Publicado originalmente por Zuenis Ventura em 01/10/2003.
José Junior repassa no livro "Da favela para o mundo" os dez anos do movimento social e cultural que criou e transformou num dos mais importantes do país.
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Nas muitas vezes em que se falavam ao telefone ou se encontravam, Waly Salomão fazia para José Junior uma pergunta recorrente: "Cadê esse livro?". Dita com aquela impostação nada comedida do poeta baiano, a frase era um estímulo-cobrança para que o coordenador-executivo do Grupo Cultural Afro Reggae realizasse o desejo de pôr no papel a bem-sucedida história do movimento que criou. O livro saiu agora em setembro, chama-se "Da favela para o mundo", e ganhou uma bela edição da Aeroplano com apoio do Instituto Takano. O prefácio é de Zuenir Ventura (
o texto está no pé desta matéria). Mas Waly, um dos maiores incentivadores do GCAR, não está mais aqui para ver. Sua morte em maio fez dele o grande homenageado do livro e confirmou a crença de Junior de que, na vida, destruição e construção andam sempre juntas.
Afinal, o Afro Reggae começou a ser gerado por causa de um conflito: o "arrastão de Ipanema", uma grande briga na praia entre as galeras de Vigário Geral e Parada de Lucas, em outubro de 1992, que teve como resultado uma onda de pânico na cidade e a proibição de bailes funk. Junior, os irmãos Plínio e Plácido Pascoal e outros que foram se agregando à idéia resolveram fazer uma festa reggae como resposta dançante à situação. Depois da Rasta Reggae Dancing veio, em janeiro de 1993 (marco inicial do GCAR), o jornal "Afro Reggae Notícias", crescendo a partir daí o, digamos, olhar social do pequeno grupo. Com a chacina de Vigário Geral, em que 21 inocentes foram assassinados na noite de 29 de agosto, este olhar não encolheu mais. Com seu trabalho na favela de Vigário Geral, o Afro Reggae acabou alcançando muitas outras partes da cidade e sendo conhecido em outros países.
"A vida da comunidade melhorou muito em Vigário com o trabalho do Afro Reggae, e até indiretamente, porque tem gente que não é do grupo mas se sente ligada a ele, age como as pessoas do grupo", diz Junior, 35 anos, cujos planos já há muito tempo não se restringem a Vigário Geral. "Somos uma organização não governamental de todo o Rio. Já estamos também em Cantagalo e Parada de Lucas, e queremos ajudar a fortalecer movimentos surgidos nas comunidades. Não adianta espalhar Afro Reggaes por aí", complementa, fazendo referência a uma idéia da Prefeitura que recusou.
Mas a frase de Junior não significa, de forma alguma, falta de ambição. O Afro Reggae tem hoje 13 subgrupos: oito bandas (a começar pela AfroReggae, grafada assim só para se diferenciar do GCAR), duas trupes de circo, uma de teatro, um coral e um grupo de dança, todos formados por pessoas saídas de comunidades carentes. Ainda tem, entre muitas outras ações, dois programas de rádio e o evento Conexões Urbanas, que leva artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Adriana Calcanhotto e Skank a áreas da cidade tidas como extremamente violentas por causa do tráfico de drogas. "Durante os dez dias em que preparamos o show do Gil na Vila do Pinheiro, a guerra parou na favela. Hoje nós podemos entrar em qualquer favela do Rio sem pedir licença. Há um respeito pelo nosso trabalho", orgulha-se Junior.
No momento, por exemplo, o Afro Reggae está implantando um Centro Multimídia em Parada de Lucas, cujos traficantes voltaram a se confrontar com os rivais da vizinha Vigário Geral. Amparado por muitas vitórias nos últimos anos e pelo próprio temperamento, Junior não cede diante da violência crescente. "A violência aumentou mesmo, mas a cidade está menos partida", diz, referindo-se à expressão criada por Zuenir Ventura.
