Publicado originalmente em 22/01/2008.
Nosso colunista Marcelino Freire já cantou essa bola na seção De Olho Neles: a escritora paulistana Ana Rüsche "Não é dessas autoras isoladas. Não aceita a literatura como uma solitária escura de 1m2 com paredes úmidas de mofo. Espalha-se." E aí está ela, lançando o romance
Acordados (Selo Demônio Negro) junto a uma iniciativa que confirma sua fama de participativa, com a distribuição de 600 exemplares do livro a pessoas que normalmente não têm acesso a nova literatura produzida no Brasil.
Com a edição contemplada pelo Programa de Ação Cultural (PAC), do Governo do Estado de São Paulo, a autora criou o projeto
Distribuição por Contrabando: Ana convidou 60 colaboradores e cada um deles distribui gratuitamente 10 exemplares a pessoas que normalmente não têm acesso a esse tipo de literatura. A lista dos "contrabandistas do bem" com seus depoimentos e fotos estão em
www.acordados.wordpress.com. A capa do livro é da artista plástica Alessandra Cestac, sobre fotos de João Wainer, e acentua a idéia de intervenção com imagens que Cestac já utilizou como lambe-lambes colados pela cidade, no projeto Nua Na Rua.
Acordados tem lançamento nesta sexta, 18 de janeiro, às 20h. A festa será no Espaço d'Os Satyros (Praça Roosevelt, São Paulo). O evento contará com leitura dramática pelo grupo de teatro Os Satyros (
Projeto Teatro Livro) e livro estará a venda pelo preço promocional de R$ 5,00.
Leia abaixo, com exclusividade, trecho de
Acordados:
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i. uma mulher no outdoor
: CLARISSA e VALQUÍRIA
Ela defenderia-se, percebo como firma as mãos sobre as coxas – era o que o poema chamaria de chiaroscuro (um abajur de lingerie, talvez mais sóbria, de algodão?, não, muito casual), sinto seu brilho longe, onde o sol não bate, onde também estou – na penumbra, a observar a garota de saia a descer escadas. Reservas?, não, obrigada. Contudo, o lampejo de lucidez, meu deus!, estão em meu nome, sim, dois lugares.
– Por favor.
O maitre olhos de coruja encara-me: nome, por gentileza. É nítido que me julga, contudo você viu a garota de saia ou é velho demais para isso? Estão em meu nome, sobrenome Walsh, agradeço – a voz ressoa morta, mastigo as últimas sílabas em secura. Sim, é Clarissa, obrigada – o maitre rabisca um papel. Ao entorno, todos os clientes flutuam em órbitas elegantes ante a invisibilidade do maitre, este chega ao mundo somente para lhes desejar boa tarde, sintam-se à vontade & sorri. Desaparece momentaneamente aos fregueses, reaparece apenas em uma mão invisível para afastar a cadeira (a senhorita senta-se), e ressurge súbito, instantes depois, com seu sorriso, a carta de vinhos. Comovo-me, é óbvio que para mim o maitre não some – ele continua a trabalhar, entretanto, poucos anotam isso, seria indelicado. Pigarreio, o céu parece tão azul entre aquelas duas traves, embaçam-me os instantes, eram outros os céus e talvez fossem mais diáfanos, pairo, sobrevôo até o heliporto na tampa do arranha-céu vizinho, as ruas tão direitas, apinhadas, o asfalto quente, poderia dormir como um gato ao sol. O maitre cordial retoma seu inquérito: Clarissa com dois esses. Soletro pelas letras rabos de gatos curvos, macios revirados, um esse, meu amigo maitre, outro esse, as sílabas possuem tempos variáveis, veja, quando Valquíria pronuncia, está a um tempo, quando sou eu, outro, qual seria o seu tempo? A barriga ronca, instintos coroem o que era dentro, um som grave, escutaria o maitre minha barriga? Arranjos de violoncelo arranhados por gatos. Recordo-me que um dos sons que mais me apetece é o de uma orquestra afinando-se, os acordes roucos e desconexos, a beleza bruta na crueza do desarranjo, em que os ouvidos educados em vão procuram harmonias e tessituras leves – é inútil, os sons fogem uns aos outros e chegam entrequebrados, cifrados, cada músico ao seu ritmo, a seu timbre e voz. Entretanto, aquele ouvinte entediado na primeira fileira do teatro, ao qual aquilo tudo não passa de ensaio confuso, erra e perde o primordial: são nesses preciosos instantes que a audição se enrrabixa e se foca no outro para se erguer e um galo precisará sempre de outros galos – de um que lance o timbre ao outro, que responde cruzado com um dedilhado, e apanhe o fio de nota a outro, teia tênue que se eleva por possibilidades. E do que era antes um novelo confundido de tessituras & fragmentários trechos, flutua como balão, um toldo de um tecido tão aéreo. Assim, caro leitor, é possível ler em voz alta a palavra concerto.
