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ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO: O ILUSTRE DESCONHECIDO
 
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Marcilio Medeiros, Aracaju (SE) · 9/3/2009 · 125 votos · 7
reprodução
Manto da Apresentação, de Arthur Bispo do Rosário
No ano em que se comemora o centenário de nascimento e vinte anos de sua morte, espera-se que o Brasil promova uma programação digna da obra artística de Arthur Bispo do Rosário. Espera-se, principalmente, que Sergipe, seu estado natal, faça a sua parte.

Este artigo, estruturado em duas partes, cuja primeira você lê agora, é uma pequena contribuição nas iniciativas alusivas à data.

Arthur Bispo do Rosário é considerado pela crítica um dos principais artistas brasileiros do século XX, saudado nacional e internacionalmente, mas apreciado por um público ainda restrito a intelectuais.

Um dos motivos mais significativos para o reconhecimento de sua importância é que Bispo do Rosário foi um artista de vanguarda, de forma absolutamente intuitiva, sem receber qualquer treinamento técnico, conviver com outros artistas, ler livros especializados ou frequentar espaços de arte.

Começou a produzir, de forma praticamente ininterrupta, a partir dos anos 40, e nesse trabalho incluiu elementos pop, movimento estético que só surgiria na Inglaterra por volta da década de 1960.

Sua genialidade expressa-se na forma como trabalha os elementos, os novos suportes utilizados, a configuração contemporânea de sua arte, a harmonia do conjunto das peças.

Arthur Bispo foi redescoberto a partir do trabalho do crítico Frederico Morais na década de 80, que organizou uma exposição e lançou uma possibilidade de compreensão e sistematização do conjunto da obra. Todavia, Rosário é desconhecido pela maioria do público brasileiro e, curiosamente, também em sua terra natal, Sergipe.

Pode-se pensar, afinal, que muitos grandes artistas plásticos são desconhecidos do grande público no Brasil, pelas características da formação e desenvolvimento educacional da população do país. No caso de Rosário, o que surpreende é que sua obra seja fácil de agradar qualquer observador.

Isso se deve a presença de um forte resultado lúdico nas peças, pelo colorido, formas, referências e pelos brinquedos que elaborou. Ademais a utilização de materiais e objetos do cotidiano possibilita que o apreciador se identifique.

Após o impacto inicial das primeiras exposições, foram escritos artigos, ensaios e trabalhos científicos diversos. Bispo do Rosário virou livro, peça de teatro e vai virar filme este ano, pelas mãos do cineasta Geraldo Motta. Muito ainda terá que ser feito para revelar a grandiosidade de sua produção artística.

NEGRO, POBRE, LOUCO

Arthur Bispo do Rosário, nasceu em Japaratuba – SE, no ano de 1909 (ou 1911, não se sabe ao certo), descendente de escravos africanos.

Em 1925, muda-se para o Rio de Janeiro e torna-se marinheiro. Foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe na categoria peso leve pela Marinha.

Em seguida, passa a trabalhar na Light, empresa carioca de fornecimento de energia, e como lavador de bonde e borracheiro. Sofre um acidente de trabalho e resolve ajuizar uma ação contra a empresa, ocasião em que conhece o advogado Humberto Leoni, que passa a representá-lo na demanda judicial.

Começa a trabalhar na casa do advogado, como empregado doméstico, fazendo serviços diversos e residindo no local.

Na noite de 22 de dezembro de 1938, procura o patrão motivado por alucinações que lhe diziam que deveria apresentar-se à Igreja da Candelária. Peregrina pelas ruas, dirigindo-se a várias igrejas. Por fim, chega ao Mosteiro de São Bento, onde declara aos monges ser um enviado de Deus, incumbido da tarefa de julgar os vivos e os mortos.

É preso como indigente e demente, sendo conduzido ao Hospital dos Alienados, um hospício situado na Praia Vermelha. Um mês depois, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, no bairro de Jacarepaguá, onde permaneceria por cerca de cinqüenta anos.

Foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranóide - que é um dos quatro tipos principais dessa patologia -, caracterizada pela ocorrência de visões, alucinações, sentimentos de perseguição e em que é comum o doente escutar vozes (FRANÇA, 2007).

A partir desse período, começa a produzir seu trabalho artístico, motivado por um pedido de Deus para que reconstruísse o universo e registrasse a passagem divina pela terra.

Aí, começa a história de Bispo do Rosário como artista plástico.
Estima-se que elaborou cerca de 1.000 peças, que permaneceram como propriedade da Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, hoje desativada comoo instituição manicomial e transformada no Museu Arthur Bispo do Rosário.

Bispo faleceu em 1989.

Veja obras do artista aqui

REFERÊNCIAS


* FRANÇA, Genival Veloso de. Medicina Legal. Rio de Janeiro: Guanabara, 2007.



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Marcílio, parabéns pelo texto. Bom ver este resgate das figura e do Trabalho genial do Bispo do Rosário.
Abraço,
Viegas

Viegas Fernandes da Costa · Blumenau (SC) · 8/3/2009 13:50
Viegas,
conhecer a obra do Bispo foi um alumbramento.
pela grandiosidade, qualquer homenagem será pouca.
obrigado.
abraço

Marcilio Medeiros · Aracaju (SE) · 9/3/2009 01:00
Marcílio,

Sem medo de cometer um exagero, afirmo que Bispo é um paradigma para as artes plásticas brasileiras, não só por tudo que você coloca analisando a fantástica obra dele do ponto de vista tecnico, artístico enfim.

É que a condição social - e porque não dizer racial - deste artista tem sido também, sejamos francos, uma barreira a mais na saga pelo reconhecimento da excelência de seu trabalho, condição sócio racial esta que, evidentemente encerra uma série de questões estéticas, muito caras a afirmação das artes plásticas de expressão brasileira.

Muitos imaginam que a loucura, o fato de sua genialidade artística ser fruto da sua falta de razão, seja o empecilho mais importante, uma alegação frágil já que razão não é exatamente um atributo essencial à arte.

Bispo e as restrições de alguns ao seu trabalho evocam isto sim, e fortemente a saga de alguns artistas brasileiros do mesmo modo que ele, em certa época, excluídos e rejeitados como o foi Lima Barreto por exemplo.

Portanto, viva Bispo, o inventariador de todas as coisas do mundo!

Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 10/3/2009 10:15
Spirito,

Seu comentário é preciso.

Não tenho dúvidas que Bispo é um paradigma e que a questão social e racial tem seu peso. A sociedade brasileira - o Narciso que não quer se ver no espelho - tem que enfrentar e extirpar muitos preconceitos e fantasmas, e a arte não está imune a eles.

Loucura e delírio são habitat recorrente do fenômeno estético. A genialidade de Van Gogh não é posta à prova, com fulcro em sua doença mental.

Não vi, este ano, qualquer referência na imprensa sobre a comemoração da data do centenário (Alguém sabe a respeito?)

Apesar disso, viva Bispo do Rosário sempre.

Vem aí a segunda parte do artigo...

Marcilio Medeiros · Aracaju (SE) · 10/3/2009 22:26
Marcílio:
Parabéns!
Gosto muito do Arthur Bispo do Rosário.
O artigo é precioso.
Lido, votado e comentado.
Abs
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 17/3/2009 22:48
Gustavo,
fico contente que tenha admiração pelo Bispo e agradeço
o apoio.
abs

Marcilio Medeiros · Aracaju (SE) · 18/3/2009 13:34
O outro artigo sobre Bispo do Rosário está aqui

Marcilio Medeiros · Aracaju (SE) · 6/4/2009 23:39
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