Ana Paula Fanon:Quando você percebeu sua sensibilidade artística?
Alzira Rufino:Aos sete anos minha professora me incentivou a escrever as minhas composições em formato de Diário. A palavra escrita é a minha arma para desafogar as minhas angústias, alegrias e desejos. Gosto mais de compor poesias; também escrevo prosa, na forma de ensaios e artigos para jornais. Atualmente estou me dedicando a escrever sobre economia sustentável.
APF:O que significa a poesia na sua vida? ]
AR:É a minha válvula de escape. Não sei se sobreviveria se não houvesse a poesia na minha vida. Sempre gostei da palavra escrita.
Ana Paula Fanon:Você acredita que esta crescendo o número de poetisas negras?
AR:É muito difícil ver livros publicados sobre Poesia. As pessoas que continuam publicando no QuilombHoje e na Editora Mazza são as mesmas pessoas da minha geração, com raríssimas exceções.Da nova geração de mulheres que integram a Juventude Negra não conheço.Se existe não divulgam , quem sabe está trancado na gaveta esperando uma Editora?O mercado editorial não se interessa por esta forma de literatura. Enfim, se a juventude não utilizar as ferramentas da internet para divulgar suas idéias ninguém irá saber que existem.Quando lancei a Campanha do Especial Literário para divulgar as negras anônimas foi um sucesso.Publiquei todos os poemas,contos , mini contos e crônicas na Revista Eparrei.A gente faz o possível, o impossível demora um pouco mais.
APF:Quais são seus escritores e escritoras preferidos (as)?
AR:Carolina de Jesus, Mia Couto, Solano Trindade, Èle Semog, Toni Morrison e Alice Walker.Leio Conceição Evaristo e gosto de alguns poemas da Elisa Lucinda.
APF:Nós mulheres negras estamos subvertendo na literatura ou a nossa presença ainda é muito tímida neste espaço?
AR:É sim, bastante tímida. A mulher negra precisa escrever mais e se auto divulgar.Não se esqueça que ninguém está interessado em divulgar mulheres negras.O mercado editorial precisa evoluir o pensamento ,a nossa gente precisa se apropriar e colocar em prática a sua capacidade intelectual.Pessoas que se dizem intelectuais ainda possuem introjectado no inconsciente coletivo a ideía de que mulher negra não reflete e não sabe escrever.Me incomoda ,me irrita muito mulheres negras com poder na comunicação não fortalecer as mulheres negras.Me indigna intelectual racista me dizer o que deveria e como escrever.Escrevo o que eu quero da forma que entendo a realidade e ponto final!
Com o advento da Lei 10639 temos visto muitas escritoras na área pedagógica em algumas editoras. Ainda é tímida, os intelectuais brancos (os) se apropriaram da escrita e na maioria das vezes utilizam-se do pensamento das pedagogas negras e saem na frente ,elas e eles estão aí dominando o mercado.As pioneiras que escreviam sobre a temática antes da lei estão relegadas a segundo plano em matéria de divulgação e distribuição, quase sempre muito limitada. Quando alertava sobre isso me chamavam de radical. Elas estão aí com seus Blogs, com Portais etc.
Na hora de concorrer com negras na literatura para publicação todo mundo tira “o bisavô” do armário.
APF:Pretende publicar mais livro de Poesias?
AR:Tenho material para inúmeros livros de poesia. Como sou uma produtora independente não procuro grandes editoras porque tenho meu público garantido e teimo em não mudar a minha linha de pensamento.Você poderá constatar que sou a escritora negra que mais vende para negros,principalmente para mulheres.Consegui desenvolver uma linha de pensamento sem estar presa a normas acadêmicas, creio ser daí o diferencial e de estar também sendo estudada no ensino básico,médio e no círculo universitário .Segundo a crítica especializada seria devido esta diferença em olhar o cotidiano, também de forma poética.Minhas pausas refletem a forma como respiro.Não me importo nem um pouco com certas formas acadêmicas.Não sei seguir fórmulas, porém, isso não significa que as pessoas não entendam o que escrevo,se assim fosse, não comprariam.Não tenho problemas com auto estima.
APF:Qual seu posicionamento em relação à política editorial no Brasil, uma
vez que na marioa das vezes é difícil publicar nas grandes editoras a produção literária afro-brasileira?
AR:Quando quis publicar meu primeiro livro, aqui no Brasil nenhuma grande editora se interessou.Juntei dinheiro e parti para a produção independente.No início escrevi gratuitamente sobre a questão da mulher negra e da Violência Doméstica como forma de denúncia do que acontecia no Brasil e no mundo.Hoje, constato que não foi em vão.
Editoras não possuem interesse mesmo. Para eles,(as) negros não vendem porque acreditam que apenas negros devem ler o que negras (os) escrevem.Concordo que enquanto a comunidade negra não parar com esta linha do miserê, do me dá, me dá, nada avançará.Existem livros com preços acessíveis , ainda prevalece a política entre algumas pessoas de só ler o que recebe gratuitamente.Escritora negra também precisa sobreviver..
Eu não dou, vendo,até entrevistas para jornais eu cobro.Preciso sobreviver e ajudar os meus iguais .Invisto primeiraamente em mim (alimentação,vestuário,locomoção etc, etc.)e tudo o que faço ganho com a minha produção intelectual,contabilizo em doações para o depto de educação da CCMN para manter nossos periódicos.Mais de 50% da geração de renda da CCMn vem da contribuição do meu trabalho voluntário.Atualmente estou investindo em capacitação de garotas em novas tecnologias, como a digital. São 05 talentos que mantenho com minha produção independente, e, digo com muito orgulho 03 meninas negras órfãs e pobres da Baixada Santista na Faculdade e outras duas filhas de vó, uma no Mestrado e outra no Doutorado no exterior. São garotas negras compromissadas com a questão racial e tenho certeza que farão a diferença .
Como sempre digo, sou uma pessoa que naõ tem medo de investir no escuro(risos).Dou sempre o primeiro empurrão e o restante cada uma deverá fazer a sua parte.
Quem sabe quando eu estiver com mais idade possa vir a usufruir dos meus dividendos em meu benefício para uma velhice digna. Eu mereço!
APF: O que você pensa sobre a relação mulher negra, escrita e literatura?
AR:Creio que a somatória das respostas acima responde.
Reflexos
Apropriar-se do meu DNA
Acordo, durmo.
Escovo os dentes.
Apropriar-se dos manuscritos de ontem.
Fazer releituras ...
Apropriando- me da realidade dos rebanhos
Leituras em determinados momentos com a ferramenta possível.
Horizontalizo.
Me refaço no meu espelho diário.
Aproprio-me dos fenômenos que mudam o destino ,com olhos e face de produção caseira.
Aproprio-me da minha identidade, metas que aguardam mudanças não só para diversão.
Aproprio- me da humanidade que me surpreende.
Aproprio-me do calor do útero finalizando a produção.
Aproprio-me do fazer e refazer as malas
Aproprio-me da liberdade de me dar voz de prisão e ordem de recolher para o meu cérebro e sentidos.
Apropriar-se do aceitar esse corpo carrasco que no suor do meu corpo transpira pensamentos.
Visitem:http://www.casadeculturadamulhernegra.org.br/
tags: Salvador BA entrevista poesiamulhernegraleituraliteratura