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2008: três livros e uma revista
 
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José Aloise Bahia, Belo Horizonte (MG) · 26/1/2009 · 130 votos · 11
2008: três livros e uma revista
José Aloise Bahia*



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Aleijadinho e o Aeroplano: o paraíso barroco e a construção do herói colonial (Guiomar de Grammont, Civilização Brasileira/Editora Record, Rio de Janeiro, RJ, 2008, 322 Páginas, R$ 45)): seria simplesmente uma tese!? Um longo ensaio!? Uma ficção!? Uma biografia!? O grande exercício intelectual e estético são as interconexões na leitura, reunión de gêneros literários, em mais de três centenas páginas e dezenas de referências bibliográficas nacionais e estrangeiras, numa temática instigante. Polêmica magnífica. A filósofa, historiadora, professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), doutora em Literatura Brasileira (USP) e premiada escritora mineira Guiomar de Grammont, numa linguagem envolvente, análise profunda e rica em informações, estuda com inteligência a construção do mito, a vida e a obra de Antônio Francisco Lisboa, natural de Vila Rica, MG, o Aleijadinho (1730-1814), artista plástico mais importante do Brasil de todos os tempos. A pesquisadora transita minuciosamente à procura de verdades ou verossimilhanças: a autoria ou não de determinadas obras atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, a sua formação como entalhador, arquiteto, a origem familiar e o seu estilo escultural.

Destaque especial para o capítulo 1 (A gênese do “herói barroco”), ao entrecruzar e refletir com lucidez os conceitos do “homem barroco” em Affonso Ávila e José Lezama Lima, para conceber uma visão admirável sobre o barroco mineiro. Outro capítulo que merece uma leitura mais atenta é o 4 (Aleijadinho, estilo e autoria). A partir das idéias de Michel Foucault e Roger Chartier, vai além e demonstra uma das questões centrais levantadas, controvérsia entre muitos historiadores contemporâneos: a ubiqüidade de Aleijadinho. E analisa as críticas, estudos estilísticos e ambigüidades que perpassam as várias teorias levantadas, sem jamais descaracterizar e refutar, por parte da autora, a genialidade do artista. Um dos melhores livros do ano - com ilustrações, digno de uma leitura atenciosa, calma e reflexiva -, que afirma e interroga o processo de formação do mito Aleijadinho através da História do Brasil, sem ficar preso aos discursos históricos oficiais e fórmulas herdadas.


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Sortilégio (Edson Cruz, Editora Demônio Negro, São Paulo, SP, 2007, 92 Páginas, R$ 20): livro bilíngüe (português/espanhol) de estréia, repleto de artifícios poéticos sonoros. Enviesado por composições curtas, longas e singulares. Os limites invisíveis são enfeitiçados pela linguagem Sambaquis de signos em movimentos. Caieiras. Edson Cruz ferve a boa poesia, tal qual o “forno onde se calcina/ a cal da memória”. Como observa o professor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e escritor uruguaio Eduardo Milán, “mescla a uma ironia controlada que a veces, saludamente, desbarra em ira”. Na seção Parabolês - a melhor e mais consistente de todas - temos suítes longas e afiadas.

Em Cidade imaginária, a rima desconcertante nutre a busca indignada, incessante, em meio às tempestades e o sol tórrido. O poema transcendental, em transe, diálogo com o Oriente e stand-by existencialista, reflete a roda do mundo, na qual “a cidade é imaginária, pura névoa cármica”. Ao Multiplicar-se em partituras preciosas, processo sólido da escrita, Edson Cruz, editor-fundador do Portal de Literatura & Arte Cronópios, apresenta-nos uma antologia - o livro lembra uma antologia - afirmativa/reafirmativa, com vôos prodigiosos para o futuro. Intrépido “feito gato no cio” é um quelônio pertinaz “na contingente luz verde que se revela”, e antevê/vê com maestria “o sândalo na onda indo noutra direção”.


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Um dia, o trem (Fernando Fiorese, Nankin Editorial, São Paulo, SP, 2008, 48 Páginas, R$ 15): poesia da mais alta qualidade, impactante, com imagens engenhosas, sem jamais cair no excesso de sentimentos. Na realidade, o livro tem um lirismo com requintes grandiosos. Metafísico. Caminhos, ir e vir - um devir - que pulsa na tensão pai-filho-pai-filho, enlace com ternura, articulados num ritmo extraordinário; a sagrada confluência, ou encruzilhada, de versos, prosas, ressonâncias e enigmas silenciosos. Híbrido. Lembra uma Maria Fumaça percorrendo seus trilhos numa viagem reflexiva, sinuosa, sem perder o tom e flashes poéticos, indagando quem é ela/ele na travessia e para onde vai - o menino, o pai, por extensão, quem somos nós e para onde vamos.

