A escrita criadora... além do sonho
por
Michel Lavoie (Tradução de Helton Cenci)
O que têm em comum
Marguerite Lescop e
Rolland Michener? Se você responder sem hesitar que ambos são escritores conhecidos, você tem perfeitamente razão. Seria preciso acrescentar que os dois autores descobriram seu talento a certa idade, para não dizer a uma idade certa. Enquanto que nos esportes, os atletas que aspiram a uma carreira devem iniciar-se cedo nessa área, no domínio da escrita ocorre de maneira totalmente diferente. Isso não significa de forma alguma que os jovens adultos não sabem escrever. Longe de mim pretender isso. Aliás, eu tive muitas vezes a ocasião, no decorrer de minha carreira de professor-editor, de apadrinhar jovens autores iniciantes, e alguns maravilharam seus leitores, merecendo até prêmios literários. Mas para contar a vida, estender os sentimentos de seus personagens e tornar verdadeira uma história bem amarrada, há de se convir que a vida quotidiana, com suas alegrias e tristezas, oferece toda uma gama de emoções, as quais são possíveis exteriorizar em seguida.
Em outros termos, se você pensa que com cinquenta anos ou mais, é muito tarde para escrever e mesmo para publicar numa editora profissional, seu julgamento está errado. Deixem-me citar a mim mesmo, humildemente, como exemplo. Publiquei meu primeiro romance juvenil em 1994 aos 47 anos de idade. Desde então, minha paixão cresceu com as publicações. Publiquei vinte livros, numerosas novelas e uma peça de teatro, além de ser codiretor da coleção juvenil nas edições
Vents de Hull. Como professor, eu tinha fundado uma pequena editora que me permitiu publicar mais de duzentos e cinquenta jovens da francofonia nas cinco coletâneas editadas profissionalmente.Todas as atividades deram-me a oportunidade de estar presente em numerosos salões do livro, em Quebec e na Europa. Então, não pense que o sonho é impensável porque você está no limiar da aposentadoria ou porque já está aposentado há algum tempo.
Evidentemente, escrever não conduz sempre a uma publicação. Isso não é uma condição essencial para se dedicar à escrita. Não importa quem pode pegar a pluma ou o computador para estar na moda. Escrever é o que vale, para si mesmo, para amigos, para seu namorado ou sua namorada. Que seja uma carta, um poema que a gente guarda no coração, um conto, uma novela ou mesmo um romance, o exercício vale a pena. Diga a si mesmo que se trata de um risco calculado. Aliás, o que você tem a perder? Tempo? É preciso lembrar que o tempo nos pertence, e isso seria a única coisa que os mercadores de sonhos nunca poderão nos vender.
Ao longo de alguns artigos (estudos), eu vou oferecer-lhes conselhos, sem ter a pretensão de fazer milagres. Truques para inventar uma sinopse, para iniciar sua história, para desenvolvê-la mantendo o interesse do leitor. E também, como terminar seu relato acerca de um drama ou algo mais leve. Os personagens também são importantes. É preciso que eles sejam verossímeis, mas também fora do quotidiano. Os lugares e o tempo desempenham um papel de primeiro plano. E a própria intriga? Há pessoas que acreditam ser obrigadas a reinventar o mundo para ser interessante. Isso está longe de ser verdade. Trata-se simplesmente de refletir sobre o que é a vida para a maioria dos seres humanos. No fundo, a vida é resumida assim: o nascimento, a evolução, o amor, o ódio, a felicidade, o sofrimento e a morte. Eis aí os assuntos de todos os dias que os escritores reescrevem à sua maneira, no seu estilo próprio.
E você, seu projeto de escrita vai se parecer com o quê? É certo que no início não é preciso tentar escrever trezentas páginas. Primeiramente, tente compor pequenos textos com um final surpreendente, o que poderíamos chamar de minicontos. Você quer tentar a experiência? É uma questão de ter apetite para isso. Tente escrever um texto a partir de um assunto escolhido ao acaso.
