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As mulheres preferem os tolos ? □&059;&059&059; SIM □&059;&0
 
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mauro rosso, Petrópolis (RJ) · 8/3/2010 · 55 votos · 1
pelo 8 de março, uma machadiana enquete Machado de Assis, em 1861, dizia que sim – pelo menos desse modo vaticinava em seu primeiro livro publicado ,que tinha por título exatamente Queda que as mulheres têm para os tolos-- obra que,cheia de peculiaridades anunciava e antecipava o contista e romancista que viria depois.
[ bem, a la Machado, com suas marcas de dissimulação, mistério, subterfúgio, em toda sua obra, podia tratar-se não de uma criação original, já que a capa do livro informava “uma tradução do snr. Machado de Assis”(sic),sem no entanto estampar o nome do (pseudo) autor ; só que todas as especulações, análises e reflexões,polêmicas à parte, apontam para o dedo machadiano na originalidade da obra, uma vez que muitos elementos de sua ficção estão aí nesse texto pioneiro, antecipador e anunciador do que viria depois, em contos e em romances, quanto à temática, o elenco dramatúrgico, o estilo, a linguagem, a forma literária,e em especial a estratégia machadiana do subterfúgio e da dissimulação ].
São muitos os elementos por meio dos quais Queda que as mulheres têm para os tolos prenuncia, integra-se e intertextualiza-se com diversas obras machadiana . Uma das mais importantes é saber que a tríade tolo -- mulher --homem de espírito permeia a ficção machadiana, sob uma teia dramatúrgica presente em contos e romances ao longo do tempo e da evolução literária de Machado ,transportada a 'ideologia' desse livro iniciante para muitas das obras posteriores. A trindade tolo – mulher- homem de espírito -- habita intensamente a maioria dos contos do ciclo 1860 -79 , está nos romances Ressurreição, A mão e a luva e Helena , anuncia-se em certa metamorfose na transição representada por Iaiá Garcia, transmuta-se inteiramente em Memórias póstumas de Brás Cubas e em Quincas Borba , reaparece sob enfática perspectiva em Dom Casmurro (o tolo personificado em Bentinho), por fim chega a seu ocaso nos derradeiros romances Esaú e Jacó e Memorial de Aires, neste a seara da redenção total da mulher machadiana(protagonizada por Carmo), definitivamente apartada da preferência pelo tolo ao invés e em vez do homem de espírito.
Os tolos – para quem as mulheres têm acentuada queda (pelo menos no início...) -- são, via de regra, estroínas, praticam as fórmulas socialmente estabelecidas, sua linguagem assemelha-se à retórica romântica dos folhetins, ostentam autoconfiança, são determinados e objetivos nas ações afetivas, até mesmo fingindo sentimentos e aparentando paixões com o fito exclusivo de conquistar a mulher. Exatamente ao contrário dos homens de espírito, que fracassam e são excluídos por não se coadunarem com os padrões de postura, convenções e relacionamento sociais e por acreditarem numa vida além e acima do jogo estratégico de aparências falsas e artificiais – mas saibam que , numa espécie de aprendizado pelo fracasso, irão amadurecer,assumir uma atitude de reflexão sobre a "realidade aética da vida" vis-a- vis com a desilusão com as possibilidades da vida moral e transmutar-se no cético.
A transformação do homem de espírito se dá no cenário das metamorfoses processadas na criação ficcional machadiana. Não obstante o ‘aviso’ dado em Queda... , alertando para o insucesso do romanticismo, praticado em diferentes níveis e objetivos, Machado indica, nas obras iniciais, o amor romântico como solução -- embora o narrador insinue ser um meio ingênuo – para depois trilhar caminhos mais audaciosos, o casamento por interesse ou conveniência como forma de ascensão social (tema presente nos três primeiros romances e na maioria dos contos no decênio 1860-70) passando a ser não apenas um empecilho à concretização desse amor romântico -- o casamento como elemento da razão, o amor como expressão do sentimento -- mas a mola propulsora da destruição, o problema deixando de ser visto dentro dos termos de relações de classes e passando a ser encarado sob a ótica mais ampla e universal da própria condição humana . Não por acaso em 1871 -- e este é um ano extrema e significativamente marcante na história brasileira do século XIX e na própria historiografia literária -- Machado começa a apontar para o superficialismo das relações humanas, as pessoas (homens e mulheres) tendo de viver sujeitos a valores sociais que lhes são impostos e dos quais somente poderão se libertar com mudanças radicais de consciência, de