Se depender dele e do Afro Reggae, vai ficar cada vez menos partida. Para o livro "Da favela para o mundo", Junior pôs para conversar na sala de sua casa um traficante do Comando Vermelho e outro do Terceiro Comando. Ele conta que os dois saíram amigos do encontro, e um deles até trocou o tráfico pelo GCAR. As oficinas de percussão que são dadas em presídios e favelas acontecem exatamente da mesma forma em lugares de classe média e alta como a casa de shows Ballroom. Subgrupos do Afro Reggae têm feito apresentações em diversas partes da cidade, não se restringindo às áreas carentes. E o próprio Junior tem andado entre barracos e coberturas, levando para almoçar em Vigário Geral, por exemplo, um grupo de socialites encabeçado por Narcisa Tamborindeguy.
"Não se fecha conversa com ninguém", explica o pragmático Junior, que tem bom trânsito entre políticos de diversas correntes, da esquerda do PT ao prefeito César Maia, do PFL, passando pelo grupo de Anthony Garotinho, agora no PMDB. Ele conta que, quando a banda AfroReggae foi chamada para participar do antigo Free Jazz Festival, pôs o convite em discussão com os coordenadores do movimento, mesmo sabendo que a associação com bebidas e cigarros é proibida no GCAR. "Eles rechaçaram completamente. Eu criei a norma, mas agora ela é do grupo", diz ele, que neste ano pôde aceitar o convite do Tim Jazz Festival, já que contra celulares não há nada.
Esse "a norma agora é do grupo" é uma maneira de Junior tirar um pouco das costas a fama de centralizador e autoritário. "Eu já fui muito, mas estou deixando de ser aos poucos. Já estou há cinco dias em casa, por exemplo, compondo as músicas do segundo disco do AfroReggae, que sai em 2004. O que eu preciso é estar a par de tudo", afrouxa/aperta ele, que não contesta a imagem de "fundamentalistas" que têm os líderes do Afro Reggae. "No grupo a bebida é proibida porque a gente viu muito na nossa infância pais batendo em mulheres e crianças. O que mais se encontra na favela não é drogado, mas bêbado", explica Junior, que, de família de classe média baixa, não cresceu em favela, embora tenha enfrentado muitas dificuldades.
Drogas também são algo completamente proibido no Afro Reggae, cujo objetivo principal é exatamente tirar crianças e jovens do tráfico. "Ganhamos mais do que perdemos até hoje", estima Junior, pondo na balança aqueles que desistiram do grupo para voltar ao tráfico e os que fizeram o movimento inverso. Ele também procura combater a imagem estereotipada de que boa parte dos moradores de favelas está ligada ao tráfico: "Só 1% é traficante. O resto é trabalhador". Mas uma das coisas que impressionam em "De favela para o mundo" é como o funcionamento do tráfico inspirou Junior a montar a estrutura do Afro Reggae. "Em vários aspectos aprendemos com a metodologia do tráfico, como, por exemplo, a hierarquia rígida. Orientamos os coordenadores a fazer valer o poder. Não ceder é a nossa marca. Mas também damos o exemplo: os líderes são os que carregam mais peso. Não tem estrela, vedete", ressalta ele, que gostaria que os traficantes, com quem o pessoal do Afro Reggae consegue manter uma convivência ("mas não conivência"), também aprendessem com eles. "Eu queria que eles fossem mais humanos."
No livro e em qualquer conversa, Junior se empolga quando fala dos meninos que poderiam estar vendendo drogas (e morrendo cedo) e hoje, graças ao Afro Reggae, estão com oportunidades até no exterior, como um que está no Cirque du Soleil, no Canadá. Seu sonho é conseguir bolsas de estudo para que jovens carentes estudem fora, em Harvard e outros templos universitários. Sonho que não parece ter para si próprio: "Eu gosto de ser meio bruto. Confio muito na minha intuição".
O futuro que ele planeja para o GCAR é o da auto-sustentação, que o faça até prescindir de apoios hoje fundamentais como os da Fundação Ford e do Sesc. "Queremos ter um canal de TV, uma emissora de rádio, uma gravadora...", desfia Junior, que, com "De favela para o mundo", marca os dez anos de seu movimento e apresenta o embrião do Cardume Afro Reggae, um selo editorial idealizado e batizado por Waly Salomão. Quem acha que Junior está sonhando alto ainda não conhece bem este carioca de muita estrela. "Eu sempre imaginei que não seria só mais um. Tinha a intuição de que algo aconteceria comigo. Hoje eu sei que tudo pode ser feito. O Afro Reggae tem um campo magnético que atrai as coisas", sublinha ele, já pensando nas comemorações dos 11 anos, em janeiro, e em muitos anos mais de trabalho social e cultural.