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Sofrimento Moral (miniconto)
Pedro tremia todo. Embora ele tentasse reter suas lágrimas, sua dor explodia em sua cabeça, em seu coração. Pedro sabia que era tarde demais. Elisabete tinha acabado de morrer, vítima de um cruel destino. O mais atroz, seu corpo tinha-se apagado no mesmo momento em que ele chegava bruscamente. Ele ouviu um grito, depois foi o fim, o horror: Elisabete tinha soltado seu último suspiro. Ele a pegou nos braços e saiu sobre a escada. Jogou um olhar circular para se assegurar de que ninguém o viu. Andou cambaleando, atravessou o pátio até o fim e parou debaixo de uma grossa árvore. De novo, ele perscrutou os arredores. Nada. O suor escorria em seu rosto. Era preciso agir rapidamente. Ele pôs o corpo perto da árvore. Cavou um buraco, depois depositou o cadáver e o cobriu de terra. Titubeando, ele retornou para sua casa, lavou as mãos e o rosto, depois se deitou diante da televisão. Ele se sentia tão só, tão triste. Poderia ele viver sem Elisabete? Poderia suportar tamanha ausência.
De repente, na televisão, uma cena de amor. Tórrido, sedutor. Isso era demais. Pedro pensou em morrer. Pedro queria morrer. Ele foi à cozinha, pegou uma cerveja e a bebeu de um gole. Voltou à sala, desabou sobre o sofá e se pôs a choramingar.
—Elisabete, eu te amo tanto. Elisabete, minha pobre pequena... tagarela.
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Uma história a contar por Michel Lavoie
Num primeiro estudo, eu convidava as pessoas que gostam de escrever, seja um conto, uma novela ou um romance, a não hesitar e a tentar a experiência. Curiosamente, vários escritores descobrem seu talento no momento de mergulhar num projeto de escrita, como pintores que se tornam artistas reputados desde sua primeira tela. Será possível que temos em cada um de nós, camuflado sob a pele, sob a desconfiança ou o orgulho, uma voz que chama para a superação de nossos limites? Uma voz que nós recusamos ouvir durante uma grande parte de nossa vida?Permitam-me citar um exemplo dentre tantos outros. Numa reportagem de jornal, Cora Tsouflidou (os restaurantes Cora têm reputação devido aos seus deliciosos almoços) conta como lhe veio a ideia de fundar um primeiro restaurante em 1987, um modesto estabelecimento para atender até 29 pessoas. Hoje, a cadeia de 50 estabelecimentos serve 130.000 clientes por semana. E se essa dama tivesse tido medo e se resignado devido à sua condição de então? É fácil encontrar mil desculpas para não se lançar num projeto. O que eu lhes proponho não custa nada e lhes oferece a oportunidade de sondar seu imaginário. Vejam que na pior das hipóteses, vocês sempre poderão dissimular seus manuscritos nos seus segredos mais íntimos. Concordam? Então, é um começo!
A SINOPSE
Todas as histórias merecem ser contadas desde que o relato seja estruturado de modo a permitir que o autor caminhe com lógica. Também, o leitor deve estar em condições de compreender o desenrolar da história, a psicologia dos personagens e as descrições dos lugares. É, então, importante traçar um plano de partida. Mas atenção! Um plano não deve ser nem longo demais, nem muito preciso, senão você corre o risco de se aprisionar num constrangimento que o impedirá de improvisar. Uma regra muito importante na escrita: se você quiser surpreender seus leitores, surpreenda a si mesmo primeiro. É preferível não escolher de qual maneira terminará seu texto. Espere para ver como os personagens vão evoluir ao longo de sua aventura. De minha parte, eu escolho o fim de meus romances sempre no último capítulo, às vezes no último parágrafo. Na releitura, é sempre possível modificar o fim. Um autor diverte-se brincando de Deus. Que maravilha! Podemos dar a vida e retirá-la, podemos fazer jorrar o amor e o ódio, podemos esconder nossos piores defeitos nos personagens e exteriorizar nossas fantasias mais preciosas.
