos inspiradores de casa. Na base do mutirão esperávamos ter, alguns dias após esse encontro de sexta 25, algumas peças de roupa. Imperalina Piedade da Silva, a nossa Lina, foi fundamental nessa hora. De todas as prostitutas, era a única que sabia costurar.
Em casa, ela produziu uma minissaia coral com top preto, um vestido lilás colado no corpo com o símbolo da grife pintado na frente, dois vestidos decotados e uma comportada camisolinha vermelha com fru-fru no decote e na bainha. Esta peça foi inspirada num presente de cliente em 1976, quando Lina estava grávida, batalhando na rua Machado Coelho, antiga Zona do Mangue. "Eu estava de barriga e trabalhei os nove meses com ela", lembra. A maior diferença entre uma camisola e a outra era que, na dos anos 70, estava escrito na frente: "Toda hora é hora". Essas peças-piloto nunca foram produzidas em série e se tornaram acervo museológico da ONG.
Daslu x Daspu
Terminamos aquela semana e começamos a outra só pensando em moda. Mas Gabriela e eu tínhamos compromisso em Curitiba, um seminário de prostitutas promovido pela associação local, o grupo Liberdade. Por isso, na segunda-feira 28, chegamos ao escritório de mala e cuia, para embarcar à tarde. Antes de sairmos para o aeroporto, um cidadão de algum cartório, bem arrumado, mas sem paletó e gravata, adentrou o longo corredor da casa perguntando se a ONG Davida era ali. Diante da afirmativa, sacou da pasta uma notificação extrajudicial, datada de 24/11 e assinada pelos advogados da Daslu. Eles escreviam, em resumo, que se Davida não desistisse de usar o nome Daspu em dez dias, seria processada pelas sonegadoras paulistanas (claro, essa última parte não estava lá). Também se referiam à "brincadeira" publicada pela
Folha e nos acusavam de – atenção ao verbo – denegrir o nome da multimarcas. Levamos outro susto, mas sacamos, imediatamente, o que aquilo poderia significar. E, de novo, sorrimos. Em seguida, contatamos nosso advogado. Conta, Gabriela:
A notificação dizia que a gente estava "denegrindo" – era esta a palavra que eles usavam – o nome da Daslu. Porra, eles que sonegam e a gente que denigre eles? Aí fiquei muito brava, estava de mala, porque ia viajar para Curitiba, e pedi ao Flavio para ligar para o nosso advogado. Mas todo advogado é muito prudente num primeiro momento, e o Marcelo Turra – fiquei com uma raiva... – falou que a gente devia parar de usar o nome. Fui para o aeroporto, estava muito brava, não vamos parar de usar, não vamos, não vamos. Aí, em Curitiba, eu e Flavio decidimos passar a notificação para a imprensa. Poucos dias depois saiu a nota "Daslu X Daspu" na coluna Gente Boa, do
Globo, e foi um pandemônio. Toda a imprensa ficou do nosso lado na história.
A nota de jornal saiu em 1º de dezembro, quinta-feira, dia em que voltamos ao Rio. Na própria quinta, o
Fantástico voltou a ligar. Depois da ameaça da Daslu, a pauta estava mais firme do que nunca, com mais tempo, seriam vários minutos de matéria. E era para domingo, dali a três dias, com gravação já na sexta-feira.
Avaliamos a situação. Imperalina havia levado uma máquina de costura para o Davida, a fim de acertar no corpo das manequins as peças que havia montado em casa, sem as medidas das colegas. Havia também uma segunda máquina, transportada gentilmente pelo pai da secretária Ana Maria, que lembra da dificuldade dele para cruzar o corredor de sete metros da porta da casa às salas de Davida, por conta do congestionamento de jornalistas. O fato é que, estimulados por todo aquele auê, tomamos coragem. Decidimos apresentar na Globo os já famosos, mas desconhecidos, modelitos Daspu.
Na sexta, nos Arcos da Lapa, debaixo de chuva fina, as imagens foram produzidas. As prostitutas Val Pereira, Jane Eloy, Maria Nilce e Juliana de Freitas, uma bela paranaense que decidira conhecer o Rio e a Daspu depois do evento em Curitiba, mostraram o que todo mundo queria ver. Muito feliz, Imperalina apenas acompanhou a produção, recompensada pelo esforço.
Mais cedo, no escritório, o
Fantástico gravara as dasputinhas sendo maquiadas e penteadas amadoristicamente, entre estantes, livros e mesas, e Gabriela dera entrevista com a primeira e única camiseta.
Na mesma sexta, outro produto – e não era peça de roupa – havia ficado pronto: o site
www.daspu.com.br, com loja virtual para venda de roupas. Entrou no ar recebendo milhares de visitas, enquanto, ao e-mail
daspu@daspu.com.br, chegavam 400 mensagens por dia. O site foi criado a toque de caixa, de novo, Sylvio – voltando afinal a sua função original, de web designer.
Ainda neste dia de louco,
O Globo ligou para saber se íamos ou não manter o nome. A decisão estava tomada – depois de outras conversas com o advogado –, e o diário deu este título num alto de página no sábado: "Grife de prostitutas Daspu não abrirá mão do nome".
No domingo, bom, no domingo, ninguém é de ferro, combinamos uma festinha para assistir ao Fantástico, na casa do Sylvio, em Copacabana. Com imagens do desfile Daspu nos Arcos da Lapa e do prédio-monstro da Daslu, a reportagem, além de lembrar o imbróglio jurídico e policial da megaloja paulistana, cortava de Gabriela para o advogado VIP das grã-finas e vice-versa, com os respectivos argumentos contra e a favor do nome Daspu. Mas a última tomada foi com ela, e definitiva: "Quero deixar bem claro que a palavra DAS é uma palavra da língua portuguesa, não é de propriedade de ninguém. O PU é nosso, é da nossa profissão".
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