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Leia texto de Zuenir Ventura:
A melhor resposta
Prefácio de Zuenir Ventura para "Da favela para o mundo"
Essa é a história de um grupo contada por um de seus criadores e prefaciada por um admirador que há dez anos acompanha os dois, tendo praticamente assistido ao nascimento do Afro Reggae. Ver essa turma crescer e sobreviver às dificuldades, impor-se aqui e lá fora, obter sucesso e fama é um privilégio que me enche de satisfação, principalmente porque se trata de uma experiência que pode servir de exemplo para outras comunidades pobres da cidade e do país.
O nosso caso de amor, meu com o Afro Reggae, começou quando desembarquei pela primeira vez em Vigário Geral, lá pelos idos de 1993, numa tarde ensolarada de outubro, para conhecer a favela um mês depois da chacina de 21 de seus moradores, barbaramente consumada pela tropa de policiais chamada Cavalos Corredores.
A experiência de freqüentar Vigário, de conhecer sua gente, que foi para mim uma das mais ricas profissional e existencialmente, iria ser incorporada ao livro Cidade Partida. Naquele momento, porém, eu estava ali como um jornalista interessado em saber como tinha sido possível tanta violência contra cidadãos pacíficos e inocentes.
A comunidade estava naturalmente traumatizada, mas o que mais me impressionou foi que, por detrás do luto e do sofrimento, não havia ódio, não havia desejo de vingança, não havia vontade de represália. Só dor.
À noite seria realizado na quadra da favela o primeiro show depois da chacina, o Vigário in Concert Geral. Enquanto esperava, fiquei conversando com alguns jovens, aos quais acabara de ser apresentado. Cinco deles me chamaram a atenção pelas camisas multicoloridas e o cabelo rastafári. Alguém me disse que eles eram do Afro Reggae – e foi assim que ouvi pela primeira vez o nome.
A história desses dez anos, vocês verão lendo o livro, foi cheia de conquistas, mas também de tensão e medo. Não é fácil fazer o bem na favela. É como andar sobre um fio da navalha, tendo de um lado a violência do tráfico e do outro a da polícia, as suspeitas de uns e de outros. O fascínio juvenil pela aventura e pelo risco, a tentação do enriquecimento rápido e ilícito, o aceno sedutor das drogas, a "glória" efêmera e o poder das armas, tudo isso, aliado ao desemprego, à miséria e à falta de perspectiva, funciona como obstáculos e impedimentos a um trabalho de integração social.
Em meio a esse caldo de cultura, como disputar com o narcotráfico os corações e mentes da juventude? Não conheço melhor resposta a essa angustiante questão do que a que tem sido dada pelo Afro Reggae, que oferece como substitutos à viagem fugaz, que leva ao inferno pensando estar levando ao paraíso, o prazer e a sedução pela arte, a oferta enfim de um caminho com futuro, segurança e a possibilidade de sucesso.
O que mais admiro na experiência do Afro Reggae é o zelo e o rigor na formação de seus artistas. É um trabalho de inclusão social, de cidadania, bem entendido, mas também um projeto de inserção cultural. José Junior não se contenta em tirar da marginalidade, das zonas de risco, os jovens a perigo, o que já seria uma louvável tarefa. Ele quer lhes dar um emprego, uma profissão, fazer deles artistas competentes. Daí o nível de exigência na formação da consciência profissional de cada um, da responsabilidade e da noção do ofício.
Não por moralismo, mas porque assistiu ao fim trágico de muitos de seus colegas e amigos de infância, Junior abomina as drogas, o que pode surpreender, tendo em vista inclusive o seu ritmo febril de trabalho, o seu pique incansável. "Muita gente duvida que não cheiro pó. Mas nunca cheirei, nem fumei maconha, nem tomei um copo de vinho e nem brindei com champanhe. Nem joguei. Cresci vendo as conseqüências maléficas".
Essa disciplina espartana que ele se impõe funciona como exemplo, constitui sua melhor pedagogia. Por tudo isso é que acho que os dez anos do Afro Reggae são apenas o começo.
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