Idealmente, a sinopse deveria conter os seguintes elementos: um breve resumo de sua história (exceto o fim), os nomes dos seus personagens, os lugares, o tempo e a duração do manuscrito. Nada de muito complexo, nem definitivo, a fim de lhe deixar uma margem de manobra necessária à criação. Não esqueça que você não escreverá uma tese, mas um conto, uma novela ou um romance.
A história: Observe o que se passa ao redor de você; sobretudo, encontre uma ideia original, ninguém vai querer ler o drama de um romance ou de um filme já bem conhecido; tome nota das cenas e das pessoas que chamam sua atenção, seja na rua, seja num restaurante, etc.; é permitido contar um fato vivido ou mesmo sua própria história, sempre acrescentando um pouco do tempero da mentira em que você será o único a separar o verdadeiro do falso.Uma vez que sua história esteja na mente, decida qual gênero literário lhe interessa: entre outros, um romance para jovens exige menos páginas (aproximadamente 100 páginas em espaço duplo) e um vocabulário mais simples, mas não simplista. Um romance para adultos pode trazer problemas mais profundos. Uma novela é forçadamente mais curta (10-12 páginas) e exige mais concisão e um final inesperado com um
punch.
(Nota de tradução: novela em literatura de língua francesa tem praticamente a mesma extensão do conto, diferindo da novela que se conhece no Brasil, sendo esta bem mais extensa, a ponto de muitos não a diferenciarem do próprio romance. O que difere o conto da novela para os franceses e quebequenhos é o seu conteúdo, não o tamanho: a novela é um relato curto de um acontecimento ou de uma ação, enquanto que o conto é o relato curto, totalmente imaginado, fazendo apelo ao fantástico, ao maravilhoso ou ao sonho. Ambos os gêneros devem comportar poucos personagens).
Os personagens: Para um primeiro texto, é recomendado desenvolver um pequeno número de personagens, mesmo em um romance. Você terá que definir seu caráter, fazê-los interagir e desatar suas intrigas. Então, dois ou três personagens principais serão suficientes. Você lhes dará nomes que lhe inspiram, principalmente nomes deformados de pessoas reais, o que ajudará a descrever seu autorretrato psicológico e físico. Tente dar-lhes a idade de seus potenciais leitores: crianças ou adolescentes para um romance infanto-juvenil, e adultos para, obviamente, romances para adultos, sempre deixando a possibilidade de misturar os dois. O personagem principal pode ser o próprio narrador em primeira pessoa (Eu). Isso é interessante se você gosta de expressar seus sentimentos, pois você os transmitirá numa espécie de romance-espelho. Por outro lado, o "Eu" impede de ver tudo e contar tudo porque o autor-narrador não pode estar em toda parte ao mesmo tempo.
O espaço e o tempo: Sua história, para ser melhor visualizada, deve situar-se num espaço e num tempo preciso. Como você começa, eu lhe aconselho a escolher um lugar familiar que você poderá descrever com facilidade. Não é necessário descrever tudo. Um autor que não é um artista-pintor pode deixar o leitor imaginar as cenas para seu próprio prazer. Quanto ao tempo, é preciso desde o início escolher entre o presente e o passado. Eu lhe aconselho o presente por causa das dificuldades de concordância dos verbos no passado, o que não impede de fazer retornos (flashback) ao passado.
Pronto! Você tem agora muitas linhas para escrever a sinopse de sua história. Boa sorte!
O INÍCIO DE SUA HISTÓRIA (POR MICHEL LAVOIE)
Enfim! Sua sinopse está pronta, seus personagens lhe habitam, os lugares e a época estão bem definidos. Você está prestes a iniciar sua aventura. Então, todas as velas ao vento, nós partimos para a aventura. Mas, como todo viajante prudente, eis algumas regras fundamentais a serem seguidas para evitar obstáculos que poderiam fazer abortar seu projeto.