atitude e de atos, dando início a um processo de reflexão que será plenamente desenvolvido nas obras posteriores – processo que o autornarrador protagoniza no homem de espírito-personagem, que passa do alheamento e distanciamento,da desesperança e da desilusão às gradativas adaptação e interação com a realidade , daí assumindo postura reflexiva e consciente, por fim transformando-se no cético – schopenhaueriano(de Schopenhauer), mas também e principalmente shandiano e menipéico que habita a obra machadiana pós-1880. Ceticismo que é o fundamento da ficção machadiana, o desenvolvimento progressivo e cronológico da perspectiva cética delineando os caminhos (e atalhos) da própria evolução literária de Machado.
No entanto, se o homem de espírito muda, amadurece, estabelece nova relação com a mulher, recusando terminante e objetivamente aquelas que fingem e ostentam, o tolo continua com sua frivolidade e estoicismo, servil das convenções sociais e atado ainda à retórica romântica. Nesse momento -- estamos no citado ano de 1871 -- o pano-de-fundo histórico-literário se altera, o Romantismo hegemônico no II Reinado está em vias de extinção, anuncia-se o Naturalismo, o cenário político-social aponta para outros horizontes : o próprio Império dá sinais de fragmentação e derrocada,vivencia-se um período de forte turbulência,ebulição e complexidade, avizinham-se a abolição e a república. O macro-universo do entorno se transforma, o micro-universo literário deve acompanhá-lo: Machado pressente os novos tempos, convence-se da necessidade crucial de mudança, já exercita os primeiros passos do grande salto que virá no final dessa década, altera seu enfoque, sua temática,sua linguagem,seu estilo, sua estética literária – a começar pelos novos perfis dados a dois dos vértices do triângulo.O homem de espírito caminha da contemplação para o ceticismo, a senhorinha ingênua, amoradeira,festeira,‘casamenteira’(por interesse ou conveniência) cede lugar,primeiro à mulher matrimonial (por sentimento ou segurança),voltada para a vida íntima, para “a paz doméstica”,tornando-se depois – pelo rompimento gradativo dessa paz e a fragilidade dessa vida doméstica –vulnerável à “vida exterior”,desejosa de ascensão social,“estratégica”,dual, determinada,forte, paradoxal,adúltera , culminante na obliquidade e dissimulação da incerta Capitu .
A ‘nova’ mulher machadiana deplora a frivolidade do tolo e passa a se inclinar para o homem de espírito. Machado, como supremo criador, atento e obediente aos ditames sociais-‘ideológicos’ dos novos tempos, interfere no processo: o que o homem de espírito não logrou – modificar a natureza das mulheres – o autor/narrador faz, porém mantendo tanto a “vulgaridade dos tolos” quanto a natureza“aética”da vida social . Porém, como sempre fez em toda sua obra ficcional, o narrador onisciente e onipotente que modifica a mulher e o homem de espírito abre mão de suas ‘prerrogativas’, convoca o leitor à acurada reflexão sobre a preferência da mulher – quer a antiga quer a atual – e deixa-lhe a responsabilidade do julgamento conclusivo. A ele cabe dizer afinal o que pensam/querem as mulheres.
A la Machado, é o que fazemos aqui.
Com ‘interferência’ ou não do narrador/autor, por determinação ou não do ficcionista criador, por deferência ou não do narrador machadiano, por imposição ou não dos novos tempos dentro da história brasileira, vale dar-se como certo que a mulher machadiana chegou ao século XX declinando de sua preferência pelo tolo em prol de maior ‘atenção’ para com o homem de espírito.
E como se comporta hoje, a mulher brasileira do século XXI ? Nestes tempos de distorção de sentimentos, massificação, vulgarização e banalização generalizadas, culto a celebridades, exposição massiva e derrocada de valores, de uma sociedade cada dia mais do espetáculo, da imagem, da autopromoção, do representado, e não do real, do que parece, e não do que é, de alienação e falsificação da vida, estará a mulher moderna tendente a desprezar (outra vez) o homem de espírito e sedimentar uma queda pelo tolo ?
Com a palavra, mulheres e homens.

Mauro Rossoautor, entre outros livros, de Contos de Machado de Assis : relicários e raisonnés (2008), Machado de Assis e a política : crônicas (pelo Senado Federal- no prelo); idealizador e organizador do conjunto digital contos de Machado de Assis em chaves temáticas, in GerminaLiteratura,2008 [www.germinaliteratura.com.br]



tags: Petrópolis RJ artes-plasticas


 
Com a palavra, homem!

Marcel Franco · Belém (PA) · 9/3/2010 12:31
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