Novamente o aperto – o nome, Clarissa, o nome de alvuras e iluminações, que horas seriam? O céu entre as traves ameaça diminuir, uma nuvem apenas e o coração já dispara. Os clientes rodopiam e a seus lugares!, entre batalhas minúsculas empunhadas a garfo e faca, chegam-me seus assuntos moribundos sobre o jornal de ontem. A hora pressentida esmigalha-se em pó no chão laqueado.
Os homens pedem carne – onde ela estaria? O chamado não se faz de rogado ao ser pronunciado pela terceira vez e escuto ao longe o tropel do salto, lépido e medido. Não movo a cabeça e sei, pelo desenrolar de flores no ar, que ela estava ali.
– Oi, querida!
A mão esmaltada toca meu ombro, virou-me e encarei a face. Permaneço no recuo, imobilizada a reparar no conjunto, sapatos bicudos com estampa florida a combinar com as hastes dos óculos e provavelmente o cinto. Minha cabeça doía, seria o perfume? As flores recém colhidas no campo estremeciam, maceradas e envidraçadas em um frasco translúcido, flores contidas em uma pequena jóia, quase um pássaro de vidro, anunciadas por uma frase afirmativa – as afirmações nunca atingiram um ponto tão nobre quanto nas tarefas gramáticas de publicidade.
Antevejo a bolsa pequena espremida entre as velhas mãos sardentas, ornadas por um grande anel verde, pedra de plástico transparente, sim, o colar acompanhava o detalhe, por ali nada era gratuito. Beijaram-se nas faces.
O relampejo e hesito, o que-bom-que-veio entala na faringe. Espirro, olhos marejados de súbito. Sim, Valquíria, continuo um pouco alérgica a perfumes. Confrontamo-nos, você irá me levar consigo? Estarreço mais morta que os demais, os que se alimentam, insistem em cortar as carnes com ênfase, seriam as facas sem corte ou as ganas em dilacerar? Não éramos queridas, muito menos irmãs – não tínhamos certeza do pai e a mãe fora um sonho longínquo enevoeirado. Éramos um pouco meio-irmãs.
Contudo, a terra morna, pisando a areia que canta, o barro que clapeclape, a poça d'água que rebrilha, as malas empacotadas juntas, o sol esturricado, isso repartíamos por dentro e em alguma parte do corpo nos corroía, ou corroeu, já não sinto ao certo, e preciso sentir, necessito tanto, e fito os céus escuros por entre as traves envidraçadas do teto, podia abrir os braços em preces, mas me contive ante Valquíria. Nosso lugar foi, distante e plano, sem perspectivas. Como aqui, se isso fosse um lugar.
Entretanto, há o sonho que nos fixa & afixa nos devidos lugares: a cada esquina aqui e acolá vendem-se sonhos, basta enfiar a moeda e valendo! Minha irmã goza aos sonhos e às prestações suaves, aos meses e ao então do futuro. (...)
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