O fenômeno da página branca: Bem conhecida de todos os autores, essa situação pode reinar a qualquer tempo. Você olha o computador e o computador o olha. Desanimador! Não é preciso perder a coragem, mas, acima de tudo, aproveitar a superioridade do humano sobre a máquina e apertar o botão “off”, deixe o computador para retornar a ele mais tarde. De nada serve correr, diz o ditado, é preciso partir no momento certo.
Os comentários sobre seu projeto: É preferível guardar segredo acerca de seu projeto de escrita a fim de evitar sugestões às vezes inúteis e inoportunas; sobretudo, espere estar bem avançado no seu texto ou mesmo de havê-lo terminado antes de pedir para que alguém o leia, senão você correrá o risco que um comentário negativo assassine seu imaginário, ainda mais se o comentário vier de um amigo em quem você deposita uma confiança absoluta. A alma de um escritor iniciante é muito frágil.
Não corra contra o calendário: Você não está numa usina nem num escritório. A escrita criadora demanda disponibilidade e um estado de espírito próprio à redação. Alguns autores levam dois ou três anos e até mais para compor seu manuscrito. Escreva quando você sentir o gosto disso e quando sua concentração for máxima.
SUA INTRODUÇÃO
Na nossa época do
zapping e da tecnologia de alta velocidade, as pessoas tornaram-se mais exigentes e muito impacientes. O início do seu texto deve ser absolutamente interessante e deve conquistar seu leitor para segurá-lo até o fim. Sua margem de operação é tênue. Se você escreve um conto ou uma novela, você terá no máximo uma página para fazê-lo; para um romance, um capítulo. Se for chato, o leitor fecha o livro e passa à outra coisa. Aliás, observe o comportamento típico de um comprador potencial numa livraria ou numa feira do livro: primeiramente, o cliente examina a capa, depois lê a quarta capa (o resumo) e, finalmente, ele percorre algumas linhas do primeiro capítulo. Se ele gostar do que leu, ele comprará o livro.
Em consequência, comece seu texto por frases bem construídas apresentando rapidamente seus personagens e colocando-os em situações onde o leitor verá sua curiosidade atiçada e, em certos casos, identificar-se-á com um ou outro dos personagens. Concretamente: seja preciso, direto, e dê preferência a descrições breves. Eis um exemplo de um começo de novela que, em poucas palavras, introduz o personagem principal, situa-o no espaço e no tempo, além de anunciar o tema do relato:
A chuva caia em rajadas. Novembro estendia sua morosidade em todos os recantos da cidade. Na Rua
Saint Denis, Pedro parou de andar, olhou seu relógio. Ainda atrasado! Isabel esperava-o há horas, acalmando as crianças, explicando-lhes que papai chegaria cedo, que a festa poderia começar. Ela estava seguramente desesperada, talvez mesmo furiosa. Mas era sua culpa se a reunião tinha-se eternizado? De repente, um som de buzina, um veículo que parava perto, o vidro da janela abaixado. A condutora oferece-lhe um esplêndido sorriso e o convida a subir. Entre um sorriso e a chuva, o calor e o dilúvio, Pedro tinha realmente uma escolha? Ele abriu a porta do veículo, acomodou-se à vontade e, sob a fragrância de um perfume sedutor, foi hipnotizado pela elegância da dama e por sua beleza extraordinária.
Quais são os elementos significativos desse início de história? Em poucas palavras, aprendemos o nome do personagem principal, Pedro, que ele é casado e que sua família espera-o para uma festa, a atmosfera escolhida é morna por causa de uma chuva de outono que cai sobre a cidade, sentimos a indisposição de Pedro, mas também seu entusiasmo por essa bela dama que lhe oferece uma “carona” e, talvez, uma aventura amorosa, donde a curiosidade de saber mais a respeito.