Fernando Fiorese, jornalista, escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que comemora com Um dia, o trem 25 anos de publicação do seu primeiro livro, sussurra paisagens/passagens em bitolas amplas de letra, forma e ferro, banhados pelo despertar do carvão e da fumaça, de uma maneira bem mineira. Cinematográfico. Murilamendes falando, telegrafa e desloca o tempo, a temperatura e as estações: "as pessoas são frases, fases". A sua bagagem é um trem-metáfora, um parêntese que apita eternamente. "A infância é ferroviária".


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Não poderia deixar de mencionar a excelente revista comemorativa dos dois anos da Confraria do Vento (Editores Márcio-André, Ronaldo Ferrito e Victor Paes, Editora Confraria do Vento, Rio de Janeiro, RJ, 2007, 140 Páginas, R$ 27). Recebi o exemplar em 2008 - assim como o livro mencionado acima do escritor Edson Cruz. O projeto gráfico, visual, ensaios (distinção para Poesia e Imagem, de autoria do argentino Raul Antelo), poesias, contos, traduções e imagens (Jean Baudrillard e Fernando Figueiredo, exímios) são “Make it new”. 71 autores. Renovação, qualidade e pluralidade. Vamos aguardar o próximo número...



* José Aloise Bahia (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta e colecionador de artes plásticas. Estudou economia (UFMG). Graduado em comunicação social e pós-graduado em jornalismo contemporâneo (UNI-BH). Autor de Pavios Curtos (Anomelivros, BH, MG, 2004). Participa da antologia O Achamento de Portugal (Fundação Camões, Lisboa, Portugal e Anomelivros, 2005) e dos livros Pequenos Milagres e Outras Histórias (Grupo Galpão, Editoras Autêntica e PUC-Minas, BH, MG, 2007) e Folhas Verdes (Edições A Tela e o Texto, FALE/UFMG, BH, MG, 2008). josealoise@terra.com.br


tags: Belo Horizonte MG blogs


 
Como sempre, um show de escrita do meu grande amigo e conterraneo Jose Aloise Bahia.
Siga em frente sempre, lutador sempre, de nossa cultura.

danielyussuf · Bambuí (MG) · 25/1/2009 18:55
Aloise:
Parabéns!
Dei o voto 7
Tudo de bom
Saúde
Prosperidade
Abs
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 25/1/2009 19:45
Meu abraço...
Parabéns, J. Aloise.
Muito sucesso e alegrias.
Meu voto é o 8.



Inez Barros · Belo Horizonte (MG) · 25/1/2009 22:17
Parabéns, meu amigo, por mais um grande texto!
Pretendo votar, mas não estou sabendo como nem onde, perdão.

Ana Guimarães · Rio de Janeiro (RJ) · 25/1/2009 22:53
Já votei: número 9.
beijos

Ana Guimarães · Rio de Janeiro (RJ) · 25/1/2009 22:54
Querido Aloise, texto excelente como sempre!

Ana Peluso · São Paulo (SP) · 26/1/2009 04:58
José
boas resenhas..
um abraço-blue

Marcelo Ariel · Cubatão (SP) · 26/1/2009 11:06
Caro Aloise, não consegui votar... Espero que já tenha alcançado a exigência.

Luiz de Aquino · Goiânia (GO) · 26/1/2009 16:49
Zé,
Infelizmente, não achei o caminho pra dar meu voto.
De qualquer forma, foi bom ler suas críticas sobre os livros e a revista.
Obrigado pelo envio da informação sobre o portal, vou visitá-lo sempre que possa.
Um abraço.
Hermélio.

Hermélio José Campos · Belo Horizonte (MG) · 26/1/2009 18:06
Oi amigo! Que pena! Não consegui votar.Agora aprendi.Dá próxima estarei aqui.Firme.
Seus comentários ,como sempre,excelentes.
Obrigada pela sugestão do Portal.Muito bom.
Abraço forte.
Zi

Ambrosina · Campinas (SP) · 29/1/2009 21:57
Olá José, Parabéns.

saudades do tempo do Jornal'Ecos.

Abraço de Paris

Fernando Oliveira

Fernando Oliveira · França · 17/4/2009 00:29
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