Obviamente, para um romance, é preciso multiplicar os detalhes, esticar as descrições e utilizar diálogos. Em contrapartida, eu lhe aconselho a praticar muito esse tipo de curta introdução e de reler em seguida para verificar se você atendeu aos critérios importantes. Então, você poderá pedir a alguém para ler sua introdução e lhe dizer se ele está interessado em conhecer a sequência.
Uma última recomendação: Uma vez completado o início de sua história, se sua inspiração sugere-lhe modificar sua sinopse, faça-o sem a menor hesitação. Escrever é um processo mental excessivamente complexo que não se explica sempre pela lógica . Se você persistir no seu projeto, você se dará conta de que, obviamente, é você que aperta as teclas do seu computador, mas você vai também se perguntar se essas palavras que surgem de seu interior são mesmo de você. Não fique assustado. Ao contrário, diga a si mesmo que você tornou-se escritor(a)... para o melhor ou para o pior.
O nó (intriga, complicação) de sua história (Michel Lavoie)
Que você escreva uma novela da 10-15 páginas ou um romance de 100-200 páginas, o nó de seu texto constitui a parte mais importante. Você está satisfeito com o seu início e responde aos critérios essenciais mencionados no meu artigo precedente, é então o tempo de progredir no seu manuscrito.
Primeiro conselho prático: Quando você retoma a escrita depois de uma parada de algumas horas ou de alguns dias, releia seu escrito desde o começo se é curto ou no mínimo algumas páginas. Não é uma perda de tempo. Ao contrário, você poderá evitar erros a respeito dos quais eu dou um exemplo concreto. Você esqueceu que Jeremias, um de seus personagens secundários, sofre com um desagradável ferimento numa das pernas e, no momento em que se produziu uma explosão gigantesca, você escreve numa inspiração espetacular:
Jeremias salta e se lança a toda velocidade para salvar uma dama e seu filho do desastre. A pobre mulher está inconsciente e seu filho tem fraturas nos dois braços. Jeremias, escutando apenas sua coragem, levanta as duas vítimas e as transporta até um lugar seguro.
Aliás, relendo seu texto, você reintegra o universo no qual você deseja arrastar seus leitores e você encontrará até ideias novas. Outra consequência positiva, você vai mudar palavras e frases que, com o recuo, lhe parecem mais fracas ou simplesmente ruins. Um autor deve respeitar esse processo de releitura, de correções e de reescrita. Alguns escritores redigem quatro ou cinco versões de seu manuscrito antes de submetê-lo a um editor. Você se lembra que na escola, você era obrigado a fazer uma cópia (rascunho) e a trabalhá-la de novo. Então, se você aspira a publicar numa editora profissional, você deverá aceitar fazer rascunhos e mais rascunhos. Para um romance juvenil de 100 páginas, ocorre-me de imprimir mais de 1000 páginas à força de retrabalhar meu texto. E não é apenas um esboço já que o editor me imporá retoques às vezes menores, às vezes maiores. Tudo isso requer um enorme trabalho, mas vale a pena o prazer de ver seu texto refinado, prestes a ser publicado!
A importância dos personagens
De todos os aspectos de seu relato, seus personagens detêm a chave do seu sucesso. Esqueça os super-heróis de cinema e tente descrever seres plausíveis com substância, que respondam o melhor possível ao tipo de romance que você escreve. O leitor gosta mesmo de acreditar na sua história, mesmo sabendo que tudo isso emana de seu imaginário. A verossimilhança é sempre preferível às ideias
à la Superman. Tenha poucos personagens principais e alguns secundários que sirvam para desenvolver os primeiros. Assim, você poderá desenvolvê-los melhor e dar-lhes um papel útil no lugar de simplesmente os nomear de maneira episódica. Evidentemente, o tipo de personagens que você escolhe depende do gênero de novela ou de romance que você escreve. Eis dois gêneros muito populares:
Romance psicológico: Meu preferido, aquele que permite expressar nossa interioridade, emprestando ao mesmo tempo com imunidade traços de caráter a pessoas que nós conhecemos sobre uma base regular. Idealmente escrito em primeira pessoa (eu), esse gênero de texto, que alguns chamam de "romance-espelho", oferece toda uma gama de possibilidades, indo da expressão de um drama pessoal com adições fictícias, até a escrita de um romance duro, e mesmo cruel. Seu personagem principal poderia então ser você mesmo, cercado de personagens secundários que lhe abrem a porta para ações ou a eclosão de sentimentos retidos por longo tempo. Saiba que desde que os livros existem, temas como o amor, o ódio, o heroísmo, a revolta, a morte, os sofrimentos morais e físicos são assuntos apreciados por leitores jovens e adultos. Sua originalidade consiste em desenvolver uma história com um ou vários desses temas. Por outro lado, é importante dar uma "cor" a seu relato e mantê-lo até o fim. É preciso evitar de se lançar numa multitude de direções ao mesmo tempo. Exemplo: Você quer contar a desventura amorosa de Paulo quando de uma viagem ao México. Desde o início, você suscita o interesse do leitor que se interroga sobre as chances de Paulo conhecer enfim a felicidade. Depois, você decide no capítulo 4 introduzir assaltantes que vêm pilhar o quarto de Paulo, obrigando-o a se lançar num longo inquérito policial porque ele estava de posse de documentos ultrassecretos. A menos que escreva um romance de 400 páginas à moda de
Mary Higgins Clark, você corre o risco de dispersar e confundir seus leitores. Contente-se com um tema de cada vez. Mais tarde, a experiência lhe permitirá desenvolver vários relatos paralelamente.
Romance de aventuras ou policial: Outro gênero muito popular. Geralmente escrito em terceira pessoa (ele), supõe-se um narrador-Deus que sabe tudo, vê tudo e ouve tudo. Você poderá, assim, ler os pensamentos de seus personagens e controlá-los a seu bel-prazer. Tente descrever peripécias (acontecimentos) que fazem avançar a ação, entrecortada de diálogos persuasivos. Evite as digressões (narrações que se distanciam do assunto tratado) e vá direto ao que interessa. Concretamente: no início da história, você arranjou seus personagens e os mergulhou numa aventura. Agora, mostre novidades, surpreenda o leitor com o inesperado e dê pistas que atraiam sua curiosidade. Às vezes, feche os olhos e tente ver em imagens a cena que você acabou de descrever. Se você for mesmo capaz de visualizá-la, é porque você conseguiu. Senão, como eu lhe dizia antes, retome segmentos do seu texto, do seu rascunho. Não esqueça: escrever exige vontade, tempo e também uma forte dose de paixão.
O final de sua história
O início de sua novela ou de seu romance é tão importante para prender o leitor, quanto o final deve ser interessante e surpreendente para lhe agradar e para incitá-lo a ler outro texto de sua autoria. É-lhe possível prever dois ou três finais, mas escolha aquele que o cative mais. A esse respeito, observe como a gente se lembra de um livro ou de um filme. Curiosamente, um final triste e dramático permanece por mais tempo na memória do leitor do que um final clássico no qual o herói beija a heroína para viver eternamente num oceano de amor. Isso não significa que se deva assassinar todos os personagens ou fazê-los sofrer as piores atrocidades. Mas tente tocar a alma do seu leitor e fazer explodir suas emoções. É uma receita segura que o levará ao sucesso.
A novela
No meu primeiro artigo, eu insisti sobre o final da novela que deve surpreender o leitor, mesmo derrubá-lo da poltrona. Se você praticou essa técnica, você seguramente percebeu que você mesmo encontrou prazer para selar a sorte de seus personagens. Este é um dos grandes prazeres da escrita. Na sua vida pessoal, você passa por constrangimentos profissionais e familiares. Quantas vezes você teria adorado ter a última palavra? Agora você a tem. Cabe a você abusar disso e decidir a sorte dos outros!
Não esqueça, é preciso satisfazer o leitor desatando todos os nós da intriga, senão você vai deixar obscuridades mesmo se alguns autores prefiram que o próprio leitor invente um final. Sua última frase é vital. Numa novela, podem ser utilizadas reticências (pontos de suspensão) no final para dar a ilusão que a roda continua a rodar. Exemplo: sua história conta uma desventura de Jacó que, quando de uma viagem de negócios, é vítima de um malfeitor. Num combate desigual, ele recebe um tiro direito no coração e morre. Você escreve então: “Jacó deixou escapar um longo suspiro...” Estes três pontinhos acrescentam um abalo na sua frase, deixando fluir sentimentos à flor da pele.
O final de sua novela não tem que responder a uma lógica parte por parte. Na vida, somos frequentemente pegos desprevenidos. Se tudo fosse previsível, seria muito fastidioso, não acha? Um pequeno conselho: vá a uma biblioteca, empreste coletâneas de novelas e leia várias. Você terá aí bons exemplos de finais.
O romance
O último capítulo, chamado de epílogo, constitui o fim do seu romance. Esse capítulo deve iniciar lentamente para, em seguida, acelerar a cadência a fim de chegar a uma amplificação, isto é, a momentos fortes que vão explodir na última página. Pequeno truque: escolha dois ou três filmes entre os seus preferidos e veja-os por sequências, pausando o filme quando você sentir necessidade de tomar notas. Não é por acaso que vários filmes são realizados a partir de romances, e mesmo o inverso é verdadeiro. Há múltiplas semelhanças entre um romance e um filme. Analisando os diferentes elementos de um filme, as ações e a psicologia dos personagens, você descobrirá como se constrói um romance e reencontrará os caminhos que eu descrevi nos artigos anteriores. Divirta-se resumindo os filmes e modificando seus finais para ver como seu imaginário reage nas mesmas situações.
Fazendo esses pequenos exercícios que eu lhe sugiro, você vai a cada dia compreender os fundamentos do processo da criação. Esse processo varia de uma pessoa para outra. Eu conheci muitos autores que ignoravam, como eu, aliás, ser capazes de escrever longos textos. Frequentemente, o ponto de partida de um romance é uma ideia, uma pessoa encontrada na rua ou uma simples frase escrita ao acaso. Eu me lembro que há oito anos havia brotado em mim a ideia de um relato de aventuras no qual um casal de irmãos partiam à procura de um tesouro em Montreal. Eles haviam descoberto uma carta de seu tio falecido na qual havia indícios que conduziriam ao tesouro. Essa ideia tornou-se, um ano mais tarde, meu primeiro romance juvenil,
Drôle d”héritage (Herança Divertida), livro publicado pela Editora
Pierre Tisseyre. Desde então, eu me alegro por haver perseverado no meu projeto, mesmo se às vezes eu não acreditei nele. Desejo a você esse tipo de centelha na sua vida. Ela pode bastar para pôr fogo no estopim. E que belo incêndio você faria!
Última observação: Em poucos parágrafos, eu lhe propus caminhos para escrever seu texto, conselhos e truques. Essas informações, com mais detalhes, constam do livro cujo título é
Écrire um roman jeunesse... au-delà du rêve (Escrever um romance juvenil... além do sonho), publicado pela
Éditions David d”Ottawa.
Michel Lavoie é um apaixonado pela escrita. Autor de dezenas de livros por diversas editoras, e desejando dividir sua paixão, ele organiza ateliês de escrita em várias partes do Canadá.
N.B.: texto traduzido do francês por Helton Cenci.*Vejam mais textos no blog Leitura & Literatura: Arte de Escrever
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